28 de junho de 2016

Capítulo 21

“Então, vamos ser separados afinal”, Will pensou.
Evanlyn foi levada para longe, tropeçando ao se virar para olhar para ele com uma expressão preocupada no rosto. Ele forçou um sorriso de encorajamento e acenou para ela, produzindo um gesto casual e alegre, como se eles fossem se ver em breve.
Sua tentativa de deixá-la animada foi interrompida por um forte tapa na cabeça. Ele cambaleou por alguns metros com os ouvidos assobiando.
— Mexa-se, escravo! — rosnou Tirak, o supervisor escandinavo do pátio. — Vamos ver se você tem mesmo motivos para sorrir.
Will logo descobriu que os motivos quase não existiam.
De todos os prisioneiros dos escandinavos, os escravos do pátio tinham as tarefas mais duras e desagradáveis. Os escravos domésticos, os que trabalhavam nas cozinhas e nas salas de refeições, tinham pelo menos o conforto de trabalhar e dormir num local aquecido. Eles podiam cair exaustos em suas cobertas no fim do dia, e elas eram quentes.
Por outro lado, os escravos do pátio faziam todas as tarefas exteriores, árduas e desagradáveis, que precisavam ser realizadas: cortar lenha, limpar neve dos caminhos, esvaziar as latrinas e se livrar de seu conteúdo, alimentar e dar água para os animais e limpar os estábulos.
Todos esses trabalhos tinham que ser feitos no frio cortante. E, quando o esforço provocava suor, os escravos eram deixados com as roupas úmidas que congelavam neles depois que as tarefas eram concluídas, sugando o calor de seus corpos. Eles dormiam num velho celeiro em ruínas que tinha poucas condições de manter o frio do lado de fora, por causa das correntes de ar. Cada escravo recebia um cobertor fino, uma proteção totalmente inadequada quando as temperaturas caíam abaixo de zero. Eles completavam as cobertas com qualquer trapo ou saco que conseguiam encontrar. Os roubavam, mendigavam por eles.
E, muitas vezes, lutavam por eles. Nos seus primeiros dias, Will viu dois escravos machucados, quase mortos, por causa de brigas por pedaços de sacos. Percebeu que ser um escravo do pátio era mais do que desagradável. Era totalmente perigoso.
O sistema sob o qual trabalhavam aumentava o perigo. Tirak era o chefe do pátio, mas ele delegava essa autoridade para uma pequena gangue corrupta conhecida como o Comitê. Ela era formada por meia dúzia de escravos antigos que caçavam juntos e tinham poder de vida e morte sobre os companheiros. Em troca de autoridade e alguns confortos adicionais, como comida e cobertores, eles mantinham uma disciplina brutal no pátio, organizavam a lista de serviços e distribuíam tarefas para os outros escravos. Os que se submetiam a eles e obedeciam recebiam as tarefas mais fáceis. Os que resistiam se viam realizando os trabalhos mais desagradáveis, frios e perigosos.
Tirak ignorava os excessos. Ele simplesmente não se importava com os escravos sob seu comando. Eram dispensáveis e a vida dele era muito mais simples quando usava o Comitê para manter a ordem. Se o grupo matasse ou aleijasse um ou outro rebelde, o preço a pagar era baixo.
Era inevitável que Will, sendo a pessoa que era, entrasse em choque com o Comitê. Isso aconteceu no seu terceiro dia no pátio. Ele estava voltando da floresta onde tinha ido apanhar lenha e arrastava um trenó cheio pela neve fina. Suas roupas estavam úmidas de suor e da neve que derretia, e ele sabia que assim que parasse de se movimentar ficaria tremendo de frio. As pequenas rações que recebiam para comer pouco ajudavam a restaurar o calor do corpo e, a cada dia, ele sentia sua força e resistência diminuindo um pouco mais.
