28 de junho de 2016

Capítulo 36

Os homens de Deparnieux tinham estado fora desde cedo, naquela manhã, passando o rastelo na grama comprida que cobria o campo na frente do Château Montsombre. O cavaleiro galês não queria correr riscos no combate planejado. Ele tinha visto cavalos de batalha caírem por causa de grama emaranhada e queria garantir que o terreno da luta estivesse livre desse perigo.
Agora, uma hora após o meio-dia, ele saiu pela porta falsa que tinha usado na ocasião de seu último combate. Ele não tinha dúvidas de que iria derrotar Halt, mas também não se deixava enganar pelo pequeno estranho. Tinha observado as constantes sessões de treinamento que Halt e Horace tinham conduzido e sabia que o araluense era um arqueiro de habilidades raras. Ele não tinha dúvida sobre as táticas que o oponente usaria. As sessões de treinamento tinham deixado isso claro.
Deparnieux sorriu para si mesmo. Ele pensou que as táticas psicológicas de Halt eram interessantes. A visão constante da flecha passando pelo visor de um capacete em rápido movimento podia muito bem ser suficiente para amedrontar a maioria dos oponentes. Embora Deparnieux tivesse poucas dúvidas sobre as habilidades de Halt, tinha menos ainda sobre as próprias. Seus reflexos eram tão rápidos quanto os de um gato e ele tinha certeza de que poderia desviar as flechas de Halt com o escudo.
Ele concluiu que parecia que o araluense grisalho o tinha julgado mal como oponente, e ficou vagamente desapontado com o fato. Deparnieux tinha esperado muito do desconhecido. Parecia agora que as primeiras impressões tinham se reduzido a quase nada. Halt era um arqueiro experiente, isso era tudo. Não tinha poderes sobrenaturais ou habilidades misteriosas. O comandante pensou que, na verdade, ele era bastante limitado e um homem desinteressante que se tinha em alta conta. Duvidava da alegação do arqueiro de ter uma linhagem real, mas isso não importava mais. O homem merecia morrer, e Deparnieux ficaria feliz em lhe fazer esse favor.
Não havia nenhum dos habituais toques festivos de trompetes ou o rufar de tambores quando Deparnieux levou seu cavalo negro lentamente para o campo de batalha. Aquele não era um dia para cerimônias. Aquele era um dia de trabalho comum para o cavaleiro negro. Um intruso tinha desafiado sua autoridade e sua superioridade na região. Era necessário despachar esse tipo de gente com a máxima eficiência.
Por causa de tudo isso, praticamente todos os membros da equipe do Château Montsombre e muitos dos guerreiros de Deparnieux estavam presentes para testemunhar o combate. Ele sorriu com crueldade quando se perguntou quantos deles estariam ali na esperança de vê-lo derrotado. E concluiu que muitos deles. Mas eles estavam fadados ao desapontamento. Na verdade, matar o arqueiro iria servir a um objetivo conveniente para ele. Nada seria tão bom para a disciplina quanto a visão do dono e senhor do castelo provocando a morte rápida de um intruso arrogante.
E, por falar no diabo, lá estava ele. O arqueiro estava cavalgando na extremidade oposta do campo em seu pequeno cavalo parecido com um barril. Ele não usava armadura, apenas um colete de couro ornamentado com tachões que não lhe daria nenhuma proteção contra a lança e a espada de Deparnieux. E, naturalmente, a sempre presente capa manchada de cinza e verde.
Seu jovem companheiro cavalgava alguns passos atrás dele. Ele usava uma malha de ferro e seu capacete estava pendurado na sela do cavalo de batalha. Ele carregava a espada e levava o escudo redondo adornado com o símbolo da folha de carvalho.
“Interessante”, Deparnieux pensou. Obviamente, no caso da derrota inevitável de Halt, seu jovem companheiro de viagem tentaria vingara morte do amigo. “Melhor assim”, pensou o cavaleiro negro. Se uma morte iria servir como um exemplo salutar aos seus criados mais indisciplinados, duas seriam duplamente eficientes. Afinal, tinha sido assim que todo esse acontecimento decepcionante tinha começado.
Ele fez o cavalo parar e testou a empunhadura da lança na mão direita para garantir que a segurava no ponto ideal de equilíbrio. No lado oposto do campo, seu oponente continuava a cavalgar para a frente, devagar e com firmeza. Ele parecia ridiculamente pequeno, diminuído pelo jovem musculoso e o imenso cavalo de batalha que andavam ao lado dele.


