28 de junho de 2016

Capítulo 27

O pônei estava no lugar marcado por Erak.
Ele estava amarrado a uma árvore nova com a traseira virada pacientemente na direção do vento gelado que trazia nuvens cheias de neve para cima de Hallasholm. Evanlyn desamarrou a corda, e o pequeno cavalo a acompanhou docilmente. Acima de suas cabeças, o vento suspirava por entre as agulhas dos pinheiros, emitindo um som parecido com uma arrebentação estranha enquanto agitava os galhos carregados de neve.
Will a seguia mudo, cambaleando na trilha coberta de neve que ia até o meio da perna. Andar ali era difícil para Evanlyn, mas era ainda mais penoso para Will, exausto e esgotado depois de semanas de trabalho árduo e comida e calor insuficientes. Ela sabia que logo iriam parar e encontrar as roupas quentes que Erak tinha dito que estariam dentro da mochila no lombo do pônei. E ela provavelmente teria que deixar Will montar o animal, se quisessem percorrer uma boa distância antes do amanhecer. Mas, por ora, não queria se atrasar, mesmo que só um pouco. Todos os seus instintos lhe diziam para continuar, aumentar o máximo a distância entre eles e a cidade escandinava, o mais depressa possível.
A trilha sinuosa subia as montanhas, e Evanlyn se inclinava para a frente, enfrentando o vento, levando o pônei com uma das mãos e segurando a mão fria de Will com a outra. Juntos, eles seguiam tropeçando, escorregando na neve alta, caindo sobre raízes de árvores e pedras escondidas debaixo da superfície lisa.
Depois de viajar meia hora, Evanlyn sentiu os primeiros flocos de neve hesitantes roçarem seu rosto. Logo depois, eles ficaram grandes, pesados e grossos. Ela parou e olhou para a trilha atrás deles e para suas pegadas já quase invisíveis. Erak sabia que iria nevar muito naquela noite. Ele tinha esperado até que sua intuição de marinheiro o avisasse que todos os sinais de sua passagem seriam cobertos. Pela primeira vez desde que tinha passado pela porta aberta da residência, sentiu o coração se aquecer de esperança. Talvez, afinal, as coisas dessem certo para eles.
Atrás dela, Will tropeçou e, murmurando palavras incoerentes, caiu de joelhos na neve. Ela se virou para ele e constatou que ele tremia e estava roxo de frio, totalmente exausto. Evanlyn andou até a mochila pendurada nas costas do pônei, desamarrou as tiras e remexeu em seu interior.
Entre outras coisas, lá dentro ela encontrou um colete de pele de carneiro e o usou para cobrir os ombros do garoto trêmulo, ajudando-o a passar os braços pelas cavas.
Will olhou para ela com indiferença. Ele parecia um animal silencioso, que aceitava calado tudo o que lhe acontecia. Evanlyn sabia que ele não tentaria evitar ou revidar o golpe se tentasse bater nele. Com tristeza, ela o observou, lembrando-se de como ele era. Erak tinha dito que sua recuperação era possível, embora muito poucos viciados na erva do calor tivessem essa chance. Isolados nas montanhas como ficariam, Will teria todas as oportunidades de quebrar o círculo vicioso da droga. Agora, ela rezava para que o jarl escandinavo estivesse certo e que fosse possível para um viciado, longe da droga, se recuperar completamente.
