28 de junho de 2016

Capítulo 28

Halt olhou em volta dos amplos aposentos a que tinham sido levados.
— Bem, não é muita coisa, mas é uma casa — ele comentou.
Na verdade, sua declaração não era muito justa. Eles estavam no alto da torre central do Château Montsombre, a torre que Deparnieux dissera que mantinha exclusivamente para uso pessoal e de seus convidados, ele tinha acrescentado ironicamente. O quarto em que estavam era grande e mobiliado com bastante conforto. Havia uma mesa e cadeiras que serviriam bem para fazer refeições, além de duas poltronas de madeira de aspecto confortável colocadas ao lado da enorme lareira. Dos lados, duas portas conduziam para quartos de dormir menores e havia até um pequeno quarto de banho com uma banheira de estanho e um lavatório. Havia um par de bons cabides nas paredes de pedra e um bom tapete que cobria grande parte do chão. De um pequeno terraço e uma janela, podia-se ver a trilha sinuosa que tinham subido para chegar ao castelo e a floresta abaixo. A janela não tinha vidros, apenas venezianas de madeira no lado de dentro para impedir a entrada do vento e da chuva. A porta era a única nota dissonante no quadro. Não havia maçaneta do lado de dentro. Os aposentos eram muito confortáveis, mas eles não passavam de prisioneiros, e Halt sabia disso.
Horace largou a mochila no chão e, satisfeito, se deixou cair numa das poltronas de madeira. Um vento frio entrava pela janela, apesar de ainda estarem no meio da tarde. Estaria frio e ventaria à noite, mas a maioria dos aposentos nos castelos eram frios. Aquele não era melhor ou pior do que a média.
— Halt — ele chamou — andei me perguntando por que Abelard e Puxão não nos avisaram sobre a emboscada. Eles não são treinados para perceber esse tipo de coisa?
— Pensei a mesma coisa — Halt retrucou balançando a cabeça devagar. — E acho que isso teve algo a ver com sua série de conquistas.
O garoto olhou para ele sem entender.
— Nós tínhamos uma dezena de cavalos de batalha trotando atrás de nós, carregados com peças de armadura que chacoalhavam e batiam como a carroça de um funileiro — Halt deduziu. — Na minha opinião, todo o barulho que estavam fazendo encobrira os sons que os homens de Deparnieux poderiam estar produzindo.
O rosto de Horace ficou sério. Ele não tinha pensado nisso.
— Mas eles não poderiam ter sentido o cheiro deles? — perguntou.
— Sim, se o vento estivesse soprando na direção certa. Mas estava soprando de nós até eles, se é que se lembra.
Halt observou Horace, que parecia um tanto desapontado com a incapacidade de os cavalos superarem essas dificuldades sem importância.
— Às vezes — Halt continuou — costumamos esperar demais dos cavalos dos arqueiros. Afinal, eles são só humanos.
Um débil sinal de um sorriso tocou a boca do arqueiro quando ele disse isso, mas Horace não notou. Ele mal assentiu e passou para a próxima pergunta.
— Então, o que vamos fazer agora? — ele quis saber.
O arqueiro deu de ombros. Ele tinha aberto a mochila e estava tirando alguns objetos: uma camisa limpa, o aparelho de barbear e artigos de higiene.
— Vamos esperar — afirmou. — Não estamos perdendo nenhum tempo... ainda. As passagens que levam para a Escandinávia vão estar cobertas de neve por pelo menos mais um mês. Assim, podemos muito bem aproveitar o conforto deste lugar por alguns dias até descobrirmos o que o galante cavaleiro quer de nós.
Horace usou um pé para tirar a bota do outro e agitou os dedos, deliciado, aproveitando a repentina sensação de liberdade.
— Isso é um problema — ele retrucou. — O que você acha que Deparnieux pretende, Halt?
— Não tenho certeza — Halt respondeu depois de hesitar um instante. — Mas acho que vai mostrar suas intenções nos próximos dias. Penso que ele tem uma vaga ideia de que sou um Arqueiro — acrescentou pensativo.
— Existem arqueiros aqui? — Horace perguntou surpreso.
