28 de junho de 2016

Capítulo 35

O arco de caça provocava uma sensação estranha na mão de Evanlyn. Ela se atrapalhou ao tentar colocar uma das flechas na corda e quase a deixou cair na neve aos seus pés quando tentou manter os olhos no pequeno animal que se movia lentamente na clareira à sua frente.
Sem pensar, ela assobiou aborrecida e, no mesmo instante, o coelho se sentou nas patas traseiras remexendo as orelhas para ver se conseguia perceber outro sinal do som estranho que tinha acabado de ouvir, torcendo o focinho de um lado para outro e procurando traços de algum cheiro estranho.
Evanlyn ficou paralisada e esperou até que o animal tivesse se certificado de que não havia perigo imediato e voltasse a raspar a neve com as patas dianteiras para descobrir a grama molhada e mirrada que se escondia debaixo dela. Quase sem ousar respirar, observou o coelho recomeçar a comer e então, olhando para baixo desta vez, deslizou a flecha para junto da corda, bem abaixo do entalhe que o fabricante tinha feito ali.
Nesse local, a corda era mais grossa e era envolvida por um fio fino para que o encaixe oferecesse firmeza e prendesse a flecha no lugar sem que se precisasse usar os dedos. Evanlyn conseguia segurar o arco com leveza e a força da corda quando solta faria que ela a soltasse de imediato e enviaria a flecha para seu alvo. Ela levantou o arco e começou a puxar a corda com a mão direita, mas sabia que não estava fazendo a coisa corretamente. Tinha visto vários arqueiros para saber que não era assim que se fazia. Entretanto, como estava começando a perceber, observar um arqueiro experiente e imitar seus movimentos eram duas coisas totalmente diferentes. Ela se lembrava de Will pôr a flecha no arco e atirar num único movimento suave, hábil e aparentemente fácil. Naquele momento, visualizou o movimento na imaginação, mas estava totalmente além de sua capacidade recriá-lo. Em vez disso, ela segurou o arco para cima e, tremendo, agarrou o entalhe da flecha entre o indicador e o polegar, tentou puxar a corda para trás somente com a força dos dedos e do braço.
Agindo assim, ela mal conseguia puxar a flecha a meia distância. Ela apertou os lábios zangada. Teria que conseguir. Fechou um dos olhos e observou a flecha, tentando mirar a pequena criatura que estava se alimentando satisfeita e sem notar o perigo mortal que rondava as árvores ao redor da clareira. Com mais esperança do que convicção, finalmente soltou a flecha.
Três coisas aconteceram.
O arco se retorceu em sua mão, afastando a flecha cerca de 3 metros do alvo. A flecha em si saltou do arco com uma força que mal era suficiente para perfurar a carne do animal, e a corda bateu doloridamente contra a pele macia do interior de seu braço. Evanlyn gritou de dor e deixou o arco cair. A flecha deslizou pela casca de uma árvore e desapareceu na floresta do outro lado da clareira.
O coelho ergueu o corpo novamente e espiou na direção dela com um olhar que parecia totalmente confuso quando inclinou a cabeça para ver melhor. Então, ficou de quatro, afastou-se lentamente da clareira e andou vagarosamente para o meio das árvores.
“Que fim para quem estava correndo perigo mortal”, ela pensou com tristeza.
Evanlyn apanhou o arco, esfregou o braço dolorido onde a corda tinha batido e foi procurar a flecha. Depois de uma busca de dez minutos, chegou à conclusão que a tinha perdido para sempre. Aborrecida, voltou para a pequena cabana.
— Acho que vou ter que praticar mais — ela resmungou.
Aquela tinha sido sua segunda tentativa de caça. A primeira tinha sido igualmente infrutífera e totalmente desanimadora. Pelo que talvez fosse a décima quinta vez, ela suspirou ao pensar que, se Will estivesse bem, ele não teria nenhuma dificuldade em usar o arco para conseguir comida para a mesa deles.
