29 de junho de 2016

Capítulo 31

— Posição dois... atirar!  Will gritou, e os cem braços dos arqueiros se ergueram no mesmo ângulo, prepararam e atiraram mais ou menos ao mesmo tempo.
O assobio forte foi aumentado uma centena de vezes e Will e Horace olharam com satisfação a nuvem escura de flechas que formou um arco sobre o espaço que as separava do alvo que tinha saltado para cima de repente. Evanlyn estava sentada numa velha carroça quebrada, alguns metros atrás da linha de arqueiros, observando a cena com interesse.
Eles podiam ouvir o baque característico e macio das flechas batendo na grama ao redor do alvo, e o estalo mais forte e claro das flechas que realmente o atingiam.
— Escudos! — Horace gritou.
Ao lado de cada arqueiro, um rapaz se adiantava com um escudo retangular de madeira no braço esquerdo e se posicionava para cobrir a si mesmo e ao arqueiro enquanto este recarregava. Aquela tinha sido uma ideia do aprendiz de guerreiro enquanto assistia às sessões de treinamento anteriores. Will adotou a melhoria imediatamente. Com apenas cem arqueiros, ele não podia se dar ao luxo de perder nenhum para o contra-ataque certo dos Temujai quando vissem seus homens em ação.
Will olhou rapidamente ao redor para se certificar de que seus homens estavam preparados para o próximo tiro. Então se virou para o campo de treino, esperando que o próximo alvo aparecesse.
— Pronto!
Quando a equipe de homens atrás dele puxou um conjunto de cordas, outro quadro saltou da grama. Mas, enquanto esperava para ver se os arqueiros estavam prontos, ele quase tinha perdido o movimento. E sentiu uma pontada de pânico. As coisas estavam caminhando depressa demais.
— Afastar! — ele gritou, desejando que sua voz não tremesse quando o fazia, e os rapazes que seguravam os escudos recuaram.
— Meia direita! Posição três... disparar!
Novamente eles ouviram o assobio deslizante e outra nuvem de flechas lançou sua sombra fugidia sobre o campo e crivou a área ao redor do alvo. No mesmo momento, outro alvo estava se levantando da grama, desta vez muito mais perto.
— Escudos! — Horace gritou novamente e mais uma vez os arqueiros ficaram abrigados do contra-ataque.
Quando deu a ordem, Horace fez a mesma coisa, escondendo Will atrás de um dos grandes escudos.
— Vamos, vamos — Will murmurou equilibrando-se ora num pé, ora noutro enquanto via os homens escolherem novas flechas e ajustarem-nas na corda.
Os arqueiros perceberam a pressa e correram para recarregar. A pressa exagerada deixou-os desajeitados. Três deles deixaram as flechas cair, outros remexeram nelas como principiantes. Frustrado, Will se deu conta de que linha que se contentar com os homens que estavam prontos. Ele olhou o alvo, mas os homens nas cordas o estavam puxando para que deslizasse na direção deles sobre as roldanas, numa velocidade igual ao avanço de um inimigo. A distância tinha diminuído depressa demais para que ele pudesse avaliar a situação. Enquanto observava os homens, perdeu concentração e a noção do campo de batalha.
Zangado, ele desceu da posição de comando, uma plataforma baixa construída no fim da linha de arqueiros.
— Parem! — ele pediu. — Vamos fazer uma pausa.
Ele percebeu que estava suando muito por causa da tensão e enxugou a testa com a ponta da capa. Horace soltou o escudo enorme e se juntou a ele.
— Qual é o problema? — ele quis saber.
— Não tem jeito — Will respondeu derrotado. — Não consigo vigiar os alvos e os homens ao mesmo tempo. Perco a noção do que estou fazendo. Você vai ter que observar os homens e me dizer quando eles estiverem prontos.
— Eu poderia fazer isso — Horace concordou, franzindo o cenho. — Mas acho que no dia vou estar um pouco ocupado protegendo você do revide. Eu também preciso ficar de olho no inimigo. A menos que você queira se transformar numa almofada para alfinetes.
