28 de junho de 2016

Capítulo 32

Halt e Horace não se surpreenderam quando, na noite que se seguiu ao combate injusto, o chefe dos guardas lhes disse que lorde Deparnieux esperava a companhia deles na sala de refeições para o jantar. Era uma ordem, não um convite, e Halt não sentiu necessidade de fingir que fosse outra coisa. Ele não demonstrou ter ouvido a mensagem do soldado e apenas se virou para olhar pela janela. O sargento tampouco se incomodou com aquela reação. Ele se virou e retomou o posto no alto da escada em espiral que levava para a sala de jantar. Ele tinha entregado a mensagem. Os estrangeiros a tinham ouvido.
Naquela noite, eles tomaram banho, vestiram-se e caminharam juntos pela escada circular até o andar inferior do castelo provocando um barulho agudo com as botas enquanto andavam. Eles tinham passado o final da tarde discutindo um plano de ação para a noite e Horace estava ansioso para pô-lo em prática. Quando chegaram às portas duplas de 3 metros de altura, Halt pôs uma das mãos em seu braço e fez que parasse. Ele via a impaciência no rosto do jovem rapaz. Eles estavam presos ali por semanas ouvindo as zombarias e os insultos velados de Deparnieux e vendo o tratamento barbaramente cruel dispensado aos empregados. Os incidentes com a cozinheira e o jovem cavaleiro tinham sido apenas dois entre muitos. Halt sabia que Horace, com a impaciência de todos os jovens, estava ansioso para ver Deparnieux punido. Ele também sabia que o plano que tinham arquitetado dependeria de paciência e da escolha do momento certo.
Halt tinha percebido que a necessidade de Deparnieux de parecer invencível para seus homens era uma fraqueza que eles poderiam explorar. O cavaleiro tinha criado uma situação em que se via forçado a aceitar qualquer desafio que pudesse ser apresentado, contanto que fosse feito diante de testemunhas. Não poderia haver reclamações ou rodeios da parte do comandante. Se ele aparentasse sentir medo ou relutasse em aceitar um desafio, isso seria o começo de uma longa espiral descendente.
Agora, quando pararam, Halt encontrou o olhar ansioso e esperançoso de Horace e o encarou com seu olhar firme, paciente e calculista.
— Lembre-se — ele disse — só quando eu der o sinal.
Horace concordou. Suas faces estavam ligeiramente coradas pelo entusiasmo.
— Entendi — ele disse controlando a ansiedade com alguma dificuldade.
Ele sentiu a mão do arqueiro no braço e percebeu que o olhar firme ainda estava preso no dele. Respirou fundo três vezes para acalmar as batidas do coração e fez outro gesto concordando, desta vez com mais firmeza.
— Eu entendo, Halt — repetiu, enquanto encarava o arqueiro. — Não vou estragar as coisas — garantiu ao amigo. — Esperamos demais por esse momento e estou consciente disso. Não se preocupe.
Halt o analisou por outro longo momento. Então, satisfeito com a mensagem silenciosa que viu nos olhos do garoto, assentiu e soltou o braço dele. Ele empurrou as portas duplas para frente, fazendo-as bater nas paredes dos dois lados. Juntos, Horace e Halt marcharam para dentro da sala de jantar onde Deparnieux esperava os dois.
A refeição servida foi outro exemplo decepcionante da alardeada cozinha galesa. Para o gosto de Halt, os pratos dispostos à sua frente dependiam excessivamente de uma combinação um tanto enjoativa de muito creme e alho em excesso. Ele comeu pouco, porém notou que Horace, com o apetite de um jovem, engolia toda a comida que era colocada à sua frente.
Durante toda a refeição, o comandante manteve um constante fluxo de sarcasmo e desdém, referindo-se à falta de jeito e à estupidez, de seus criados e à exibição tola feita pelo cavaleiro desconhecido no dia anterior. Como era seu hábito, Halt tomou vinho com a refeição, enquanto Horace se contentou com água. Quando tinham terminado de comer a comida pesada e excessivamente forte, criados trouxeram jarras de café para a mesa.
Halt tinha que admitir que isso era algo que os galeses faziam com grande habilidade. O café era delicioso, muito melhor do que qualquer outro que já tinha provado em Araluen. Ele sorveu a bebida quente e perfumada olhando por cima da borda da xícara para Deparnieux, que observava os dois com o sorriso desdenhoso habitual.
