28 de junho de 2016

Capítulo 26

O pequeno cortejo seguiu a estrada para o norte. Halt e Horace cavalgavam no centro com Deparnieux, que tinha vestido os habituais casaco e armadura negros. O velho pangaré avermelhado que ele tinha montado estava agora no fim da fila e, como Halt tinha imaginado, o cavaleiro estava na sela de um cavalo de batalha negro, grande e agressivo.
Eles estavam cercados por pelo menos uma dúzia de homens armados que marchavam em silêncio à frente e atrás deles. Além disso, havia dez guerreiros montados, divididos em dois grupos de cinco e posicionados em cada extremidade da coluna.
Halt notou que os homens mais perto deles mantinham as bestas carregadas e prontas para o uso. Não tinha dúvida de que, ao primeiro indício de que quisessem escapar, ele e Horace seriam cravados com flechas antes de ter dado dez passos.
O seu arco estava pendurado no ombro, enquanto Horace tinha conservado a espada e a lança. Deparnieux tinha feito um gesto de indiferença para eles quando os prendeu, mostrando o grupo de homens armados que os cercava.
— Vocês podem ver que não tem sentido resistir — ele afirmou — portanto vou deixar que fiquem com suas armas.
Então ele olhou de um jeito significativo para o arco apoiado na sela de Halt.
— Entretanto — acrescentou — acho que eu me sentiria mais tranquilo se você tirasse a corda desse arco e o pendurasse no ombro.
Halt deu de ombros e obedeceu. Seu olhar disse a Horace que havia um tempo para lutar e um tempo para aceitar o inevitável. Horace tinha assentido e eles se posicionaram ao lado do comandante galês, vendo-se imediatamente cercados por seus captores. Halt notou aborrecido que a generosidade de Deparnieux não se estendia para o grupo de cavalos que tinham capturado e a armadura.
De mau humor, ele ordenou que o cavalo-guia fosse entregue a um dos ajudantes montados, que agora cavalgavam na parte posterior da coluna. Seu captor notou com interesse que o pequeno e desgrenhado cavalo de carga não tinha uma corda-guia e ficava calmamente ao lado do cavalo de Halt. Deparnieux mostrou uma expressão curiosa, mas não fez nenhum comentário.
Para surpresa de Halt, o cavaleiro vestido de negro virou a cabeça de seu cavalo para o norte e eles começaram a marchar.
— Posso perguntar para onde está nos levando? — ele disse.
Deparnieux se curvou na sela com uma cortesia fingida.
— Estamos indo para meu castelo em Montsombre — ele contou — onde vocês vão ser meus convidados por um breve período.
Halt assentiu digerindo as informações.
— E por que vamos fazer isso? — Halt indagou logo depois.
— Por que você me interessa — o cavaleiro negro respondeu sorrindo para ele. — Você viaja com um cavaleiro e carrega armas de fazendeiro. Mas você não é um simples criado, é?
Halt nada disse e simplesmente deu de ombros.
Deparnieux, olhando-o com atenção, assentiu como se confirmasse o próprio pensamento.
— Não, não é. Você é o líder aqui, não o seguidor. E suas roupas me interessam. Essa sua capa... — ele se inclinou para o lado da sela e passou o dedo nas dobras da capa manchada de arqueiro de Halt. — Nunca vi nada parecido.
Ele parou pensando que Halt iria fazer algum comentário desta vez. Mas isso não aconteceu, e Deparnieux não pareceu surpreso.
— E você é um arqueiro experiente — ele continuou. — Não, você é mais do que isso. Não conheço nenhum arqueiro que tivesse dado um tiro como o de ontem à noite.
Desta vez, Halt fez um pequeno gesto de modéstia.
— Não foi um tiro tão bom assim — ele retrucou. — Eu estava mirando sua garganta.
