28 de junho de 2016

Capítulo 20

Uma hora depois do pôr do sol, Halt e Horace deixaram o quarto e desceram para a taberna da pousada para o jantar. A mulher do estalajadeiro tinha preparado um saboroso cozido que fervia numa panela enorme pendurada sobre o grande fogão a lenha que dominava um lado do aposento. Uma criada lhes trouxe grandes tigelas de madeira com a comida fumegante e longos pães estranhos e compridos, assados num formato que Horace nunca tinha visto antes. Eles eram compridos e estreitos e se pareciam mais com bengalas grossas do que com pães. Mas eram crocantes do lado de fora e deliciosamente leves do lado de dentro. E, o aprendiz logo descobriu, eram a ferramenta ideal para recolher o delicioso molho do cozido.
Halt tinha aceitado um grande copo de vinho tinto para acompanhar a refeição, e Horace tinha escolhido água. Agora, depois de apreciar uma porção generosa de uma saborosa torta de framboesas, eles terminaram com canecas de um excelente café.
Horace colocou uma boa porção de mel em sua caneca, observado com cara feia pelo arqueiro.
— Destruindo o sabor de um bom café — Halt resmungou para ele, mas Horace apenas sorriu. Ele já estava se acostumando à severidade zombeteira do companheiro.
— Esse é um hábito que aprendi com seu aprendiz.
Por um momento, os dois ficaram em silêncio pensando em Will, perguntando-se o que teria acontecido com ele e Evanlyn e desejando que os dois estivessem bem e em segurança.
Halt finalmente os arrancou de seus pensamentos ao fazer um gesto de cabeça na direção do pequeno grupo de habitantes locais sentados perto do fogo. Ele e Horace tinham escolhido uma mesa no fundo da sala. Halt sempre fazia isso, sentava-se de onde podia observar o resto do lugar mantinha as costas voltadas para uma parede sólida e, ao mesmo tempo, não chamava muita atenção.
— Parece que o entretenimento vai começar — ele disse a Horace.
E, enquanto falavam, as outras pessoas no aposento começaram a puxar as cadeiras para mais perto do fogo e pedir mais cerveja para o estalajadeiros e seus ajudantes. O tocador de gaita-de-fole começou a tocar e o instrumento de corda rapidamente o acompanhou com toques rápidos e vibrantes para formar um fundo alto e agudo para a melodia arrebatadora e sublime. As gaitas enchiam o aposento com um som selvagem e melancólico, uma voz que atingia o fundo da alma e trazia para a mente dos ouvintes lembranças de amigos que há muito tinham partido e de tempos passados.
Enquanto as notas ecoavam no aposento aquecido, Halt se viu lembrando os longos dias de verão na floresta que cercava o Castelo Redmont e uma pequena figura agitada que fazia perguntas intermináveis e trazia um novo sentimento de energia e interesse à vida. No fundo de sua mente, ele via o rosto de Will: os cabelos desmanchados pelo capuz, os olhos castanhos vivos e cheios de uma irreprimível sensação de alegria. Ele se lembrava dele cuidando de Puxão, do orgulho que o garoto tinha mostrado diante da perspectiva de ter um cavalo só seu e do elo especial que tinha se formado entre os dois.
Talvez fosse porque Halt sentia os anos pesando em suas costas à medida que os cabelos grisalhos na barba tornavam-se mais a norma do que a exceção. Mas Will tinha trazido uma sensação de juventude, alegria e vitalidade para a sua vida, uma sensação que era um contraste bem-vindo aos caminhos escuros e perigosos que um arqueiro muitas vezes tinha que percorrer.
Também se lembrava do orgulho que tinha sentido quando Horace lhe contou da determinação de Will em seguir o exército dos Wargals em Céltica e de como o garoto tinha enfrentado sozinho os Wargals e os escandinavos enquanto Evanlyn trabalhava para garantir que o fogo queimasse a ponte. Will tinha mais do que um espírito indomável. Ele tinha coragem, engenhosidade e lealdade.
Halt pensou que o menino poderia ter se transformado num grande arqueiro e então abruptamente se deu conta de que tinha pensado no garoto como se essa possibilidade não existisse mais. Lágrimas umedeceram seus olhos e ele, desconfortável, se mexeu no banco. Fazia muito tempo desde que Halt tinha mostrado qualquer sinal exterior de emoção. Então, ele deu de ombros. “Will vale pelo menos algumas lágrimas de um velho acabado de cabelos brancos como eu”, Halt pensou e não fez nenhum gesto para enxugá-las. Ele olhou para Horace com o canto do olho para ver se o garoto tinha percebido alguma coisa, mas Horace estava entretido pela música e, no banco que dividiam, se inclinava para a frente com os lábios levemente separados, um dedo batendo inconscientemente no tampo da mesa rústica.
“É melhor assim”, Halt pensou sorrindo para si mesmo com tristeza. Não seria bom que o garoto o visse se desmanchando em lágrimas ao primeiro acorde de uma música triste. Arqueiros, especialmente ex-arqueiros traidores que tinham insultado o rei, deviam mostrar uma expressão mais séria.
