28 de junho de 2016

Capítulo 2

Halt estava encostado imóvel no grosso tronco de um carvalho, enquanto os bandidos corriam para fora da floresta e cercavam a carruagem.
Ele não estava escondido, mas ninguém o via. Em parte, isso se devia ao fato de os ladrões estarem totalmente concentrados em suas presas, um mercador rico e sua mulher. Eles, por sinal, também estavam igualmente distraídos, olhando horrorizados para os homens armados que cercavam a carruagem na clareira.
Mas, principalmente, isso se devia à capa que usava e que o camuflava, ao capuz puxado sobre a cabeça que deixava o rosto na sombra e por estar totalmente imóvel. Como todos os arqueiros, Halt sabia o segredo de se confundir com a paisagem e ficar sem se mover, mesmo quando as pessoas pareciam estar olhando diretamente para ele.
Acredite que você não é visto, dizia o ditado dos arqueiros, e isso vai acontecer.
Uma figura corpulenta toda vestida de preto surgiu de entre as árvores e se aproximou da carruagem. Os olhos de Halt se estreitaram por um segundo e então ele suspirou em silêncio. “Outra caçada inútil”, pensou.
A figura se parecia ligeiramente com Foldar, o homem que Halt vinha procurando desde o fim da guerra com Morgarath. Foldar fora primeiro-tenente de Morgarath e tinha conseguido escapar quando seu líder morreu e seu exército de subumanos Wargals se desfez. Mas Foldar não era uma besta irracional. Ele era um ser humano capaz de pensar e planejar, totalmente corrompido e perverso. Filho de um nobre de Araluen, ele matou os próprios pais depois de uma discussão por causa de um cavalo. Na época, não era mais que um adolescente e escapou se escondendo nas Montanhas da Chuva e da Noite, onde Morgarath reconheceu um espírito semelhante ao seu e o recrutou. Agora era o único sobrevivente do bando de Morgarath, e o rei Duncan havia tornado sua captura e aprisionamento prioridade número 1 para as forças armadas do reino.
Entretanto, imitadores de Foldar estavam surgindo em todos os lugares, geralmente na forma de bandidos comuns, como aquele, e isso era um problema. Eles usavam o nome e a assustadora reputação do homem para amedrontar as vítimas, facilitando o trabalho de roubá-las. E, sempre que um deles aparecia, Halt e seus companheiros tinham que perder tempo seguindo-os. Ele sentiu a raiva queimar devagar por causa do tempo que estava desperdiçando com esse aborrecimento sem importância.
Halt tinhas outras questões a resolver. Ele tinha uma promessa a cumprir e estava sendo impedido por idiotas como aquele.
O falso Foldar tinha parado perto da carruagem. O casaco preto com colarinho alto lembrava um pouco o que Foldar usava. Mas Foldar era um janota, e seu casaco era feito de veludo e cetim preto imaculado, enquanto aquele era de lã comum, mal tingido e remendado em vários lugares, com um colarinho de couro preto desbotado. O gorro era feito de um tecido áspero e também estava amassado, e a pena negra de cisne que o enfeitava estava dobrada ao meio, provavelmente porque alguém havia sentado descuidadamente sobre ele. Agora o homem estava falando e sua tentativa de imitar o tom sarcástico e balbuciante de Foldar foi prejudicada pelos erros de gramática e pelo sotaque grosseiro do interior.
— Vamo descer da carruagem, senhor e madame — ele disse fazendo uma curvatura desajeitada. — E num tenha medo, madame, que o nobre Foldar não machuca ninguém tão bunita.
Ele tentou dar um sorriso sardônico e malvado que mais pareceu um cacarejo esganiçado.
A “madame” podia ser qualquer coisa, menos bonita. Ela era de meia idade, gorda e bastante comum. “Mas isso não é motivo para ser sujeitada a esse tipo de terror”, Halt pensou aborrecido. Ela recuou choramingando assustada ao ver o vulto negro diante dela. “Foldar” deu um passo à frente num tom de voz mais duro e ameaçador.