O riso de Deparnieux foi alto e longo.
— Ah, acho que não meu amigo. Acho que a sua flecha atingiu exatamente o ponto que queria.
E ele riu novamente. Halt percebeu que aquela alegria, apesar de espalhafatosa, não tinha atingido os olhos.
— Então, decidi que uma pessoa tão incomum deveria merecer uma análise mais profunda — Deparnieux continuou. — Você pode ser muito útil para mim, meu amigo. Afinal, quem sabe que outras técnicas e habilidades podem estar escondidas debaixo desse seu casaco estranho?
Horace observou os dois homens. O cavaleiro galês parecia ter perdido interesse nele e esse fato não o deixou insatisfeito. Apesar das palavras leves ditas em tom de zombaria, ele podia sentir o significado grave e mortal da conversa. Tudo aquilo estava ultrapassando seu entendimento e ele estava contente em seguir a orientação de Halt e ver aonde aquela mudança nos acontecimentos os levaria.
— Duvido que possa ser útil para você — Halt replicou com calma diante da última declaração do comandante.
Horace se perguntou se Deparnieux tinha compreendido a mensagem oculta ali: que Halt não tinha intenção de usar suas habilidades a serviço de seu captor. Parecia que sim, pois o cavaleiro negro encarou o homem baixo que cavalgava ao seu lado por um momento, antes de responder.
— Bem, isso nós vamos ver. Por enquanto, permita que eu lhe ofereça minha hospitalidade até que o braço de seu jovem amigo esteja curado.
Ele se virou e sorriu para Horace, incluindo-o na conversa pela primeira vez.
— Afinal, não é seguro percorrer essas estradas quando não se está totalmente em forma.
O grupo acampou de noite numa pequena clareira perto da estrada. Deparnieux colocou sentinelas, mas Halt notou que a quantidade de homens destinada para montar guarda do lado de dentro era maior do que a que recebeu a tarefa de defender o acampamento de ataques. Deparnieux devia se sentir relativamente seguro naquelas terras.
Foi interessante observar que, ao se prepararem para a noite, por precaução, seu captor ordenou que suas armas fossem entregues. Sem outra alternativa, os dois araluenses foram obrigados a obedecer.
Pelo menos, o comandante não fingiu mais cordialidade, pois preferiu comer e dormir sozinho no pavilhão de lona preta que seus homens haviam erguido especialmente para ele.
Halt se viu diante de um dilema. Se estivesse viajando sozinho, poderia simplesmente desaparecer na noite, recuperando as armas antes de sair. Contudo, Horace não conhecia a arte dos arqueiros de se mover e fugir sem ser notado, e não havia como Halt pudesse fazê-lo desaparecer. Ele não tinha dúvida de que, se tivesse que fugir sozinho, Horace não sobreviveria por muito tempo. Portanto, Halt se contentou em esperar e ver o que iria acontecer. Pelo menos, eles estavam indo para o norte, que era a direção que pretendiam seguir.
Além disso, ele tinha descoberto na pousada, na noite anterior, que os grandes desfiladeiros entre a Teutônia, as terras vizinhas do norte e a Escandinávia, logo acima, estariam bloqueados pela neve naquela época do ano. Assim, seria bom se achassem um lugar onde passar os próximos dois meses. Ele concluiu que o Château Montsombre atenderia essa necessidade como qualquer outro local. Halt não tinha dúvida de que Deparnieux tinha alguma noção de sua verdadeira ocupação. Era óbvio que ele esperava incluí-lo em sua batalha contra os líderes vizinhos. Halt refletiu que, por ora, eles estavam bastante seguros e indo na direção certa.
No momento certo, ele teria que fazer algumas mudanças. Mas esse momento ainda não tinha chegado.


