28 de junho de 2016

Capítulo 24

Os dois viajantes passaram uma noite agitada, fazendo turnos para montar guarda. Nenhum deles tinha certeza de que o comandante local não voltaria se esgueirando na escuridão. Contudo, eles constataram que seus temores eram infundados. Não houve mais nenhum sinal de Deparnieux naquela noite.
Na manhã seguinte, enquanto selavam os cavalos no celeiro no fundo do edifício, o dono da pousada se aproximou nervoso de Halt.
— Senhor, não posso dizer que esteja triste por vê-lo deixar minha pousada — ele falou em tom de desculpas.
Halt deu-lhe uns tapinhas no ombro para mostrar que não estava ofendido.
— Posso entender sua posição, meu amigo. Receio que o seu chefão não tenha gostado de nós.
O dono da pousada olhou em volta inquieto antes de concordar com Halt, como se tivesse medo de que alguém pudesse estar observando-os e fosse contar sobre sua deslealdade para Deparnieux. Halt imaginou que provavelmente isso tivesse acontecido várias vezes antes naquela cidade e sentiu pena do homem que tinha rido no bar na noite anterior e tinha sido surpreendido pelo cavaleiro negro.
— Ele é um homem muito, muito mau, senhor — o dono da pousada admitiu em voz baixa. — Mas o que gente como nós pode fazer contra ele? Ele tem um pequeno exército à disposição, e nós somos apenas comerciantes, não guerreiros.
— Gostaria de poder ajudar vocês — Halt disse — mas temos que partir.
Halt hesitou apenas um segundo e perguntou com disfarçada indiferença:
— A balsa em Les Sourges funciona todos os dias?
Les Sourges era um rio que passava na cidade e ia para o oeste, a uns 20 quilômetros dali. Halt e Horace estavam viajando para o norte, mas o arqueiro tinha certeza de que Deparnieux iria voltar e tentar saber para onde tinham ido. Ele não esperava que o estalajadeiro guardasse segredo sobre sua pergunta, tampouco iria censurá-lo por abrir a boca. O homem agora fazia que sim com a cabeça, confirmando o que Halt tinha perguntado.
— Sim, senhor, a balsa ainda está funcionando nesta época do ano. No mês que vem, quando a água congelar, ela vai parar e os viajantes vão ter que usar a ponte em Colpennieres.
Halt pulou para a sela. Horace já estava montado e segurava a rédea principal que puxava o grupo de cavalos capturados. Depois dos acontecimentos da noite anterior, eles tinham decidido que seria sensato deixar a cidade o mais depressa possível.
— Então vamos para a balsa — Halt avisou em voz alta. — Acho que há uma bifurcação na estrada alguns quilômetros ao norte, certo?
— Isso mesmo, senhor — o dono da pousada confirmou. — É o principal cruzamento que vai encontrar. Pegue a estrada da direita e vai estar no caminho da balsa.
Halt levantou a mão para agradecer e se despedir e, cutucando Abelard com o joelho, saiu do pátio do estábulo.
Eles viajaram longamente naquele dia. Ao chegar ao cruzamento, ignoraram a estrada da direita e continuaram em frente na direção do norte. Não havia nenhum sinal na estrada de que estivessem sendo perseguidos, mas as colinas e os bosques que os cercavam poderiam esconder um exército, se necessário. Halt não estava totalmente convencido de que Deparnieux, que conhecia o campo, não estava viajando paralelo a eles em algum lugar, talvez usando atalhos para preparar uma emboscada em algum ponto adiante na estrada.
Foi quase um anticlímax quando, no meio da tarde, eles chegaram a uma pequena ponte onde havia um cavaleiro a espera barrando a passagem e lhes oferecendo a escolha de pagar o pedágio ou lutar com ele.
O cavaleiro, montado num cavalo castanho ossudo que deveria ter sido aposentado dois ou três anos antes, estava a quilômetros de distância do comandante que tinham confrontado na noite anterior. Seu casaco estava enlameado e rasgado. Talvez tivesse sido amarelo um dia, mas tinha desbotado para um branco sujo. Sua armadura tinha sido remendada em vários lugares e era evidente que sua lança era feita com o tronco cortado de uma árvore nova. O escudo tinha a inscrição da cabeça de um javali e parecia apropriado para um homem desbotado, rasgado e todo desgrenhado como ele.
