24 de junho de 2016

Capítulo 27

Os três companheiros passaram a noite sem dormir. Os gritos de caça dos Kalkaras afastavam-se para o norte. Quando ouviram os sons pela primeira vez, Gilan quis selar Blaze, que estava nervoso com os uivos assustadores das duas bestas. Halt, porém, fez um gesto para que parasse.
— Não vou atrás dessas coisas no escuro — ele disse brevemente. — Vamos esperar até o dia amanhecer e então vamos procurar suas pegadas.
As pegadas foram encontradas com facilidade, pois era óbvio que os Kalkaras não tentaram esconder sua passagem. A grama alta tinha sido esmagada pelos dois corpos pesados, que deixaram uma trilha visível apontando para o nordeste. Halt encontrou a trilha deixada pelo primeiro dos dois monstros e logo depois Gilan encontrou a segunda, cerca de 300 metros à esquerda, numa linha paralela e próxima o bastante para que pudessem se ajudar no caso de um ataque, mas longe o suficiente para evitar qualquer armadilha preparada para o irmão.
Halt analisou a situação por alguns momentos e então tomou uma decisão.
— Você fica com o segundo — ele disse para Gilan. — Will e eu vamos seguir este aqui. Quero garantir que os dois continuem andando na mesma direção. Não quero que um deles volte e venha atrás de nós.
— Você acha que eles sabem que estamos aqui? — Will perguntou, tentando com dificuldade manter a voz calma e desinteressada.
— É possível. O homem da planície que vimos já teve tempo para avisá-los. Ou talvez seja apenas uma coincidência e eles estejam saindo para a próxima missão.
Ele olhou para a trilha de grama esmagada que ia sempre na mesma direção.
— Parece mesmo que eles têm um objetivo. — Então se virou para Gilan outra vez. — Em todo caso, fique com os olhos abertos e preste muita atenção em Blaze. Os cavalos vão sentir a presença dessas bestas antes de nós. Não queremos cair numa emboscada.
Gilan assentiu e virou Blaze na direção da segunda trilha. A um sinal da mão de Halt, os três arqueiros começaram a cavalgar para a frente, seguindo a direção que os Kalkaras tinham tomado.
— Eu vou vigiar a trilha — Halt disse a Will. — Você fica de olho em Gilan, só para garantir.
Will voltou a atenção para o alto arqueiro, que estava a uns 200 metros de distância, e acompanhou seu ritmo. A parte inferior do corpo de Blaze estava escondida pela grama alta. De tempos em tempos, ondulações no chão tiravam tanto o cavalo quanto o cavaleiro da vista do rapaz. Na primeira vez em que isso aconteceu, Will reagiu com um grito de alarme, pois Gilan simplesmente desapareceu. Halt se virou rapidamente com uma flecha já pronta no arco, mas nesse momento Gilan e Blaze reapareceram, aparentemente sem saber do momento de pânico que tinham causado.
— Desculpe — Will murmurou aborrecido por ter permitido que seu estado de nervos o dominasse.
Halt lhe lançou um olhar penetrante.
— Está tudo bem — ele disse com calma. — Prefiro que me avise sempre, mesmo quando só pensar que há um problema.
Halt sabia muito bem que, por ter dado um falso alarme uma vez, Will poderia relutar em reagir da próxima, e isso poderia ser fatal para todos eles.
— Avise para mim sempre que perder Gilan de vista. E diga quando ele reaparecer — ele pediu.
Will assentiu, compreendendo o raciocínio do mestre.
E assim eles continuaram a cavalgar, com o grito agudo das Flautas enchendo seus ouvidos novamente à medida que se aproximavam do círculo de pedra. Will percebeu que desta vez eles passariam muito mais perto, pois os Kalkaras pareciam estar se dirigindo direto para o local. A cavalgada foi marcada por informações intermitentes de Will.
— Ele sumiu... ainda está sumido... Tudo bem. Apareceu de novo.
Will nunca estava seguro de quem estava passando por uma depressão, se Gilan ou ele. Muitas vezes, os dois ao mesmo tempo.
Houve um momento desagradável em que Gilan e Blaze sumiram e não reapareceram dentro dos habituais poucos segundos.
— Não consigo mais vê-lo... — Will informou. E então: — Ainda não... ainda não... nenhum sinal... — a sua voz começou a ficar aguda por causa da inquietação que crescia dentro dele. — Nenhum sinal... ainda nenhum sinal...
Halt fez Abelard parar e preparou o arco novamente enquanto examinava o chão à sua esquerda e esperava Gilan reaparecer. Ele soltou um assobio agudo, três notas ascendentes. Houve uma pausa e depois um assobio de resposta, as mesmas três notas em ordem descendente, veio claramente até eles. Will soltou um suspiro de alívio, e Gilan em pessoa reapareceu nesse exato momento. Ele os olhou e fez um gesto largo, com os dois braços erguidos numa pergunta óbvia: “Qual é o problema?”