Finalmente a música terminou e foi aplaudida com entusiasmo pelas pessoas no aposento. Halt e Horace as acompanharam com animação, e Halt usou o momento para disfarçadamente passar a mão nos olhos e secar os traços de lágrimas que havia lá.
Ele percebeu que o público jogava moedas para os músicos num chapéu que tinha sido habilmente colocado no chão ao lado deles. Ele empurrou duas moedas na direção de Horace e fez um sinal para os artistas.
— Dê isso para eles — ele disse. — Eles mereceram.
Horace assentiu animado e se levantou para atravessar o aposento, abaixando a cabeça debaixo das vigas pesadas que sustentavam o teto. Ele jogou as moedas no chapéu e foi o último na sala a fazer isso. O tocador de gaita olhou para ele, viu o rosto desconhecido e agradeceu com um gesto. Então, começou a apertar os foles da gaita com o cotovelo outra vez e, novamente, a voz persistente do instrumento tomou corpo e começou a encher o aposento.
Horace hesitou, sem querer se mexer agora que outra canção tinha começado. Ele olhou para onde Halt estava sentado nas sombras, deu de ombros e se ajeitou no tampo de uma mesa junto da pequena multidão que cercava os artistas.
Essa música tinha um tom diferente. Na melodia, havia uma nota sutil de triunfo que era aumentada pelos acordes ousados e fortes proporcionados pelo instrumento de corda que se destacava mais nessa canção. De fato, não demorou muito para que as notas frágeis e ondulantes do instrumento de forma arredondada arrebatassem o comando das gaitas-de-fole e fizessem todos na sala as acompanharem batendo palmas e pés. Um sorriso deliciado apareceu no rosto de Horace e, quando a porta da rua se abriu e uma rajada de vento varreu o aposento, ele mal notou o recém-chegado que entrou.
Outras pessoas, porém notaram e Halt, com os sentidos afiados ao extremo por ter vivido situações perigosas durante anos, sentiu lima mudança na atmosfera do lugar. Uma sensação de apreensão e quase desconfiança pareceu tomar conta das pessoas agrupadas em volta dos músicos. Houve até mesmo uma leve hesitação na música quando o gaiteiro olhou para cima e viu o homem que tinha entrado. Era apenas uma interrupção quase imperceptível no ritmo, mas forte o suficiente para que Halt notasse.
Ele observou o recém-chegado. Um homem alto e forte, talvez dez anos mais jovem do que ele. A barba preta, as sobrancelhas grossas e os cabelos também pretos lhe davam uma aparência ameaçadora. Era evidente que ele não era um dos simples moradores da vila. Quando tirou o casaco, revelou uma malha de ferro coberta por um manto negro que exibia a insígnia de um corvo branco. Na cintura, podia se ver o cabo da espada trabalhado com fios de ouro. O botão do punho, também de ouro, emitia um brilho fraco. Botas altas de couro macio indicavam que era um guerreiro montado – um cavaleiro, a julgar pela insígnia no manto. Halt não tinha dúvidas de que, amarrado do lado de fora da taverna, ele encontraria um cavalo de batalha; mais provavelmente um totalmente negro, a julgar pelas cores usadas pelo estranho.
Era óbvio que o recém-chegado estava procurando alguém. Seus olhos percorreram o aposento rapidamente, passaram por Halt sem notar a figura sombria no fundo da sala e finalmente pararam em Horace. Ele franziu um pouco as sobrancelhas e assentiu, quase imperceptivelmente para si mesmo. O garoto, enfeitiçado pela música, mal tinha notado a chegada do cavaleiro e naquele momento não prestava atenção à análise profunda a que era submetido.
Havia pessoas no aposento que viam o que acontecia. Halt notou o aumento do interesse do estalajadeiro e de sua mulher enquanto observavam e esperavam o rumo dos acontecimentos. E vários moradores locais mostravam sinais de ansiedade, de que preferiam estar em outro lugar.
A mão de Halt procurou a aljava debaixo da mesa. Como sempre, suas armas estavam facilmente ao alcance, mesmo quando comia, e o arco encostado à parede atrás dele já estava encordoado. Agora, ele tirou uma flecha da aljava e a colocou na mesa diante dele enquanto a música chegava ao fim.
Desta vez, não houve um coro de aplausos das pessoas na sala. Apenas Horace bateu palmas com entusiasmo, e quando percebeu que era o único que fazia isso, parou confuso e ficou vermelho de vergonha. Então ele também notou o homem armado na taberna, parado a uma dúzia de passos de distância dele, que o olhava com uma intensidade que beirava a agressão.
O garoto recuperou a compostura e cumprimentou o recém-chegado com um gesto de cabeça. Halt ficou satisfeito ao ver que Horace teve a presença de espírito de não olhar em sua direção. O aprendiz tinha sentido que alguma coisa desagradável podia estar prestes a acontecer e entendeu a vantagem que teriam se Halt não fosse notado.
— Finalmente — o homem falou com a voz grave e rouca. Ele era encorpado e tão alto quanto Horace. Halt concluiu que aquele não era um guerreiro de estrada. Aquele homem era perigoso. — Você é o cavaleiro da folha de carvalho? — ele perguntou num tom meio zombeteiro.