— Bom, alguém vai ter que fazer isso! — Will retrucou zangado. — Nós nem começamos a praticar contra os kaijin e tudo já está indo pelo ralo!
Halt tinha contado a eles sobre os kaijin. Eles eram peritos atiradores e cada grupo de 60 Temujai levava um com ele. Os kaijin tinham a função de atirar nos líderes de cada grupo inimigo. Will teria a tarefa de neutralizá-los, e para isso tinha criado um exercício com alvos extras e menores colocados no campo, prontos para surgirem inesperadamente. Mas, se Will estava dividindo a atenção entre os próprios arqueiros e o inimigo, as chances de anular os peritos do inimigo seriam realmente muito baixas. Por outro lado, sua chance de ser atingido por um deles era consideravelmente maior.
— Eu posso fazer isso — Evanlyn ofereceu, e os dois garotos se viraram.
Ela viu a dúvida na expressão dos dois.
— Eu posso fazer isso. Posso ficar de olho nos arqueiros e avisar quando estiverem prontos.
— Mas isso vai pôr você na linha de batalha! — Horace protestou no mesmo instante. — Vai ser perigoso!
Evanlyn discordou com um gesto e percebeu que Will ainda não tinha objetado. Ela notou que ele estava considerando a ideia. Evanlyn se apressou a continuar antes que ele pudesse vetar a sugestão.
— Os arqueiros não estão realmente na linha de frente. Vocês estariam atrás dela protegidos por uma trincheira e um monte de terra. Você poderia construir um abrigo numa das pontas, abaixo de sua posição de comando. Lá vou ficar a salvo de flechas. Afinal, não preciso ver o inimigo, apenas os nossos homens.
— Mas e se os Temujai atravessarem nossa linha? — Horace argumentou. — Você vai ficar bem no meio dela!
— Se os Temujai atravessarem, não vai fazer diferença onde eu estiver. Todos nós vamos morrer. Além disso, se todos estão se arriscando, por que eu também não posso?
Horace era esperto o bastante para não responder "porque você é uma garota". E ele tinha que admitir que ela estava certa. Mas não estava convencido e se virou para Will.
— O que você acha, Will? — ele indagou, esperando que o aprendiz de arqueiro concordasse com ele, mas ficou surpreso quando Will não respondeu imediatamente.
— Acho que talvez ela tenha razão — o garoto disse devagar. — Vamos tentar.


— Pronto! — Evanlyn disse com calma.
Ela estava agachada embaixo da plataforma onde Will e Horace se encontravam.
— Afastar! — Horace gritou, e aqueles que seguravam os escudos se ajoelharam ao lado dos arqueiros.
— Esquerda, esquerda! Posição um... atirar!
Os tiros foram imperfeitos e Will sabia que tinha sido culpa dele. Ele tinha proferido a ordem de atirar um pouco rápido demais e alguns dos homens ainda não tinham esticado a corda do arco completamente. Mentalmente, deu-se um chute. Escutou Horace pedir os escudos novamente e viu as flechas que tinham atingido o alvo e também as que tinham caído no chão.
Mas, outro perigo os ameaçava. Quando o próximo alvo grande saltou e começou a se mover na direção deles, outro menor saiu de dentro do alvo que tinham acabado de preparar. Tratava-se de uma figura do tamanho de um homem, e era responsabilidade de Will atingi-lo. Ele armou o arco, soltou a flecha e a viu atingir o alvo no exato momento em que Evanlyn gritou "pronto" mais uma vez. Ele voltou a atenção rapidamente para o alvo principal quando Horace mandou os que seguravam os escudos se abaixarem.
— Esquerda! Posição três... — ele esperou e então corrigiu. — Para baixo meio...
Ele se obrigou a esperar um pouco e então acrescentou:
— Atirar!
Desta vez, as setas foram disparadas ao mesmo tempo e a maioria atingiu o alvo ou caiu muito perto. Se fosse um grupo de cavaleiros no ataque, os arqueiros teriam derrubado uma grande quantidade.
