29 de junho de 2016

Capítulo 39

O corpo de Ragnak foi cremado no dia seguinte ao da batalha. O oberjarl tinha morrido nos momentos finais, antes da retirada dos Temujai. Ele tinha morrido lutando contra um grupo de 18 guerreiros Temujai. Dois sobreviveram tão gravemente feridos que mal conseguiram se arrastar para longe da apavorante figura do líder escandinavo.
Não havia como saber quem tinha desferido o golpe fatal se, realmente, tinha havido um. Eles contaram mais de 50 ferimentos no oberjarl, meia dúzia dos quais poderia ter causado a morte em condições normais. Como era costume dos escandinavos, o corpo foi deitado na pira crematória como estava, sem qualquer tentativa de limpar o sangue ou a lama da batalha.
Os quatro araluenses foram convidados a prestar seus últimos respeitos para o oberjarl morto, e eles ficaram em silêncio por alguns momentos diante da enorme pilha de troncos de madeira encharcados de piche, olhando para a figura imóvel. Então, com educação, mas com firmeza, eles foram informados de que o funeral de um oberjarl e a subsequente eleição de seu sucessor eram assuntos que interessavam apenas aos escandinavos e eles voltaram para os aposentos de Halt para esperar os acontecimentos.
Os rituais do funeral duraram três dias. Aquela era uma tradição que tinha sido criada para permitir que os jarls de colônias distantes tivessem tempo de chegar a Hallasholm e participar da eleição do próximo oberjarl. Tinham apenas alguns jarls esperados das áreas por onde os Temujai já tinham passado, pois quase todos os outros tinham sido convocados para repelir a invasão. Mas a tradição exigia um período de três dias de luto, o que na Escandinávia tornava a forma de muita bebida e narrativa entusiasmada das proezas do morto na batalha.
E a tradição, é claro, era sagrada para os escandinavos, especialmente a que envolvia muita bebida e muita farra até tarde da noite. Notava-se que a bebida consumida e o grau de entusiasmo para contar as façanhas pareciam estar diretamente relacionados.
Na segunda noite, Evanlyn franziu o cenho ao som das vozes embriagadas que cantavam acompanhadas pelo barulho de madeira estilhaçada enquanto acontecia uma briga.
— Eles não parecem muito tristes com tudo isso — ela afirmou, e Halt apenas deu de ombros.
— É o jeito deles — ele disse. — Além disso, Ragnak morreu na batalha de um modo selvagem, e esse é um destino que todos os verdadeiros escandinavos invejam. Isso lhe dá o direito de entrar, no mesmo instante, no mais alto nível do que eles consideram o paraíso.
Evanlyn torceu a boca numa careta de desaprovação.
— Mesmo assim, parece muito desrespeitoso. E, afinal, ele salvou as nossas vidas.
Houve um silêncio estranho no aposento. Nenhum dos três conseguia pensar numa forma delicada de lembrar Evanlyn que Ragnak tinha jurado mata-la e que, se tivesse sobrevivido, ele o faria sem hesitar. No entanto, ao falar dele naquele momento, ela parecia ter perdido um velho e respeitado amigo. Horace olhou de Halt para Will várias vezes, esperando para ver se algum deles iria tocar no assunto. Tudo o que recebeu foi um gesto de cabeça quase imperceptível de Will quando se encararam. Horace deu de ombros. Se dois arqueiros achavam que não valia a pena tocar no assunto, quem era ele para discordar?