— Espero que saiba o que está fazendo — Horace disse, tentando falar sem mover os lábios, no caso de Deparnieux estar observando, coisa que, naturalmente, ele estava.
Halt se virou na sela e quase sorriu para ele.
— Pois eu sei — ele disse devagar.
Ele percebeu que a mão direita de Horace soltou a espada dentro do estojo mais uma vez. Ele tinha feito a mesma coisa pelo menos uma dúzia de vezes enquanto cavalgavam.
— Relaxe — acrescentou com calma.
Horace olhou para ele abertamente, sem se importar se Deparnieux o via ou não.
— Relaxar? — ele repetiu sem acreditar. — Você vai lutar só com um arco contra um cavaleiro vestido com uma armadura e me pede para relaxar?
— E você sabe que só vou ter uma ou duas flechas — Halt disse com suavidade, fazendo Horace olhá-lo espantado.
— Bem... só espero que você saiba o que está fazendo —repetiu.
— Se é o que você acha — ele retrucou, e cutucou Abelard com o joelho, fazendo-o parar.
Halt sorriu para ele. Era apenas o leve clarão de um sorriso. Os olhos de Halt se concentraram na figura distante na armadura negra, ele passou a perna direita por sobre a sela e desceu do cavalo.
— Tire-o do caminho para não se machucar — pediu ao aprendiz.
Horace se inclinou e pegou a rédea do cavalo do arqueiro. Abelard agitou as orelhas e olhou para seu dono com olhar inquisidor.
— Vá com ele — Halt ordenou em voz baixa, e o cavalo se permitiu ser conduzido para longe.
Halt olhou mais uma vez para o jovem sentado no cavalo de batalha e viu preocupação em cada centímetro do corpo do garoto.
— Horace? — ele chamou, e o aprendiz parou e olhou. — Fique tranquilo, eu sei o que estou fazendo.
Horace conseguiu mostrar um fraco sorriso.
— Se você diz... — replicou.
Enquanto falavam, Halt selecionou cuidadosamente três flechas entre as várias que levava na aljava e as colocou com a ponta para baixo dentro da bota direita. Horace viu o movimento e se perguntou o que o arqueiro pretendia. Não havia necessidade de Halt deixar as flechas à mão daquele jeito. Ele podia pegá-las na aljava em suas costas e atirá-las numa fração de segundo.
Mas Horace não teve tempo de pensar mais no assunto, pois Deparnieux chamava do outro extremo do campo.
— Caro lorde Halt — Horace ouviu claramente Deparnieux cumprimentá-lo com forte sotaque enquanto se afastava com o cavalo. — Você está preparado?
Sem se preocupar em falar, Halt ergueu a mão em resposta. Horace achou que ele parecia muito pequeno e vulnerável, parado sozinho no centro do campo aparado, esperando a aproximação do cavaleiro vestido de negro montado no seu enorme cavalo de batalha.
— Então, que o melhor homem vença! — Deparnieux gritou zombeteiro.
— É o que pretendo fazer — Halt respondeu desta vez, enquanto Deparnieux batia as esporas no cavalo que começou a se aproximar a galope.
Ocorreu a Horace que Halt não tinha dito nada sobre o que deveria fazer se Deparnieux vencesse. Ele tinha alguma esperança de que o arqueiro o mandasse fugir. Certamente esperava que Halt o proibisse de desafiar Deparnieux imediatamente após o combate, o que era exatamente o que Horace pretendia fazer se Halt perdesse. Se perguntou naquele momento se Halt não tinha dito nada porque sabia que iria ignorar essa ordem ou se era simplesmente porque estava totalmente confiante em sua vitória.
Não que parecesse haver essa possibilidade. A terra tremeu sob os cascos do cavalo de batalha negro, e o olho experiente de Horace viu que o cavaleiro galês era um guerreiro de grande capacidade e habilidade naturais. Perfeitamente equilibrado em sua sela sobre o cavalo, ele manuseava a lança longa e pesada como se fosse um objeto leve, inclinando-se para a frente e erguendo-se ligeiramente nos estribos enquanto a ponta da lança se aproximava cada vez mais da pequena figura vestida na capa cinza-esverdeada.
Era a capa que provocava uma sensação de apreensão na mente de Deparnieux. Halt oscilava levemente enquanto esperava, e as manchas irregulares na capa tendo como fundo a grama de inverno cinza-esverdeado recém-cortada pareciam fazer o vulto entrar e sair de foco. O efeito era quase hipnotizador. Zangado, Deparnieux afastou o pensamento perturbador e tentou concentrar a atenção no arqueiro. Ele estava perto, a menos de 30 metros de distância, e mesmo assim o arqueiro ainda não...
