28 de junho de 2016

Capítulo 29

Evanlyn não tinha ideia de por quanto tempo estavam subindo aos tropeços a trilha coberta de neve. O pônei andava com dificuldade, de cabeça baixa e sem reclamar, carregando no lombo Will, que gemia baixinho. A própria Evanlyn continuava a caminhar sem pensar, amassando e fazendo ranger a neve que tinha acabado de cair. Finalmente, sentiu que não podia continuar. Ela cambaleou, parou e procurou um abrigo para o resto da noite.
Os ventos dominantes do norte dos últimos dias tinham formado uma grossa camada de neve ao lado dos pinheiros, deixando uma profunda depressão atrás dos troncos. Os galhos mais baixos das árvores maiores se espalhavam sobre essas cavidades, criando um abrigo debaixo da superfície da neve. Eles não só poderiam se proteger do mau tempo, já que a neve continuava a cair, como a depressão iria escondê-los do olhar casual de pessoas que porventura passassem pela trilha.
Não era, de modo algum, o esconderijo ideal, mas era o melhor disponível. Evanlyn conduziu o pônei para fora da trilha e se dirigiu para uma das maiores árvores que cresciam a alguns metros do caminho. Quase imediatamente ela afundou até a cintura na neve, mas se esforçou para continuar, puxando o animal atrás dela na trilha que abriu. Gastou quase todas as últimas reservas de força e finalmente tropeçou para dentro de um grande buraco atrás de uma árvore. O pônei hesitou e depois a seguiu. Will pelo menos teve a presença de espírito de se inclinar sobre o pescoço do animal para evitar ser arrancado da sela pelos galhos enormes do pinheiro cheios de neve.
O espaço debaixo da árvore era surpreendentemente grande e havia bastante lugar para os três. Com o calor de seus corpos no espaço mais ou menos fechado, estava bem menos frio do que Evanlyn tinha imaginado. O frio ainda era intenso, mas suportável. Ela ajudou Will a descer do lombo do pônei e o fez sentar. Ele ficou escarrapachado no chão com as costas apoiadas na casca áspera da árvore, enquanto ela procurava a mochila, onde encontrou dois cobertores grossos. Evanlyn envolveu os ombros do amigo com as cobertas e, depois se sentou ao lado dele e se cobriu também. Ela tomou uma das mãos dele entre as suas e esfregou os dedos. Eles pareciam congelados. Ela sorriu para ele encorajando-o.
— Agora vamos ficar bem — ela disse. — Muito bem.
Will olhou para ela e, por um momento, Evanlyn achou que ele tinha compreendido. Mas se deu conta de que ele estava apenas reagindo ao som de sua voz.
Assim que ele pareceu estar mais aquecido e seus tremores diminuíram para um espasmo ocasional, ela se livrou do cobertor e se levantou para tirar a sela do pônei. O animal grunhiu e relinchou aliviado quando as tiras se afrouxaram ao redor de sua barriga e lentamente se abaixou sobre os joelhos para se deitar no abrigo.
Talvez os cavalos fossem treinados para fazer isso naquela terra coberta de neve. Ela não sabia. Mas o pônei deitado oferecia um local quente para que ela e Will descansassem. Ela puxou o garoto passivo para longe do tronco da árvore e tornou a ajeitá-lo, recostando-o à barriga quente do equino. Então, embrulhando-se nos cobertores outra vez, se aninhou perto dele. O calor do corpo do animal era uma bênção. Ela podia senti-lo nas costas e, pela primeira vez em horas, ficou aquecida. Sua cabeça caiu sobre o ombro de Will e ela adormeceu.
Do lado de fora, os flocos pesados de neve continuavam a desabar das nuvens baixas. Em 30 minutos, qualquer sinal de sua passagem pela neve alta tinha desaparecido.
A notícia de que dois escravos haviam fugido levou algum tempo para chegar aos ouvidos de Erak na manhã seguinte. Isso não era de surpreender, pois um acontecimento desses não era considerado importante o bastante para perturbar um dos jarls mais antigos. De fato, foi apenas depois que uma das escravas da cozinha se lembrou de que Evanlyn tinha passado os dias anteriores se queixando de ter sido indicada para a casa dele que Borsa, informado do desaparecimento da garota, pensou em mencionar o fato a ele.
Assim, apenas contou o acontecimento por acaso, quando viu o capitão barbado deixando a sala de refeições depois de tomar café.
— A sua maldita garota se foi — ele resmungou passando por Erak rapidamente.
