28 de junho de 2016

Capítulo 16

A batalha, se é que podia ser chamada assim, não durou mais que alguns segundos.
Os dois guerreiros montados dispararam na direção um do outro, fazendo os cascos de seus cavalos de batalha retumbarem na superfície não pavimentada da estrada, os torrões de terra girarem no ar atrás deles e a poeira se levantar numa nuvem que marcava a passagem dos dois. O cavaleiro galês estava com a lança estendida. Halt podia ver agora a falha que Horace tinha percebido na técnica do seu oponente. Segura com muita firmeza no começo, a ponta da lança oscilava e se agitava com o movimento do cavalo. Se ele a segurasse com mais leveza e flexibilidade, a arma poderia ter mantido a ponta centrada no alvo. Daquela forma, a lança mergulhava, levantava e tremia a cada passo do animal.
Horace, por outro lado, cavalgava tranquilamente com a espada pousada num dos ombros, satisfeito em conservar a força até que chegasse o momento de agir.
Eles se aproximaram um do outro, escudo diante de escudo, como era normal. Halt tinha esperado de certa forma ver Horace repetir a manobra usada contra Morgarath e virar o cavalo para o outro lado no último momento. Entretanto, o aprendiz continuou, mantendo a linha de ataque. Quando estava a cerca de 10 metros de distância, ele tirou a espada da posição de descanso e a fez descrever círculos no ar. Quando a ponta da lança se aproximou do escudo de Horace, a espada, ainda formando um círculo, a atingiu em cheio e a jogou para o alto, por cima da cabeça do garoto.
O movimento pareceu enganosamente fácil, mas Halt percebeu, enquanto observava, que o menino dominava a arte do manejo das armas com naturalidade. O cavaleiro galês, preparado para o impacto de sua lança no escudo de Horace, de repente se viu jogando o corpo contra o vazio. Ele vacilou, sentindo-se cair. Numa tentativa desesperada de autopreservação, agarrou-se à alça da sela. Ele teve a má sorte de escolher se segurar com a mão direita, que também tentava manter o controle da lança pesada. Virada para cima pela ponta da espada , ela estava agora descrevendo um arco gigante por conta própria. O cavaleiro galês não conseguiu manter o equilíbrio e segurar a lança ao mesmo tempo, e uma praga abafada saiu de dentro de seu capacete quando ele se viu obrigado a deixar a lança cair.
Enraivecido, procurou o punho da espada às cegas, tentando tirá-la da bainha para o segundo golpe. Infelizmente para ele, haveria somente um primeiro golpe. Halt balançou a cabeça numa admiração silenciosa quando Horace, já com a lança fora da jogada, instantaneamente fez Kicker parar e se virar e usou os joelhos e a mão que segurava o escudo nas rédeas para fazer o cavalo se empinar nas patas traseiras, antes de o cavaleiro galês passar por ele.
A espada, ainda descrevendo aqueles círculos fáceis que mantinham o punho se movimentando com leveza e naturalidade, fez outro movimento em arco e atingiu as costas do capacete do outro homem com um tinido alto e forte.
Halt se encolheu, imaginando qual teria sido o som dentro do pote de aço. Seria esperar demais que apenas um golpe atravessasse o metal rígido. Seriam necessários vários golpes fortes para conseguir isso. Mas Horace deixou uma marca profunda no capacete, e o choque da pancada atravessou diretamente o aço e foi até o crânio do cavaleiro.
Invisíveis aos dois araluenses, os olhos dele ficaram embaçados, ligeiramente tortos e depois se normalizaram. Então, muito devagar, ele caiu para o lado da sela, despencou na terra da estrada e lá ficou deitado e imóvel. Seu cavalo continuou a galopar por mais alguns metros. Mas, percebendo que ninguém o estava dirigindo, desacelerou, baixou a cabeça e começou a comer o capim comprido ao longo da estrada.
Horace fez o cavalo trotar lentamente de volta, parando no ponto em que o cavaleiro galês estava estendido no chão.
— Eu disse que ele não era muito bom — ele reafirmou um tanto sério para Halt.
O arqueiro, que se orgulhava de suas maneiras normalmente taciturnas, não conseguiu evitar que um largo sorriso se espalhasse em seu rosto.
— Bem, talvez ele não seja — disse para o jovem diante dele. — Mas você certamente pareceu bastante eficiente.
— Fui treinado para isso — ele respondeu com simplicidade, dando de ombros.
