29 de junho de 2016

Capítulo 38

Horace sentiu a presença de alguém nas suas costas e se virou rapidamente com a espada pronta para um golpe lateral. Vendo o corpo magro do amigo ali, enfrentando um espadachim Temujai com suas duas facas, ele ampliou o golpe e abriu a testa do inimigo com a ponta da espada. O soldado cambaleou para longe com as mãos no rosto e caiu de joelhos.
— O que você pensa que está fazendo? — Horace gritou depois de se defender de outro ataque pela frente.
— Estou cuidando de sua retaguarda — Will respondeu ao bloquear o golpe de outro Temujai que tentou atacar Horace pelas costas.
— Bom, da próxima vez, me avise — Horace replicou, resmungando quando se desviou de uma lança e bateu no crânio de seu dono com o cabo da espada. — Quase corto você ao meio.
— Não vai haver próxima vez — Will retrucou. — Não estou me divertindo aqui.
Horace lançou um rápido olhar sobre o ombro. Will estava usando a defesa da faca dupla dos arqueiros para se desviar e bloquear o sabre do Temujai. Mas aquela não era uma forma de luta na qual ele tinha muita habilidade. Além disso, já tinha se passado mais de um ano desde que ele e Horace tinham praticado os movimentos nas colinas de Céltica. O espadachim Temujai estava se saindo melhor na luta e nesse rápido olhar Horace tinha visto sangue escorrer pela manga esquerda da camisa de Will.
— Fique de joelhos quando eu mandar — Horace falou.
— Está bem — Will respondeu carrancudo. — Talvez eu até faça isso antes de você mandar.
Apesar do que sentia, Horace sorriu. Então, ao se livrar de dois atacantes, ele gritou por cima do ombro:
— Agora!
Ele percebeu que Will tinha caído no chão e, com um golpe reverso de espada, deu impulso para trás e ouviu um grito espantado.
— Você está bem? — ele indagou virando a espada novamente e afastando uma lança insistente outra vez.
Por um momento, não houve resposta, e ele sentiu uma súbita onda de medo de ter ferido o amigo. Então Will respondeu.
— Muito impressionante. Onde você aprendeu isso?
— Acabo de inventar — Horace disse e resmungou satisfeito quando o lanceiro se aproximou demais e levou a ponta de sua espada no ombro.
Quando o homem caiu no chão, Horace tirou a espada e a agitou num movimento circular por cima do ombro atingindo outro Temujai. O grosso capacete de feltro do cavaleiro salvou sua vida quando a espada caiu sobre ele. Mas o golpe ainda foi suficientemente forte para fazê-lo cair de joelhos atordoado com uma concussão.
Por um momento, eles tiveram uma breve pausa. Horace recuou e analisou o amigo.
— Esse braço está incomodando você?
Ele fez um gesto na direção da mancha de sangue cada vez maior na manga de Will. O rapaz olhou para baixo e deu a impressão de estar vendo o ferimento pela primeira vez.
— Eu nem senti — ele disse um tanto surpreso.
— Mas vai sentir mais tarde — Horace tornou sorrindo com tristeza.
— Se houver um “mais tarde” — Will retrucou em tom de dúvida.
Então, nas linhas atrás deles, eles ouviram o esticar das cordas dos arcos e o assobio de outra saraivada de flechas. Espantados, eles olharam um para o outro.
— É Evanlyn — Will afirmou. — Ela fez os arqueiros atirarem!
Horace fez um gesto na direção dos Temujai que se aproximavam como um enxame de abelhas e cercavam a fina linha de defesa que os mantinha fora do reduto dos arqueiros.
— Mas não vai continuar por muito tempo — ele disse.
A linha escandinava já estava começando a ceder.
— Venha! Me dê cobertura e grite se você ficar com problemas.
E, dizendo isso, desceu a rampa, erguendo e abaixando a espada enquanto investia contra a retaguarda dos Temujai. Surpresos com a ferocidade do ataque, eles recuaram por alguns segundos. Então, vendo que os novos golpes vinham de apenas dois homens, um dos quais armado somente com facas e com o tamanho de um garoto, eles se viraram e avançaram para a frente outra vez.
Horace lutou ferozmente, reunindo os escandinavos restantes ao seu redor, mas a quantidade de inimigos só aumentava, pois os Temujai estavam começando a superar o pequeno grupo de defesa e a saltar para a trincheira, de onde os arqueiros ainda enviavam suas saraivadas para a principal força Temujai.
Os dois garotos ouviram o tom de voz de Evanlyn aumentar, insistente, quando ela mandou alguns arqueiros atirarem diretamente nos atacantes. Eles sabiam que o inimigo passaria pela trincheira em questão de minutos e mataria todos dentro dela.
— Venha! — Will chamou e foi na frente na direção da trincheira acompanhado de perto por Horace.
Um guerreiro Temujai barrou o caminho dele e ele atacou o homem com sua faca de caça, sentindo o golpe sacudir o seu braço ao atingir o corpo do inimigo. Um grito de aviso de Horace o alertou do perigo e, com suas duas facas cruzadas, ele se virou bem a tempo de evitar ser cortado com selvageria por um sabre. Logo em seguida, Horace se postou ao seu lado investindo contra o homem que o tinha atacado e os outros três que o acompanhavam. Os dois amigos lutaram lado a lado, mas havia muitos Temujai. O coração de Will ficou apertado no peito ao perceber que não iam chegar à trincheira a tempo. Ele viu Evanlyn a menos de 20 metros de distância cercada por um grupo de arqueiros, enfrentando um grupo muito maior de Temujai enquanto eles avançavam sobre a trincheira: movendo-se devagar impedidos somente pela ameaça dos arcos.
— Cuidado, Will!
Era Horace outra vez e, mais uma vez, eles lutaram para salvar suas vidas quando mais guerreiros Temujai avançaram sobre eles.


