29 de junho de 2016

Capítulo 35

Da posição central de comando, Halt e Erak olhavam enquanto o exercício tranquilo dos arqueiros provocava danos nas fileiras Temujai. Agora que a força atacante sabia da existência dos homens de Will, eles não tinham chance de repetir as baixas devastadoras provocadas pelas três primeiras saraivadas que tinham derrubado um ulan completo. Mas a investida regular de cem arqueiros e a orientação precisa de Will destruíam um ataque depois do outro.
Além do mais, os Temujai já sabiam que sua tática preferida tinha sido contornada com eficiência. Se eles mandassem um grupo para travar um combate direto enquanto outro ficava afastado para dar cobertura durante a retirada, eles sabiam que o segundo grupo seria instantaneamente atacado pelos arqueiros no flanco direito escandinavo. Aquela era uma experiência nova para os Temujai. Nunca eles tinham encontrado um contra-ataque tão disciplinado e preciso.
Mas eles não eram covardes e alguns comandantes agora substituíam manobras táticas por coragem e ferocidade brutas. Eles começaram a se movimentar de modo enraivecido sobre a linha escandinava, abandonando os arcos e empunhando os sabres numa tentativa de abrir caminho com a luta corpo a corpo, determinados a tudo para derrotar os escandinavos.
Eles eram combatentes corajosos e habilidosos, e suas manobras teriam sido bem-sucedidas contra quase todos os adversários que tinham enfrentado. Mas os escandinavos se divertiam num confronto direto. Para os Temujai, era uma questão de habilidade. Para o povo do norte, era um modo de vida.
— Assim está bem melhor! — Erak urrou contente, quando se adiantou para interceptar três Temujai que tentavam subir a proteção de terra.
E Halt se viu empurrado para o lado quando Ragnak correu para se juntar ao companheiro. Sua acha provocava grandes estragos entre os pequenos guerreiros atarracados que enxameavam para cima deles.
Satisfeito em deixar os escandinavos assumir a luta corpo a corpo, Halt se afastou um pouco. Seu olhar vagueou para fora da área de combate próxima até que viu o que estava procurando: um dos peritos atiradores Temujai, reconhecível pela insígnia vermelha no ombro esquerdo, estava procurando os líderes escandinavos no meio dos combatentes. Seus olhos se iluminaram ao ver Ragnak, quando o oberjarl chamou mais homens para cobrir a brecha que os Temujai tinham aberto. O arco recurvo se levantou já com a flecha puxada totalmente para trás.
Mas ele se atrasou dois segundos em relação ao movimento idêntico de Halt, e o imenso arco do arqueiro soltou sua flecha pintada de negro antes que o Temujai tivesse puxado totalmente a dele. O cavaleiro nunca soube o que o atingiu quando caiu do lombo do cavalo.
De repente, a pequena batalha selvagem chegou ao fim e os Temujai sobreviventes estavam se arrastando de volta sobre o monte de terra, agarrando qualquer cavalo que estava ao seu alcance e subindo para a sela.
Ragnak e Erak trocaram sorrisos. Erak deu um tapa nas costas de Halt, fazendo-o cair.
— Assim é melhor — ele disse, e o oberjarl resmungou concordando, enquanto Halt se levantava do chão.
— Você não sabe como estou satisfeito por ver vocês se divertirem — Halt disse secamente.
Erak riu, mas logo ficou sério quando fez um gesto na direção do flanco direito e do pequeno grupo de arqueiros, que ainda mantinha fogo cerrado sobre os atacantes.
— O garoto está se saindo bem — ele disse.
Halt ficou surpreso ao ouvir que havia uma ponta de orgulho na voz de Erak.
— Eu sabia que iria — o arqueiro replicou com calma e se virou quando Ragnak pousou o braço pesado em seus ombros.
Ele preferia que os escandinavos não expressassem seus sentimentos através do contato físico. Pesados como eram, colocavam as pessoas normais em sério risco.
— Tenho que admitir, arqueiro, você tinha razão — o oberjarl afirmou.
Ele mostrou as fortificações com o braço.
— Não pensei que tudo isso fosse necessário. Mas vejo agora que não teríamos tido nenhuma chance contra esses demônios num conflito aberto. Quanto ao seu garoto e os arqueiros — ele continuou fazendo um gesto na direção da posição de Will — estou satisfeito por termos cuidado dele quando o apanhamos pela primeira vez.
Ao ouvir isso, Erak ergueu uma sobrancelha. Ele tinha ficado muito zangado quando Will foi mandado para trabalhar no pátio gelado, pois era uma tarefa que quase sempre significava morte certa. Mas não disse nada. Ele supôs que ser o líder supremo dava permissão para esquecer acontecimentos desagradáveis do passado.
Halt eslava analisando a posição de Will com olhar crítico. A linha defensiva na frente dos arqueiros ainda estava bem suprida de homens. De todas as posições escandinavas, aquela era a que parecia ter sofrido o menor número de baixas. Ele pensou que isso era porque os ulans estavam evitando um confronto direto naquele momento. Eles tinham visto o que acontecera com o grupo que atacou os arqueiros diretamente.
Mas sabia que o general Temujai não iria permitir que essa situação continuasse. Ele estava perdendo muitos homens, tanto para as constantes saraivadas de flechas como na desesperada luta corpo a corpo com os escandinavos. Logo ele teria que fazer algo para anular o problema inesperado que os arqueiros representavam.
Ele teria ficado interessado, mas não surpreso, em saber que os pensamentos de Haz’kam seguiam mais ou menos o mesmo rumo.


