29 de junho de 2016

Capítulo 33

O general Haz’kam fez o cavalo trotar ao longo da linha dianteira de seu exército e observou o primeiro grupo de combate voltar para suas linhas.
Talvez ele tivesse perdido 200 homens, entre mortos e feridos, nesse primeiro confronto. E, talvez, metade dessa quantidade de cavalos. Com um exército de 6 mil homens, esses números não eram muito significativos.
O que era importante, contudo, era o comportamento dos escandinavos. Aquele primeiro ataque tinha sido planejado para reduzir os números do inimigo em várias centenas, e não os dele. Na verdade, tinha havido até a leve esperança de que a maioria dos escandinavos fosse atraída para fora de suas posições de defesa, para terreno aberto, onde eles seriam presa fácil para seus arqueiros montados.
O general puxou as rédeas quando alcançou um grupo de oficiais. Entre eles, reconheceu o coronel Bin’zak, chefe da inteligência. O coronel estava decididamente pouco a vontade. Exatamente como deveria estar.
Haz’kam o encarou e apontou as defesas escandinavas com um gesto de cabeça.
— Não foi isso que me fizeram esperar — ele disse num tom de voz enganosamente suave.
O coronel impeliu o cavalo alguns passos para a frente e o saudou quando emparelhou com o comandante.
— Não sei o que aconteceu, shan Haz’kam — ele replicou. — Parece que eles conseguiram perceber a armadilha. Não esperava que reagissem desse jeito, É... — ele começou procurando as palavras adequadas. — Esse comportamento é totalmente contrário ao que os escandinavos costumam fazer — ele disse finalmente desanimado.
Haz’kam assentiu várias vezes. Ele controlou a raiva com esforço. Era indigno para um comandante Temujai demonstrar emoções num campo de batalha.
— Será que lhe ocorreu — ele começou, por fim, quando teve certeza de que poderia conter o tom de voz — que os escandinavos talvez tenham alguém com eles que conheça nosso jeito de lutar?
Bin’zak franziu o cenho enquanto refletia. Na verdade, a ideia não tinha lhe ocorrido. Mas, agora que o shan tinha mencionado, a conclusão parecia lógica. Exceto por um detalhe.
— Seria improvável que os escandinavos entregassem o comando a um estrangeiro — ele disse pensativo.
Haz’kam sorriu para ele, mas foi um sorriso sem o menor toque de humor.
— Também seria improvável eles interromperem a perseguição, formarem uma muralha de escudos e nos atingirem com um ataque-surpresa vindo do bosque — ele ressaltou.
O coronel não disse nada. A verdade contida na declaração falava por si mesma.
— Temos informações — o shan continuou — de que um estrangeiro foi mandado junto com os escandinavos... um daqueles malditos atabi.
Atabi, que literalmente significava "os verdes", era o termo usado pelos Temujai para designar arqueiros. Nos anos que se seguiram ao bem-sucedido roubo dos cavalos realizado por Halt, os líderes Temujai tinham tentado reunir o máximo de conhecimento possível sobre a misteriosa força de homens que usavam capas verde e cinza e pareciam se fundir com a floresta. Nos anos passados, ao se prepararem para aquela campanha, espiões tinham até mesmo chegado a Araluen fazendo perguntas e procurando respostas. Não descobriram muita coisa. Os arqueiros guardavam seus segredos cuidadosamente, e os araluenses comuns relutavam em discutir o Corpo de Arqueiros com estrangeiros. Havia uma crença oculta entre o povo de Araluen de que os arqueiros se dedicavam à magia negra. Ninguém tinha muito interesse em discutir esses assuntos.
Agora, à menção de um atabi entre os inimigos, o coronel Bin’zak deu de ombros.
— Foram apenas rumores, shan — ele protestou. — Nenhum dos meus homens conseguiu confirmar o fato.
— Acho que acabamos de confirmar — o general retrucou encarando o coronel até ele desviar o olhar.
— Sim, shan — ele disse aborrecido.
Ele sabia que sua carreira estava acabada. Haz’kam levantou a voz e se dirigiu aos outros oficiais reunidos à sua volta, dando fim ao assunto do fracasso do serviço de inteligência do coronel.
— Talvez isso também explique por que nosso ataque-surpresa vindo do mar tenha falhado — ele disse e ouviram-se alguns murmúrios de concordância.
A trama com Slagor também tinha sido planejada por Bin’zak. Agora parecia que os 150 homens embarcados nos navios escandinavos, quatro dias antes, tinham simplesmente desaparecido no ar.
— Chega de subterfúgios — o general disse tomando uma decisão. — Perdemos tempo demais aqui. Já estamos três semanas atrasados. O ataque-padrão a partir de agora vai ser: tempestade de flechas até conseguirmos enfraquecer o inimigo e depois investimos contra suas linhas.
Os comandantes concordaram com gestos de cabeça. O general olhou ao redor e viu a determinação e a fria confiança que eles tinham. Os Temujai estavam prestes a fazer o que sabiam melhor: usar a movimentação e a força devastadora dos arqueiros montados para investigar e enfraquecer a linha inimiga. Então, quando chegasse o momento adequado, eles poderiam atacar com sabres e lanças e terminar o serviço. Esses homens não costumavam soltar gritos de batalha nem usar atitudes teatrais.
Aquele era um dia de trabalho normal para eles.
— Suas ordens — Haz’kam disse. — Prestem atenção aos meus comandos.
Ele virou o cavalo, pronto para voltar para a colina onde tinha instalado sua posição de comando. Bandeiras de sinalização já estavam começando a dar ordens para o ataque-padrão. Quando uma voz vindo de trás o fez parar.
— General! — era Bin’zak.
Ele tinha deixado de lado o título honorífico de "shan" e se dirigiu a ele usando o título militar. O general encarou o desacreditado coronel da inteligência e esperou que ele continuasse a falar.
— Permissão para cavalgar com um dos ulans, senhor — Bin’zak pediu de cabeça erguida.
Ulan era a palavra Temujai para o grupo de 60 cavaleiros que formava a unidade básica da força Temujai. Haz’kam pensou no pedido. Normalmente, oficiais de campo graduados não se envolviam de perto nessa parte das batalhas. Eles não tinham necessidade de provar sua coragem ou dedicação. O general finalmente assentiu.
— Concedida — ele replicou e impeliu o cavalo de volta para a posição de comando.