Halt se deu conta de que o garoto simplesmente não gostava de se gabar. A Escola de Guerra certamente tinha exercido um bom eleito nele. Ele fez um gesto para o cavaleiro que estava começando a recuperar a consciência. Os braços e as pernas do homem faziam pequenos movimentos leves e descoordenados, dando-lhe a aparência de um caranguejo semimorto.
— Ele também deveria estar treinado para isso — Halt respondeu. — Muito bem feito, jovem Horace — ele acrescentou.
O garoto corou de prazer com o elogio de Halt. Ele sabia que o arqueiro não costumava cumprimentar as pessoas em vão.
— Então, o que vamos fazer com ele agora? — perguntou, indicando o adversário caído com a ponta da espada.
Halt deslizou rapidamente da sela e se aproximou do homem.
— Deixe que eu cuido disso — ele disse. — Vai ser um prazer.
Ele agarrou o homem por um braço e o arrastou até que se sentasse. O cavaleiro atordoado resmungou dentro do capacete e, agora que tinha tempo para notar esses detalhes, Horace viu que as pontas do bigode se projetavam para fora dos lados do visor fechado.
— Obrigado, senhor — o cavaleiro murmurou de modo incoerente quando Halt o sentou.
Seus pés patinaram na estrada quando ele tentou se levantar, mas Halt o impediu com um empurrão sem gentileza.
— Nada de obrigado — o arqueiro replicou.
Ele colocou a mão sob o queixo do homem, e Horace se deu conta de que ele segurava a menor de suas facas. Por um momento, o garoto horrorizado ficou convencido de que Halt pretendia cortar a garganta do estranho. Então, com um golpe habilidoso, o arqueiro cortou a tira de couro que prendia o capacete na cabeça do homem. Depois de cortá-la, Halt tirou o capacete e o jogou nos arbustos à beira da estrada. O cavaleiro soltou um leve gemido de dor quando as pontas de seu bigode foram puxadas pelo visor ainda fechado.
Horace embainhou a espada, finalmente seguro de que o cavaleiro não representava mais ameaça. Este, por sua vez, muito sério, espiava Halt e a figura sobre o cavalo. Ele ainda não enxergava muito bem.
— Vamos continuar a luta no chão — ele declarou trêmulo.
Halt lhe deu um tapa forte nas costas, fazendo os olhos do homem girarem mais uma vez.
— Vai coisa nenhuma. Você foi derrotado, meu amigo. Caiu de quatro no chão. Sir Horace, cavaleiro da Ordem du Feuille du Chêne, concordou em poupar sua vida.
— Oh... obrigado — disse o homem abalado, fazendo um gesto vago de saudação na direção de Horace.
— Entretanto — Halt continuou, permitindo que um tom sombrio de divertimento tomasse conta de sua voz — de acordo com as regras dos cavaleiros, as suas armas, a armadura, o cavalo e outros pertences passarão para sir Horace.
— É mesmo? — Horace perguntou sem acreditar.
Halt assentiu.
O cavaleiro tentou se levantar outra vez, mas, como antes, Halt o segurou no chão.
— Mas, senhor... — ele protestou fracamente. — As armas e a armadura? Claro que não...
— Claro que sim — Halt replicou.
O rosto do homem, já abatido e pálido, ficou ainda mais atordoado quando se deu conta da importância do que o estranho vestido com a capa cinza lhe dizia.
— Halt — Horace interrompeu — ele não vai ficar meio indefeso sem as armas... e o cavalo?
— Sim, com certeza — foi a resposta satisfeita. — O que vai dificultar muito para ele a tarefa de roubar viajantes inocentes que querem atravessar essa ponte.
— Ah — Horace respondeu pensativo, finalmente entendendo.
— Exatamente — Halt reforçou, olhando para ele com um ar significativo. — Você teve um bom dia de trabalho aqui, Horace. Pense bem, você mal levou 2 minutos para acabar com ele — Halt acrescentou. — Mas vai manter esse predador longe da atividade e deixar a estrada um pouco mais segura para os habitantes da região. E, é claro, nós vamos ter um belo conjunto de malha de ferro, uma espada, um escudo e um belo cavalo para vender na próxima vila.
— Você tem certeza de que as regras são essas? — Horace perguntou, e Halt lhe deu um sorriso largo.
— Ah, sim. É totalmente justo e aprovado. Ele sabia disso. Ele simplesmente deveria ter olhado com mais atenção quando nos desafiou. Agora, minha beleza — ele disse para o abatido cavaleiro sentado aos seus pés — vamos tirar essa sua malha de ferro.
O cavaleiro atordoado começou a obedecer de má vontade. Halt olhou radiante para o companheiro.
— Estou começando a gostar um pouco mais de Gálica do que esperava — ele comentou.

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