Eles chegaram ao castelo no dia seguinte. Depois da demonstração inicial de boa vontade, Deparnieux tinha resolvido não devolver as armas pela manhã e Halt se sentiu estranhamente despido sem o peso conhecido e confortante das facas no cinto e da dúzia de flechas penduradas no ombro.
O Château Montsombre se erguia atrás da floresta que os cercava sobre urna planície à qual se chegava por um caminho estreito e sinuoso. À medida que subiam pela trilha, o chão desaparecia de ambos os lados formando um declive íngreme. O caminho mal era largo o bastante para quatro homens viajarem lado a lado. Era uma largura que permitia acesso razoável a forças amigas e evitava que invasores se aproximassem em grande número. Era um lembrete sombrio da situação em Gálica, onde comandantes vizinhos batalhavam constantemente pela supremacia, e a possibilidade de um ataque estava sempre presente.
O castelo em si era baixo e impressionante, tinha paredes grossas e torres grandes em cada um dos quatro cantos. Ele em nada lembrava a elegância sublime de Redmont ou do castelo de Araluen. Ao contrário, era uma estrutura escura, ampla e ameaçadora, construída para a guerra e por nenhuma outra razão. Halt tinha dito a Horace que a palavra Montsombre significava “montanha escura”. Parecia um nome adequado para o edifício de paredes grossas no fim da trilha tortuosa e sinuosa.
O nome ficou ainda mais expressivo quando subiram mais pelo caminho. Havia postes enfileirados do lado da estrada de onde pendiam estruturas quadradas e estranhas. Quando se aproximaram, Horace conseguiu ver horrorizado que as estruturas eram gaiolas de ferro estreitas que continham os restos do que antes eram homens.
Elas estavam penduradas bem acima da trilha, balançando levemente com o vento que soprava em volta da planície. Era evidente que alguns estavam ali por muitos meses. As figuras dentro das gaiolas eram restos ressecados, escurecidos e enrugados pela longa exposição ao tempo e enfeitados de trapos de tecido podre. Mas outros eram mais novos, e os homens eram reconhecíveis. As gaiolas quadradas eram construídas com barras de ferro e deixavam espaço para urubus e corvos entrarem e rasgarem a carne dos homens. Os olhos de quase todos os corpos tinham sido arrancados pelos pássaros. Ele olhou enojado para o rosto sombrio de Halt. Deparnieux viu o movimento e, deliciado com a impressão que os horrores da beira de sua estrada provocavam no garoto, sorriu para ele.
— Somente alguns criminosos — ele disse com tranquilidade. — É claro que todos foram julgados e condenados. Insisto em seguir normas legais rígidas em Montsombre.
— Quais foram os crimes? — o garoto perguntou.
Sua garganta estava seca e apertada, e as palavras saíram com dificuldade. Deparnieux lhe deu outro sorriso despreocupado e fingiu que estava tentando pensar.
— Digamos que tenham sido “vários” — ele respondeu. — Resumindo, eles me incomodaram.
Horace observou o olhar divertido do outro homem por alguns segundos e então, balançando a cabeça, virou-se. Ele tentou afastar o olhar das figuras esfarrapadas e tristes penduradas acima dele. Devia haver mais de vinte ao todo. Então, seu horror aumentou quando percebeu que nem todos estavam mortos. Em uma das gaiolas, ele viu a figura presa se movendo. No início, pensou ser uma ilusão provocada pelo movimento das roupas do homem ao vento. Mas uma das mãos atravessou as barras, quando eles se aproximaram, e um som rouco e lamentável saiu da gaiola.
Era um pedido inconfundível de socorro.
— Ah, meu Deus — Horace murmurou em voz baixa e ouviu Halt respirar fundo ao seu lado.
Deparnieux puxou as rédeas de seu cavalo e apoiou o peso do corpo num dos lados da sela.
— Reconhecem esse homem? — ele perguntou num tom divertido. — Vocês o viram outra noite, na taverna.
Horace franziu a testa confuso. Não conhecia o homem, mas havia pelo menos uma dúzia de pessoas na taverna, na noite em que viram o comandante pela primeira vez. Ele se perguntou por que deveria se lembrar desse homem mais do que de qualquer outro.
— Foi ele quem riu — Halt disse com frieza.
— É isso mesmo — Deparnieux retrucou rindo. — Ele era um homem com um tipo raro de humor. É estranho como o senso de humor dele parece ter desaparecido agora. Era de se esperar que ele matasse o tempo com seu estranho senso de humor.
E ele sacudiu as rédeas, batendo-as no pescoço do cavalo, e recomeçou a cavalgar. O grupo o acompanhava, parando quando ele parava, movendo-se quando ele se movia, o que obrigava Halt e Horace a manter o mesmo ritmo.
Horace olhou para Halt mais uma vez, procurando uma mensagem de conforto. O arqueiro encontrou seu olhar por alguns segundos e acenou com a cabeça devagar. Ele entendia como o garoto se sentia enojado pela depravação e crueldade desprezíveis que estava testemunhando. De alguma forma, Horace se sentiu um pouco consolado com o gesto de Halt. Ele tocou a barriga de Kicker com o joelho e o fez andar.
E juntos eles cavalgaram na direção do castelo escuro e desolador que esperava os dois.

3 comentários:

  1. Jesus amado, o que fazer com esse homem. Se Halt tivesse realmente mirado a garganta dele, não haveria tantos problemas

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  2. Pelos deuses!! '-' Por favor, um milagre.

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  3. Mestre eu preciso de um milagre (tipo Zeus faz um raio cair na cabeca dele por favor, nunca te pedi nada) que nojento mano cm a descrição eu passei mal ;-;
    Ass:lana

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