O general praguejou baixinho ao analisar os relatórios de baixas trazidos por seu pessoal. Ele se virou para Nit’zak, seu segundo comandante, e mostrou o pergaminho em sua mão.
— Não podemos continuar assim — ele disse devagar.
Seu substituto se inclinou em sua direção e virou a folha com informações de baixas apressadamente rabiscadas para poder lê-la. Ele deu de ombros.
— É ruim — ele concordou. — Mas não é um desastre. Ainda temos homens, arqueiros e não-arqueiros, para derrotar os escandinavos. Eles não podem nos enfrentar para sempre.
Mas Haz’kam balançou a cabeça impaciente. Nit’zak tinha acabado de confirmar o que ele sempre suspeitou. Seu auxiliar era um líder capaz em campo, mas não tinha a visão necessária para se tornar um comandante geral.
— Nit’zak, perdemos quase 1.500 homens, entre mortos e feridos. Isso é quase um quarto da nossa força efetiva. Podemos facilmente perder essa quantidade novamente se continuarmos desse jeito.
Nit’zak deu de ombros. Como quase todos os oficiais superiores Temujai, ele pouco se importava com os números dos relatórios de baixas, contanto que ganhasse a batalha. Ele pensava que morrer na batalha era o papel da vida de um guerreiro Temujai. Haz’kam viu o gesto e interpretou corretamente os pensamentos de seu subordinado.
— Estamos a 2 mil quilômetros de casa — ele disse ao segundo comandante. — Deveríamos estar subjugando esse pedacinho congelado do inferno para podermos planejar a invasão da terra de Ara. Como você propõe que a gente faça isso com menos da metade dos homens com que começamos?
Nit’zak deu de ombros outra vez. Ele realmente não via problema. Estava acostumado a uma vitória depois da outra e a ideia de ser derrotado nunca lhe ocorreu.
— Nós sabíamos que teríamos baixas aqui — ele protestou e Haz’kam soltou uma série de imprecações numa demonstração incomum de mau humor.
— Nós pensamos que isso seria uma guerrinha! — ele disparou zangado. — Não um evento desta grandeza! Pense nisso, Nit’zak: uma vitória aqui pode nos custar tanto que talvez nem possamos voltar para casa.
Essa era uma verdade desagradável. Os Temujai tinham 2 mil quilômetros para atravessar antes de chegar às suas terras nos estepes. E toda essa distância passava por territórios hostis e temporariamente conquistados. Territórios cujos habitantes poderiam muito bem aproveitar a oportunidade de se revoltar contra uma força Temujai enfraquecida.
Nit’zak ficou sentado em seu cavalo cm silêncio. Ele estava zangado pelo tom de censura na voz do comandante, especialmente na frente de outros oficiais. Ao falar com ele daquele jeito, Haz’kam eslava quebrando a tradição de uma forma grosseira.
— Então... o que você sugere? — Nit’zak perguntou finalmente.
O general demorou muito para responder. Ele olhou o espaço que os separava das linhas escandinavas, observou a posição de comando no centro da linha de arqueiros à esquerda e a ala escandinava direita. Ele sabia que nessas duas posições estava o segredo da batalha.
Finalmente, ele se virou para seu substituto com uma decisão tomada.
— Tire os kaijin dos primeiros 50 ulans — ele ordenou. — E reúna eles aqui como uma força especial. Chegou a hora de nos livrarmos desses malditos arqueiros.

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