Finalmente, o período de luto terminou e os principais jarls se reuniram na Grande Mansão para eleger o novo oberjarl.
— Vocês acham que Erak tem chance? — Will perguntou esperançoso.
Mas suas esperanças caíram por terra quando Halt negou com um gesto de cabeça.
— Ele é um líder de guerra popular, mas é apenas um entre quatro ou cinco. Junte a isso o fato de que ele não é um administrador e nem um diplomata — ele acrescentou com veemência.
— Isso é importante? — Horace quis saber. — Pelo que eu vi, diplomacia não tem muita importância na lista de habilidades exigidas neste país.
— É verdade — Halt reconheceu com um sorriso. — Mas é preciso um pouco de conversa quando há uma eleição como esta entre colegas. Ninguém dá seu voto porque você é o melhor candidato. Eles votam em você quando pode fazer alguma coisa por eles.
— Acho que o fato de Erak ter passado os últimos anos como o coletor de impostos de Ragnak também não vai ajudar — Will ajuntou. — Afinal, ele ameaçou usar o machado para abrir a cabeça de muitas pessoas que estão votando.
— Não é uma atitude adequada se você pretende ser oberjarl algum dia — Halt concordou novamente.
Na verdade, o arqueiro estava se entregando a uma leve forma de superstição pessoal ao menosprezar as chances de Erak na eleição. Ainda havia algumas questões a serem resolvidas entre a Escandinávia e Araluen e ele preferia resolvê-las com Erak na posição de líder supremo. Ainda assim, quanto mais eles falavam, menores as chances de Erak se tornavam. Ele não tinha ouvido falar sobre a coleta de impostos até Will mencionar o fato. Isso parecia pôr um ponto final nas chances do jarl.
Ele também lembrou que Erak não tinha mostrado o menor interesse em se tornar oberjarl. E, afinal os três companheiros de Halt só estavam interessados em suas chances porque ele era um amigo e o único líder escandinavo que conheciam bem.
— Provavelmente ele não seria um bom oberjarl — Horace concluiu. — O que ele quer mesmo é voltar para o mar em seu navio e saquear alguma cidade por aí.
Todos os outros concordaram.
O que apenas serve para mostrar como se pode estar errado quando nos entregamos a discussões lógicas e racionais. No quinto dia, a porta do apartamento de Halt se abriu e um Erak perplexo entrou, olhou ao redor para os quatro rostos em expectativa e disse:
— Eu sou o novo oberjarl.
— Eu sabia — Halt disse no mesmo instante, e os outros três olharam para ele totalmente escandalizados.
— Você sabia? — Erak perguntou com a voz abalada, os olhos ainda mostrando o choque da repentina promoção ao mais alto posto na Escandinávia.
— Claro — o arqueiro disse dando de ombros. — Você é grande, mau e feio, e essas parecem ser as qualidades que os escandinavos mais valorizam.
Erak endireitou o corpo tentando mostrar o tipo de dignidade que imaginou que um oberjarl devia demonstrar.
— É assim que vocês, araluenses, se dirigem a um oberjarl? — ele perguntou, e Halt finalmente sorriu.
— Não. É assim que falamos com um amigo. Entre e tome uma bebida.


