24 de junho de 2016

Capítulo 18

Will não conseguiu evitar um sorriso, pois não pôde imaginar nada menos parecido com um porco feroz e selvagem.
— Como você sabia que ele estava ali? — perguntou a Halt em voz baixa, e o arqueiro sacudiu os ombros.
— Eu o vi alguns minutos atrás. Você vai acabar aprendendo a perceber quando alguém o estiver observando e então vai saber procurar a pessoa.
Will balançou a cabeça admirado. O poder de observação de Halt era excepcional. Não era de surpreender que as pessoas no castelo o admirassem tanto.
— Então me diga por que estava se escondendo ali. Quem mandou você nos espiar? — perguntou Halt.
O velho esfregou as mãos nervoso, os olhos passando da expressão séria de Halt para a ponta da flecha, agora abaixada, mas ainda posicionada na corda do arco de Will.
— Espiando, não, senhor! Não, não! Espiando, não! Ouvi vocês se aproximando e pensei que aquele porco selvagem monstruoso estivesse voltando!
— Você pensou que eu era um porco selvagem? — Halt perguntou desconfiado.
Novamente, o fazendeiro balançou a cabeça.
— Não, não, não — murmurou. — Pelo menos não depois que vi você! Mas eu não tinha certeza de quem eram. Podiam ser bandidos!
— O que você está fazendo aqui? — Halt quis saber. — Você não vive na região, vive?
O fazendeiro, ansioso por agradar, balançou a cabeça de novo.
— Vim de Willowtree Creek! Venho seguindo esse animal e esperando encontrar alguém para me ajudar a transformar ele em toicinho.
De repente, Halt ficou extremamente interessado no assunto e abandonou o tom sério em que vinha falando.
— Quer dizer que você viu o porco selvagem? — ele perguntou, e o fazendeiro esfregou as mãos de novo, olhando ao redor assustado, como se estivesse nervoso com a possibilidade de o animal aparecer a qualquer minuto.
— Vi e ouvi. Não quero ver mais. Ele é um bicho malvado, senhor, escute bem.
Halt observou as pegadas novamente.
— Ele é mesmo um dos grandes — comentou divertido.
— E malvado, senhor! — o fazendeiro repetiu. — Esse bicho tem o temperamento de um demônio. Ora, ele é capaz de despedaçar um homem ou um cavalo para o café-da-manhã, com certeza!
— Então, o que pensou em fazer com ele? — Halt perguntou. — Aliás, como você se chama?
O fazendeiro inclinou a cabeça e fez um cumprimento encostando os dedos na testa.
— Peter, senhor. Sal Peter é como me chamam, pois gosto de um pouco de sal na minha carne, senhor.
— Tenho certeza de que gosta — Halt concordou com paciência. — Mas o que pretendia fazer com esse porco selvagem?
Sal Peter coçou a cabeça, parecendo perdido.
— Não sei bem. Talvez esperasse encontrar um soldado, um guerreiro ou um cavaleiro para acabar com ele. Ou talvez um arqueiro — ele acrescentou depois de pensar.
Will sorriu. Halt se levantou de onde estava examinando as pegadas. Limpou a neve do joelho e voltou para onde Sal Peter estava parado nervoso, apoiando o peso do corpo ora num pé, ora noutro.
— Ele tem causado muitos problemas? — o arqueiro perguntou, recebendo sinais positivos de cabeça do velho fazendeiro.
— Se tem, senhor! Se tem! Matou três cachorros. Estragou campos e cercas, isso ele fez. E quase matou meu genro quando ele tentou parar a fera. Como eu disse, senhor, ele é um bicho malvado!
Pensativo, Halt esfregou o queixo.
— Hum. Bom, não tenho dúvidas sobre o que devemos fazer a respeito.
Ele olhou para o sol, que estava baixo no horizonte, e então se virou para Will.
— Quanta luz você acha que ainda temos, Will?
Will examinou a posição do sol. Naqueles dias, Halt nunca perdia uma oportunidade para ensinar alguma coisa, para questionar ou testar os conhecimentos e habilidades que Will estava desenvolvendo. Este sabia que era melhor pensar bem antes de responder. Halt preferia respostas precisas, não respostas rápidas.
— Pouco mais de uma hora?
Ele viu as sobrancelhas de Halt se juntarem numa expressão aborrecida e se lembrou de que o arqueiro também não gostava de receber uma pergunta como resposta.
— Você está perguntando ou respondendo? — ele retrucou.
Will balançou a cabeça chateado consigo mesmo.
— Pouco mais de uma hora — respondeu com mais confiança e, desta vez, o arqueiro assentiu concordando.
— Certo.
Ele se virou para o fazendeiro outra vez.
— Muito bem, Sal Peter, quero que leve uma mensagem para o barão Arald.
— Barão Arald? — o fazendeiro perguntou nervoso, e Halt franziu a testa novamente.
— Viu o que você fez? — ele perguntou para Will. — Você o fez responder perguntas com perguntas!
— Desculpe — Will murmurou sorrindo, sem saber o que fazer.
Halt balançou a cabeça e continuou a conversar com Sal Peter.
