28 de junho de 2016

Capítulo 15

Depois da tentativa frustrada de fuga, Will e Evanlyn foram proibidos de se afastar mais de cinquenta metros das cabanas. Não houve mais corridas nem exercícios. Erak encontrou uma nova série de tarefas para os dois prisioneiros realizarem, desde consertar os colchões de corda no dormitório a vedar as tábuas do casco do Wolfwind com piche e pedaços de corda rasgados. Era um trabalho pesado e desagradável, mas Evanlyn e Will o aceitaram sabiamente.
Confinados dessa maneira, eles não podiam evitar perceber a crescente tensão entre os dois grupos de escandinavos. Slagor e seus homens, aborrecidos e procurando distração, tinham sugerido em voz alta que os dois araluenses fossem chicoteados. Slagor, lambendo os lábios, tinha até se oferecido para ele mesmo realizar a tarefa. Com aspereza, Erak mandou Slagor cuidar da própria vida. Ele estava ficando cada vez mais cansado dos modos zombeteiros e exibicionistas do capitão e da maneira dissimulada como seus homens roubavam a tripulação do Wolfwind e escarneciam dela.
Slagor era um covarde e um encrenqueiro e, quando Erak o comparava aos dois prisioneiros, se surpreendia ao descobrir que tinha mais em comum com Will e Evanlyn do que com seu conterrâneo. Ele não guardava rancor contra os dois por tentarem escapar. Se estivesse no lugar deles, teria tentado fazer a mesma coisa. E ter Slagor perseguindo-os como um divertimento perverso fazia com que ele, de certa forma, se aproximasse dos garotos.
Quanto aos homens de Slagor, Erak tinha a forte opinião que eles eram o lixo coletivo que empesteava o ar fresco de Skorghijl. A situação explodiu numa noite durante o jantar.
Will estava colocando pratos e várias facas para carne numa das mesas e Evanlyn estava servindo sopa onde Erak e Slagor estavam sentados com os chefes de suas tripulações. Quando ela se inclinou entre Slagor e seu primeiro colega, o capitão se virou na cadeira, abrindo os braços largamente, enquanto ria do comentário de um dos seus homens. Sua mão bateu com força contra o prato cheio, derramando sopa quente no braço nu. Slagor gritou de dor e agarrou Evanlyn pelo pulso, arrastou-a para a frente e torceu o braço dela cruelmente, fazendo que ela se dobrasse desajeitadamente sobre a mesa. A panela de sopa e o prato caíram no chão com estrondo.
— Garota maldita! Você me escaldou! Olhe para isso, sua porca preguiçosa de Araluen!
Ele sacudiu o braço molhado perto do rosto dela, enquanto a segurava com a outra mão. Evanlyn ouvia a respiração ofegante nas narinas dele e sentiu o desagradável cheiro de seu corpo sujo.
— Sinto muito — ela disse depressa, encolhendo-se por causa da dor no braço que ele torcia com força cada vez maior. — Mas você bateu na concha.
— Então a culpa foi minha? Vou ensinar você a não responder para um capitão!
O rosto dele mostrava fúria quando estendeu a mão para pegar o chicote curto de três tiras de couro que levava no cinto. Ele o chamava de “encorajador” e alegava que o usava em remadores preguiçosos: uma afirmação negada pelos que o conheciam. Todos sabiam que ele não teria coragem de atacar um remador corpulento.
Mas uma jovem garota era diferente. Principalmente naquele momento em que estava bêbado e zangado. O aposento ficou em silêncio. Do lado de fora, o sempre presente vento gemia contra as tábuas da cabana. Do lado de dentro, a cena parecia ler ficado congelada por um momento na luz enfumaçada e incerta do fogo e das lamparinas a óleo em volta do aposento.
Erak, sentado do lado oposto de Slagor, praguejou baixinho. Do outro lado da sala, Will colocou a pilha de pratos na mesa devagar. Seu olhar, como o de todos os outros, estava em Slagor: na cor avermelhada e doentia do rosto e dos olhos, provocada pelo álcool, e na forma como sua língua continuava a disparar para fora, entre os dentes manchados e quebrados, para molhar os lábios grossos. Sem ser notado, o aprendiz de arqueiro ficou com uma das facas, uma faca pesada de dois gumes usada para cortar carne de porco salgada na mesa. Com cerca de 20 centímetros de comprimento, era parecida com uma pequena faca de caça, aquela que ele conhecia muito bem depois de horas de treinamento com Halt.