Halt fez um gesto negativo, e eles continuaram.
Quando se aproximaram das Flautas de Pedra, Halt ficou cada vez mais atento. O Kalkara que ele e Will vinham seguindo estava se dirigindo diretamente para o círculo. Ele fez Abelard parar e protegeu os olhos do sol, estudando as pedras cinzentas e sinistras com cuidado, procurando algum movimento ou sinal de que o Kalkara pudesse estar deitado esperando para emboscá-los.
— É o único esconderijo em quilômetros — ele explicou. — Não vamos correr o risco de que a maldita coisa esteja escondida aqui esperando por nós. Acho que precisamos tomar um pouco mais de cuidado.
Ele chamou Gilan com um sinal e explicou a situação. Então eles se dividiram para cobrir uma área maior ao redor das pedras, cavalgando para o interior do círculo lentamente de três diferentes direções, procurando nos cavalos qualquer sinal possível d e reação a medida que se aproximavam. Mas o local estava vazio, embora no seu interior o gemido desafinado do vento que atravessava os buracos das flautas fosse quase insuportável. Pensativo, Halt mordeu o lábio olhando para o mar de grama nas duas trilhas deixadas pelos Kalkaras.
— Isso está nos tomando tempo demais — ele disse finalmente. — Enquanto pudermos ver as trilhas por uns 200 metros à frente, vamos andar mais depressa. Vamos diminuir o passo quando chegarmos a uma colina ou em qualquer momento em que a trilha não esteja visível por mais de 5 metros.
Gilan assentiu, mostrando que tinha compreendido, e retomou sua posição mais distante. Eles fizeram os cavalos trotar num passo longo e tranquilo que cobriria os quilômetros à frente deles. Will continuou a vigiar Gilan e, sempre que a trilha visível diminuía, Halt ou Gilan assobiavam e eles reduziam a velocidade até que o terreno se abrisse novamente à sua frente.
Quando a noite caiu, os três acamparam de novo. Halt ainda se recusava a seguir os dois assassinos no escuro, embora a Lua deixasse sua trilha facilmente visível.
— Fácil demais para eles voltarem no escuro — justificou. — Quero estar bem preparado quando finalmente vierem até nós.
— Você acha que eles virão? — Will perguntou, percebendo que Halt tinha dito “quando”, e não “se”.
O arqueiro olhou para seu jovem aluno.
— Sempre suponha que o inimigo sabe onde você está e que vai atacar você — ele ensinou. — Desse jeito, pode evitar surpresas desagradáveis. — Ele pousou a mão no ombro de Will para tranquilizar o garoto. — Ainda pode ser desagradável, mas não será mais uma surpresa.
Pela manhã, eles retomaram a trilha, cavalgando no mesmo ritmo rápido, reduzindo o passo somente quando não podiam ver com clareza o terreno à sua frente. No começo da tarde, tinham chegado à beira da planície e entraram mais uma vez em terreno coberto por bosques ao norte das Montanhas da Chuva e da Noite.
Eles descobriram que ali os Kalkaras haviam se reunido, não ficando mais tão separados como tinha acontecido nas terras da planície. Mas o caminho continuava o mesmo, sempre em direção ao noroeste. Os três arqueiros seguiram esse curso por outra hora antes que Halt freasse Abelard e fizesse sinal para os outros desmontarem para uma conversa. Eles se reuniram ao redor de um mapa do reino que ele abriu na grama, usando flechas como pesos para que as bordas não se enrolassem.
— A julgar pelas pegadas, já diminuímos a distância até eles. Mas ainda estão um bom meio dia à nossa frente. Agora, esta é a direção que estão seguindo...
Ele pegou outra flecha e a colocou no mapa de modo que apontasse para o lado que os Kalkaras vinham seguindo nos dois últimos dias.
— Como vocês podem ver, se eles continuarem nessa direção, há somente dois lugares importantes para onde podem estar indo. — Ele apontou para um local no mapa. — Aqui, as Ruínas de Gorlan. Ou, mais para o norte, o próprio Castelo de Araluen.
— Castelo de Araluen? — Gilan exclamou, respirando fundo. — Você acha que eles vão ousar tentar matar o rei Duncan?
— Eu simplesmente não sei — Halt respondeu, olhando para ele e balançando a cabeça. — Não sabemos muita coisa sobre essas bestas, e metade do que achamos que sabemos provavelmente são mitos ou lendas. Mas você tem que admitir, seria algo ousado, uma tacada de mestre, e Morgarath nunca foi contra esse tipo de coisa.
Ele deixou que os outros digerissem essa ideia por alguns momentos e então traçou uma linha de sua posição atual até o noroeste.
— Mas estive pensando. Olhe. Aqui está o Castelo Redmont. Talvez a um dia de cavalgada de distância e então outro dia até aqui.