Ele sempre tinha acreditado que o Corpo de Arqueiros existia somente em Araluen. Agora, quando Halt balançou a cabeça, percebeu que estava certo.
— Não, não existem — Halt respondeu. — E sempre nos esforçamos para não difundir a existência da corporação. A gente nunca sabe quando vai acabar participando de uma guerra contra alguém — acrescentou. — Mas é claro que é impossível manter uma coisa dessas totalmente em segredo, portanto ele pode ter ouvido alguma coisa.
— E se isso aconteceu? — Horace quis saber. — Primeiro pensei que ele estivesse interessado em nós porque queria lutar comigo... sabe, como você tinha dito.
— Acho que foi isso que aconteceu no início — Halt concordou — mas agora ele descobriu alguma coisa e acho que está tentando pensar em algum jeito de me usar.
— Usar você? — Horace repetiu preocupando-se com a ideia.
Halt fez um gesto indiferente.
— Normalmente pessoas como ele pensam desse jeito — ele disse ao rapaz. — Elas estão sempre procurando uma forma de tirar vantagem das situações. E pensam que todos podem ser comprados se pagarem o preço certo. Você acha que pode calçar a bota de novo? — ele acrescentou com delicadeza. — A janela deixa entrar apenas um pouquinho de ar fresco e as suas meias estão com um cheiro um tanto estranho, se é que me entende.
— Ah, desculpe! — Horace retrucou puxando a bota de montaria sobre a meia.
Agora que Halt tinha falado no assunto, ele percebeu o cheiro forte que enchia o quarto.
— Os cavaleiros deste país não fazem um juramento? — ele perguntou, voltando ao assunto de seu captor. — Cavaleiros fazem votos para ajudar uns aos outros, não é mesmo? Eles não devem “usar as pessoas”.
— Eles fazem um juramento — Halt garantiu. — Cumpri-lo é outra questão. E a ideia de cavaleiros ajudarem pessoas comuns funciona num lugar como Araluen, onde há um rei forte. Aqui, se você tem poder, faz o que bem entende.
— Bem, isso não está certo — Horace resmungou.
Halt concordou, mas não parecia haver sentido em dizer isso.
— Apenas tenha paciência — ele recomendou ao garoto. — Não há nada que a gente possa fazer para apressar os acontecimentos. Vamos descobrir logo o que Deparnieux quer. Enquanto isso, vamos relaxar e nos acalmar.
— Outra coisa... — Horace acrescentou ignorando a sugestão do companheiro. — Não gostei daquelas gaiolas na beira da estrada. Nenhum cavaleiro de verdade poderia punir alguém daquela maneira, por mais grave que fosse o crime. Aquilo foi terrível e desumano!
Halt encontrou o olhar franco do garoto. Não havia nada que ele pudesse dizer para consolá-lo. Desumano era uma descrição apropriada da punição.
— Sim — ele disse finalmente. — Eu também não gostei daquilo. Acho que, antes de partirmos, o senhor Deparnieux tem que nos dar algumas explicações sobre isso.


Naquela noite, eles jantaram com o cavaleiro galês. A mesa era imensa com lugar para trinta ou mais convivas, e os três pareceram muito pequenos por causa do espaço vazio ao redor. Criados e copeiras corriam para realizar suas tarefas trazendo porções adicionais de comida e vinho conforme exigido.
A refeição não estava boa nem ruim, o que surpreendeu Halt um pouco. A cozinha galesa era conhecida por ser exótica. A comida simples que lhes foi servida parecia indicar que a reputação era infundada.
Halt notou que os criados serviam os pratos com olhos baixos, evitando contato visual com qualquer um dos convivas. Havia um visível clima de medo no ar, acentuado quando qualquer um dos criados tinha que se aproximar do patrão para lhe servir mais comida ou encher seu cálice.
Halt também percebeu que Deparnieux não só sentia a tensão no ambiente, como também a apreciava. Um meio sorriso satisfeito se mostrava nos lábios cruéis sempre que um dos empregados se aproximava, desviava o olhar e prendia a respiração até a tarefa ter sido concluída.