Finalmente, Erak falou. Sua voz saiu baixa e o tom era moderado. Só isso foi suficiente para que sua tripulação se levantasse e ficasse atenta. Quando Erak esbravejava e gritava, normalmente estava brincando. Quando ficava quieto e intenso, eles sabiam que ele estava mostrando seu lado mais perigoso.
— Solte a menina, Slagor —ele ordenou.
Slagor fez cara feia, furioso com a ordem e o tom confiante de comando atrás dele.
— Ela me queimou! — ele berrou. — Ela fez de propósito e vai ser castigada!
Erak pegou seu copo e tomou um longo gole de cerveja. Quando falou de novo, mostrou todo o cansaço e aborrecimento que sentia em relação ao capitão.
— Vou dizer só mais uma vez. Solte a garota. Ela é minha escrava.
— Escravos precisam de disciplina — Slagor retrucou lançando um olhar rápido ao redor da sala. — Todos vimos que você não está disposto a fazer o que é preciso, portanto chegou o momento de alguém tomar uma atitude!
Percebendo que o capitão estava distraído, Evanlyn tentou se libertar, mas ele sentiu seu movimento e a segurou com facilidade. Vários membros da tripulação do Wolf Fang, aqueles que mais tinham bebido, concordaram com aquelas palavras.
Erak hesitou. Ele podia simplesmente se inclinar e nocautear Slagor. Ele podia fazer isso até mesmo sem sair da cadeira. Mas isso não seria suficiente. Todos no aposento sabiam que ele poderia vencer Slagor numa luta e fazer isso não provaria nada. Ele estava cansado do homem e queria humilhá-lo e envergonhá-lo. Slagor não merecia menos e Erak sabia como atingir seu objetivo.
Ele suspirou, como se estivesse cansado de toda aquela situação, inclinou-se sobre a mesa e falou devagar, como se estivesse se dirigindo para um ser de inteligência inferior. O que, ele refletiu, resumia muito bem as capacidades mentais de Slagor.
— Slagor, enfrentei uma campanha dura, e esses dois são meu único lucro. Não vou permitir que você seja responsável pela morte de um deles.
— Você ficou muito mole com esses garotos, Erak — Slagor sorriu com crueldade. — Estou lhe fazendo um favor. Além disso, umas boas chicotadas não vão matar a garota, só vão deixar ela mais obediente no futuro.
— Eu não estava falando sobre a garota — Erak retrucou com calma. — Eu me referi ao menino ali.
Ele fez um gesto com a cabeça até onde Will estava em pé nas sombras tremeluzentes. Slagor seguiu seu olhar, assim como os outros.
— O menino? — ele franziu a testa sem compreender. — Não tenho intenção de machucá-lo.
— Sei disso — Erak concordou. — Mas, se você tocar na garota com esse chicote, é quase certo que ele vai matar você. E então, para castigar o menino, vou ter que mata-lo. E não estou preparado para perder todo esse lucro. Portanto, solte a menina.
Slagor franziu ainda mais a testa e sua expressão se encheu de raiva. Ele detestava ser motivo de piada para Erak e imaginou, como quase todos os outros também, que o jarl apenas o estava subestimando ao insinuar que o pequeno garoto araluense podia vencê-lo numa briga.
— Você perdeu a cabeça, Erak — ele rosnou. — O garoto é tão perigoso quanto um rato do campo. Posso quebra-lo ao meio com uma das mãos. — Ele fez um gesto com a mão livre, a que não estava segurando o braço de Evanlyn.
Erak sorriu para ele, mas não havia sinal de humor nesse sorriso.
— Ele pode matar você antes que dê um passo na direção dele. — O tom extremamente calmo mostrou que ele não estava brincando.
Todos na sala perceberam isso e ficaram muito quietos. Slagor também percebeu. Ele franziu o cenho, tentando descobrir um meio de se livrar daquela situação. O álcool tinha confundido seu raciocínio. Havia uma coisa que ele não estava entendendo. Ele começou a falar, mas Erak levantou a mão para impedi-lo.