De Redmont, ele traçou uma linha para noroeste, até as Ruínas de Gorlan, marcadas no mapa.
— Uma pessoa cavalgando rapidamente e usando dois cavalos pode cobrir o trajeto em menos de um dia até Redmont e depois conduzir o barão e sir Rodney até aqui, nas ruínas. Se os Kalkaras estiverem andando no mesmo ritmo de agora, talvez possamos barrar a passagem deles aqui. Vai ser difícil, mas é possível. E, com dois guerreiros como Arald e Rodney conosco, teremos muito mais chances de parar as malditas coisas de uma vez por todas.
— Um momento, Halt — Gilan interrompeu. — Você disse uma pessoa cavalgando dois cavalos?
Halt encontrou o olhar de Gilan e viu que o jovem arqueiro já tinha adivinhado o que ele tinha em mente.
— Isso mesmo, Gilan. E o mais leve de nós vai viajar mais depressa. Quero que passe Blaze para Will. Se ele se alternar entre Puxão e o seu cavalo, pode fazer isso a tempo.
Ele viu a hesitação no rosto de Gilan e compreendeu o porquê dessa expressão. Nenhum arqueiro gostava da ideia de entregar seu cavalo a outra pessoa, mesmo a outro arqueiro. Mas, ao mesmo tempo, Gilan entendeu a lógica da sugestão. Halt esperou que o jovem quebrasse o silêncio, enquanto Will observava os dois com os olhos arregalados de medo ao pensar na responsabilidade que estava prestes a ser posta em seus ombros.
Finalmente, com relutância, Gilan falou.
— Acho que faz sentido — ele concordou. — Então, o que quer que eu faça?
— Quero que me siga a pé — Halt disse asperamente, enrolando o mapa e guardando-o na sacola da sela. — Se você puder conseguir um cavalo em qualquer outro lugar, faça isso e me alcance. Do contrário, vamos nos encontrar em Gorlan. Se não virmos os Kalkaras ali, Will poderá esperar por você com Blaze. Eu vou continuar a seguir os Kalkaras até vocês me alcançarem.
Gilan acenou concordando e Halt sentiu uma onda de afeto por ele. Quando compreendia um objetivo, Gilan não era do tipo que discutia ou fazia objeções.
— Você não disse que minha espada poderia ser útil? — o rapaz perguntou um tanto desanimado.
— É verdade — Halt respondeu — mas isso me dá a oportunidade de trazer uma força de cavaleiros totalmente armados com machados e lanças. E você sabe que essa é a melhor forma de derrotar os Kalkaras.
— Sim, eu sei — Gilan retrucou, pegando as rédeas de Blaze, amarrando-as num nó e jogando-as sobre o pescoço do cavalo baio.
— Você pode começar com Puxão — ele disse para Will. — Assim Blaze vai poder descansar. Ele vai te seguir sem ser puxado pelas rédeas, e Puxão vai fazer a mesma coisa quando você estiver cavalgando Blaze. Amarre as rédeas desse jeito no pescoço de Puxão quando estiver montando Blaze para que elas não fiquem penduradas e não se prendam em nada.
Ele começou a se virar na direção de Halt e então se lembrou de uma coisa.
— Ah, sim, antes de montar nele pela primeira vez, lembre-se de dizer “olhos castanhos”.
— Olhos castanhos — Will repetiu e Gilan não conseguiu evitar um sorriso.
— Não para mim. Para o cavalo.
Essa era uma antiga piada dos arqueiros e todos sorriram. Então Halt retomou o assunto principal.
— Will? Tem certeza de que consegue achar o caminho para Redmont?
Will assentiu. Ele tocou o bolso onde guardara sua cópia do mapa e olhou para o sol para se orientar.
— Noroeste — ele disse tenso, indicando a direção que tinha escolhido.
Halt acenou com a cabeça satisfeito.
— Você vai chegar ao Rio Salmon antes do anoitecer e isso vai lhe dar um bom ponto de referência. A estrada principal fica só um pouco a oeste do rio. Mantenha um trote firme todo o tempo. Não tente se apressar, porque os cavalos só vão ficar cansados e, no final, você vai acabar andando mais devagar. Viaje com cuidado.
Halt saltou para a sela de Abelard e Will montou Puxão. Gilan apontou para Will e falou no ouvido de Blaze.
— Siga, Blaze, siga.
O cavalo baio, inteligente como todos os cavalos dos arqueiros, balançou a cabeça como se tivesse compreendido a ordem. Antes de partir, Will tinha mais uma pergunta que o vinha preocupando.
— Halt, as Ruínas de Gorlan... o que elas são exatamente? — ele quis saber.
— Isso não é uma ironia? — Halt respondeu. — Elas são as ruínas do Castelo Gorlan, o antigo feudo de Morgarath.

3 comentários:

  1. Olhos castanhos! Foi o melhor até agora!
    Ass: Bina.

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  2. Tinha ficado desapontada que Horace não tinha ido junto. Mas, agora a oportunidade ressurge!

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