Quase dobrado em dois, ele arrastou o trenó para o pátio e o fez parar ao lado da cozinha, onde os escravos da casa iriam descarregá-lo e levar a lenha para o calor das grandes cozinhas. Sua cabeça girou um pouco quando endireitou o corpo e então, de trás de um dos anexos da cozinha, ele ouviu uma voz praguejando enquanto outra choramingou de dor.
Curioso, ele largou o trenó e foi ver qual era a causa da agitação. Um garoto magro e esfarrapado estava encolhido no chão enquanto um jovem mais velho e forte batia nele com um pedaço de corda cheio de nós.
— Sinto muito, Egon! — a vítima choramingou. — Eu não sabia que era seu!
Will percebeu que os dois eram escravos, mas o rapaz grande parecia bem alimentado e usava roupas quentes, apesar de estarem rasgadas e manchadas. Will calculou que ele tinha cerca de 20 anos. Tinha notado que não havia escravos mais velhos no pátio e teve a desagradável desconfiança de que isso acontecia porque os escravos não viviam muito tempo.
— Você é um ladrão, Ulrich! — acusou o rapaz mais forte. — Vou ensinar você a não pegar as minhas coisas!
Ele estava mirando a cabeça de sua vítima com a corda nodosa e a batia no ar com fúria. Will viu que o rosto do garoto estava muito ferido e, enquanto observava, um corte se abriu exatamente debaixo do olho do menino e o sangue cobriu seu rosto. Ulrich gritava e tentava cobrir o rosto com os braços descobertos. Seu atormentador dava golpes cada vez mais violentos. Will não conseguiu mais ficar parado, olhando. Ele se aproximou, pegou a ponta da corda quando Egon ia atacar novamente e deu um puxão para trás.
Egon perdeu o equilíbrio. Cambaleou e soltou a corda, virando-se para olhar quem tinha ousado interrompê-lo. Ele esperava ver Tirak ou outro escandinavo parado ali. Nenhuma outra pessoa teria coragem de se meter com um membro do Comitê. Para sua surpresa, ele se viu olhando para um garoto baixo e magro que parecia ter uns 16 anos de idade.
— Acho que já foi o bastante — Will disse jogando a corda na neve suja do pátio da cozinha.
Furioso, Egon deu um passo à frente. Ele era maior e mais forte do que Will e estava pronto para castigar aquele estranho idiota. Então algo no olhar desse estranho e sua atitude determinada o impediram. Ele não viu medo ali. E ele parecia preparado e disposto a lutar. Egon percebeu que o rapaz era novo no pátio e ainda estava em condições relativamente boas. Will não era um alvo fácil, como o infeliz Ulrich.
— Desculpe, Egon — o garoto maltrapilho gemeu.
Ele rastejou até o membro do Comitê e encostou a cabeça nas suas botas gastas.
— Não vou fazer isso de novo.
Egon já tinha perdido interesse em sua vítima inicial. Empurrou o garoto com o pé. Ulrich olhou para cima e ao sentir que não estavam prestando atenção nele, aproveitou para fugir.
Egon mal notou a fuga do garoto. Ele olhava para Will e o avaliava. Aquela não seria uma vítima fácil, mas havia outras formas de lidar com encrenqueiros.
— Como você se chama? — ele perguntou com os olhos semicerrados e a voz baixa de raiva.
— Meu nome é Will — disse o aprendiz de arqueiro, e Egon balançou a cabeça devagar várias vezes.
— Vou me lembrar disso — ele garantiu.
No dia seguinte, Will foi escolhido para trabalhar com as pás.