Eles pararam observando a cena. Halt suspirou desanimado.
— Estou ficando muito cansado disso tudo — ele murmurou para Horace e começou a desamarrar o arco que estava pendurado em seu ombro.
— Um momento, Halt — Horace pediu, enquanto tirava o escudo redondo das costas e o ajeitava no braço esquerdo. — Por que não deixamos que ele veja a insígnia da folha de carvalho e esperamos para ver se ele muda de ideia sobre a proposta?
Halt fez cara feia para a figura maltrapilha diante deles, hesitando em estender a mão e pegar uma flecha.
— Bem, está certo — ele disse relutante. — Mas vamos lhe dar somente uma chance. Depois, vou atravessá-lo com uma flecha. Estou profundamente cansado dessas pessoas.
Ele afundou na sela outra vez quando Horace cavalgou para encontrar o cavaleiro desmazelado. Halt notou que, até aquele momento a figura no meio da estrada não tinha emitido nenhum som, e isso era incomum. Como regra geral, os guerreiros de estrada não conseguiam esperar para apresentar desafios, geralmente apimentando sua fala com expressões como “ô lacaio!”, “Senhor cavaleiro, queira tomar posição” e outras bobagens antiquadas desse tipo.
E, no exato momento em que o pensamento lhe ocorreu, sinos de advertência soaram em sua mente e ele chamou o jovem aprendiz que já estava a uns 20 metros de distância, trotando sobre Kicker para encontrar seu desafiante.
— Horace! Volte! É uma...
Mas, antes que pudesse pronunciar a última palavra, um vulto sem forma caiu dos galhos de um carvalho que pendia sobre a estrada e envolveu a cabeça e os ombros do garoto. Por um momento, Horace lutou inutilmente nas dobras da rede que o prendia. Então, uma mão invisível puxou uma corda e a rede se apertou em volta dele, arrancando-o da sela e fazendo-o cair no chão.
Assustado, Kicker se afastou de costas do cavaleiro caído, trotou alguns metros e, percebendo que não estava em perigo, parou e observou com as orelhas em pé, cauteloso.
— ...armadilha — Halt terminou devagar e, zangado com a falta de atenção. Distraído pela aparência ridícula do cavaleiro mal-arrumado, tinha permitido que seus sentidos relaxassem, levando-os àquela situação difícil.
Ele tinha uma flecha pronta no arco, mas não havia um alvo visível, exceto pelo cavaleiro no velho cavalo de batalha que ainda estava sentado em silêncio no meio da estrada. Ele não tinha mostrado nenhum sinal de surpresa quando a rede caiu sobre Horace.
— Bem, amigo, você pode pagar a sua parte nessa trapaça.
Halt murmurou e levantou o arco devagar, puxou a corda até que a ponta da pena tivesse encostado em seu rosto, bem acima da curva da boca.
— Eu não faria isso — disse uma voz grave e familiar.
O cavaleiro enferrujado e esfarrapado levantou o visor, revelando os traços carrancudos de Deparnieux. Halt praguejou baixinho. Ele hesitou, o arco ainda totalmente puxado, e ouviu uma série de pequenos barulhos vindos dos arbustos de ambos os lados da estrada. Lentamente, diminuiu a tensão da corda ao se dar conta de que pelo menos uma dúzia de vultos tinha se levantado das plantas, todos carregando pequenas bestas mortais. E todas estavam apontadas para ele.
Halt recolocou a flecha na aljava pendurada às costas e baixou o arco até encostá-lo na coxa. Sem saber o que fazer, olhou para onde Horace ainda lutava contra a malha fina trançada que o envolvia. Agora, mais homens estavam saindo das árvores e arbustos e se aproximaram do aprendiz. Enquanto quatro deles o cobriram com bestas, outros trabalhavam para afrouxar as dobras da rede e fazê-lo se levantar com o rosto muito vermelho.
Deparnieux, com um sorriso largo de satisfação no rosto, fez o cavalo ossudo descer a estrada na direção deles. Ele parou numa distância em que sua voz podia ser ouvida e fez uma curvatura apressada até a cintura.
— Agora, cavaleiros — ele disse em tom zombeteiro — vou ter o privilégio de ter vocês como convidados no Château Montsombre.
— Como poderíamos recusar? — Halt replicou erguendo uma sobrancelha surpreso.

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