24 de junho de 2016

Capítulo 24

— Aconteceu alguma coisa — Halt disse em voz baixa, fazendo sinal para os dois companheiros pararem os cavalos.
Os três cavaleiros haviam andado a meio galope no último meio quilômetro. Agora haviam aumentado um pouco a velocidade, e o espaço aberto entre as árvores estava bem à sua frente, a cerca de 100 metros de distância. Pequenas barracas individuais se estendiam em filas ordenadas, e a fumaça das fogueiras usadas para o preparo da comida enchia o ar. Um estande para prática de arco-e-flecha tinha sido instalado num dos lados do espaço aberto, e várias dezenas de cavalos, todos pequenos e desgrenhados cavalos de arqueiros, estavam pastando perto das árvores.
Os três companheiros sentiram um ar de urgência e atividade em todo o acampamento. No centro das fileiras de barracas, havia um pavilhão maior, de 4x4 metros e com altura suficiente para permitir que um homem alto ficasse de pé. Os panos laterais estavam enrolados para cima naquele momento, e Will pôde ver um grupo de homens vestidos de verde e cinza parados ao redor de uma mesa, aparentemente mergulhados numa conversa.
De repente, um dos membros do grupo se afastou e correu para um cavalo que esperava do lado de fora da entrada. Ele montou, virou o cavalo e disparou pelo acampamento a galope na direção da trilha estreita entre as árvores do outro lado.
Ele tinha acabado de desaparecer nas sombras profundas debaixo das árvores quando outro cavaleiro apareceu da direção oposta, galopando entre as fileiras e parando fora da grande barraca. Seu cavalo mal tinha parado quando ele saltou para o chão e foi se juntar ao grupo do lado de dentro.
— O que aconteceu? — Will perguntou.
De testa franzida, ele percebeu que várias das pequenas barracas estavam sendo desfeitas e enroladas por seus donos.
— Não tenho certeza — Halt respondeu, fazendo um gesto na direção das fileiras de barracas. — Veja se consegue encontrar um bom lugar para acamparmos. Vou ver o que está acontecendo.
Ele fez Abelard ir para a frente, virou-se e gritou:
— Não monte as barracas ainda. Pelo que parece, talvez não precisemos delas.
Os cascos de Abelard bateram com força no chão enquanto ele galopava na direção do centro do acampamento.
Will e Gilan encontraram um local para acampar debaixo de uma árvore grande relativamente perto da área central de reunião. Depois disso, sem saber ao certo o que fazer em seguida, eles se sentaram num tronco e esperaram a volta de Halt. Como um arqueiro de posição elevada, Halt tinha acesso ao pavilhão maior que, segundo a explicação de Gilan, era a barraca de comando. O comandante do grupo, um arqueiro chamado Crowley, se encontrava ali com seu pessoal todos os dias para organizar as atividades, bem como para conferir e avaliar os relatórios e as informações que os arqueiros traziam para a Reunião.
Quase todas as barracas perto dos dois arqueiros mais jovens estavam desocupadas, mas havia um arqueiro magro e desengonçado do lado de fora de uma delas, andando impacientemente de um lado para outro, parecendo tão confuso quanto Gilan e Will. Ao vê-los no tronco, ele se aproximou.
— Alguma novidade? — ele perguntou imediatamente, ficando desanimado quando ouviu a resposta de Gilan.
— Íamos fazer a mesma pergunta — Gilan disse, estendendo a mão para cumprimentar o rapaz. — Você é Merron, não é?
Os dois trocaram um aperto de mão.
— Isso mesmo. E, se me lembro bem, você é Gilan.
Gilan apresentou Will, e o recém-chegado, que parecia ter uns 30 anos, olhou para ele curioso.
— Então você é o novo aprendiz de Halt — ele comentou. — Nós estávamos querendo saber como você era. Eu ia ser um dos seus avaliadores.
— Ia ser? — Gilan perguntou depressa.
— Sim — Merron respondeu, olhando para ele. — Duvido que a gente continue com a Reunião agora — ele hesitou e acrescentou: — Quer dizer que vocês não estão sabendo?
Os dois recém-chegados balançaram a cabeça negativamente.
— Morgarath está planejando alguma coisa outra vez — ele disse em voz baixa, e Will sentiu um calafrio na espinha ao ouvir o nome perverso.
