29 de junho de 2016

Capítulo 2

Os dois cavaleiros saíram do meio das árvores para uma campina aberta.
Ali, nos pés dos morros da Teutônia, a primavera que se aproximava estava mais visível do que nas altas montanhas que se elevavam à frente deles. A grama da campina já estava ficando verde e havia pontos isolados de neve em lugares normalmente cobertos de sombra na maior parte do dia.
Um espectador casual talvez se interessasse em observar os cavalos que seguiam os dois homens montados. De longe, os homens até poderiam ser confundidos com comerciantes que esperavam a primeira oportunidade de atravessar as passagens da montanha para a Escandinávia e, assim, se beneficiar dos preços altos que as primeiras mercadorias da estação teriam. Mas uma inspeção mais atenta teria mostrado que aqueles homens não eram comerciantes. Eram guerreiros armados.
O menor dos dois, um homem barbado vestido com uma estranha capa verde e cinza que parecia mudar e ondular enquanto andava, levava um arco longo pendurado nos ombros e uma aljava com flechas no alto da sela.
Seu companheiro era um homem maior e mais jovem. Ele usava uma simples capa marrom, mas o claro sol da primavera fazia a armadura de malha de ferro brilhar no pescoço e nos braços, e a bainha de uma longa espada aparecia debaixo da capa. Completando o quadro, tinha o escudo redondo pendurado nas costas e que exibia a efígie de uma folha de carvalho um tanto tosca.
Os cavalos combinavam tão mal quanto os homens. O jovem montava um baio alto: de pernas compridas, ancas e quartos fortes, o exemplo de um verdadeiro cavalo de batalha. Um segundo cavalo de raça, negro, trotava atrás dele preso a uma corda. A montaria do companheiro era consideravelmente menor, um cavalo desgrenhado de peito largo que mais parecia um pônei. Mas ele era robusto e parecia resistente. Outro cavalo, parecido com o primeiro, trotava atrás deles levemente carregado com o mínimo necessário para acampar e viajar. Ele seguia os outros obedientemente e de boa vontade.
Horace inclinou a cabeça para olhar a montanha mais alta que se elevava acima deles. Ele semicerrou os olhos por causa do brilho da neve que ainda formava uma camada grossa na metade superior da montanha e agora refletia a luz do sol.
 Você está dizendo que nós vamos passar por cima disso? — ele perguntou.
Halt olhou para ele de lado, com um leve sorriso nos lábios. Horace, porém, ocupado em analisar as formações montanhosas maciças à sua frente, nada percebeu.
— Passar por cima, não. Nós vamos atravessar.
— Lá tem um túnel ou alguma coisa parecida? — Horace indagou franzindo a testa.
— Uma passagem — Halt informou. — Um desfiladeiro estreito e sinuoso que contorna as montanhas e nos leva até a Escandinávia.
Horace pensou um pouco na informação. E logo Halt viu os ombros dele se levantarem, quando encheu os pulmões de ar, e previu que o movimento indicava mais uma pergunta. Ele fechou os olhos, lembrando-se de um tempo que parecia estar a anos de distância, quando estava sozinho e a vida não era uma série interminável de perguntas.
Então admitiu para si mesmo que, estranhamente, preferia as coisas como eram agora. Entretanto, ele certamente fez algum barulho involuntário enquanto esperava a pergunta, pois percebeu que Horace tinha fechado os lábios com firmeza e determinação. Estava claro que o rapaz tinha sentido a reação e resolveu não aborrecer Halt com outra pergunta. Pelo menos, não naquele momento. O que deixou Halt num dilema estranho, porque, agora que a pergunta não tinha sido feita, não conseguiu evitar imaginar o que poderia ser. De repente, foi dominado pela sensação incômoda de que alguma coisa estava incompleta naquela manhã. Ele tentou ignorá-la, mas foi impossível. E Horace parecia mesmo ter dominado o desejo quase irresistível de fazer a pergunta que tinha lhe ocorrido.
Halt esperou um ou dois minutos, mas não ouviu nenhum som além do tilintar dos arreios e o ranger do couro das selas. Finalmente, o ex-arqueiro não aguentou mais.
— O quê?
A pergunta pareceu explodir de dentro dele com mais violência do que tinha pretendido. Tomado de surpresa, o baio de Horace estremeceu assustado e deu vários passos para o lado, como se estivesse dançando.
Horace deu um olhar magoado para seu mentor enquanto acalmava o cavalo e o controlava.
 O quê? — ele repetiu para Halt e o homem menor fez um gesto desesperado.
 É isso o que eu quero saber — respondeu irritado. — O quê?
Horace espiou para ele. O olhar era, evidentemente, do tipo que se dá a alguém que parecia ter perdido a razão e não ajudou muito a melhorar o humor, cada vez pior, de Halt.
 O quê? — Horace repetiu agora totalmente confuso.
 Pare de me imitar como um papagaio — Halt protestou. — Pare de repetir o que eu falo! Eu perguntei “o quê”, portanto não me responda com outro “o quê”, entendeu?
Horace pensou na pergunta por uns dois segundos e então, do seu jeito calculado, respondeu:
— Não.
Halt respirou fundo. Sua testa estava profundamente franzida e, debaixo das sobrancelhas, seus olhos brilhavam de raiva. Mas, antes que pudesse falar, Horace se adiantou a ele.
— Que “o quê” você está me perguntando? — indagou, enquanto pensava em como deixar a pergunta mais clara. — Ou, melhor, por que está me perguntando "o quê"?
Sem esconder que estava se controlando com muito esforço, Halt resolveu continuar.
— Você ia me fazer uma pergunta — ele disse.
— Eu ia? — Horace retrucou franzindo a testa.