Nit’zak conduziu um grupo de homens para as trincheiras que tinham abrigado os arqueiros escandinavos. Seus outros homens podiam cuidar dos dois jovens guerreiros que tinham contra-atacado com tanta eficiência. Sua tarefa era silenciar os arqueiros de uma vez por todas.
Seus homens mergulharam na trincheira atrás dele, atacando os arqueiros sem armadura e praticamente desarmados. Estes recuaram, e alguns subiram para o outro lado e correram para a retaguarda. Carrancudo, Nit’zak os seguiu até, ao rodear uma curva na trincheira, parar surpreso.
Ali estava uma jovem garota olhando para ele com uma longa adaga na mão e uma expressão de total desafio no olhar. Os arqueiros restantes se reuniram protetoramente em volta dela. Então, ao comando dela, eles levantaram os arcos para a posição de ataque.
Os dois grupos se encararam. Havia pelo menos dez flechas voltadas para ele a uma distância de menos de 10 metros. Se a garota desse a ordem, não tinha como os arqueiros errarem. No entanto, depois que essa primeira saraivada estivesse a caminho, a garota e seus arqueiros ficariam desprotegidos.
Ele olhou rapidamente para os lados. Seus homens estavam no mesmo nível que ele e havia outros atrás. Ele não tinha intenção de morrer sob fogo escandinavo. Se atingisse seu objetivo, ele o faria de bom grado, mas tinha uma tarefa a realizar e não tinha o direito de morrer até que a concluísse. Por outro lado, não se importava em sacrificar alguns de seus homens, se necessário, para cumprir sua missão. Ele os mandou avançar.
— Ataquem — ele disse com calma, e seus homens avançaram no limitado espaço da trincheira.
Houve um segundo de hesitação e então ele ouviu o comando da garota para atirar e o esticar imediato das cordas dos arcos. As flechas atingiram seus homens, matando ou ferindo sete deles. Mas os outros continuaram, acompanhados por soldados que estavam atrás dele, e os arqueiros se separaram e correram, deixando apenas a garota para enfrenta-los. Nit’zak deu um passo a frente, levantando o sabre com as duas mãos. Curioso, ele analisou os olhos dela à procura de algum sinal de medo e nada viu. “Será quase uma vergonha matar alguém tão corajoso”, ele pensou.
Ao seu lado, ele ouviu um grito agoniado. A voz de um jovem cheia de medo e dor.
— Evanlyn!
Nit’zak imaginou que aquele era o nome da garota. Ele viu os olhos dela se afastarem dos dele e ela sorriu tristemente para alguém que ele não podia ver. Era um sorriso de adeus.