— E agora? — Ragnak perguntou irritado, enquanto observava a cavalaria Temujai se organizando em grupos.
Halt também observava com os olhos semicerrados.
— Acho que chegamos ao fim dos movimentos iniciais. Agora eles vão nos atacar para valer.
Halt apontou com o arco indicando a linha de cavaleiros montados virados para eles.
— Eles vão lutar com seus ulans, 60 homens em cada unidade, nos atacar ao longo de toda a linha e se afastar antes que possamos reagir. A ideia é atingir o máximo possível de nossos homens com flechas antes de lançar um ataque concentrado num ponto selecionado.
— E qual seria? — Erak perguntou.
Essa conversa sobre táticas o deixava cada vez mais irritado. Tudo o que queria era cerca de uma dezena de Temujai ao alcance de sua acha. Agora parecia que ele teria que continuar a esperar que isso acontecesse.
Halt se virou para o sinalizador com a corneta.
— Dê o toque de "preparar" para os arqueiros — ele ordenou e, quando o homem soprou uma série de notas longas e curtas, ele respondeu à pergunta de Erak. — Qualquer lugar onde o general deles decidir que criaram um ponto fraco em nossa linha.
— E o que fazemos enquanto esperamos que ele tome essa decisão? — Ragnak perguntou irritado.
Halt sorriu para si mesmo. “Paciência certamente não é a maior virtude dos escandinavos”, ele pensou.
— Vamos surpreendê-los com nossos arqueiros — ele explicou. — E vamos tentar matar tantos inimigos quanto pudermos antes que eles se acostumem com o fato de que alguém está revidando.


