28 de junho de 2016

Capítulo 4

A taverna era um local pequeno, sujo e desagradável, de teto baixo e enfumaçado, mas ficava perto do rio onde os grandes navios atracavam para descarregar mercadorias que seriam comercializadas na capital e, portanto, os negócios costumavam ir bem.
Naquele exato momento, porém, os negócios estavam um tanto parados e o motivo estava sentado numa das mesas simples e manchadas perto da lareira. Ele olhou para o dono da taverna com olhos que faiscaram debaixo das sobrancelhas grossas e bateu a caneca vazia nas tábuas de pinho ásperas da mesa.
— Está vazia outra vez — disse zangado.
A voz apenas levemente arrastada lembrava ao dono do lugar que aquela era a oitava ou nona vez que ele ia encher a caneca com o conhaque barato e forte vendido nos bares em portos como aquele. “Uma venda é uma venda”, ele disse para si mesmo, indiferente, mas aquele cliente parecia ser dado a encrencas, e o taberneiro desejou que o homem fosse embora e criasse problemas em outro lugar.
Seus clientes habituais, com seu instinto excepcional para prever problemas, tinham desaparecido quando o pequeno homem chegou e começou a beber daquele jeito descontrolado. Apenas meia dúzia ficou. Um deles, um estivador imenso, tinha examinado o homem menor e decidido que seria fácil lidar com ele. O homem podia ser pequeno e estar bêbado, mas sua capa cinza-esverdeada e a bainha para duas facas que levava no quadril esquerdo mostravam que se tratava de um arqueiro. E arqueiros, como qualquer pessoa sensata podia lhe dizer, não eram gente com que se devesse brincar.
O estivador aprendeu isso do jeito mais difícil. A luta mal durou alguns segundos e o deixou estendido no chão, inconsciente. Seus companheiros saíram apressados para um ambiente mais seguro e amistoso. O arqueiro os viu sair e fez sinal para que lhe servissem mais bebida. O dono da taverna, nervoso, passou por cima do estivador, encheu a caneca do arqueiro e voltou para a relativa segurança do balcão do bar.
E então a verdadeira confusão começou.
— Fiquei sabendo — o arqueiro anunciou, pronunciando as palavras com a precisão cautelosa de um homem que sabia que tinha bebido demais — que nosso bom rei Duncan, senhor deste reino, não passa de um covarde.
Se o ambiente no bar antes disso já prenunciava problemas, agora fervia de tensão. Os olhos dos poucos clientes restantes ficaram presos à pequena figura sentada à mesa. Ele olhou ao redor com um leve sorriso sombrio brincando nos lábios, quase invisível entre a barba e o bigode grisalhos.
— Um covarde. Um poltrão. E um idiota — ele disse claramente.
Ninguém se mexeu. Aquela conversa era perigosa. Atacar ou insultar o rei em público daquela maneira era considerado um crime grave para o cidadão comum. Para um arqueiro, um membro que prestou juramento às forças especiais do rei, era quase traição. Olhares nervosos foram trocados. Os poucos clientes restantes desejaram poder sair sem chamar atenção, mas algo no olhar calmo do arqueiro lhes disse que isso não era mais possível. Eles perceberam que naquele momento o arco que tinha estado encostado na parede atrás dele já estava preparado. E a aljava ao seu lado estava cheia de flechas. Todos sabiam que a primeira pessoa que tentasse atravessar a porta da frente seria rapidamente seguida por uma delas. E todos sabiam que os arqueiros, mesmo bêbados, raramente erravam um alvo.
No entanto, ficar ali enquanto o arqueiro censurava e insultava o rei era igualmente perigoso. Se alguém descobrisse o que estava acontecendo, seu silêncio poderia muito bem ser tomado como aprovação.
— Fiquei sabendo de fonte certa — o arqueiro continuou quase com prazer — que o bom rei Duncan não é o ocupante legal do trono. Ouvi dizer que ele é, na verdade, o filho de um limpador de banheiros bêbado. Outro boato diz que ele foi o resultado da fascinação do pai por uma dançarina ambulante. Escolham o que preferirem. Seja como for, está longe de ser uma linhagem adequada para um rei, certo?
Um leve suspiro de preocupação passou nos lábios de alguém. Aquilo estava ficando cada vez mais perigoso. Nervoso, o dono da taverna se mexeu atrás do balcão, quando viu um movimento no fundo do aposento e se virou para enxergar melhor a porta. Sua mulher, saindo da cozinha com uma travessa de tortas para o bar, tinha parado quando ouviu a última declaração do arqueiro. Pálida, ela parou e se virou para o marido com uma pergunta silenciosa no olhar.
Ele olhou rapidamente para o arqueiro, mas a atenção do outro homem estava voltada para um carroceiro que tentava não ser notado na extremidade do bar.
— O senhor não concorda... você de jaqueta amarela manchada com quase todo o café da manhã de ontem... que uma pessoa dessas não merece ser rei desta terra maravilhosa? — ele perguntou.
O carroceiro resmungou e se mexeu na cadeira sem querer fazer contato visual.
O dono da taverna fez um sinal quase imperceptível na direção da entrada dos fundos da casa. A mulher olhou na mesma direção e depois para o marido com as sobrancelhas erguidas numa pergunta. “A guarda”, ele disse movendo os lábios em silêncio e viu que ela tinha entendido. Andando sem fazer ruído e ainda fora da linha de visão do arqueiro, ela atravessou o aposento do fundo e saiu pela porta, fechando-a atrás de si o mais silenciosamente possível.