Eles falaram pouco durante o jantar. Deparnieux parecia satisfeito em observá-los como um garoto observaria um inseto interessante e desconhecido que tivesse capturado. Naquelas circunstâncias, nem Hall nem Horace estavam dispostos a conversar sobre assuntos banais.
Depois que comeram e a mesa foi tirada, o cavaleiro finalmente falou sobre o que tinha em mente. Ele dispensou Horace com um olhar e com um gesto lânguido mostrou as escadas que levavam para seu quarto.
— Não vou tomar mais o seu tempo, garoto — ele disse. — Tem minha permissão para subir.
Corando levemente diante do tom mal-educado, Horace olhou rapidamente para Halt e viu que o arqueiro assentiu com a cabeça. Ele se levantou tentando conservar a dignidade e não mostrar sua confusão ao cavaleiro galês.
— Boa-noite, Halt — ele disse em voz baixa, e Halt balançou a cabeça outra vez.
— Boa-noite, Horace — ele respondeu.
O aprendiz de guerreiro se levantou, encarou Deparnieux, virou-se de repente e deixou a sala. Dois guardas armados que estavam parados nas sombras instantaneamente se postaram atrás dele e o acompanharam nas escadas.
“Foi um gesto insignificante e provavelmente infantil”, Horace pensou enquanto subia os degraus do quarto, mas ignorar o dono do Château Montsombre o fez se sentir um pouco melhor.
Deparnieux esperou até o som dos passos de Horace nos degraus de pedra desaparecer. Então, empurrando a cadeira para longe da mesa, ele se virou e olhou para o arqueiro de um jeito calculista.
— Bem, mestre Halt — ele disse devagar — chegou a hora de termos uma pequena conversa.
— Sobre o quê? — Halt perguntou sério. — Receio que não sou muito bom com conversa fiada.
— Tenho certeza de que pode ser um convidado divertido — o cavaleiro respondeu com um sorriso frio. — Agora me diga quem é você exatamente?
Halt deu de ombros com indiferença. Ele brincou com o cálice que estava quase vazio na mesa diante de si, girando-o em sua direção e observando o jeito como o fogo da lareira refletia no cristal.
— Sou uma pessoa comum — ele afirmou. — Eu me chamo Halt. Sou de Araluen e viajo com sir Horace. Na verdade, não tenho muito mais a contar.
O sorriso permaneceu no rosto de Deparnieux enquanto ele continuava a observar o homem barbado sentado à sua frente. De fato, ele parecia bastante desinteressante. As roupas eram simples, quase relaxadas na verdade. A barba e os cabelos eram mal cortados. “Parece que ele apara o cabelo e a barba com a faca de caça”, Deparnieux pensou, sem saber que ele era um dos muitos que tinham a mesma opinião sobre Halt.
Além disso, ele era um homem pequeno. A cabeça mal chegava ao ombro do cavaleiro, mas ele era musculoso e, apesar da barba e dos cabelos grisalhos, suas condições físicas eram excelentes. Mas havia algo em seus olhos escuros, seguros e calculistas que desmentia a alegação de simplicidade que o homem fazia naquele momento. Deparnieux se orgulhava de conhecer o olhar de um homem acostumado a comandar, e aquele homem o possuía, com certeza.
Além do mais, havia algo sobre seu equipamento. Era incomum ver um homem com aquele inconfundível ar de domínio que não andasse armado como um cavaleiro. Aos olhos de Deparnieux, o arco era arma de um homem do povo, e o estojo para duas facas era algo que nunca tinha visto antes. Ele tinha tido a oportunidade de examinar as facas. A maior lhe lembrava as grandes facas de caça dos escandinavos. A menor, tão afiada quanto a outra, era uma faca de atirar perfeitamente equilibrada.
Deparnieux concluiu que eram facas realmente incomuns para um chefe.
A capa estranha também o fascinava. Ela era coberta por borrões irregulares verdes e cinza e ele não conseguia entender o motivo para as cores ou para o desenho. O capuz enorme servia para esconder o rosto do homem quando ele o colocava. Várias vezes durante o trajeto até Montsombre, o cavaleiro galês tinha notado que o capuz parecia cintilar e se misturar à floresta ao fundo, fazendo o pequeno homem quase desaparecer de vista. Então, a ilusão desaparecia.
