28 de junho de 2016

Capítulo 17

Dois dias depois, o Wolfwind deixou o porto de Skorghijl e se dirigiu para a Escandinávia, a nordeste. Slagor e seus homens ficaram para trás, com a tarefa de fazer reparos temporários no navio antes de tentarem voltar para o porto de origem. O navio estava muito danificado para continuar a navegar para o Ocidente e participar da temporada de pirataria. A decisão de Slagor de deixar o porto cedo mostrou ser custosa.
O vento, que durante semanas tinha soprado para o norte, agora soprava para o oeste, permitindo aos escandinavos içar a grande vela principal. O Wolfwind navegava com tranquilidade no mar cinzento e formava uma trilha de espuma atrás de si. O movimento era estimulante e libertador, à medida que os quilômetros passavam sob o casco e, quanto mais se aproximavam da terra natal, mais o ânimo da tripulação melhorava.
Apenas Will e Evanlyn não sentiam o espírito mais leve. Skorghijl tinha sido um lugar terrível, deserto e inamistoso, mas pelo menos os meses ali passados haviam adiado o momento de sua separação. Eles sabiam que seriam vendidos como escravos em Hallasholm e que havia grandes possibilidades de irem para lugares diferentes.
Certa vez, Will tinha tentado alegrar Evanlyn sobre sua possível separação.
— Eles dizem que Hallasholm não é uma cidade grande — ele falou — então mesmo que a gente vá para lugares diferentes, talvez ainda possa se ver. Afinal, eles não podem esperar que a gente trabalhe 24 horas por dias, 7 dias por semana.
Evanlyn não tinha respondido. Sua experiência com os escandinavos até ali lhe dizia que era isso exatamente o que deveriam esperar.
Erak notou o silêncio e a disposição melancólica que tinham tomado conta deles e sentiu uma ponta de solidariedade. Ele se perguntou se não haveria um modo de fazer que continuassem juntos.
É claro que sempre poderia mantê-los como seus escravos, mas ele não precisava de escravos pessoais. Como um líder guerreiro dos escandinavos, ele vivia nas tendas dos oficiais onde suas necessidades eram atendidas por ordenanças. Se ficasse com os dois araluenses, teria que pagar para alimentá-los e vesti-los. Ele afastou a ideia com um gesto irritado de cabeça.
— Para o inferno com eles — murmurou aborrecido, afastando-os de sua mente e se concentrando em manter o navio no curso certo, observando a bússola flutuando nas argolas suspensas junto ao leme.
No décimo segundo dia da travessia, eles conseguiram ver a costa escandinava. Exatamente onde Erak tinha previsto que iriam chegar. Por causa dos olhares de admiração dos homens para o jarl, Will soube que aquele tinha sido um grande feito.
Durante os dias seguintes, eles navegaram mais perto da praia até que Will e Evanlyn conseguiram enxergar mais detalhes. Penhascos altos e montanhas cobertas de neve pareciam ser as características dominantes da Escandinávia.
— Ele tomou a corrente de Loka com perfeição — Svengal disse a eles enquanto se preparava para subir ao ponto de observação no alto do mastro.
O alegre segundo no comando tinha desenvolvido um certo afeto por Will e Evanlyn. Ele sabia que suas vidas como escravos seriam duras e impiedosas e tentava compensá-los com algumas palavras simpáticas, sempre que possível. Infelizmente, seu próximo comentário, feito com boas intenções, serviu pouco para tranquilizar os dois.
— Ah, bom — ele disse segurando uma adriça para escalar até o topo do mastro — acho que vamos chegar em casa dentro de 2 ou 3 horas.
Contudo, ele estava enganado. O navio, finalmente dirigido por remos, passou pela névoa espessa que envolvia o porto de Hallasholm cerca de 1 hora e 15 minutos depois. Will e Evanlyn ficaram parados em silêncio, no meio do navio, enquanto a cidade aparecia ao longe.
Não era um lugar grande. Aninhada ao pé de montanhas altas cobertas de pinheiros, Hallasholm não tinha mais que 50 casas, todas de um andar e, aparentemente, feitas de troncos de pinheiros e cobertas por telhados de folhas e turfa.
As casas estavam agrupadas ao redor das margens do porto, onde mais ou menos uma dúzia de navios estava atracada ao cais, alguns estavam em terra firme, tombados de lado, enquanto homens trabalhavam nos cascos, enfrentando uma batalha interminável contra os ataques de parasitas marinhos, que constantemente roíam as tábuas de madeira. Anéis de fumaça subiam de quase todas as chaminés, e o ar frio estava perfumado com um cheiro forte do pinho que queimava.
O prédio principal, a Grande Mansão de Ragnak, era construído com os mesmos troncos de pinho que o resto das casas da cidade, mas era maior, mais comprido e largo e tinha um telhado inclinado que se erguia acima dos demais. Ele ficava no centro da cidade, dominando a paisagem, cercado por um fosso seco e uma paliçada que, conforme Will notou, também era feita de troncos de pinheiro. Estava claro que esses troncos eram o material de construção mais comum na Escandinávia. Uma estrada longa e larga que saía do cais principal levava para o portão na paliçada.
Ao observar a cidade por cima da água lisa como vidro do porto, Will pensou que, numa outra época e em outras condições, provavelmente acharia as casas bem ordenadas, e as imensas montanhas cobertas de neve atrás delas muito bonitas. Naquele momento, contudo, ele não via nada que lhe agradasse em seu novo lar. Enquanto os dois jovens observavam, uma neve fina começou a esvoaçar o redor deles.
— Acho que aqui é bem frio — Will comentou em voz baixa.
Ele sentiu a mão gelada de Evanlyn se enroscar na dele. Will a apertou com delicadeza, esperando dar a ela um pouco de coragem. Uma coragem que ele mesmo estava longe de sentir naquele momento.

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