Naquele momento, o cavaleiro galês tinha chegado a uma decisão sobre Halt. Ele acreditava que não havia nada a temer do estrangeiro de barba grisalha. Era óbvio que o homem tinha habilidade com o arco, provavelmente com trabalhos em madeira e em se movimentar sem ser percebido. Mas, no que se referia aos seus temores originais de que Halt pudesse ter habilidades misteriosas de feitiçaria, tinha certeza de que havia se enganado.
Agora que se sentia seguro, Deparnieux não conseguia resistir à tentação de atacar Halt com mais zombarias e insultos do que antes. O fato de ter estado cauteloso com o homem barbado por algum tempo apenas serviu para redobrar seus esforços para deixá-lo desconfortável.
O comandante apreciava brincar com as pessoas. Ele adorava deixá-las sem saber o que fazer, vê-las sofrer ou se enfurecer diante dos ataques de sua língua sarcástica. E, à medida que seu desdém por Halt crescia, o mesmo acontecia com sua total indiferença em relação a Horace. Cada vez que os três jantavam juntos daquela forma, ele esperava ansioso o momento em que pudesse dispensar bruscamente o jovem musculoso e enviá-lo, com o rosto afogueado de raiva e constrangimento, de volta à torre. Decidiu que agora era o momento de repetir a dose.
Ele inclinou a pesada cadeira para trás e esvaziou o cálice de prata que segurava na mão esquerda. Com desdém, acenou na direção do garoto com a outra mão.
— Nos deixe, garoto — ordenou, recusando-se até a olhar para Horace.
Ele sentiu uma distinta onda de prazer quando o rapaz, depois de uma breve pausa e um rápido olhar para o companheiro, se levantou devagar e respondeu com uma palavra.
— Não.
A negativa ficou pairando no ar entre eles. Deparnieux exultou com a rebeldia do menino, mas não permitiu que nenhum sinal disso aparecesse em seu rosto. Em vez disso, franziu a testa, fingindo aparente desprazer. Ele se virou lentamente para encarar o rapaz. Ele viu que a respiração de Horace estava mais rápida por causa da adrenalina que corria em suas veias, agora que esse momento vital finalmente tinha chegado.
— Não? — Deparnieux repetiu como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo. — Sou o senhor deste castelo e aqui minha palavra é lei. Minha vontade é uma ordem para todos os outros. Você tem a indelicadeza de me dizer “não” no meu próprio castelo?
— Já se foi o tempo em que a sua palavra devia ser obedecida sem perguntas — Horace respondeu com cuidado, franzindo a testa enquanto se esforçava para se limitar às palavras exatas que Halt tinha ensinado. — O senhor perdeu o direito de ser obedecido por causa de suas ações não cavalheirescas.
— Está desafiando meu direito ao comando em meu próprio terreno? — ele indagou ainda fingindo desprazer.
Horace hesitou mais uma vez, certificando-se de pronunciar bem sua resposta. Como Halt tinha lhe dito, cuidado naquele momento era de fundamental importância. Na verdade, como Horace sabia muito bem, era uma questão de vida ou morte.
— Chegou o momento de esse direito ser questionado — ele respondeu depois de uma pausa.
Deparnieux, com um sorriso maldoso em sua feição sombria, levantou-se da cadeira, inclinou-se para a frente sobre a mesa e pousou as duas mãos na superfície lisa de madeira.
— Então está me desafiando? — ele perguntou sem conseguir esconder o prazer na voz. Horace, contudo, fez um gesto hesitante.
— Antes de proferir qualquer desafio, exijo que o respeite — ele disse, e o cavaleiro franziu a testa levemente.
— Respeitar? — ele repetiu. — O que quer dizer, seu cachorro chorão?
Horace balançou a cabeça teimoso, ignorando o insulto.
— Eu quero uma garantia de que você vai cumprir os termos do desafio. E quero que o faça diante de seus homens.
— Ah, você quer, não é mesmo?
Agora, a raiva na voz de Deparnieux não era uma suposição. Ela era real. Ele tinha percebido para onde o garoto induzira a conversa.
— Acho que o garoto pensa que o senhor governa pelo medo, lorde Deparnieux — Halt interrompeu com calma.
— E o que isso tem a ver com você, arqueiro? — ele perguntou, embora já imaginasse saber a resposta.
— Os seus homens estão com você por causa de sua reputação de guerreiro — Halt respondeu com indiferença, depois de dar de ombros. — Acho que Horace preferiria ver o desafio ser apresentado e aceito diante de seus homens.