— Escudos! — Horace gritou, e o padrão começou a se repetir. Mas Will acenou com a mão cansada.
— Descansar — ele disse, e Horace repetiu a ordem em voz mais baixa.
Os arqueiros e os escudeiros, que tinham treinado esse exercício nas últimas duas horas com apenas pausas rápidas, deixaram-se agradecidos cair na grama para descansar.
Horace sorriu para Will.
— Nada mal — ele disse. — Acho que, de 25 alvos, 20 foram atingidos. E você derrubou todos os kaijin.
Os alvos menores presos a cada um dos grandes representavam os kaijin. Sem precisar verificar os seus homens e os inimigos, Will tinha dado conta do recado com facilidade.
— É verdade — Will concordou respondendo ao comentário do amigo. — Mas eles não estavam revidando o ataque.
Secretamente, estava satisfeito com seu desempenho. Ele tinha atirado bem, apesar das distrações envolvidas em avaliar a distância e a trajetória para um grupo maior. Ele sorriu para Horace e Evanlyn. Era bom sentir que um pouco do velho companheirismo tinha voltado.
— Bom trabalho, todos vocês — ele elogiou e ergueu a voz: — Vamos fazer uma pausa de meia hora.
Houve um murmúrio de satisfação por parte dos arqueiros e eles foram para o lado da área de treino onde havia barris de água potável. Atrás de Will, ouviu-se uma voz conhecida.
— Descanse o resto do dia. Você fez o bastante por hoje.
Os três jovens araluenses se viraram ao som da voz de Halt. No mesmo instante, Will se sentiu revigorado e explodindo de curiosidade sobre os acontecimentos na baía de Sand Creek.
— Halt! — ele exclamou ansioso. — O que aconteceu? Os Temujai estavam lá? Vocês conseguiram enganar eles?
Mas Halt ergueu uma das mãos para interromper a enxurrada de perguntas que sabia que iria enfrentar. Ele estava preocupado com o que tinha acabado de ver ao se aproximar.
— Por que você envolveu Evanlyn nisso, Will? — ele indagou.
Ele viu a hesitação nos olhos do rapaz e depois seu maxilar se cerrar determinado.
— Porque eu precisava dela, Halt. Eu precisava de alguém para ficar de olho nos homens e me avisar quando estivessem prontos. Sem isso, nosso sistema não funciona.
— Não havia mais ninguém para fazer isso?
— Não consigo pensar em mais ninguém em quem confio. Quero alguém que não entre em pânico. Alguém que mantenha a cabeça no lugar.
— E como você sabe que Evanlyn não vai entrar em pânico? — Halt perguntou coçando a barba, pensativo.
A resposta veio imediatamente.
— Por que foi o que aconteceu em Céltica, na ponte.
Halt olhou para os três rostos jovens à sua frente. Firmes. Determinados. Ele sabia que Will tinha razão. Ele iria precisar de alguém em quem pudesse confiar.
— Tudo certo, então — ele concordou. — Mas não fiquem tão felizes com isso — ele acrescentou, quando os três olharam contentes para ele. — Eu é que vou ter que contar ao pai dela se ela for atingida.
— Mas e os Temujai? — Will quis saber. — Vocês encontraram eles na baía de Sand Creek?
Diante da menção da trama de Slagor, o sorriso desapareceu do rosto de Evanlyn e foi substituído por uma expressão ansiosa.
— Eles estavam lá — Hall contou depressa afastando os piores temores da garota. — E deixaram claro que estavam esperando ver Slagor. — Ele fez um gesto de cabeça para a garota quando ela soltou um forte suspiro de alívio. — No que se refere a você, isso muda bastante as coisas, princesa — ele ajuntou.
— Ragnak ainda tem o juramento — ela disse desanimada.
— É verdade — o arqueiro concordou. — Mas ele concordou em não agir até nos livrarmos dos Temujai.
Evanlyn fez um pequeno gesto hesitante com as mãos.
— Isso só serve para adiar as coisas.