— Acho que não podemos permitir que ele mate você para provar que estou certo — Erak afirmou parecendo relutante.
Ele procurou algo pela sala e seus olhos se iluminaram ao ver um pequeno barril de conhaque pela metade na extremidade da mesa.
— Empurre esse barril para cá — ele ordenou a Svengal.
Seu segundo no comando pôs uma das mãos no pequeno barril e o fez deslizar sobre a mesa rústica até chegar ao capitão. Erak o examinou c om atenção.
— Esse barril tem o tamanho da sua cabeça gorda, Slagor — ele afirmou com um leve sorriso. Então ele pegou a sua faca, que estava na mesa, e rapidamente fez duas marcas claras na madeira escura do casco.
— Vamos fazer de conta que estes são seus olhos.
Ele puxou o barril por cima da mesa e o colocou ao lado de Slagor, quase tocando o cotovelo dele. Murmúrios de expectativa atravessaram o aposento, enquanto os homens observam tudo se perguntando o que aconteceria em seguida. Apenas Svengal e Horak, que tinham estado com Erak na ponte, tinham uma vaga ideia do que seu jarl estava prestes a fazer. Eles sabiam que o garoto era aprendiz de arqueiro e tinham visto, em primeira mão, que ele era um adversário de respeito. Mas o garoto estava sem o arco, e os homens não sabiam o que Erak tinha visto: a faca que Will segurava escondida debaixo do braço direito.
— Bem, garoto — Erak continuou — esses olhos são um pouco próximos um do outro, mas os de Slagor também.
Houve um sussurro divertido entre os escandinavos e Erak agora falou diretamente com eles.
— O que vocês acham de todos olharmos com atenção e ver se alguma coisa aparece entre eles?
E, ao dizer isso, ele fingiu olhar bem para o barril sobre a mesa. Era quase inevitável que todos na sala seguissem seu exemplo. Will hesitou um segundo, mas sentiu que poderia confiar em Erak. A mensagem que o líder dos escandinavos mandava era muito clara. Rapidamente, ele deu um impulso com o braço, e a faca atravessou girando o aposento.
Houve um leve clarão quando o instrumento em movimento passou pela luz avermelhada das lamparinas a óleo e do fogo. Então, com um forte “plac” a lâmina afiada entrou na madeira, quase no centro do espaço entre as duas marcas. O barril chegou a deslizar para trás uns dez centímetros por causa do impacto.
Slagor soltou um grito espantado e saltou para trás. Inadvertidamente, soltou o braço de Evanlyn. A garota se afastou dele depressa e então, quando Erak fez um gesto de cabeça na direção da porta, ela saiu correndo do aposento despercebida na confusão.
Houve gritos sobressaltados por alguns momentos, e os homens de Erak começaram a rir e a aplaudir o feito notável. Até os homens de Slagor acabaram por participar, enquanto o skirl permanecia sentado observando-os carrancudo. Ele não era uma pessoa popular. Seus homens apenas o seguiam porque ele era rico o bastante para ter um navio para as suas pilhagens. Agora, muitos deles imitavam o grito rouco que ele tinha emitido quando a faca entrou no barril com um ruído forte.
Erak se levantou do banco e deu a volta na mesa, enquanto falava.
— Como você vê, Slagor, se o garoto tivesse mirado a cabeça de madeira errada, você certamente estaria morto agora e eu teria que castigar ele com a morte. — Ele parou perto de Will, sorrindo para Slagor, enquanto o skirl se curvava no banco, esperando o que viria em seguida. — Desse modo — Erak continuou — eu simplesmente vou repreender ele por assustar alguém tão importante quanto você.
E, antes que Will percebesse, Erak lhe deu um murro, com o punho fechado no lado da cabeça, que o jogou sem sentidos no chão. Ele olhou para Svengal e fez um gesto na direção do vulto desacordado no chão de madeira áspera da cabana.
— Jogue esse sujeito desrespeitoso no quarto dele — Erak ordenou.
Então, dando as costas para todos, saiu para a noite.
Do lado de fora, no ar frio e límpido, ele olhou para cima. O céu estava claro. O vento ainda soprava, mas estava calmo e se dirigia para o leste. Os ventos de verão tinham terminado.
— Chegou a hora de sair daqui — ele disse para as estrelas.

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