Deparnieux franziu a testa. Como, de certa forma, o desafio já tinha sido apresentado diante de alguns de seus homens, ele sabia que não tinha escolha senão ceder. Um comandante que só aparentasse mostrar medo de um jovem de 16 anos teria pouco respeito por parte dos homens que comandava, ainda que vencesse a batalha resultante.
— Você acha que tenho medo do desafio desse garoto? — ele indagou sarcástico.
— Nenhum desafio foi apresentado... ainda — Halt retrucou e ergueu a mão num gesto de advertência. — Só estamos preocupados em garantir que o senhor tenha a coragem de honrar qualquer desafio que possa surgir.
Deparnieux resmungou aborrecido diante das palavras cuidadosas do arqueiro.
— Agora estou vendo o que realmente pretende, arqueiro — ele respondeu. — Pensei que você fosse um feiticeiro, mas percebo que não é mais do que um advogado desprezível brincando com palavras.
Halt mostrou um leve sorriso e inclinou um pouco a cabeça. Ele não respondeu e o silêncio se estendeu entre eles. Deparnieux olhou rapidamente para os dois sentinelas parados ao lado das enormes portas duplas do salão de jantar. Seus rostos mostravam o interesse na cena que se desenrolava. Os detalhes se espalhariam por todo o castelo, rapidamente, se ele recusasse o desafio ou tentasse ganhar uma vantagem desonesta sobre o garoto. Ele sabia que seus homens tinham pouco apreço por ele e que, caso não tratasse o desafio de forma correta, começaria a perdê-los. Talvez não imediatamente, mas aos poucos, um depois do outro, à medida que desertassem de seus postos e passassem para o lado de seus inimigos. E Deparnieux tinha muitos inimigos.
Ele olhou para o garoto. Não tinha dúvida de que podia vencer Horace numa luta justa, mas se ressentia do fato de que tinha sido manipulado para aceitar essa situação. No Chateau Montsombre, era Deparnieux quem preferia manipular. Ele se obrigou a sorrir e tentou parecer entediado com toda aquela situação.
— Muito bem — ele disse num tom indiferente — se é isso que deseja, vou cumprir os termos do desafio.
— E vai fazer isso diante de seus homens? — Horace ajuntou rapidamente, o que fez o cavaleiro olhar para ele de mau humor e abandonar qualquer fingimento de que gostava do garoto tagarela e de seu companheiro barbado.
— Sim — ele disparou para os dois. — Se preciso dizer isso letra por letra para agradar vocês, garanto minha aceitação na frente de meus homens.
Então Horace retrucou suspirando aliviado e começando a tirar uma das luvas presa ao cinto o desafio pode ser apresentado.
— O combate vai ocorrer daqui a duas semanas.
— Fechado — Deparnieux respondeu.
— ...no campo de grama em frente ao Château Montsombre...
— Concordo.
A palavra foi dita quase com raiva.
— ...diante de seus homens e dos outros ocupantes do castelo...
— Concordo.
— ...e deverá ser um combate mortal.
A voz de Horace hesitou um pouco ao pronunciar essa frase, mas ele olhou rapidamente para Halt, e o arqueiro balançou a cabeça levemente para lhe dar coragem.
E então o sorriso estreito, amargo e selvagem voltou aos lábios do dono do castelo.
— Concordo — ele disse novamente.
No entanto, desta vez a palavra foi quase ronronada.
— Agora continue, garoto, antes que perca a coragem e molhe as calças.
Horace inclinou a cabeça na direção do comandante e, pela primeira vez, sentiu-se no controle da situação.
— Que sujeito desagradável você é, Deparnieux — ele disse devagar, o que fez o cavaleiro negro se inclinar sobre a mesa e oferecer o queixo para o golpe ritual com a luva que provocaria o desafio e tornaria todo o acontecimento irreversível.
— Com medo, garoto? — ele replicou com desdém e então se encolheu quando uma luva o atingiu como uma ferroada.
Contudo, não foi a dor que o fez se encolher, mas sim a forma inesperada como tudo aconteceu, pois o garoto do outro lado da mesa não se moveu. Em vez disso, o arqueiro grisalho e barbado se levantou com velocidade e agilidade tais que não houve tempo para o cavaleiro reagir. Ele foi atingido no rosto com a luva que estivera segurando sob a mesa nos últimos minutos.
— Então eu desafio você, Deparnieux — o arqueiro afirmou.
E, por alguns segundos, o comandante sentiu a hesitação tomar conta dele quando viu o brilho de satisfação no fundo daqueles olhos firmes e determinados.

3 comentários:

  1. Boa Halt,agora tô começando a gostar...

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  2. Agr sim vai ficar interessante sah poha
    Ass:lana

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