Todos os cem arqueiros de Will ouviram o sinal da corneta e houve uma movimentação instantânea entre eles. Ele levantou a mão para acalmá-los.
— Fiquem abaixados! — pediu.
Will falou com tranquilidade e ficou satisfeito por sua voz não tremer. “Talvez essa seja a resposta para o futuro”, ele pensou. Ele subiu no degrau que tinha sido construído para ser sua posição de comando. Horace, com o escudo preparado, estava ao seu lado. As defesas de vime ainda escondiam os arqueiros, mas, quando o momento chegasse, elas seriam postas de lado e os soldados com os escudos teriam a responsabilidade de protegê-los da tempestade de flechas que os Temujai mandariam naquela direção em resposta ao ataque.
Abaixo da posição mais visível de Horace e Will, protegida pela trincheira e pelas defesas de vime, Evanlyn estava agachada na posição de onde tinha uma visão nítida da linha de arqueiros.
As tropas reunidas de cavaleiros começaram a se movimentar, trotando lentamente no início e depois aumentando a velocidade. Will podia ver que, agora, cada homem estava armado com um arco.
Eles cavalgaram ruidosamente na direção da linha escandinava, não em uma linha comprida como tinham feito antes, mas em grupos separados de 12 homens. A cem metros dos escandinavos, os grupos se viraram de modo a se dirigir para 12 direções diferentes e mandaram uma saraivada de flechas depois da outra por cima das linhas escandinavas.
Will tamborilou os dedos nervosamente nas defesas à sua frente. Ele queria entender o padrão Temujai antes de dar ordens para os seus homens. A primeira surpresa teria o potencial máximo de desintegrar o inimigo, e ele queria ter certeza de não perde-la.
Os escandinavos apanharam a maioria das flechas atiradas pelos Temujai com os escudos erguidos provocando um estrépito contínuo no ar. Mas não desviaram todas. Homens caíam ao longo das linhas escandinavas e eram arrastados para fora da linha de batalha pelos que estavam atrás e logo os substituíam. A segunda e terceira fileiras de escandinavos ergueram os escudos para o alto a fim de protegê-los contra o ataque violento, enquanto a fileira dianteira apresentava seus escudos para o choque frontal e direto.
Foi um estratagema eficiente, mas impedia os homens de enxergar a aproximação dos Temujai. Naquele momento, enquanto Will olhava, um grupo de 60 homens rapidamente ergueu os arcos, desembainhou os sabres e disparou na direção da linha escandinava num ataque impiedoso, matando uma dezena de homens antes que os escandinavos percebessem sua presença. Quando os escandinavos se reorganizaram e se movimentaram para contra-atacar, os Temujai recuaram rapidamente e outro ulan, esperando essa oportunidade, disparou uma nova chuva mortal de flechas sobre a muralha de escudos desestruturada.
— Precisamos fazer alguma coisa — Horace murmurou.
Will levantou a mão pedindo silêncio. O movimento aparentemente aleatório de ulans Temujai realmente obedecia a um padrão complexo e, agora que o tinha visto, podia prever seus movimentos.
Os cavaleiros estavam virando novamente, galopando para longe da linha escandinava para se reorganizar. Atrás deles, mais de 50 escandinavos jaziam mortos, vítimas das flechas ou dos sabres impiedosos dos Temujai. Meia dúzia de corpos do inimigo estava caída ao longo das defesas onde os ulans tinham feito seu ataque-relâmpago.
Os cavaleiros Temujai tinham voltado para as suas linhas. Eles levaram os cavalos para descansar e recuperar o fôlego, enquanto outros dez ulans assumiram o ataque. Eles seguiriam o mesmo padrão, obrigando os escandinavos a se abrigar atrás dos escudos e então, quando não estivessem enxergando, os atacariam com os sabres e, finalmente, disparariam uma saraivada depois de outra de flechas enquanto os próprios homens recuavam, deixando uma abertura na muralha de escudos. Era simples. E eficiente. E esse fato carregava uma inevitabilidade mortal.
Naquele momento, os ulans recomeçaram a voltar, girando e galopando, como se fosse uma dança. Will concentrou a atenção numa tropa no centro da linha, sabendo que ela iria prescrever uma curva, girar e depois se aproximar na diagonal.
— Abaixe as defesas — ele murmurou para Horace.
— Escudos! Descobrir! — o robusto aprendiz gritou.
Os homens que levantavam os escudos se apressaram a derrubar as paredes de vime deixando os arqueiros atrás de uma trincheira da altura da cintura e com uma visão clara do campo.
— Prontos! — Evanlyn avisou indicando que cada homem na linha de arqueiros tinha uma flecha preparada na corda.
Agora dependia de Will.
— Meia esquerda! — ele gritou, e todos os arqueiros viraram na mesma direção. — Posição dois!
Uma centena de braços se levantou no mesmo ângulo enquanto Will observava o grupo de cavaleiros que se aproximava, visualizando os Temujai a galope e a chuva de flechas que convergiam para atingir o mesmo ponto no tempo e no espaço.