Deparnieux sentiu sua aproximação: um movimento confuso quando o arco foi erguido e a primeira flecha disparou na direção dele com uma velocidade incrível, indo diretamente para as fendas do visor em seu capacete e provocando uma sensação de vazio.
No entanto, apesar da velocidade da flecha, Deparnieux foi ainda mais rápido e conseguiu levantar o escudo a tempo. Ele sentiu a flecha bater no escudo e ouviu o retinir de aço se chocando com aço quando ela abriu um longo sulco no esmalte preto e brilhante e depois saiu sibilando quando o escudo a desviou.
Mas então o escudo não o deixava ver o pequeno homem, e Deparnieux rapidamente o abaixou.
“Que todos os diabos do inferno o levem!”, foi o que Halt desejou ao disparar uma segunda flecha. Mas os incríveis reflexos de Deparnieux o salvaram outra vez, fazendo que ele usasse o escudo para desviar o segundo arremesso traiçoeiro. Ele se perguntou como alguém podia atirar tão depressa e então praguejou quando percebeu que, por não conseguir enxergar, já tinha passado do ponto em que o arqueiro estava parado, calmamente saindo do alcance da ponta da lança.
Deparnieux fez o cavalo de batalha diminuir o passo e dar uma grande volta. Não valeria a pena se arriscar a ferir o animal fazendo-o virar depressa demais. Ele agiria com calma e...
Nesse momento, ele sentiu uma pontada aguda de dor no ombro esquerdo. Desajeitado e torcendo o corpo, a visão prejudicada pelo capacete, ele percebeu que, ao passar a galope, Halt tinha disparado outra flecha em sua direção, desta vez mirando a abertura na armadura na altura do ombro.
A malha de ferro que cobria essa abertura tinha suportado quase todo o impacto da seta, mas a ponta afiadíssima ainda tinha conseguido cortá-la e penetrar na carne. Deparnieux se deu conta de que o ferimento era doloroso, mas superficial, e moveu o braço rapidamente para se certificar de que nenhum músculo ou tendão importante tinha sido machucado. Se a luta fosse prolongada, o braço poderia ficar rígido e afetar a defesa com o escudo.
Do modo como as coisas caminhavam, o ferimento era um incômodo. “Um incômodo doloroso”, ele corrigiu ao sentir o sangue quente escorrendo pela axila. Ele prometeu a si mesmo que Halt pagaria por isso. E pagaria caro.
Pois, naquele momento, Deparnieux pensou que tinha entendido o plano de Halt. Ele iria continuar a impedir sua visão ao atacar, obrigando-o a levantar o escudo para proteger os olhos no último minuto, afastando-se então para o lado quando Deparnieux passasse para investir contra ele.
Mas o cavaleiro não tinha intenção de jogar o jogo de Halt. Ele iria trocar o ataque desenfreado em alta velocidade com a lança por uma aproximação lenta e deliberada. Afinal, não precisava da força e do impulso de uma investida. Ele não estava enfrentando outro cavaleiro de armadura que tentava derrubá-lo da sela. Ele estava enfrentando um homem parado sozinho no meio do campo.
Enquanto percebia o plano, jogou a pesada lança no chão, pegou a flecha do ombro, quebrou-a e a jogou atrás da lança. Em seguida, empunhou a espada e começou a trotar lentamente para perto de Halt e esperou por ele.
Ele manteve o arqueiro à sua esquerda para que o escudo ficasse em posição de desviar as flechas. A longa espada na mão direita balançava facilmente em círculos enquanto ele sentia o peso conhecido e o equilíbrio perfeito.
Enquanto olhava a cena, Horace sentiu o coração bater mais forte no peito. Agora só podia haver um fim para aquela luta. Quando Deparnieux abandonou o ataque impetuoso e o substituiu por uma aproximação mais cautelosa, Halt ficou com sérios problemas. Horace sabia que 9 entre 10 cavaleiros teriam continuado a atacar, indignados pelas táticas de Halt e determinados a esmagá-lo com sua força superior. Ele via agora que Deparnieux era um dos 10 que veriam rapidamente a tolice de seguir esse rumo e encontrariam uma tática para anular a vantagem do arqueiro.
O cavaleiro montado estava a somente 40 metros de distância da pequena figura e se movimentava lentamente em sua direção. Como antes, o arco subiu e a flecha estava a caminho. Com habilidade, quase com desdém, Deparnieux levantou o escudo para desviar a seta. Desta vez, ouviu o guincho agudo do impacto e tornou a abaixar o escudo.