Deparnieux, como muitos de seus conterrâneos, era bastante supersticioso. Ele desconfiava que as estranhas propriedades da capa podiam ser resultado de algum tipo de feitiçaria. Fora esse pensamento que o tinha feito tratar o arqueiro de um modo um tanto confuso. Deparnieux sabia que não valia a pena contrariar feiticeiros. Assim, decidiu jogar suas cartas com cuidado até saber exatamente o que esperar do pequeno homem misterioso. E, caso ficasse provado que Halt não tinha poderes tenebrosos, haveria sempre a possibilidade de convencê-lo a usar seus outros talentos em favor de Deparnieux.
Se isso não acontecesse, o nobre podia matar os dois viajantes do modo que mais lhe agradasse. Ele se deu conta de que tinha ficado em silêncio por algum tempo depois da última afirmação de Halt. Tomou um gole de vinho e balançou a cabeça diante da afirmação do arqueiro.
— Acho que não é nem um pouco comum — ele disse. — Você me interessa, Halt.
— Não posso ver por quê — Halt disse dando de ombros novamente.
Deparnieux girou o cálice de vinho entre os dedos. Houve uma leve batida na porta e o camareiro-chefe entrou com ar humilde e receoso. Ele tinha aprendido, da pior forma, que seu patrão era um homem perigoso e imprevisível.
— O que foi? — Deparnieux perguntou zangado com a intromissão.
— Perdoe, senhor, mas queria saber se precisa de mais alguma coisa.
Deparnieux estava prestes a dispensá-lo quando uma ideia lhe ocorreu. Seria uma experiência interessante provocar o estranho araluense e ver como reagiria.
— Sim — ele disse. — Chame a cozinheira.
O camareiro hesitou confuso.
— A cozinheira, senhor? — repetiu. — O senhor quer mais comida?
— Eu quero a cozinheira, idiota! — Deparnieux disparou e o homem recuou apressado.
— Imediatamente, senhor — ele respondeu e se afastou nervoso na direção da porta. Depois que ele saiu, o cavaleiro sorriu para Halt.
— É quase impossível encontrar bons empregados hoje em dia — ele afirmou.
Halt olhou para ele com desdém.
— Deve ser um problema sem-fim para você — ele disse com calma.
Deparnieux olhou para ele com atenção, tentando perceber algum sarcasmo nas palavras.
Eles ficaram sentados em silêncio até ouvirem uma batida na porta. O camareiro entrou seguido de perto pela cozinheira, que esfregava as mãos no avental nervosa. Ela era uma mulher de meia-idade cujo rosto mostrava a tensão que trabalhar na casa de Deparnieux provocava.
— A cozinheira, senhor — o camareiro anunciou.
Deparnieux não disse nada. Ele olhou para a mulher da maneira como cobras olham para um pássaro. Ela retorceu o avental com mais força enquanto o silêncio entre eles aumentava. Finalmente, ela não aguentou mais.
— Há algo errado, senhor? — ela começou. — O jantar não estava...
— Você não fala! — Deparnieux gritou e se levantou da cadeira apontando para ela zangado. — Aqui, quem manda sou eu! Você não fala sem eu mandar! Portanto, fique quieta, mulher!
Os olhos de Halt se estreitaram enquanto assistia à cena desagradável. Ele sabia que tudo aquilo estava acontecendo por sua causa. Ele percebeu que Deparnieux queria ver como iria reagir. Por mais frustrante que fosse, não havia nada que pudesse fazer para ajudar a mulher naquele momento. Deparnieux olhou para ele rapidamente e confirmou sua suspeita ao ver que o homem pequeno estava tão calmo quanto sempre. Então ele se sentou outra vez, voltando a atenção para a infeliz cozinheira.
— Os legumes estavam frios — ele acusou finalmente.
A expressão da mulher mostrou medo e confusão ao mesmo tempo.
— Claro que não, senhor. Os legumes estavam...