— Desça, dona! — ele gritou. — Ou vai receber as orelhas de seu marido de presente!
Sua mão direita foi até o cabo da longa adaga presa no cinto. A mulher gritou e se encolheu ainda mais na carruagem. O marido, igualmente apavorado e preferindo que as orelhas ficassem onde estavam, tentava empurrá-la na direção da porta.
“Já chega”, Halt pensou. Satisfeito por ninguém estar olhando para ele, apanhou uma flecha, ajeitou-a na corda, mirou e atirou.
“Foldar”, cujo verdadeiro nome era Rupert Gubblestone, teve a leve impressão de que algo passou como um raio bem na frente de seu nariz. Então ele sentiu um forte puxão na gola do casaco e se viu pregado contra a carruagem por uma flecha trêmula que entrou na madeira com um baque surdo. Soltou um pequeno grito assustado, perdeu o equilíbrio e tropeçou, salvo de cair pelo casaco, que agora começava a estrangulá-lo onde estava fechado ao redor do pescoço.
Quando os outros bandidos se viraram para ver de onde a flecha tinha vindo, Halt se afastou da árvore. No entanto, para os ladrões confusos, parecia que ele tinha saído de dentro do forte carvalho.
— Arqueiro do rei! — Halt chamou. — Larguem as armas.
Eram dez homens, todos armados, e nenhum deles pensou em desobedecer à ordem. Facas, espadas e porretes caíram com ruído no chão. Eles tinham acabado de ver um exemplo real da magia obscura de um arqueiro: a figura sombria tinha saído direto do tronco vivo de um carvalho. Mesmo naquele momento, a estranha capa que ele usava parecia tremular incertamente contra o fundo, tornando difícil a tarefa de enxergá-lo. E, se feitiçaria não fosse suficiente para obrigá-los a obedecer, eles podiam ver uma razão mais prática: o enorme arco com outra flecha de ponta negra já pronta na corda.
— De bruço no chão! Todos vocês!
As palavras chegaram até eles como um chicote e eles caíram no chão. Halt apontou para um deles, um jovem de cara suja que não devia ter mais que 15 anos.
— Você não! — ele disse, e o menino hesitou, apoiado nas mãos e joelhos. — Pegue os cintos e amarre as mãos deles nas costas.
O garoto apavorado fez que sim com a cabeça várias vezes, aproximou-se do primeiro dos colegas deitados e parou quando Halt lhe deu mais um aviso.
— E aperte bem! — o arqueiro mandou. — Se eu descobrir que um dos nós está solto, vou... — Ele hesitou um segundo, enquanto pensava numa ameaça apropriada, e então continuou: — Vou prender vocês dentro daquele carvalho ali.
“Isso deve servir”, ele pensou. Ele sabia do efeito que sua aparição inexplicável na frente da árvore tinha exercido naqueles interioranos ignorantes. Aquele era um estratagema que já tinha usado várias vezes. Ele viu o rosto do garoto empalidecer de medo debaixo da sujeira e soube que a ameaça tinha sido eficiente. Então voltou a atenção para Gubblestone, que puxava debilmente a tira de couro que prendia a capa que continuava a asfixiá-lo. O rosto do homem já estava vermelho e com os olhos saltados.
E eles ficaram ainda mais arregalados quando Halt desembainhou a pesada faca de caça.
— Ah, relaxe — Halt disse irritado.
Ele cortou a corda rapidamente e Gubblestone, livre de repente, caiu desajeitado no chão, aparentemente satisfeito por ficar ali, fora do alcance da faca cintilante. Halt olhou para os ocupantes da carruagem. O alívio em seus rostos era evidente.
— Acho que podem seguir viagem, se quiserem — disse satisfeito. — Esses idiotas não vão mais aborrecer vocês.
O mercador, lembrando-se com remorso de como tinha tentado empurrar a mulher para fora da carruagem, tentou disfarçar o constrangimento esbravejando.