Ele viu a próxima flecha, já apontada para a sua cabeça. Ele viu a mão do arqueiro começar a soltar a corda e novamente levantou o escudo quando a flecha disparou em sua direção. Mas havia um detalhe importante que ele não viu.
Aquela flecha era uma das três que Halt tinha colocado no cano da bota. E essa flecha era diferente, pois tinha uma cabeça muito mais pesada feita de aço temperado. Ao contrário das flechas de guerra normais da aljava de Halt, ela não tinha a cabeça larga em formato de folha. Em vez disso, ela tinha a forma da ponta de um formão frio cercado por quatro esporas que impediriam que fosse desviada e deixariam que atravessasse e penetrasse a carne atrás da armadura de Deparnieux.
A ponta da flecha era planejada para perfurar armaduras, e Halt tinha aprendido seus segredos anos antes com os fortes arqueiros montados das estepes do leste.
A flecha saiu voando do arco. Quando Deparnieux levantou o escudo, não conseguiu ver o peso adicional da ponta que já a fazia cair abaixo do local desejado. A flecha formou um arco para baixo do escudo inclinado e bateu no peito ali exposto como se quisesse apenas testar sua velocidade e força.
Deparnieux ouviu o baque. Um impacto surdo de metal contra metal mais um golpe metálico do que um tinido. Ele se perguntou o que era. E então sentiu o começo de uma dor intensa, uma agonia ardente, que começou em seu lado esquerdo e se espalhou rapidamente até tomar conta de todo o seu corpo.
Ele não chegou a sentir o impacto da queda de seu corpo no gramado.
Halt baixou o arco. Ele afrouxou a corda e guardou a segunda flecha preparada para perfurar armaduras, já posicionada e pronta, na aljava.
O senhor do Château Montsombre estava deitado imóvel. Um silêncio assombrado tomou conta da pequena multidão de espectadores que tinha saído do castelo para assistir ao combate. Nenhum deles sabia como reagir. Nenhum deles esperava esse resultado. Os criados, cozinheiros e cavalariços sentiram uma cautelosa sensação de prazer. Deparnieux nunca tinha sido um patrão querido. O uso do chicote e das gaiolas de ferro em qualquer criado que o desagradasse tinha sido o responsável por isso. Mas as expectativas em relação ao homem que tinha acabado de matá-lo não eram necessariamente mais altas.
Logicamente, eles imaginaram que o estrangeiro barbado tinha matado seu patrão para que pudesse assumir o controle de Montsombre. Era assim que as coisas aconteciam em Gálica, e experiências anteriores tinham mostrado a eles que uma mudança de dono não trazia melhorias para suas vidas. O próprio Deparnieux tinha derrotado um antigo tirano alguns anos antes. Assim, embora estivessem satisfeitos em ver o sádico e cruel cavaleiro negro morto, encaravam seu sucessor com pouco otimismo.
Para os soldados que tinham servido Deparnieux, o assunto era um pouco diferente. Eles, pelo menos, tinham uma ligação mais próxima com o homem morto, embora classificar esse sentimento como lealdade fosse um exagero. Mas ele os tinha conduzido a muitas vitórias e a um prêmio considerável ao longo dos anos, de modo que agora três deles começaram a andar na direção de Halt movendo as mãos na direção do punho da espada.
Ao ver o movimento, Horace bateu com as esporas em Kicker e ficou entre eles e o arqueiro vestido com a capa cinzenta. Ouviu-se um tinido de aço sobre couro quando ele desembainhou a espada, fazendo a lâmina brilhar debaixo do sol do começo da tarde. Os soldados hesitaram. Conheciam a reputação de Horace, e nenhum deles se considerava um espadachim habilidoso o bastante para acertar contas com o jovem rapaz. O campo de batalha ao qual estavam acostumados era a confusão de uma batalha campal, não a atmosfera fria e calculista de um duelo como esse.
— Pegue o cavalo — Halt pediu a Horace.
O aprendiz olhou em volta surpreso. Halt não tinha se mexido. Ele estava parado com os pés ligeiramente separados, voltado para os soldados que se aproximavam. Mais uma vez, uma flecha estava preparada na corda do arco, embora ele continuasse abaixado.
— O quê? — Horace perguntou confuso, e o arqueiro virou a cabeça na direção do cavalo de batalha do comandante, apoiando o peso do corpo ora num pé, ora noutro, agitando a cabeça vagamente.
— O cavalo. Agora ele é meu. Pegue-o para mim — Halt repetiu, e Horace fez Kicker trotar lentamente até onde pôde se inclinar e pegar as rédeas do cavalo negro.