— O que aconteceu? — Gilan perguntou atento.
Merron sacudiu a cabeça, remexendo a terra na sua frente com a ponta da bota num gesto de frustração.
— Não há notícias claras ainda, apenas informações incompletas. Mas parece que um exército de Wargals saiu do desfiladeiro de Três Passos há alguns dias. Eles derrotaram as sentinelas e foram para o norte.
— Morgarath estava com eles? — Gilan quis saber.
Will ficou quieto e de olhos arregalados. Ele não conseguia fazer perguntas, nem mesmo pronunciar o nome de Morgarath.
— Não sabemos — Merron respondeu. — Acho que não, nesse estágio, mas Crowley tem mandado patrulheiros para investigar nos últimos dois dias. Talvez seja apenas um ataque surpresa, mas, se for mais do que isso, é possível que signifique o início de outra guerra. Se for isso, foi um péssimo momento para perder lorde Lorriac.
— Lorriac está morto? — Gilan perguntou com preocupação na voz, e Merron assentiu.
— Parece que foi um derrame ou um ataque do coração. Ele foi encontrado morto alguns dias atrás e não havia nenhuma marca em seu corpo. Estava olhando direto para a frente. Morto e frio como pedra.
— Mas ele estava na sua melhor fase! — Gilan exclamou. — Eu o vi há somente um mês e ele estava saudável como um touro.
Merron deu de ombros. Ele não tinha explicação, somente conhecia os fatos.
— Acho que isso pode acontecer com qualquer um — ele disse. — A gente nunca sabe.
— Quem é lorde Lorriac? — Will perguntou para Gilan em voz baixa.
Pensativo, o jovem arqueiro balançou a cabeça enquanto respondia.
— Lorriac de Steden. Ele era o líder da cavalaria pesada do rei. Provavelmente nosso melhor comandante. Como Merron disse, se houver uma guerra, sentiremos muito a falta dele.
A mão fria do medo pousou no coração de Will. Toda a sua vida as pessoas falaram de Morgarath em voz baixa, isso quando falavam dele. O Grande Inimigo tinha quase assumido as proporções de um mito: uma lenda de tempos antigos e sombrios. Agora o mito estava se tornando realidade mais uma vez. Uma realidade desafiadora e apavorante. Ele olhou para Gilan em busca de tranquilidade, mas o rosto bonito do jovem arqueiro não mostrou nada além de dúvida e preocupação em relação ao futuro.
Halt demorou quase uma hora para se juntar a eles outra vez. Como já passava do meio-dia, Will e Gilan tinham preparado uma refeição com pão, carne fria e frutas secas. O arqueiro grisalho escorregou da sela de Abelard, aceitou um prato de Will e comeu rapidamente.
— A Reunião terminou — ele disse entre uma mordida e outra.
Ao ver a chegada do arqueiro mais velho, Merron tinha voltado a se reunir ao grupo. Ele e Halt se cumprimentaram rapidamente e então Merron fez a pergunta que estava na mente de todos.
— É a guerra? — ele perguntou ansiosamente, e Halt balançou a cabeça.
— Não temos certeza. As últimas informações mostram que Morgarath ainda está nas montanhas.
— Então por que os Wargals saíram? — Will perguntou.
Todos sabiam que os Wargals só faziam a vontade de Morgarath. Eles nunca teriam agido de forma tão radical sem ordens dele. A expressão de Halt estava sombria quando respondeu.
— Eles são apenas um grupo pequeno, talvez 50. A intenção foi usá-los para desviar a atenção. Crowley acha que, enquanto nossos guardas estavam ocupados perseguindo os Wargals, os dois Kalkaras saíram das Montanhas e se esconderam em algum lugar da Planície Solitária.
Gilan assobiou baixinho, e Merron até deu um passo para trás surpreso. O rosto dos dois jovens arqueiros mostrava seu grande horror diante das notícias. Will não tinha ideia do que eram os Kalkaras, mas, a julgar pela expressão de Halt e as reações de Gilan e Merron, as notícias obviamente não eram boas.
— Você quer dizer que eles ainda existem? — Merron perguntou. — Pensei que tinham morrido anos atrás.
— Ah, sim, eles ainda existem — Halt confirmou. — Sobraram apenas dois, mas é o bastante para ficarmos preocupados.
Houve um grande silêncio. Finalmente e com hesitação, Will teve que perguntar:
— Quem são eles?
Halt balançou tristemente a cabeça. Não queria discutir aquele assunto com alguém tão jovem quanto Will, mas, sabendo o que os esperava, não tinha escolha. O garoto tinha que saber.
— Quando Morgarath estava planejando sua rebelião, ele queria mais que um exército comum. Sabia que sua tarefa seria mais fácil se conseguisse aterrorizar seus inimigos. Assim, durante vários anos, ele fez uma série de expedições para as Montanhas da Chuva e da Noite, procurando.
— Procurando o quê? — Will perguntou, embora tivesse a incômoda sensação de que sabia qual seria a resposta.
— Aliados que pudesse usar contra o reino. As montanhas são uma parte antiga e tranquila do mundo. Elas permaneceram inalteradas durante séculos, e havia rumores de que estranhas bestas e monstros antigos ainda viviam ali. Acontece que os rumores se confirmaram.
— Wargals — Will comentou, e Halt assentiu.
— Sim, Wargals. Morgarath os escravizou rapidamente e os fez cumprir sua vontade — Halt completou com um toque de amargura na voz. — Mas então ele encontrou os Kalkaras. E eles são piores que os Wargals. Muito, muito piores.
Will não disse nada. Pensar em bestas que eram piores que os Wargals o deixava, no mínimo, perturbado.
— Eles eram três, mas um foi morto há cerca de oito anos, por isso sabemos um pouco mais sobre eles. Pense numa criatura em algum ponto entre um macaco e um urso que anda sobre duas patas e você vai ter uma ideia da aparência de um Kalkara.
— Então Morgarath os controla com a mente, como faz com os Wargals? — Will perguntou.
— Não. Eles são mais inteligentes do que os Wargals, mas são totalmente obcecados por prata. Eles adoram e guardam prata e parece que Morgarath dá para os Kalkaras grandes quantidades de prata para que façam o que ele quer. E o fazem bem. Podem ser incrivelmente espertos quando perseguem uma presa.
— Presa? Que tipo de presa? — Will quis saber.
Halt e Gilan trocaram um olhar, e Will pôde ver que seu mentor estava relutante em falar no assunto. Mas o arqueiro grisalho respondeu em voz baixa:
— Os Kalkaras são assassinos. Quando recebem ordens para capturar uma determinada vítima, fazem tudo o que podem para alcançar e matar essa pessoa.
— Podemos impedir os Kalkaras? — Will perguntou, e seu olhar passou rapidamente para o arco pesado de Halt e a aljava repleta de flechas negras.
— É difícil matá-los. São cobertos por pelos grossos emaranhados e tão fechados que quase parecem escamas. Uma flecha dificilmente penetra neles. Uma acha ou uma espada de folha larga funciona melhor. Ou talvez um bom golpe com uma lança pesada dê resultado.
Will sentiu um momento de alívio. Esses Kalkaras estavam parecendo quase invencíveis, mas havia muitos cavaleiros no reino que, sem dúvida, eram capazes de dar conta deles.
— Então foi um cavaleiro que matou um deles há oito anos? — Halt balançou a cabeça.
— Não foi um cavaleiro. Foram três. Foram necessários três cavaleiros totalmente armados para matar a criatura, e apenas um deles sobreviveu à batalha. E o que é pior: ele ficou aleijado para o resto da vida — Halt terminou carrancudo.
— Três homens? Todos cavaleiros? — Will indagou sem acreditar. — Mas como...
Gilan o interrompeu antes que pudesse terminar.
— O problema é que, se você se aproximar o bastante para usar uma espada ou lança, geralmente os Kalkaras derrotam você antes que tenha alguma chance.
Enquanto ele falava, seus dedos batiam levemente no cabo da espada que usava na cintura.
— E como eles fazem isso? — Will quis saber, sentindo o alívio momentâneo ser instantaneamente afastado pelas palavras de Gilan.
— Seus olhos — explicou Merron, o arqueiro desajeitado. — Se você olhar nos olhos deles, fica paralisado e indefeso, do mesmo jeito que um pássaro fica paralisado pelo olhar de uma cobra antes de ser morto por ela.
Will olhou para os três companheiros sem compreender. O que Merron tinha dito parecia improvável demais para ser verdade, mas Halt não o contradisse.
