28 de junho de 2016

Capítulo 19

O calor na sala de jantar de Ragnak era intenso. O grande número de pessoas e o fogo imenso e aberto que se estendia por quase toda a largura numa extremidade do aposento combinavam-se para manter a temperatura desconfortavelmente quente, apesar da neve alta que cobria o chão do lado de fora.
A sala era imensa, comprida e de teto baixo, com duas mesas que iam de uma ponta à outra e uma terceira, a mesa de Ragnak, colocada transversalmente às outras na ponta oposta ao fogo. As paredes eram de troncos de pinho lisos, rusticamente cortados, e vedadas, onde seu formato irregular tinha deixado aberturas, com uma mistura de argila e lama dura como pedra.
Mais troncos de pinho inclinavam-se para o alto formando ângulos que sustentavam o telhado, feito de uma camada firmemente entrelaçada de junco e folhas que, em certos lugares, atingia quase um metro de espessura. Aparte interna não era revestida. Ripas menores de madeira áspera tinham sido presas nas vigas do teto para sustentar o telhado.
O barulho, causado por quase 150 escandinavos bêbados comendo, rindo e gritando era ensurdecedor. Erak olhou ao redor e sorriu. Era bom estar em casa outra vez.
Ele aceitou outra caneca de cerveja de Borsa, hilfmann de Ragnak. Enquanto Ragnak era o oberjarl, ou principal jarl de todos os escandinavos, o hilfmann era o administrador que cuidava das tarefas diárias de toda a nação. Ele se certificava de que a terra fosse cultivada, que os impostos fossem pagos e enviados na época certa e de que uma parte de todos os saques um quarto de tudo o que tinha sido roubado fosse pago de imediato e considerado justo pelos comandantes dos navios.
— Maus negócios em todo lugar, Erak — ele disse. Eles estavam discutindo a expedição malsucedida até Araluen. — Nunca deveríamos ter nos envolvido numa guerra de tão longa duração. Não é nosso jogo. Nós fomos feitos para invasões rápidas. Entrar, agarrar o prêmio e partir novamente com a maré. É assim que agimos. Sempre foi.
Erak assentiu. Ele tinha pensado a mesma coisa quando Ragnak o indicou para a expedição. Mas o oberjarl não estava disposto a ouvir seu conselho.
— Mesmo assim, Morgarath nos pagou adiantado — o hilfmann continuou.
Erak ergueu as sobrancelhas.
— Ele pagou?
Era a primeira vez que ouvia essa informação. Acreditava que ele e seus homens estavam lutando apenas por qualquer prêmio que encontrassem e que a expedição tinha sido um fracasso total nesse aspecto. Mas seu companheiro balançou a cabeça enfaticamente.
— Ah, sim, é verdade. Ragnak não é bobo quando se trata de dinheiro. Ele cobrou Morgarath por seus serviços e pelo dos seus homens. Vocês todos vão receber uma parte.
Erak pensou que, pelo menos, ele e seus homens teriam algo para compensar os últimos meses. Mas Borsa ainda balançava a cabeça por causa da campanha de Araluen.
— Sabe qual é nosso maior problema? — ele perguntou. — Não temos generais ou estrategistas — ele respondeu antes que Erak pudesse falar. — Os escandinavos lutam como indivíduos. E, nesse aspecto, somos os melhores do mundo. Mas, quando somos contratados como mercenários, não temos estrategistas nossos para nos liderar. Assim, somos obrigados a confiar em idiotas como Morgarath.
— Quando estivemos em Araluen, eu disse que os planos dele eram complicados demais, que ele estava confiante demais.
Borsa apontou o dedo grosso para ele e Erak se espantou com a veemência do homem.
— E você está certo! Nós podíamos usar algumas pessoas como aqueles arqueiros de Araluen — ele acrescentou.
— Você está falando sério? — Erak perguntou. — Por que precisamos deles?
— Não deles, literalmente. Eu me refiro a pessoas como eles. Pessoas treinadas em planejamento e táticas, com habilidade de ver os fatos como um todo e usar o melhor das nossas tropas.
Erak teve que concordar que o outro homem tinha razão. Mas a menção aos arqueiros o fez lembrar a questão de Will e Evanlyn. Agora ele viu uma forma de resolver o problema de lidar com eles.
— Você teria utilidade para dois novos escravos na Grande Mansão? — ele perguntou como quem não quer nada.
Borsa assentiu imediatamente.
— Sempre podemos usar alguém a mais — ele disse. — Você tem alguém em mente?
— Um garoto e uma menina — Erak contou. Achou melhor não mencionar que Will era aprendiz de arqueiro. — Os dois são fortes, saudáveis e inteligentes. Nós capturamos eles na fronteira celta. Eu ia vender os dois para poder pagar minha tripulação por toda essa confusão. Mas agora, se você diz que vou receber mesmo assim, vou ficar satisfeito em dá-los pra você.
— Certamente vou poder usar — Borsa concordou agradecido. — Mande os dois para mim amanhã.
— Fechado! — Erak retrucou alegre.
Ele sentiu que um grande peso tinha sido tirado de sua cabeça.
— Agora, onde está a cerveja?


Enquanto Erak estava decidindo o destino de Will e Evanlyn, eles tinham sido mantidos trancados numa cabana perto do porto, perto do lugar onde o Wolfwind estava atracado. Na manhã seguinte, foram acordados por um escandinavo da equipe de Borsa que os levou à Grande Mansão. Ali, o hilfmann os examinou e analisou com olho crítico. Ele pensou que a menina era atraente, mas não parecia ter feito muito trabalho pesado na vida. O garoto, por sua vez, era musculoso e preparado, embora um pouco pequeno.
— A garota pode ir para o salão de refeições e para a cozinha — ele disse ao assistente. — Ponha o garoto no pátio.

2 comentários:

  1. Coitados...vendidos como animais,sem dó!

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    1. Não vendidos, dados de presente, como filhotinhos. ;) (vai ser bem legal quando perceberem q era melhor terem deixado eles em Araluem :D )

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