Durante os dias seguintes, começou a parecer que o conselho de jarls tinha feito uma escolha sensata. Erak rapidamente se dedicou a terminar velhas rixas com outros jarls, especialmente aqueles que tinha visitado na qualidade de coletor de impostos. E, surpreendentemente, conservou Borsa na função de hilfmann.
— Pensei que ele não suportasse Borsa — Will disse espantado.
Mas Halt simplesmente fez um gesto com a cabeça em reconhecimento à escolha de Erak.
— Borsa é um bom administrador, e é disso que Erak vai precisar. Um bom líder é alguém que conhece seus defeitos e contrata alguém com as qualidades que lhe faltam para cuidar das coisas para ele.
Will, Horace e Evanlyn tiveram que refletir um pouco sobre o assunto antes de enxergar a lógica dessas palavras. Horace, na verdade, ainda estava pensando nisso algum tempo depois que os outros as tinham assimilado e passado a discutir outras questões.
No papel de oberjarl, Erak não poderia mais participar das viagens anuais para saquear as redondezas como comandante do Wolfwind, e esse fato marcou a repentina promoção com uma certa dose de arrependimento. Mas ele anunciou que faria uma última viagem antes de entregar o navio aos cuidados de Svengal, seu principal companheiro de longa data.
— Vou levar vocês de volta a Araluen — ele anunciou. — Acho que é mais do que justo, já que fui o responsável pela vinda de vocês para cá.
Will ficou discretamente satisfeito com a novidade. Agora que era quase hora de voltar para casa, percebeu que ia ficar triste em se despedir do grande pirata impetuoso. Com alguma surpresa, reconheceu o fato de que tinha passado a considerar Erak como um bom amigo e via com prazer qualquer coisa que retardasse o momento da partida.
A primavera tinha chegado, os gansos estavam voltando do sul e havia cervos nas colinas outra vez, de modo que havia bastante carne fresca para substituir a carne seca e salgada, que era a principal refeição no inverno em Hallasholm.
Quando Will viu os primeiros grupos de caça voltando das montanhas no interior da capital escandinava, ele se lembrou de uma dívida que ainda precisava pagar. De manhã bem cedo subiu em Puxão e se afastou em silêncio subindo a trilha que ele e Evanlyn tinham seguido tantos meses antes debaixo de uma nevasca congelante.
Na cabana em que se abrigaram durante o inverno, ele encontrou o pequeno pônei, desgrenhado e conformado, que tinha salvado sua vida. A paciente criatura tinha rompido a leve corda que o prendia ao estábulo atrás da cabana e estava calmamente pastando a nova grama da estação quando Will chegou.
Puxão olhou de soslaio para o seu dono quando Will desamarrou um pequeno saco de aveia e deixou bem claro que era apenas para o pônei. Will consolou seu cavalo com um leve tapinha no focinho.
— Ele mereceu — Will disse para Puxão, e o cavalo deu de ombros, até onde um animal é capaz de fazer isso.
O fantástico pônei até podia ter merecido o saco de aveia, mas isso não impediu a boca de Puxão de salivar ao ver a aveia e sentir o cheiro dela. Quando o pônei terminou de comer, Will montou Puxão e, segurando a rédea principal, cavalgou de volta paia Hallasholm, onde devolveu o pônei ao estábulo de Erak.
Na noite anterior à partida deles, Erak tinha oferecido um banquete de despedida. Os escandinavos estavam ansiosos em mostrar seu agradecimento pelos esforços dos quatro araluenses para defender sua terra dos invasores. E, com a sombra do Vallasvow afastada de Evanlyn, eles deram especial atenção a ela – repetidamente brindando à sua coragem e habilidade em continuar a orientar o ataque dos arqueiros quando sua posição estava sendo invadida.
Halt, Borsa e Erak estavam sentados juntos e tranquilos à cabeceira da mesa discutindo questões importantes, como a repatriação dos escravos que tinham servido no corpo dos arqueiros. Infelizmente, muitos deles não tinham sobrevivido à batalha, mas a promessa de liberdade tinha sido feita também aos seus dependentes, e os detalhes tinham que ser resolvidos. Quando o assunto finalmente foi solucionado, Halt achou que o momento era adequado e disse com calma:
— Então, o que vai fazer quando os Temujai voltarem?
Houve um momento de ensurdecedor silêncio na cabeceira da mesa. Erak empurrou o banco para trás e encarou o pequeno homem de expressão sombria ao seu lado.
— Voltar? Por que eles iriam voltar? Nós derrotamos eles, não é?
— Para falar a verdade, não derrotamos, não — Halt respondeu. — Nós simplesmente fizemos que ficasse muito caro para eles continuarem. Desta vez.
Erak pensou no que ele disse e olhou para Borsa pedindo sua opinião. O hilfmann assentiu com alguma relutância.
— Acho que o arqueiro está certo, oberjarl — ele concordou. — Nós não íamos suportar muito tempo mais. Mas por que eles iriam voltar? — ele perguntou voltando-se para Halt.
Halt tomou um gole da forte cerveja escandinava antes de responder.