Will tinha testemunhado tudo. Sem poder intervir, lutando desesperadamente para proteger a retaguarda de Horace e a própria vida, ele tinha visto os Temujai subirem a trincheira, serem ameaçados pelos arqueiros com uma saraivada à queima-roupa e, indiferentes ao perigo, calmamente avançarem mais uma vez. A saraivada final os parou por alguns segundos, mas depois eles investiram varrendo os arqueiros para longe.
Um grito desesperado de Horace fez Will voltar a atenção para a própria situação e ele saltou para o lado, a fim de se desviar de um sabre, agitando a faca para afastar um Temujai por alguns passos.
Nesse momento, ele se virou e viu um oficial Temujai posicionado sobre Evanlyn, segurando a espada com as duas mãos, pronto para o golpe.
— Evanlyn! — ele gritou desesperado.
E, ao ouvi-lo, ela se virou, encontrou seu olhar agoniado e sorriu. Um sorriso que lembrava tudo o que tinham passado juntos nos últimos onze meses. Um sorriso que lembrava tudo o que tinham representado um para o outro.
E, naquele momento, ele sentiu que não podia deixa-la morrer. Ele se virou com a faca de caça na mão, segurou-a pela ponta, sentiu seu equilíbrio, deu impulso com o braço para trás e então para a frente num movimento único e contínuo.
A faca atingiu Nit’zak debaixo do braço esquerdo exatamente no momento em que ele começava a desferir o golpe.
Ele ficou com os olhos vidrados e se encolheu lentamente para o lado, caindo na direção da parede de terra da trincheira e escorregando para o chão duro. O sabre caiu de suas mãos e ele puxou a faca pesada de seu corpo com os dedos enfraquecidos. A certeza de que agora Haz’kam iria abandonar a invasão foi seu último pensamento, e ele se zangou.
Will, agora desarmado exceto pela pequena faca de atirar, estava sendo atacado outra vez. Ele saltou para a frente para se engalfinhar com um Temujai e eles rolaram pela rampa de terra. Will agarrava desesperadamente o braço do homem que segurava a espada, enquanto o inimigo, por sua vez, tentava evitar os ineficazes ataques que Will fazia com a pequena faca.
Ele viu Horace dominado por quatro guerreiros que o atacavam ao mesmo tempo e percebeu que, finalmente, tudo tinha chegado ao fim.
Então ele ouviu um rugido apavorante e uma figura enorme parou acima dele, literalmente arrancando o adversário do chão e jogando-o a vários metros de distância ladeira abaixo, fazendo outros três homens caírem no chão por causa do impacto.
Era Ragnak, aterrorizante em sua raiva enlouquecida. Sua camisa tinha sido rasgada em tiras e ele não usava nenhuma armadura, apenas o imenso capacete com chifres. O horripilante rugido saía constantemente de sua garganta enquanto ele mergulhava no meio dos atacantes Temujai, girando a enorme acha de duas lâminas em círculos gigantescos ao golpear os inimigos por todos os lados.
Ele não procurou se proteger, por isso foi cortado e ferido repetidas vezes. Ele simplesmente ignorou o fato e cortou, picou e bateu nos homens que tinham invadido seu país, que tinham ousado despertar a raiva louca em seu sangue.
Sua guarda pessoal o seguiu, cada homem tomado pela mesma fúria mortal. Eles abriram caminho entre a força Temujai de forma implacável, irresistível. Era uma dúzia de homens que não se importavam em viver ou morrer. Que se importavam apenas com uma coisa: aproximar-se dos inimigos e mata-los. Tantos quantos pudessem, o mais depressa possível.
— Horace! — Will gemeu com voz rouca, enquanto tentava se levantar, pois se lembrara da última imagem de Horace enfrentando desesperadamente quatro atacantes.
Então ele ouviu outro som, desta vez conhecido. O som áspero de um arco longo e, enquanto olhava, os atacantes de Horace pareceram derreter como neve debaixo do sol, e ele soube que Halt tinha chegado.


Numa colina a um quilômetro de distância, Haz’kam, general do exército e shan de seu povo, assistia ao seu ataque fracassar. O flanco esquerdo do inimigo tinha formado um círculo para atacar sua força principal, encurralando-a e fazendo-a recuar, provocando perdas graves. No flanco direito, Nit’zak e seus homens tinham conseguido silenciar os arqueiros escandinavos. No fundo de seu coração, ele sempre tinha sabido que o velho amigo iria ser bem-sucedido na tarefa.
Mas ele demorou demais para isso. O sucesso tinha vindo tarde demais, depois que a força principal tinha sido desmoralizada e desorganizada pela constante chuva de flechas. Depois que os Temujai tinham sido forçados a recuar por causa do ataque pelos flancos.
É claro que tinha sido apenas um ataque fracassado, e ele sabia que ainda podia vencer essa batalha, se quisesse. Ele poderia reagrupar seus ulans, enviar suas reservas descansadas e fazer os malditos escandinavos sair de suas defesas, fazê-los fugir para as colinas e árvores. Por um momento, ficou tentado a fazer isto: vingar-se de maneira selvagem das pessoas que tinham arruinado seus planos.
Mas o custo seria alto demais. Ele já tinha perdido milhares de homens e outro ataque, mesmo bem-sucedido, iria lhe custar mais do que poderia oferecer. Ele se virou na sela e mandou o corneteiro para a frente.
— Dê o toque de retirada geral — ele ordenou com calma.
A expressão de seu rosto não dava sinal da fúria fervilhante, da raiva amarga do fracasso que queimava no seu coração.
Não era educado que um general Temujai demonstrasse suas emoções.

Um comentário:

  1. Achei que a Cassandra iria morrer, que alívio.Adoro essa série

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