— Eles merecem ser enforcados, arqueiro! Enforcados, eu digo! Eles aterrorizaram minha pobre mulher e me ameaçaram!
Halt olhou impassível para o homem, até que a explosão tivesse terminado.
— Pior do que isso — ele disse com calma — eles desperdiçaram o meu tempo.


— A resposta é não, Halt — Crowley afirmou.
Do mesmo jeito que foi da última vez que perguntou. Ele viu a raiva tomar conta de todo o corpo do velho arqueiro amigo parado à sua frente. Crowley detestava o que tinha de fazer, mas ordens eram ordens e, como comandante dos arqueiros, era sua função fazer que fossem cumpridas. E Halt, como todos os arqueiros, tinha que obedecê-las.
— Vocês não precisam de mim! — Halt explodiu. — Estou perdendo tempo caçando esses imitadores do Foldar em todo o reino, quando deveria estar procurando Will!
— O rei tornou Foldar sua prioridade número 1 — Crowley lembrou. — Cedo ou tarde, vamos encontrar o verdadeiro.
— E você tem 49 outros arqueiros para fazer esse serviço! — Halt protestou com um gesto de desespero. — Pelo amor de Deus, acho que isso é suficiente.
— O rei Duncan quer os outros 49. E ele quer você. Ele confia em você e conta com você. Você é o melhor que temos.
— Já fiz a minha parte Halt — respondeu devagar, e Crowley sabia o quanto o amigo ficava magoado ao dizer essas palavras.
Ele também sabia que sua melhor resposta seria o silêncio. Um silêncio que Crowley sabia que iria obrigar Halt a raciocinar um pouco mais e de um jeito que detestava.
— O reino deve para esse menino — Halt disse com um pouco mais de firmeza na voz.
— O garoto é um arqueiro — Crowley retrucou com frieza.
— Um aprendiz — Halt corrigiu, fazendo com que Crowley se levantasse, derrubando a cadeira por causa da violência do movimento.
— Um aprendiz aceita os mesmos deveres de um arqueiro. Sempre foi assim, Halt. A regra é igual para todos os arqueiros: o reino em primeiro lugar. Esse é nosso juramento. Todos o fizemos, você, eu, Will.
Houve um silêncio zangado entre os dois homens, que ficou ainda pior por causa dos anos que tinham vivido como amigos e camaradas. Crowley se deu conta de que Halt provavelmente era o seu melhor amigo. Agora, ali estavam eles, trocando palavras amargas e discutindo irritados. Ele estendeu a mão, endireitou a cadeira caída e fez um gesto de paz para Halt.
— Olhe — ele começou num tom mais suave — só me ajude a resolver essa questão do Foldar. Dois meses, talvez três e você pode ir procurar Will com minha bênção.
Halt já estava balançando a cabeça grisalha antes que seu chefe tivesse terminado.
— Ele pode estar morto em dois meses. Ou ser vendido como escravo e se perder para sempre. Preciso ir enquanto a pista ainda está fresca. Prometi a ele — acrescentou depois de uma pausa com a voz embargada pelo sofrimento.
— Não — Crowley repetiu com determinação.
Ao ouvir a resposta, Halt endireitou os ombros.
— Então vou falar com o rei — ele anunciou.
Crowley olhou para a escrivaninha.
— O rei não vai recebê-lo — ele disse simplesmente.
Ele olhou para Halt e viu surpresa e decepção no olhar do arqueiro.
— Ele não vai me receber? Ele se recusa a me ver?
Por mais de 20 anos, Halt tinha sido um dos maiores confidentes do rei, com acesso constante e inquestionável aos aposentos do monarca.
— Ele sabe o que você vai pedir, Halt. Não quer recusar seu pedido, então vai se recusar a ver você.
A surpresa e a decepção deixaram o olhar de Halt. Em seu lugar, ficou uma raiva amarga.
— Então vou ter que fazê-lo mudar de ideia — Halt disse com calma.

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