— Descer meio ponto... preparar!
A altura foi corrigida e uma centena de flechas foi preparada nas cordas. Ele parou, contou até três para garantir que não era cedo demais e então gritou:
— Atirar!
O som deslizante e sibilante lhe disse que as flechas estavam a caminho. Imediatamente, os arqueiros pegaram as próximas setas.
Horace, pronto para dar ordens aos escudeiros, esperou. Eles não estavam sofrendo nenhum ataque direto no momento e não havia necessidade de perturbar a sequência de disparos e recarregamento nesse momento.
Então a primeira saraivada atingiu seu objetivo.
Talvez tivesse sido um golpe de sorte. Talvez tivesse sido o resultado de semanas de prática, hora após hora, mas Will tinha dirigido aquela primeira saraivada quase com perfeição total. Uma centena de flechas descreveu uma curva e atingiu os ulans a galope e, pelo menos 20 delas, atingiram o alvo.
Homens e cavalos gritaram de dor quando desabaram no chão. E, no mesmo instante, a formação disciplinada e estruturada dos ulans foi destruída. Os que não estavam feridos pelas flechas se depararam com os camaradas e seus cavalos que caíam e rolavam no chão. E, quando cada homem atingido caía, levava outro com ele ou fazia com que mudasse violentamente de direção, puxando as rédeas do cavalo, até que a formação rígida tivesse se tornado uma massa confusa de animais e homens que mergulhavam na terra.
— Pronto! — Evanlyn avisou.
De sua posição, ela não conseguia ver o resultado. Rapidamente, Will se deu conta de que tinha a oportunidade de desferir um golpe no inimigo.
— Mesmo alvo. Posição dois. Preparar... — ele ouviu o raspar de flechas contra os arcos quando os homens puxaram a mão direita para trás até que as pontas empenadas das setas tocaram suas faces.
— Disparar!
Outra saraivada sibilante se afastou na direção do emaranhado de homens e cavalos. No mesmo instante, Will gritava para seus homens que recarregassem. Na pressa, alguns deixaram as flechas caírem enquanto tentavam ajustá-las à corda. Numa decisão sensata, Evanlyn decidiu não esperar até que todos tivessem se recuperado.
— Pronto! — ela gritou.
— Mesmo alvo. Posição dois. Preparar...
Eles tinham a distância e a direção, e a tropa Temujai presa, no mesmo lugar, estava impedida de se mover perdendo sua mais valiosa proteção, a mobilidade.
— Disparar! — Will gritou sem se importar com a voz trêmula de excitação, e uma terceira saraivada estava a caminho.
— Escudos! — Horace ordenou empurrando o próprio escudo para a frente para cobrir a si mesmo e ao amigo.
Ele tinha visto que alguns ulans tinham finalmente notado o que estava acontecendo e estavam cavalgando para revidar o ataque. Alguns segundos depois, ele sentiu o martelar das flechas contra o escudo e ouviu o estalo quando elas atingiram outros escudos ao longo da linha de arqueiros.
Os Temujai não tinham como enviar um esquadrão com sabres na direção dos arqueiros. Halt tinha colocado Will e seus homens de um dos lados e atrás da principal linha de defesa escandinava. Para chegar até eles, os Temujai teriam que lutar com os guerreiros inimigos e suas achas.
A tropa que Will tinha reunido tinha disparado três saraivadas em alvos cuidadosamente escolhidos – cerca de 500 flechas numa rápida sucessão. Não sobreviveram mais do que dez homens. Os corpos dos outros cobriam o chão. Os cavalos sem cavaleiro estavam se afastando a galope, relinchando apavorados.
Agora, quando os outros cavaleiros viraram e se afastaram na direção das próprias linhas, Will enxergou mais uma oportunidade. Outros dois ulans estavam cavalgando muito perto e ainda estavam ao alcance de seus homens.
— Escudos para baixo — ele disse a Horace, e o guerreiro passou a ordem adiante.
— Alvo à frente. E a meio... Posição três... preparar... — novamente, ele se obrigou a esperar para ter certeza. — Atirar!
As flechas, escuras contra o azul-claro do céu, prescreveram um arco sobre a cavalaria em retirada.
— Escudos! — Horace gritou quando as flechas atingiram o objetivo e cerca de outra dezena de Temujai caiu das selas.
Atrás da proteção do grande escudo retangular, ele e Will trocaram sorrisos.
— Acho que isso foi muito bom — disse o aprendiz de arqueiro.
— Foi muito bom mesmo! — o aprendiz de guerreiro concordou.
— Pronto! — Evanlyn avisou mais uma vez, o olhar preso nos arqueiros quando eles ajustaram as flechas aos arcos.
O chamado lembrou a Will, um pouco tarde, que ela não tinha como saber que o primeiro movimento tinha sido bem-sucedido.
— Desçam! — Will ordenou.
Não havia sentido em manter os homens preparados e tensos enquanto os Temujai estavam se reorganizando.
— Suba aqui e venha ver os resultados — ele disse para a amiga chamando-a com um gesto.

2 comentários:

  1. Alguma coisa vai dar errado cm a Evanlyn... Só pode

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