— Sim, ia. Eu vi quando respirou fundo para falar — Halt concordou.
— Entendo — Horace falou. — E sobre o que era a pergunta?
Por um breve momento, Halt ficou sem saber o que dizer. Ele abriu a boca, fechou-a outra vez e então, finalmente, encontrou forças para falar.
— Era isso o que eu estava perguntando para você — ele explicou. — Quando eu disse “o quê”, estava falando sobre o que você ia me perguntar.
— Eu não ia lhe perguntar “o quê” — Horace respondeu, e Halt olhou para ele desconfiado.
Ocorreu a ele que Horace talvez estivesse querendo lhe pregar uma tremenda peça, que estivesse rindo dele internamente. Halt poderia lhe dizer que essa atitude não seria muito boa para sua carreira. Arqueiros não eram pessoas que gostavam de ser motivo de risos. Ele analisou o rosto franco do garoto e os olhos azuis inocentes e chegou à conclusão que sua desconfiança não tinha razão de ser.
— Então o quê, se é que posso usar essa palavra mais uma vez, você queria me perguntar?
— Esqueci — Horace falou depois de respirar fundo e hesitar. — Do que a gente estava falando?
— Esqueça — Halt murmurou e cutucou Abelard, fazendo-o andar mais depressa por alguns metros para ficar à frente do companheiro.
Zangado, continuou a resmungar em voz baixa, e Horace conseguiu ouvir algumas frases, incluindo “aprendizes tolos que não conseguem lembrar o que estavam dizendo de uma hora para outra”. Depois disso, concluiu que Halt não estava nada satisfeito com a conversa confusa que tinham acabado de ter. Ele franziu a testa novamente, tentando se lembrar do momento em que tinha estado prestes a fazer a pergunta. Sentiu que, de certa forma, Halt merecia saber do que se tratava; o que é estranho, já que o arqueiro sempre suspirava e revirava os olhos quando ouvia uma pergunta.
“Às vezes, o arqueiro é um companheiro confuso”, Horace pensou. E, como acontecia tantas vezes, no momento em que parou de tentar lembrar o fato que tinha suscitado a pergunta, ela voltou à sua mente.
Desta vez, antes que se esquecesse dela ou se distraísse, ele a deixou escapar.
— Existem muitas passagens? — perguntou a Halt.
O arqueiro se virou na sela e olhou para trás.
— O quê? — ele perguntou.
Sabiamente, Horace resolveu ignorar o fato de que estavam se dirigindo para um território perigoso com essa palavra. Ele fez um gesto na direção das montanhas, franzindo a testa ao olhar para elas.
— Pelas montanhas. Existem muitas passagens para a Escandinávia pelas montanhas?
Halt verificou o passo de Abelard por um instante, deixando que o baio os alcançasse, e então retomou seu ritmo.
— Três ou quatro — ele informou.
— Mas então os escandinavos não as vigiam? — Horace quis saber. Parecia lógico que eles o fizessem.
— Claro que sim — Halt respondeu. — As montanhas formam a principal linha de defesa deles.
— Então como você planeja passar por elas?
O arqueiro hesitou. Aquela era uma pergunta que estava perturbando seus pensamentos desde que tinham tomado a estrada que saía do Chatêau Montsombre. Se estivesse sozinho, não teria dificuldades em passar por elas sem ser visto. Com Horace em sua companhia montado num cavalo de batalha grande e irrequieto, a tarefa poderia ser mais difícil. Ele tinha algumas ideias, mas ainda não havia se decidido por nenhuma delas.
— Vou pensar em alguma coisa — ele afirmou para ganhar tempo.
Com sensatez e certo de que Halt iria mesmo encontrar uma solução, Horace concordou. No mundo dele, era isso o que os arqueiros faziam melhor, e a melhor coisa que um aprendiz de guerreiro podia fazer era deixar que o arqueiro continuasse a pensar, enquanto ele cuidava de derrotar qualquer um que precisasse ser vencido ao longo do caminho. Satisfeito com o que a vida tinha lhe reservado, ele se ajeitou na sela.
Halt também se sentiu livre da dúvida incômoda. Agora sabia qual era a pergunta que tinha desaparecido dos lábios de Horace sem ser feita. Mas então a dúvida voltou, duas vezes mais forte.
Talvez essa tivesse sido outra pergunta, e a original ainda não tinha sido feita. Ele não aguentava não saber.
— Era isso o que você ia perguntar?
Um pouco surpreso Horace olhou para ele.
— O q...? — ele começou e então substituiu a frase por um comentário mais adequado. — Quer dizer, o que você disse?
— A pergunta sobre as passagens — Halt ergueu os ombros constrangido. — Era isso o que ia me perguntar antes? — ele perguntou no tom de quem sabia a resposta, mas apenas queria ter certeza.
— Acho que sim — Horace respondeu em dúvida. — Não tenho mais certeza... Você me deixou um pouco confuso — ele concluiu sem convicção.
E, desta vez, quando Halt continuou a cavalgar, Horace teve a certeza de ouvir muitas palavras que simplesmente não valiam a pena repetir.

6 comentários:

  1. kkkkkkkk. O que? O que? O que? O queeeeeeeeeeeeee? kkkkkkkkkk. Amei!
    Ass: Bina.

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  2. Que confusão hein? Kkkkkk

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  3. kkkkkkk nada ver o Halt está muito curioso

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  4. O quê? A sim, n pera o quê? Ha ta tendi ...... n hã o quê? Kkkkk morri di rir... O QUÊ? ????????
    ASS:lana

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  5. Obrigado Karina estava procurando este livro desde ontem quando terminei o 3 :3

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  6. kkkkkkkk Halt esta experimentando o mundo normal

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