Ela empurrou o menino submisso na direção do pônei, fazendo que montasse no animal. Por um momento, ele hesitou e então, desajeitado, subiu para a sela e lá ficou sentado, balançando sem firmeza, enquanto ela recomeçava a andar, seguindo a trilha da floresta que levava para o alto da montanha.
Em volta deles, os flocos pesados continuavam a cair.
Erak observou as duas figuras se afastarem furtivamente na floresta e tomarem a bifurcação que ele tinha descrito para Evanlyn. Satisfeito por estarem a caminho, ele os seguiu para fora do cercado, mas continuou além do ponto em que tinham virado e, em vez disso, foi até o porto.
Não havia sentinelas postadas na Grande Mansão naquela época do ano. Não se tinha medo de ataques, pois as nevascas fortes que cobriam as montanhas ao redor eram mais eficientes do que qualquer sentinela humana. Mas Erak ficou mais cuidadoso quando se aproximou do início do porto. Ali havia um vigia para garantir que os navios encostassem com segurança nos ancoradouros.
Uma tempestade repentina podia surpreender os navios e arrastar as âncoras e jogá-los na costa. Por esse motivo, alguns homens eram postados para dar o aviso e chamar as tripulações em serviço em caso de perigo. Mas eles podiam vê-lo com igual facilidade e se perguntar o que estava fazendo àquela hora da noite, de modo que ficou nas sombras sempre que pôde.
Seu navio, o Wolfwind, estava ancorado no porto e ele subiu a bordo em silêncio, sabendo que não havia tripulação de serviço. Ele a tinha dispensado naquela tarde, confiando em sua reputação como conhecedor da previsão do tempo para garantir a eles que soprariam ventos fortes naquela noite. Ele se inclinou sobre o parapeito da popa e ali, flutuando num lugar protegido do navio, estava o pequeno barco que ele tinha ancorado mais cedo naquele dia. Ele observou como os botes no porto balançavam nos ancoradouros e percebeu que a maré ainda estava baixando. Ele tinha programado sua chegada para que coincidisse com a maré baixa e desceu rapidamente para a embarcação menor, procurou na popa a tampa do dreno e a soltou. A água gelada entrou como se fosse uma cascata sobre suas mãos. Quando o bote se encheu até a metade, ele recolocou o tampão e voltou a pular o parapeito para dentro do navio. Empunhando a adaga, cortou o cabo que prendia a embarcação.
Por um momento, nada aconteceu. Então, o pequeno barco, já mais baixo na água, começou a deslizar para trás, primeiro lentamente e depois com velocidade cada vez maior à medida que era arrastado pela maré. Havia um remo no bote, preso na forqueta. Ele o tinha ajeitado desse jeito para o caso de o bote ser encontrado nos próximos dias. A combinação de um barco vazio aparentemente furado e quase cheio de água com um remo faltando apontaria para um acidente.
O bote deslizou porto abaixo e se perdeu de vista entre os barcos maiores que enchiam os ancoradouros. Satisfeito por ter feito tudo o que podia, Erak voltou à terra firme e retornou para a Grande Mansão. Enquanto andava, percebeu com satisfação que a neve pesada já tinha coberto as pegadas que fizera. Pela manhã, não haveria nenhum sinal de que alguém tivesse passado por ali. O barco perdido e o cabo cortado seriam as únicas pistas sobre a direção que os escravos teriam tomado.