O trabalho nas pás era o mais temido entre os escravos do pátio. O suprimento de água potável de Hallasholm vinha de uma grande nascente no centro da praça em frente à Grande Mansão de Ragnak. Com a chegada do inverno, se não se tomasse cuidado, a água da nascente iria congelar. Assim, os escandinavos tinham instalado enormes pás de madeira que agitavam a água constantemente e partiam o gelo antes que tudo se solidificasse.
Empurrar as manivelas que faziam as lâminas de madeira, difíceis de lidar, girar na água era um trabalho constante e cansativo. Da mesma forma que limpar a neve era um trabalho úmido, frio e muito debilitante. Ninguém durava muito tempo nas pás.
Will tinha trabalhado metade da manhã, mas já se sentia exausto, todos os músculos dos braços, costas e pernas doíam por causa do esforço. Ele empurrava a manivela, lisa por causa dos anos de manejo de uma sucessão de mãos praticamente mortas. Fazia apenas alguns minutos que tinha agitado a superfície da água da nascente, mas uma fina camada de gelo já se formava na superfície. Ela se partiu quando a lâmina de madeira bateu nela e se moveu rapidamente de um lado a outro. Do outro lado da nascente, um colega se retorcia e virava sua pá, mantendo a água em movimento, impedindo-a de se congelar. Logo que chegou, Will tinha cumprimentado o outro escravo com um aceno de cabeça, mas foi ignorado. Desde então, com exceção dos gemidos constantes provocados pelo esforço, eles tinham trabalhado em silêncio.
Uma pesada tira de couro, brandida pelo supervisor, estalava em volta de seus ombros. Ele ouvia o barulho, sentia o impacto. Mas não havia a sensação ardida do golpe que era amortecida pelo frio.
— Mergulhe as pás mais fundo! — o supervisor rosnou. — A água embaixo vai congelar se você só passar as pás na superfície.
Gemendo baixinho, Will obedeceu e se levantou nas pontas dos pés para mergulhar a pá de madeira na água gelada, respingando água por todos os lados. Ele sentiu o toque gelado da água no corpo já totalmente molhado. Era quase impossível ficar seco. Ele sabia que, quando parasse para um dos breves momentos de descanso a que tinham direito, as roupas congeladas iriam retirar o calor do corpo e ele iria recomeçar a tremer.
Eram os tremores incontroláveis que mais o assustavam. À medida que ele esfriasse, seu corpo começaria a sacudir. Ele tentou parar a tremedeira e sentiu que não conseguiria. Desanimado, Will se deu conta de que tinha perdido o controle sobre o próprio corpo. Seus dentes batiam, suas mãos balançavam, e ele não podia fazer nada. A única maneira de se aquecer outra vez era recomeçando a trabalhar.
Finalmente, acabou. Até os escandinavos reconheciam que ninguém podia trabalhar mais do que 4 horas nas pás. Trêmulo e exausto, totalmente esgotado, Will cambaleou para trás onde estava o celeiro com as camas. Ele tropeçou e caiu ao se aproximar do lugar que lhe tinha sido destinado para dormir, sem se esforçar para levantar de novo. Ansioso para sentir o fraco calor oferecido pelo cobertor fino, ele rastejou de quatro.
Então soltou um grito rouco de desespero. O cobertor tinha sumido!
Chorando, Will se encolheu no chão frio. Seus joelhos estavam dobrados e ele os envolveu com os braços numa tentativa de conservar o calor do corpo. Will lembrou o casaco de arqueiro, tão quente, perdido ao ser capturado por Erak e seus homens. Os tremores começaram e ele sentiu o corpo todo ser dominado. O frio se enterrava no fundo de sua carne, atingia seus ossos e sua alma.
Não havia nada além do frio. Seu mundo estava cercado pelo frio. Ele era o frio. Inevitável, insuportável. Não havia a menor faísca de calor em seu mundo. Não havia nada além do frio.
Will sentiu algo áspero no rosto. Ele abriu os olhos e viu alguém inclinado sobre ele estendendo um pedaço de saco grosseiro sobre seu corpo trêmulo. Então uma voz baixa falou ao seu ouvido.
— Fique calmo, amigo. Seja forte.
A pessoa que falava era um escravo alto, barbado e despenteado, mas foram os olhos dele que Will notou. Eles estavam cheios de compreensão e solidariedade. Pateticamente, Will puxou o tecido áspero para perto do queixo.
— Ouvi falar do que você tentou fazer por Ulrich — seu salvador contou. — Temos que ficar unidos se quisermos sobreviver neste lugar. A propósito, meu nome é Handel.
Will tentou responder, mas seus dentes estavam batendo incontrolavelmente e sua voz tremia ao tentar formar palavras. Era inútil.
— Aqui, experimente isto — Handel ofereceu, olhando em volta para se certificar de que não estavam sendo observados. — Abra a boca.
Will se esforçou para separar os dentes e Handel escorregou alguma coisa em sua boca que parecia um punhado de ervas secas.
— Ponha isso debaixo da língua — Handel sussurrou. — Espere derreter. Você vai ficar bem.
E, depois de alguns momentos, à medida que a saliva umedecia a substância debaixo da língua, Will sentiu a melhor e mais fantástica onda de calor tomar conta de seu corpo. O calor maravilhoso espantou o frio, espalhou-se até a ponta dos dedos das mãos e dos pés em várias ondas pulsantes. Ele nunca tinha sentido nada tão maravilhoso em toda a vida.
O tremor diminuiu à medida que sucessivas ondas de calor se espalhavam por sua pele. Seus músculos rígidos relaxaram e foram dominados por uma deliciosa sensação de paz e bem-estar. Ele olhou e viu Handel sorrindo e balançando a cabeça para ele. Aqueles maravilhosos olhos calorosos sorriam para tranquilizá-lo e ele sabia que tudo ficaria bem.
— O que é isso? — ele perguntou, falando de um jeito esquisito por causa do chumaço ensopado que havia em sua boca...
— É a erva do calor — Handel informou com delicadeza. — Ela nos mantém vivos.
Das sombras de um canto afastado, Egon observava os dois vultos e sorriu. Handel tinha feito um bom trabalho.

3 comentários:

  1. meu deus, o will vai virar um zé droguinha.
    Ass: Bad

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  2. Vai nada,são só ervas boas kkkkkkkkk

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  3. Por um momento pensei q o will estava sendo drogado (chorei rios na parte q o will cai e tals fala sobre o frio... enfim chorei T-T
    Ass:lana

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