Ele falava bem a língua de Araluen, mas com um forte sotaque galês.
— Acredito que me chamam assim — Horace respondeu depois de uma leve pausa.
O cavaleiro pareceu pensar na resposta, balançou a cabeça e sorriu com desdém.
— Você acredita? — ele repetiu. — Mas será que se pode acreditar em você? Ou você é um cão araluense que late nas sarjetas?
Horace franziu a testa confuso. Aquela era um tentativa desajeitada de insultá-lo. Por algum motivo, o outro homem estava tentando provocar uma briga. E isso, para Horace, era motivo suficiente para não ser provocado.
— Se você pensa assim — ele respondeu com calma e com uma máscara de indiferença no rosto.
Mas Halt tinha percebido como a mão esquerda do garoto tinha se virado quase imperceptivelmente para o quadril esquerdo onde ele normalmente levava a espada. Agora, ela estava pendurada atrás da porta do quarto no andar superior. Horace estava armado somente com a faca.
O cavaleiro também notou o movimento involuntário. Ele sorriu, os lábios formando um arco cruel, e deu um passo na direção do jovem e musculoso aprendiz. Ele avaliou o jovem rapaz. Ombros largos, cintura delgada e obviamente musculosa. E ele se movimentava bem, com a graça e o equilíbrio naturais que eram a marca de um guerreiro experiente.
Mas o rosto era jovem e absolutamente sem malícia. Aquele não era um oponente que tinha combatido homens quase até a morte repetidas vezes. Aquele não era um guerreiro que tinha aprendido as habilidades mais perversas na implacável escola do combate mortal. O garoto mal tinha começado a se barbear. Sem dúvida alguma, era um lutador treinado e devia ser respeitado. Mas não temido.
Depois de fazer sua avaliação, o homem mais velho deu mais um passo na direção de Horace.
— Meu nome é Deparnieux — ele se apresentou.
Obviamente, ele imaginava que o nome tivesse algum significado.
Horace apenas deu de ombros afavelmente.
— Bom para você — ele respondeu, fazendo com que as sobrancelhas negras se contraíssem ainda mais.
— Não sou nenhum caipira de beira de estrada que você pode derrotar com truques e comportamento desonesto. Você não vai me pegar despreparado com suas táticas covardes como fez com tantos dos meus compatriotas.
Ele parou para ver se as palavras insultuosas estavam exercendo o efeito desejado. Horace, contudo, era esperto o bastante para não fazer objeções. Ele apenas deu de ombros novamente.
— Vou me lembrar disso, com toda certeza — ele respondeu com suavidade.
Mais um passo e o cavaleiro de constituição robusta ficou ao alcance do braço. Seu rosto se cobriu de raiva ao ouvir a resposta de Horace e a recusa do garoto em ser insultado.
— Sou o líder militar desta província! — ele gritou. — Um guerreiro que liquidou mais intrusos estrangeiros e mais covardes araluenses do que qualquer outro cavaleiro nestas terras. Pergunte a eles se não é verdade!
E fez um gesto com o braço mostrando as pessoas nervosas sentadas as mesas ao redor do fogo. Por um momento, não houve resposta, então ele virou o olhar afogueado para elas, desafiando-as a discordar. Todas baixaram os olhos ao mesmo tempo e concordaram, resmungando de má vontade. Então o olhar do homem se voltou para Horace para desafiá-lo outra vez.
O menino o retribuiu impassível, mas um tom avermelhado estava começando a colorir suas faces.
— Como eu disse — ele respondeu com cuidado — vou me lembrar disso.
Os olhos de Deparnieux brilharam.
— E eu afirmo que você é um covarde e um ladrão que matou guerreiros galeses com subterfúgios e trapaças e roubou suas armaduras, seus cavalos e pertences! — ele concluiu com a voz cada vez mais alta.
Houve um longo silêncio no aposento. Finalmente, Horace respondeu.
— Acho que está enganado — ele disse no mesmo tom suave que tinha mantido durante todo o confronto.
Todos na sala respiraram fundo, e Deparnieux recuou furioso.
— Está me chamando de mentiroso? — ele indagou.
— De jeito nenhum — Horace negou balançando a cabeça. — Estou dizendo que você está cometendo um erro. Pelo jeito, alguém lhe deu uma informação errada.
Deparnieux estendeu as mãos e se dirigiu as presentes.
— Vocês ouviram o que ele disse! Ele me chamou de mentiroso! Isso é intolerável.
E, como tinha planejado, no mesmo movimento no qual estendeu as mãos, puxou uma das luvas de baixo do cinto e agora, antes que alguém pudesse reagir, deu impulso para atingir o rosto de Horace com ela num desafio que não podia ser ignorado.
Com uma sensação de triunfo, Deparnieux começou o movimento da mão para que a luva batesse no rosto do garoto. Apenas para tê-la arrancada da mão por dedos invisíveis e jogada para o outro lado do aposento, onde parou pendurada numa das vigas de carvalho que sustentavam o teto.

2 comentários:

  1. já comecei a ler esperando a flecha do Halt acertar a luva \o/
    Ass: Bad

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