Como hilfmann, é claro, Borsa tinha sido informado do desaparecimento da escrava assim que o responsável pela cozinha o descobriu. Afinal, era tarefa do hilfmann lidar com esses problemas administrativos.
— Minha garota? — Erak indagou fingindo não entender. Borsa acenou com impaciência.
— A menina de Araluen que você trouxe. A que ia ser sua escrava. Parece que ela fugiu.
Erak franziu a testa. Achou que seria lógico parecer um pouco aborrecido diante desse tipo de acontecimento.
— Para onde? — ele perguntou, e Borsa respondeu com um gesto irritado.
— Quem sabe? Não há lugar para ir e a neve estava caindo como um cobertor na noite passada. Não há sinais de rastros em nenhum lugar.
Ao ouvir essa notícia, Erak soltou um suspiro de alívio interior. Pelo jeito, essa parte de seu plano tinha funcionado. Suas próximas palavras, porém, desmentiram a satisfação que ele escondia no fundo de seu ser.
— Ora, então encontrem ela! — ele disparou irritado. — Eu não arrastei ela por todo o mar de Stormwhite para que fosse perdida!
E se virou, e se afastou. Afinal, ele era um jarl sênior e um líder de guerra. Borsa podia muito bem ser o hilfmann e o administrador-chefe de Ragnak, mas, numa sociedade voltada para a guerra como aquela, Erak ocupava uma posição bastante superior.
Borsa olhou enquanto ele se afastava e praguejou em voz baixa. Ele estava ciente não só de suas posições, como também sabia que apenas um homem insensato insultaria o jarl frente a frente. Ou pelas costas, como era o caso. Erak era conhecido por reagir com sua acha à menor provocação.
Pensar na viagem de Erak com a garota o fez se lembrar do outro escravo: o garoto que tinha sido aprendiz de arqueiro. Ele tinha ouvido falar que a menina tinha feito perguntas sobre ele nos últimos dias. Agora, envolto no pesado casaco de pele, foi até a porta e se dirigiu ao alojamento dos escravos do pátio. Franzindo o nariz por causa do mau cheiro dos corpos não banhados, Borsa parou na soleira da porta do alojamento dos escravos do pátio e observou os membros do Comitê parados à sua frente.
— Vocês não o viram sair? — perguntou sem acreditar.
O escravo negou com um gesto de cabeça e de olhos baixos. Seus modos mostravam sua culpa. Borsa tinha certeza de que ele tinha ouvido ou visto o outro escravo escapar e não tinha feito nada a respeito. Ele balan-çou a cabeça zangado e se virou para o guarda ao seu lado.
— Mande açoitá-lo — ele disse rapidamente e se virou para o prédio principal.
Mal tinha passado uma hora quando chegou a notícia do barco perdido. A ponta da corda, cortada com uma faca, contava sua história. Dois escravos fugidos, um barco desaparecido. A conclusão era óbvia. Aborrecido, Borsa pensou nas chances de sobrevivência em Stormwhite nessa época do ano num barco aberto. Especialmente perto da costa. Pois, ao contrário do que podia parecer, os fugitivos teriam uma chance melhor de sobrevivência no mar aberto. Por terra, junto da costa e empurrados pelos ventos incansáveis e ondas enormes, seria um milagre se eles não fossem esmagados contra as rochas antes de se afastarem 10 quilômetros.
— Pois já vão tarde — ele resmungou e mandou que as patrulhas enviadas para fazer uma busca nas trilhas das montanhas do norte voltassem.
Mais tarde naquele dia, Erak ouviu dois escravos conversando em voz baixa sobre os dois araluenses que tinham roubado um barco e tentado escapar. Por volta do meio-dia, os grupos de busca voltaram das montanhas. Ficou claro que os homens estavam aliviados por estar longe da neve alta e do vento cortante que tinha se instalado logo após o amanhecer.
Seu coração ficou mais leve. Agora os fugitivos estariam seguros até a primavera.
Contanto que conseguissem encontrar a cabana na montanha e não morressem congelados na tentativa.

3 comentários:

  1. Engraçado que mesmo depois de Evanlyn ter se assumido Cassandra a narração permanece com o nome de criada

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    1. É que para Will ela sempre será Evanlyn, então...

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  2. Amamdo muito o Erak agr e pra sempre♥♥♥♥♥♥♥
    Ass:lana

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