Evanlyn tinha lhe mostrado o arco, esperando que ele se lembrasse de alguma coisa ao ver a arma. Mas ele não tinha feito nada além de olhar para ela fixamente com a expressão desinteressada e dissimulada que tinha ficado tão conhecida para ela.
Havia nevado na noite anterior e a neve estava na altura dos joelhos quando ela voltou com dificuldade para a cabana. Era a primeira nevasca em mais de uma semana, e isso a tinha feito pensar. O inverno já devia estar pela metade e, por fim, quando a primavera chegasse, os escandinavos de Hallasholm recomeçariam a andar por aquelas montanhas. Talvez alguns até chegassem e usassem a cabana que ela e Will estavam ocupando no inverno. Ele teria que estar recuperado até lá, para que pudessem iniciar a longa jornada para o sul, e ela não tinha ideia de quanto tempo essa recuperação iria levar. O aprendiz de arqueiro parecia estar melhorando dia a dia, mas Evanlyn não tinha certeza. Tampouco podia ter certeza de quanto tempo tinham até que o calor da primavera começasse a derreter a neve.
Evanlyn sabia que estavam numa corrida, mas não conseguia ver a linha de chegada. Ela poderia surgir na sua frente a qualquer momento.
A cabana entrou em seu campo de visão. Ela ficou aliviada por ver que um fino fio de fumaça ainda saía pela chaminé. Tinha acendido o fogo antes de sair pela manhã, esperando ter colocado bastante lenha para que queimasse até sua volta. Ela já tinha descoberto que nada era mais desanimador do que chegar em casa fria e molhada e encontrar o fogo apagado.
Naturalmente, não havia como esperar que Will cuidasse do fogo na ausência dela. Até mesmo uma tarefa simples como aquela parecia ser demais para ele. Ela se deu conta de que não era má vontade da parte dele. Ele simplesmente não mostrava nenhum interesse em fazer ou dizer qualquer coisa além das funções mais básicas. Comia, dormia e ocasionalmente se aproximava dela com a expressão suplicante no olhar, pedindo mais erva. “Pelo menos”, ela se consolou, “faz algum tempo que ele não faz isso”.
Durante o resto do tempo, ele simplesmente ficava sentado em qualquer lugar, olhando para o chão, para as mãos, ou um pedaço de madeira, ou qualquer coisa em que seus olhos quisessem se concentrar no momento.
As velhas dobradiças de couro da porta da cabana rangeram quando ela a abriu. O barulho foi suficiente para chamar a atenção de Will. Ele estava sentado de pernas cruzadas no chão, no meio da cabana, quase na mesma posição de quando ela tinha saído, horas antes.
— Oi, Will. Voltei — ela avisou, obrigando-se a sorrir.
Ela sempre tentava, vivendo na esperança de que um dia ele iria reagir.
Mas aquele não era esse dia. O garoto não mostrou sinal de reação ou interesse. Suspirando, ela recostou o pequeno arco na parede ao lado da porta. Vagamente, percebeu que deveria tirar a corda do arco, mas estava desanimada demais para fazer isso naquele momento.
Evanlyn foi até a despensa e apanhou uma pequena quantidade de seu reduzido suprimento de carne seca. Havia arroz também e ela começou a prepara-lo, temperando com carne que tinha se tornado a refeição principal nas últimas semanas. Pôs água para ferver para que pudesse cozinhar a carne e preparar um caldo ralo com pelo menos um pouco de sabor.
Ela tinha medido uma xícara de arroz e a estava colocando em outra panela quando ouviu um leve barulho atrás dela. Ao se virar, percebeu que Will tinha saído da posição em que tinha ficado quase toda a tarde. Naquele momento, estava sentado perto da porta, e ela se perguntou o que o tinha feito se mexer, mas chegou à conclusão de que tinha sido apenas uma decisão tomada ao acaso.
Então, percebeu o que tinha acontecido e deu um salto de surpresa, derramando parte do precioso arroz na mesa.
O pequeno arco ainda estava encostado à parede junto da porta. Mas Will tinha tirado a corda.

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