— Frios, estou dizendo! — Deparnieux interrompeu. — Eles estavam frios, não é mesmo? — ele indagou virando-se para Halt.
— Os legumes estavam bons — ele respondeu com calma e deu de ombros.
Não importava o que fosse acontecer, ele devia deixar qualquer sinal de raiva ou indignação longe de sua voz. Deparnieux sorriu levemente e voltou a olhar para a mulher.
— Viu o que fez? — ele disse. — Não só me envergonhou na frente de um convidado, como o fez mentir por sua causa.
— Meu senhor, verdade, eu não...
Deparnieux a interrompeu com um violento aceno da mão.
— Você me desapontou e deve ser punida — ele afirmou.
O rosto da mulher ficou pálido de medo. Naquele castelo, as punições eram sempre pesadas.
— Por favor, senhor. Por favor, vou me esforçar mais. Eu prometo — ela balbuciou na esperança de fazê-lo mudar de ideia quanto ao castigo.
Ela lançou um olhar de súplica para Halt.
— Por favor, senhor, diga a ele que não tive a intenção — ela implorou.
— Deixe ela em paz — o arqueiro disse finalmente.
Deparnieux inclinou a cabeça para o lado esperando.
— Ou? — ele replicou.
Ali estava uma oportunidade de avaliar os poderes do prisioneiro ou a falta deles. Se ele realmente fosse um feiticeiro, talvez mostrasse do que era capaz naquele momento.
Halt percebeu o que o outro homem estava pensando. Havia um ar de expectativa enquanto ele observava o arqueiro com atenção. Halt se deu conta, com relutância, que não estava em condições de reforçar nenhuma ameaça e decidiu tentar outra estratégia.
Pensativo, o galês pôs o dedo no lábio. A aparente falta de preocupação de Halt podia ser real. Ou talvez fosse simplesmente uma forma de mascarar o fato de não ter poderes. A principal razão para a dúvida na mente de Deparnieux era o fato de que não conseguia acreditar que qualquer pessoa de poder ou autoridade pudesse ter mais do que uma preocupação passageira por um criado. Halt talvez estivesse recuando ou talvez não se preocupasse tanto a ponto criar confusão pelo assunto.
— Mesmo assim — ele continuou, enquanto observava Halt — ela precisa ser punida.
Ele olhou para o camareiro-chefe em seguida. O homem tinha se encolhido de encontro à parede, tentando ficar tão invisível quanto possível enquanto o fato se desenrolava.
— Você vai punir a mulher — ele determinou. — Ela é preguiçosa, incompetente e envergonhou seu patrão.
— Sim, meu senhor — o camareiro concordou, curvando-se obsequiosamente. — A mulher vai ser punida — afirmou.
Deparnieux ergueu as sobrancelhas surpreso e zombeteiro.
— Mesmo? — ele perguntou. — E qual vai ser o castigo?
O criado hesitou. Ele não tinha ideia do que o cavaleiro tinha em mente. Então decidiu que, no total, seria melhor errar pelo excesso.
— Chicotadas, senhor? — ele respondeu e, quando viu Deparnieux assentir concordando, continuou com mais determinação: — Ela vai ser chicoteada.
Mas Deparnieux já estava balançando a cabeça e gotas de suor surgiram na cabeça quase calva do camareiro.
— Não — o patrão replicou numa voz suave. — Você vai ser chicoteado. Ela vai ser engaiolada.
Sem poder para interferir, Halt assistiu à cena cruel se desenrolar diante de seus olhos. O rosto do criado se encheu de medo quando ouviu que seria açoitado, mas a mulher, ao saber de sua punição, desabou no chão com o rosto transformado numa máscara de desespero. Halt se lembrou da estrada sinuosa que tinham percorrido para chegar a Montsombre, cercada com os infelizes pendurados nas gaiolas de ferro. Ficou enjoado ao olhar para o tirano vestido de preto à sua frente. Ele se levantou abruptamente, empurrando a cadeira para trás, derrubando-a e fazendo-a cair no chão de pedra.
— Vou para a cama — ele avisou. — Para mim chega.

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