Mesmo tomando todo o cuidado, a tranca fez um pequeno clique quando se fechou. O olhar do arqueiro, desconfiado e interrogativo, saltou para o dono da taverna.
— O que foi isso? — ele perguntou, e o dono da taverna deu de ombros, esfregando nervosamente as mãos úmidas no avental manchado.
Ele não tentou falar, pois sabia que a garganta estava seca demais para formar palavras. Por um rápido momento, ele pensou ter visto um lampejo de satisfação na expressão do outro homem, mas afastou o pensamento, achando-o ridículo.
À medida que os minutos se arrastavam, os insultos e ofensas ao rei Duncan ficavam mais animados e atrevidos. O dono da taverna engoliu em seco ansioso. Sua mulher tinha saído havia dez minutos. Certamente, ela já tinha encontrado um destacamento da guarda que deveria chegar a qualquer momento para levar aquele homem perigoso dali e fazer que parasse com aquela conversa desleal.
No mesmo instante em que esses pensamentos passavam por sua cabeça, a porta da frente se abriu fazendo ranger as dobradiças, e um grupo de cinco homens, liderados por um cabo, entrou no aposento mal iluminado. Cada um estava armado com uma espada comprida e levava um cassetete curto e pesado pendurado no cinto, e todos usavam um escudo redondo amarrado às costas.
O cabo avaliou o aposento enquanto seus homens se espalhavam atrás dele. Seus olhos se estreitaram quando viu a figura curvada sobre a mesa.
— O que está acontecendo aqui? — ele perguntou, e o arqueiro sorriu.
O dono da taverna percebeu que era um sorriso que não chegava aos seus olhos.
— Estávamos falando de política — ele contou com palavras cheias de sarcasmo.
— Não foi o que ouvi — o cabo retrucou irritado. — Ouvi dizer que você estava falando de traição.
O arqueiro fez uma careta de incredulidade e ergueu uma sobrancelha com uma expressão surpresa e zombeteira.
— Traição? — ele repetiu e então olhou ao redor curioso. — Alguém aqui andou contando mentiras, então? Será que alguém aqui é um dedo-duro cuja língua deveria ser... cortada?
Tudo aconteceu tão depressa que o dono da taverna quase não teve tempo de se jogar no chão atrás do bar. Enquanto cuspia as últimas palavras, o arqueiro tinha arrumado uma forma de pegar o arco atrás dele, preparado e atirado uma flecha. Ela atingiu a parede atrás do lugar em que o dono da taverna tinha estado em pé um segundo antes e se enterrou no fundo do painel de madeira, tremendo com o impacto.
— Já chega... — o cabo começou.
Ele deu um passo à frente, mas incrivelmente o arqueiro já tinha outra flecha pronta no arco. A ponta cintilante mirava a testa do cabo, e o arco estava esticado e tenso. O cabo parou, olhando a morte de frente.
— Solte a arma — ele disse.
Mas faltava autoridade em sua voz, e ele sabia disso. Uma coisa era manter bêbados das docas e arruaceiros na linha, outra totalmente diferente era enfrentar um arqueiro, um lutador habilitado e assassino treinado. Mesmo um cavaleiro iria pensar duas vezes sobre um confronto dessa natureza. Aquilo estava muito além da capacidade de um simples cabo da guarda.
No entanto, o cabo não era covarde e sabia que tinha uma tarefa a cumprir. Ele engoliu a saliva várias vezes e então, muito devagar, levantou a mão para o arqueiro.
— Coloque... a arma... no chão — ele ordenou, mas não obteve resposta.
A flecha continuou a mirar sua testa, na altura dos olhos. Hesitantemente, ele deu um passo à frente.
— Não faça isso.
A ordem foi simples e clara. O cabo teve certeza de que podia ouvir o próprio coração batendo forte como um tambor e se perguntou se os outros no aposento também podiam ouvir. Ele respirou fundo. Tinha jurado lealdade ao rei. Não era nenhum nobre ou cavaleiro, apenas um homem comum. Mas sua palavra significava tanto para ele quanto para um oficial bem-nascido. Ele tinha ficado satisfeito em exercer sua autoridade durante anos lidando com bêbados e criminosos sem importância. Agora tinha chegado o momento de receber o pagamento por aqueles anos de autoridade e respeito. Ele deu mais um passo.
O zunido provocado pelo arco quando soltou a flecha foi quase ensurdecedor no aposento tomado pela tensão. Instintivamente e com violência, o cabo se encolheu e cambaleou para trás alguns centímetros, esperando a ardente agonia da flecha e depois a escuridão da morte certa.
E percebeu o que tinha acontecido. A corda tinha arrebentado.
O arqueiro olhou para a arma inútil em suas mãos sem acreditar. As pessoas ficaram imóveis por alguns segundos e então o cabo e seus homens saltaram para a frente agitando os cassetetes pesados que carregavam, aglomerando-se em volta da pequena figura vestida de verde e cinza.
Quando o arqueiro foi derrubado pela chuva de socos, ninguém percebeu que ele deixou cair a pequena faca que usou para cortar a corda. Mas o dono da taverna se perguntou como um homem que tinha se movimentado tão depressa para derrotar um estivador duas vezes maior que ele de repente parecia tão lento e vulnerável.

3 comentários:

  1. Eu acho que é o Halt, será que ele está tão bravo com o rei assim??

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  2. Eu acho que é uma estratégia dele. O rei não queria recebe-lo então ele está dando um jeito de isso acontecer, é tudo encenação na minha opinião, afinal ele mesmo cortou a corda do arco.
    -Siqueira

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