— Problemas adiados costumam se resolver sozinhos com muita frequência — Halt lhe disse e colocou um dos braços ao redor dos ombros magros da garota.
Evanlyn sorriu para ele com tristeza.
— Se você diz... — ela respondeu. — Mas, Halt, por favor, não me chame de "princesa". Não tem sentido lembrar Ragnak disso a toda hora.
— Você tem razão — o arqueiro concordou. — Por falar nisso, não tem necessidade de contar para ele, mas não fique surpresa demais se o navio de Erak ficar ancorado por perto para tirar você daqui assim que nos livrarmos desses Temujai — ele acrescentou em voz tão baixa que apenas Evanlyn escutou.
A garota o fitou com o olhar cheio de esperança. Hall a encarou e fez um gesto significativo com a cabeça. Evanlyn olhou para ele e depois para o robusto jarl escandinavo, que estava se aproximando pelo campo, e então se inclinou e beijou o arqueiro de leve no rosto.
— Obrigada, Halt — ela disse com suavidade. — Agora sei que existe uma alternativa.
O arqueiro deu de ombros e sorriu para ela.
— É por isso que estou aqui — ele replicou satisfeito por ver a luz da esperança voltar aos olhos dela.
Evanlyn sorriu para ele outra vez e se afastou na direção de seus aposentos. De repente, dominada pela sensação de alívio por Halt ter encontrado uma saída para seu problema, sentiu necessidade de ficar sozinha por alguns momentos.
Quando Erak se aproximou, alguns escandinavos que tinham trabalhado com os alvos o chamaram, pois queriam saber o que tinha acontecido na baía de Sand Creek. Quando o jarl confirmou a traição de Slagor, houve murmúrios zangados e olhares sombrios na direção do alojamento onde Slagor estava sob vigilância.
— E o que aconteceu com os Temujai, Erak? — Will perguntou. — Como vocês convenceram eles a desembarcar na Ilha Fallkork?
O riso de Erak tomou conta de todo o campo de treino.
— Nós quase tivemos que lutar com eles para que não descessem! — ele contou para os ouvintes ali reunidos. — Eles caíram uns sobre os outros para voltar para terra firme.
Os escandinavos na multidão parada em volta dele riram enquanto ele continuava.
— Consegui encontrar um lugar onde o vento soprava de trás, um mar violento à nossa frente e a maré alta pelo estreito ao mesmo tempo. Algumas horas depois, nossos fortes soldados montados pareciam carneirinhos. Carneirinhos doentes.
— Não foram só eles — Halt respondeu um pouco aborrecido. — Já viajei em mares tempestuosos, mas nunca senti nada parecido com o balanço que você nos fez enfrentar.
Mais uma vez, Erak estourou numa gargalhada.
— O seu mestre aqui ficou quase tão verde quanto a sua capa — ele contou para Will.
— Mas finalmente encontrei uma utilidade para o maldito capacete — Halt contou levantando uma sobrancelha e fazendo Erak parar de rir.
— Sim. Não sei bem o que vou contar a Gordoff sobre isso — Erak falou. — Ele me fez prometer que eu cuidaria desse capacete. É o seu favorito e está na família há muitos anos.
— Bem, ele certamente tem um toque diferente, agora — Halt ajuntou e Will notou que havia um quê de prazer maldoso em seus olhos.
O arqueiro fez um gesto de cabeça para o grupo de arqueiros que estavam assistindo à conversa.
— Parece que você está conseguindo bons resultados com esse grupo — ele disse.
Will ficou absurdamente satisfeito com o elogio do mentor.
— Ah — ele disse tentando parecer casual. — Até que estamos nos saindo bem.
— Pelo que eu vi, é bem melhor do que isso — Halt continuou. — E eu estava falando sério, Will — ele disse repetindo a sugestão anterior. — Diga para eles tirarem folga o resto do dia. Você também. Você merece um descanso. E, a menos que eu esteja enganado, nós vamos precisar de todo o descanso que pudermos nos próximos dias.

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