— Paralisa você... como eles podem fazer isso? Você está falando de magia?
Halt deu de ombros. Merron olhou para o lado, pouco à vontade. Nenhum deles gostava de discutir aquele assunto.
— Algumas pessoas dizem que é magia — Halt disse finalmente. — Acho mais provável que seja uma forma de hipnotismo. Seja como for, Merron está certo. Se um Kalkara fizer você olhar nos olhos dele, você fica paralisado de puro terror, incapaz de fazer qualquer coisa para se salvar.
Will olhou ao redor ansioso, como se esperasse ver uma criatura macaco-urso sair de dentro das árvores silenciosas a qualquer momento. Ele sentiu o pânico crescendo no peito. De alguma forma, tinha acreditado que Halt era invencível e, no entanto, ele estava ali, aparentemente admitindo que não havia defesa contra aqueles monstros perversos.
— Não há nada que se possa fazer? — ele perguntou numa voz desanimada.
— Diz a lenda que eles são especialmente vulneráveis ao fogo — Halt contou, dando de ombros. — O problema é, como já sabemos, conseguirmos nos aproximar o bastante para causar qualquer dano. Carregar uma chama acesa dificulta a tarefa de perseguir um Kalkara. Eles costumam caçar à noite e podem ver você se aproximando.
Will achou difícil acreditar no que estava ouvindo. Halt parecia muito realista sobre o assunto, e Gilan e Merron obviamente ficaram perturbados com as notícias que ele trouxe.
Seguiu-se um silêncio estranho, quebrado por Gilan.
— O que faz Crowley pensar que Morgarath está usando Kalkaras?
Halt hesitou. Ele tinha ouvido a opinião de Crowley numa reunião particular. Então deu de ombros. Todos precisariam saber de tudo cedo ou tarde e todos eram membros do Grupo dos Arqueiros, até Will.
— Ele já usou duas vezes no ano passado: para matar lorde Northolt e lorde Lorriac.
Os três homens mais jovens trocaram olhares surpresos, e Halt continuou:
— Pensou-se que Northolt havia sido morto por um urso, lembram?
Will acenou com a cabeça de leve. Agora ele lembrava. No primeiro dia como aprendiz de Halt, o arqueiro tinha recebido a notícia da morte do comandante supremo.
— Na época, achei que Northolt era um caçador habilidoso demais para ser morto daquele jeito. É óbvio que Crowley concorda.
— Mas e quanto a Lorriac? Todos dizem que foi um derrame — Merron comentou.
Halt olhou para ele brevemente e então respondeu.
— Você ouviu isso, não foi? Bem, o médico dele ficou muito surpreso. Ele disse que nunca tinha visto homem mais saudável. Por outro lado... — ele fez uma pausa, e Gilan terminou seu pensamento.
— Pode ter sido obra dos Kalkaras.
— Exatamente — Halt concordou. — Não conhecemos todos os efeitos do olhar paralisante. Mantido durante um longo período de tempo, o terror pode muito bem ser suficiente para parar o coração de um homem. E houve algumas informações vagas sobre um animal grande e escuro visto na região.
Novamente, o silêncio se instalou no pequeno grupo debaixo das árvores. Em volta deles, os arqueiros se agitavam de um lado para outro, levantando acampamento e selando os cavalos. Halt finalmente os despertou de seus pensamentos.
— É melhor irmos andando. Merron, você precisa voltar ao seu feudo. Crowley quer o exército alerta e mobilizado. As ordens vão ser distribuídas em poucos minutos.
Merron assentiu e se afastou na direção de sua barraca, mas parou e voltou. Algo na voz de Halt, na forma como tinha dito “você precisa voltar ao seu feudo”, o fez pensar.
— E vocês três? — ele perguntou. — Para onde vocês vão?
Antes mesmo que Halt respondesse, Will soube o que ele ia dizer.
Mas isso não tornou o fato menos assustador ou apavorante quando as palavras foram ditas.
— Nós vamos atrás dos Kalkaras.

5 comentários:

  1. é dificil matar eles? ou é dificil mata-los?

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    Respostas
    1. Eu o vi; é difícil matá-los

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    2. Nem é tão difícil assim depois que se descobre as fraquezas desse monstros

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