Ele teve que embainhar a espada para isso e olhou preocupado para os três soldados e para os outros 12 que estavam atrás dele, como se ainda não soubesse o que fazer.
— Capitão da guarda! — Halt chamou. — Onde você está?
Um homem robusto usando meia armadura deu um passo à frente, afastando-se do grupo maior de guerreiros. Halt olhou para ele por um momento.
— Seu nome? — ele perguntou.
O capitão hesitou. Ele sabia que, no curso normal dos acontecimentos, o vitorioso de um combate como aquele simplesmente exigiria que as coisas continuassem como eram, e a vida em Montsombre iria continuar com poucas mudanças. Mas o capitão também sabia que, geralmente, o novo comandante podia decidir rebaixar ou até eliminar os oficiais graduados. Ele estava preocupado com o arco na mão do estranho, mas não viu sentido em não se apresentar. Os outros iriam isolá-lo rapidamente, se isso significasse um possível progresso para eles. Ele tomou uma decisão.
— Philemon, senhor — ele disse.
Os olhos de Halt pareciam atravessá-lo e se seguiu um silêncio longo e desconfortável.
— Venha até aqui, Philemon — Halt ordenou finalmente e, depois de recolocar a flecha na aljava, pendurou o arco no ombro esquerdo.
Esse gesto foi encorajador para o capitão, embora não tivesse dúvida de que, se Halt quisesse, poderia apanhar o arco e disparar várias flechas antes que ele pudesse piscar. Com cautela e com os nervos a flor da pele por causa da expectativa, ele se aproximou do homem pequeno.
— Não pretendo ficar aqui mais que o necessário — Halt disse quando o capitão estava bem perto. — Dentro de um mês, as passagens para Teutônia e a Escandinávia estarão abertas, e meu companheiro e eu vamos seguir viagem.
Ele parou e Philemon franziu a testa, tentando compreender o que estava ouvindo.
— O senhor quer que nós vamos com vocês? — ele perguntou finalmente. — O senhor deseja nossa companhia?
— Não tenho desejo de ver nenhum de vocês outra vez — ele disse simplesmente. — Não quero nada deste castelo, nada de seus habitantes. Vou levar o cavalo de batalha de Deparnieux porque tenho esse direito tomo vitorioso neste combate. Quanto ao resto, você pode ficar com tudo: o castelo, os móveis, o dinheiro, a comida, as terras. Se puder esconder isso dos seus amigos, é tudo seu.
Philemon olhou para ele sem acreditar no que ouvia. Aquela era uma sorte imensa! O estranho estava indo embora e entregando o castelo e tudo o mais para ele, um simples capitão da guarda. Ele assobiou baixinho para si mesmo. Ele iria substituir Deparnieux como controlador da região. Ele seria um proprietário, dono de um castelo, com soldados e criados para atendê-lo!
— Duas coisas — Halt interrompeu seus pensamentos. — Você vai soltar as pessoas das gaiolas imediatamente. Quanto aos outros criados e escravos do castelo, vou dar permissão para ficarem ou partirem. Não vou obrigar ninguém a ficar com você, de jeito nenhum.
A expressão sombria do capitão se intensificou diante dessa declaração. Ele abriu a boca para protestar, mas hesitou ao perceber o olhar de Halt. Era um olhar frio, determinado e totalmente sem compaixão.
— Com você ou seu sucessor — ele corrigiu. — A escolha é sua. Critique minha decisão e vou apresentar essa opção a quem quer que substituir você depois que eu o matar.
E, ao ouvir essas palavras, Philemon percebeu que Hall não iria hesitar em cumprir a ameaça. Ele ou o jovem e musculoso espadachim montado no cavalo de batalha não teriam dificuldade em acabar com ele.
O soldado analisou as alternativas: joias, ouro, um castelo bem abastecido, um grupo de homens armados que iriam segui-lo porque teria os recursos para pagá-los e uma possível falta de empregados. Ou a morte, aqui e agora.
— Eu aceito — declarou.
Afinal de contas, Philemon pensou que a maioria dos criados e escravos não tinha para onde ir. As chances de que quase todos preferissem ficar no Château Montsombre eram boas, caso confiassem que as coisas não poderiam realmente ficar piores do que eram e que talvez pudessem até ser um pouco melhores.
— Pensei mesmo que iria — Halt retrucou devagar.

3 comentários:

  1. Fiz essa mesma pergunta para mim mesma!
    Ass: Bina.

    ResponderExcluir
  2. Eu tbm me fiz a mesma pergunta será Philemon uma homen do "bem"
    Ass:lana

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!