— Porque é assim que eles agem — ele respondeu com simplicidade. — Os Temujai não pensam em termos desta temporada, ou deste ano, ou do próximo. Eles pensam nos próximos dez ou vinte anos e têm um plano de longo prazo para dominar esta parte do mundo. Eles precisam de navios, portanto eles vão voltar.
Erak pensou no assunto torcendo uma ponta do bigode com os dedos.
— Então nós vamos derrotar eles outra vez — ele declarou.
— Sem arqueiros? — Halt perguntou devagar. — E sem o elemento-surpresa na próxima vez?
Outro silêncio se seguiu.
— Você poderia nos ajudar a treinar os arqueiros — Erak sugeriu esperançoso. — Você e o garoto.
Mas Halt fez que não com a cabeça, imediatamente, com determinação.
— Não estou preparado para fornecer uma arma tão poderosa para a Escandinávia — ele disse. — Depois de aprender essa técnica, nunca vou saber quando ela vai ser usada contra nós no futuro.
Erak teve que admitir que a afirmação do arqueiro tinha lógica. Afinal, a Escandinávia e Araluen eram inimigos tradicionais. Mas Borsa, com seu tino de negociador, tinha percebido uma insinuação na recusa de Halt.
— Mas você tem uma sugestão? — ele perguntou interessado, e Halt quase sorriu.
Ele tinha esperado que o hilfmann percebesse o que ele queria dizer.
— Eu estava pensando que uma força de... digamos, 300 arqueiros treinados poderia ficar aqui em caráter permanente. Os arqueiros poderiam passar os meses de primavera e verão aqui e depois voltarem para casa no inverno.
— Araluenses? — Erak perguntou começando a entender.
Halt assentiu.
— Nós poderíamos lhes oferecer uma força de arqueiros dessa forma. Porque, se houver hostilidades entre os dois países, eu acho muito mais seguro saber que os arqueiros não vão se voltar contra nós. Nós teríamos que estipular isso no tratado — ele acrescentou como quem não quer nada.
Erak olhou para seu hilfmann com cuidado. A palavra “tratado” parecia ter surgido na mesa a frente deles sem que percebessem. Borsa o encarou e deu de ombros pensativo.
— Estou propondo que a gente tenha um tratado mútuo de defesa por um período de... — Halt pareceu pensar e Erak repentinamente teve a nítida impressão de que ele tinha pesado cada palavra que iria dizer bem antes desse momento —... digamos, cinco anos. Você vai ter uma força adequada de arqueiros...
— E o que você vai ter? — Erak interrompeu abruptamente.
— Nós vamos ter um tratado de paz que vai dizer que a Escandinávia não vai lançar nenhum ataque-surpresa ao nosso país durante esse período — Halt começou sorrindo para ele. — E, no caso de as hostilidades se tornarem inevitáveis, nossos arqueiros vão ter permissão de voltar para casa.
— Nunca vou convencer meus homens a não participarem de saques — Erak retrucou indignado. — Eles vão acabar comigo se eu propuser isso.
Mas Halt ergueu a mão para acalmá-lo.
— Não estou falando de saques individuais — ele disse. — Podemos lidar com eles. Estou falando de ataques em massa, como o de Morgarath.
Houve outra longa pausa enquanto Erak refletia sobre a oferta. Quanto mais ele pensava no assunto, mais atraente a ideia lhe parecia. Tão bem quanto qualquer outro ali presente, ele sabia como tinham chegado perto de serem derrotados pelos Temujai. Trezentos arqueiros treinados proporcionariam uma força defensiva poderosa para a Escandinávia, especialmente se ela fosse posicionada nas passagens estreitas e desfiladeiros tortuosos na fronteira. Ele percebeu, com um choque, que estava começando a pensar como um estrategista. Talvez ele estivesse passando tempo demais perto do arqueiro.
— Você tem autoridade de assinar um tratado como esse? — ele perguntou e, pela primeira vez, Halt hesitou.
Na verdade, ele não tinha nenhuma autoridade. Como membro do Corpo de Arqueiros, ele teria poderes de assinar, mas tinha sido dispensado da corporação quando Duncan o expulsou. É claro que podia redigir o tratado. Ele tinha quase certeza de que Crowley ou o próprio Duncan iriam ratifica-lo. Mas, quando isso acontecesse, Erak iria saber que ele tinha agido de má fé e acharia que aquele não era um bom começo para qualquer relacionamento.
— Eu tenho — disse uma voz calma atrás dele e os três homens olharam para cima surpresos.
Evanlyn, escapando dos brindes e homenagens entusiasmados, tinha sido uma ouvinte interessada na conversa durante os últimos minutos.
— Como princesa real de Araluen, tenho autoridade de assinar em nome de meu pai — ela afirmou, e Halt soltou um suspiro de alívio.
— Acho melhor se fizermos desse jeito — ele disse. — Afinal, a princesa tem um pouco mais de autoridade do que eu.

2 comentários:

  1. Um pouco mais de autoridade...

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  2. Bem, tecnicamente, até Will, que é um aprendiz, nesse caso especifico, teria mais autoridade que o Halt, por fazer parte da Ordem, e o Halt não.

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