— Isso mesmo, o barão Arald. Você vai encontrar o castelo dele a alguns quilômetros desta trilha.
Sal Peter espiou a trilha com uma das mãos sobre os olhos, como se já pudesse enxergar o castelo.
— Você está falando de um castelo? — ele perguntou num tom sonhador. — Nunca vi um castelo!
Halt suspirou impaciente. Manter esse tagarela com o pensamento fixo no assunto estava começando a lhe tirar o bom humor.
— Isso mesmo, um castelo. Quando chegar, você fala com os guardas no portão...
— O castelo é grande? — o velho perguntou.
— É enorme! — Halt rugiu, e Sal Peter recuou assustado, com um olhar magoado.
— Não precisa gritar, meu jovem — ele disse ofendido. — Eu só estava perguntando, só isso.
— Bom, então pare de me interromper — o arqueiro ordenou. — Estamos perdendo tempo. Agora, está prestando atenção?
Sal Peter assentiu com um gesto.
— Ótimo. Fale com o guarda no portão e diga que você tem uma mensagem de Halt para o barão Arald.
Um olhar de reconhecimento brilhou no rosto do velho homem.
— Halt? — ele perguntou. — Não é o Halt, o arqueiro, é?
— Sim — Halt respondeu cansado. — Halt, o arqueiro.
— Aquele que conduziu a emboscada para os Wargals de Morgarath? — Sal Peter perguntou.
— Esse mesmo Halt — respondeu com a voz perigosamente baixa.
Sal Peter olhou em volta.
— Bom, onde ele está? — o velho perguntou.
— Eu sou Halt! — o arqueiro trovejou, colocando o rosto a poucos centímetros do de Sal Peter.
Novamente, o velho fazendeiro recuou alguns passos; então, recuperou a coragem e sacudiu a cabeça, sem acreditar no que ouvia.
— Não, não, não — ele disse determinado. — Você não pode ser ele. Ora, o arqueiro Halt é tão alto e largo quanto dois homens. Ele é um gigante! Corajoso, determinado na batalha, isso sim. Você não pode ser ele.
Halt se virou, tentando recuperar o controle. Will não conseguiu evitar sorrir novamente.
— Eu... sou... Halt — o arqueiro disse, espaçando as palavras para que Sal Peter entendesse bem. — Eu era mais alto quando jovem e muito mais largo. Mas agora estou deste tamanho. — Ele olhou para o fazendeiro com os olhos semicerrados. — Você entendeu?
— Bom, se você está dizendo... — Sal Peter replicou.
Ele ainda não acreditava no arqueiro, mas havia um brilho perigoso no olhar de Halt que o avisou que não seria sensato continuar discordando dele.
— Bom — Halt respondeu num tom gelado. — Então, diga ao barão que Halt e Will...
Sal Peter abriu a boca para fazer outra pergunta.
Halt tapou a boca do velho com a mão imediatamente e apontou para onde Will estava parado, ao lado de Puxão.
— Aquele é Will.
Sal Peter assentiu com um gesto de cabeça, olhando a mão que lhe apertava a boca com os olhos muito abertos, sem mais perguntas ou interrupções.
— Diga a ele que Halt e Will estão seguindo um porco selvagem. Quando encontrarmos sua toca, vamos voltar ao castelo. Enquanto isso, o barão deve reunir seus homens para uma caçada amanhã cedo.
Lentamente, ele tirou a mão de cima da boca do fazendeiro.
— Você entendeu tudo o que eu disse? — o arqueiro perguntou.
Sal Peter balançou a cabeça afirmativamente.
— Então repita o que eu disse — Halt mandou.
— Ir para o castelo, dizer ao guarda do portão que tenho um recado de você... Halt... para o barão. Dizer ao barão que você... Halt... e ele... Will... estão seguindo um porco selvagem para encontrar sua toca. Dizer para ele para preparar seus homens para uma caçada amanhã.
— Ótimo — Halt disse.
Ele fez um gesto para Will, e os dois tornaram a subir em suas selas. Sal Peter ficou parado na trilha olhando para eles, sem saber bem o que fazer.
— Vá andando — Halt ordenou, apontando na direção do castelo.
O velho fazendeiro deu alguns passos e, quando achou que estava numa distância segura, virou-se e chamou o arqueiro de expressão zangada.
— Não acredito em você, viu? Ninguém fica mais baixo e mais estreito!
Halt suspirou e virou o cavalo na direção da floresta.

5 comentários:

  1. kkkkkkkkkkk." Bom, onde ele está?" kkkkkkkk, me borrei de tanto ri.
    Ass: Bina.

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    Respostas
    1. Somos duas kkkkkkkkkkkkk

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    2. "— Não acredito em você, viu? Ninguém fica mais baixo e mais estreito!" KKKKKK já gostei do velhinho.
      Ass: Bad

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  2. Esse tal de Sal precisa aprender a lidar com o Halt kkk

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  3. E o Will só aproveitando.Ele parece estar mais acostumado com Halt que por acaso amo de paixao.

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