A caminhada ficava mais difícil à medida que a trilha na floresta se tornava mais íngreme. A respiração de Evanlyn estava ofegante e formava nuvens de vapor no ar gelado. A leve brisa que agitava os pinheiros mais cedo tinha desaparecido quando a neve começou a cair. A garganta e a boca estavam secas e ela sentia um gosto desagradável e metálico. Ela tinha tentado aliviar a sede várias vezes com punhados de neve, mas o conforto tinha sido breve. O frio intenso da neve desfazia qualquer benefício que ela poderia ter tirado da pequena quantidade de água que escorregava pela garganta quando derretia.
Evanlyn olhou para trás. O pônei estava seguindo seus passos com dificuldade e de cabeça baixa, aparentemente indiferente ao frio. Will era um vulto encolhido no dorso do animal, bem embrulhado nas dobras do colete de pele de carneiro. Ele gemia baixinho e continuamente.
Ela parou por um momento, respirando com dificuldade, e encheu os pulmões com o ar gelado que lhe arranhava quase dolorosamente a garganta. Os músculos da parte posterior de suas coxas e pernas doíam e tremiam do esforço de caminhar na neve espessa, mas ela sabia que tinha que continuar enquanto pudesse. Ela não tinha ideia da distância que tinha percorrido desde a residência em Hallasholm, mas desconfiava que não estava longe o suficiente. Se a tentativa de Erak de plantar uma pista falsa fosse mal sucedida, ela não tinha dúvida de que um grupo de escandinavos fortes poderia atravessar em menos de uma hora a distância que ela e Will tinham percorrido.
Segundo as instruções de Erak, eles deveriam subir a montanha o máximo que pudessem antes do raiar do dia. Em seguida, deveriam deixar a trilha e procurar abrigo entre as árvores grossas, onde ela e Will poderiam se esconder durante o dia.
Ela olhou para a abertura estreita entre as árvores acima dela. As nuvens pesadas escondiam qualquer vestígio de luar ou de luz de estrelas. Ela não tinha ideia de que horas eram ou de quando o dia iria nascer.
Angustiada e sob o protesto de todos os músculos das pernas, ela recomeçou a subir, seguida pelo apático pônei. Por um momento, pensou em subir na sela ao lado de Will e cavalgar em dupla, mas logo afastou a ideia. Era só um pequeno pônei e, embora ele pudesse carregar uma pessoa e as mochilas sem reclamar, uma carga dupla nessas condições iria cansá-lo rapidamente. Sabendo o quanto dependiam do pequeno animal desgrenhado, decidiu, com relutância, que seria melhor que ela continuasse a pé. Se o pônei ficasse esgotado, poderia muito bem representar uma sentença de morte para Will. Ela nunca conseguiria fazê-lo andar, exausto e fraco como estava.
Ela continuou se arrastando, levantando e baixando os pés na neve, deslizando levemente quando eles atravessavam a cobertura cada vez mais espessa do chão, compactando-a até encontrar terra firme outra vez. Pé esquerdo. Pé direito. Pé esquerdo. Pé direito. A boca cada vez mais seca. A respiração formando vapor no ar e pairando na noite quieta atrás dela, marcando brevemente por onde tinha passado. Sem pensar, começou a contar os passos à medida que andava. Não havia motivo para isso. Ela não estava inconscientemente tentando medir distâncias. Era uma reação instintiva ao ritmo constante e repetitivo que tinha adotado. Ela chegou a 200 e recomeçou do número 1. Então, depois de várias outras vezes, Evanlyn se deu conta de que não tinha ideia de quantas vezes tinha chegado à marca de 200 e parou de contar. Depois de 20 passos, percebeu que estava contando outra vez. Ela deu de ombros. Desta vez, decidiu contar até 400 antes de recomeçar. “Faço qualquer coisa para variar um pouco”, pensou de mau humor.
Os flocos grossos de neve continuavam a cair, roçando seu rosto e manchando seus cabelos de branco. Seu rosto estava ficando entorpecido e ela o esfregou com vigor com as costas da mão. Constatou que a mão também estava dormente e parou para examinar a mochila mais uma vez.
Ela tinha visto luvas dentro dela quando encontrara o colete para Will. Evanlyn as encontrou novamente, grossas luvas de lã com espaço para o polegar e um espaço único para os outros dedos. Ela as calçou nas mãos geladas, agitou os braços, bateu as mãos contra as costelas e sob as axilas para estimular a circulação. Depois de alguns minutos, sentiu um leve formigamento quando o calor começou a voltar e recomeçou a andar.
O pônei tinha parado quando ela fez a pausa. Agora, pacientemente, tornou a seguir os passos dela. Evanlyn chegou a 400 e recomeçou a contar.

2 comentários:

  1. Que frio na barriga, agora ninguém mais comenta querendo apenas ler...

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  2. Kkkkkkkkkkkkkk e vdd, a agonia é tanta para ler o outro cap é maior
    Ass:lana

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