28 de junho de 2016

Capítulo 14

— Estava fácil demais... — Halt murmurou num tom aborrecido.
Um pouco mais adiante, a ponte em arco cobria o pequeno riacho. Sentado em um cavalo entre os dois viajantes e a ponte, estava um cavaleiro usando uma armadura completa.
Halt colocou a mão sobre o ombro e pegou uma flecha da aljava. Posicionou-a no arco sem mesmo ver o que estava fazendo.
— O que foi, Halt? — Horace indagou.
— É o tipo de bobagem que esses gauleses fazem quando estou com pressa de seguir viagem — ele resmungou, balançando a cabeça irritado. — Esse idiota vai nos cobrar algum pedágio para permitir que a gente atravesse sua preciosa ponte.
No exato momento em que falava, o homem de armadura levantou a viseira com as costas da mão direita. Foi um movimento desajeitado, agravado pelo fato de estar segurando uma lança pesada de 3 metros nessa mão. Ele quase a deixou cair e conseguiu batê-la contra a lateral do capacete, uma ação que provocou um tinido que chegou até os dois viajantes.
— Arretez là mês seigneurs, avant de passer de pont-ci! — ele disse num tom de voz um tanto agudo.
Horace não compreendeu nada, mas o tom era inconfundivelmente arrogante.
— O que ele disse? — Horace quis saber, mas Halt só fez um gesto de cabeça para o cavaleiro.
— Que ele fale a nossa língua, se quiser conversar com a gente — ele retrucou zangado. — Araluenses! — disse para o homem em voz alta.
Mesmo daquela distância, Horace percebeu o dar de ombros desdenhoso do outro homem quando Halt mencionou sua nacionalidade. Então, o cavaleiro tornou a falar, e seu sotaque forte deixava as palavras tão difíceis de serem reconhecidas como quando tinha falado galês.
— Vocês, meus senhores, não podem cruzar a minha ponte sem pagar um tributo — ele avisou.
Horace franziu a testa.
— O quê? — ele perguntou a Halt, e o arqueiro se virou para ele.
— É terrível, não é? Os “senhores”, isto é, nós, é claro, não podemos cruzar a ponte dele sem pagar um tributo.
— Um tributo? — Horace repetiu.
— É uma forma de assalto de estrada — Halt explicou. — Se houvesse leis de verdade neste país idiota, pessoas como o nosso amigo ali nunca se safariam de uma coisa dessas. Desse jeito, eles podem fazer o que bem entendem. Cavaleiros se instalam em pontes ou encruzilhadas e exigem que as pessoas paguem um tributo para passar. Se não puderem pagar, elas podem lutar com ele. Como a maioria dos viajantes não está equipada para lutar com um cavaleiro vestido com uma armadura completa, eles pagam.
Horace se acomodou na sela e estudou o homem montado. Ele estava trotando com o cavalo de um lado para outro numa clara demonstração de força que tinha a intenção de desencorajar os viajantes. Seu escudo em formato triangular exibia o brasão com a cabeça de um veado. Ele usava uma armadura completa coberta por um casaco azul que também mostrava o símbolo da cabeça de veado. Usava luvas de metal, grevas sobre as canelas e um capacete arredondado com um visor deslizante, aberto naquele momento. O rosto debaixo do visor era magro e tinha um nariz proeminente e pontudo. Um bigode largo saía de ambos os lados d a abertura do visor.
Horace imaginou que o cavaleiro enfiava suas pontas para dentro quando o abaixava.
— Então, o que vamos fazer? — ele perguntou.
— Bom, acho que vou ter que atirar nesse idiota — Halt replicou num tom de voz um tanto resignado. — Até parece que vou pagar tributo para todos os bandidos que surgem na minha frente e pensam que o mundo deve uma vida fácil para eles. Mas isso pode ser um grande aborrecimento.
— Por quê? — Horace retrucou. — Se ele anda por aí procurando briga, quem vai se importar se ele morrer? Ele merece.
Halt apoiou o arco com a flecha já posicionada e pronta na sela.
— Tem a ver com o que esses idiotas chamam de honra entre cavaleiros — ele explicou. — Se ele for morto ou ferido por outro cavaleiro num combate, isso pode ser perdoado. É lamentável, mas perdoável. Por outro lado, se eu colocar uma flecha naquela cabeça vazia, isso seria considerado uma trapaça. Ele certamente tem amigos ou parentes na região. Esses tontos geralmente viajam em bando, e, se eu mata-lo, eles vão vir atrás de nós. Como eu disse, é um tremendo aborrecimento.
Suspirando, ele começou a levantar o arco.
Horace olhou mais uma vez para a figura imperiosa à frente deles. O homem parecia totalmente indiferente ao fato de estar a segundos de um final bastante complicado. Naturalmente, ele não conhecia muito sobre arqueiros e estava confiante por usar uma armadura. Ele parecia não ter ideia de que Halt podia atirar uma flecha no visor fechado do capacete, se quisesse. O visor aberto parecia um alvo quase fácil demais para alguém com a habilidade de Halt.
— Você quer que eu cuide disso? — Horace finalmente se ofereceu, embora um pouco hesitante.
Halt, com o arco quase pronto para atirar, reagiu com surpresa.
— Você? — ele perguntou.
— Você sabe que ainda não sou um cavaleiro completo, mas acho que posso dar conta dele. E, enquanto os amigos dele acreditarem que ele foi derrotado por outro cavaleiro, ninguém vai vir atrás de nós, certo?
— Senhores! — o homem gritou impaciente. — Obedeçam à minha ordem!
Horace olhou para Halt de um jeito interrogativo.
— Precisamos responder. Tem certeza de que não está assumindo uma tarefa grande demais para você? — o arqueiro perguntou. — Afinal, ele é um cavaleiro totalmente qualificado.
— Bem... sim — Horace disse sem jeito. Ele não queria que Halt pensasse que estava se gabando. — Mas ele não é mesmo muito bom, é?
— Não é? — Halt retrucou irônico e, para sua surpresa, o garoto negou com um gesto de cabeça.
— Não, não muito. Veja como ele se senta no cavalo. O equilíbrio dele é péssimo. E ele já está segurando a lança com muita força, entendeu? E tem também o escudo. Ele está baixo demais para se proteger de um repentino juliette, você não concorda?
— E o que é um juliette? — Halt perguntou curioso.
— É quando se muda o alvo da lança de repente — Horace explicou sério sem perceber a nota de sarcasmo na voz do arqueiro. — Você começa visando ao escudo na altura do peito e então, no último momento, levanta a ponta na direção do capacete.
Ele fez uma pausa e então acrescentou com um leve tom de desculpas:
— Eu não sei por que se chama juliette. Só sei que é assim.
Houve um longo silêncio entre eles. Halt podia ver que o menino não estava se gabando. Ele realmente parecia saber do que falava. Pensativo, o arqueiro coçou o rosto. Talvez fosse útil verificar se Horace era mesmo bom. Se as coisas ficassem difíceis para o lado dele, Halt sempre poderia voltar para o Plano A e simplesmente atirar no tagarela vigia da ponte. Contudo, havia um pequeno problema.
— Mas você não vai poder realizar nenhum “juliette”. Parece que você não tem uma lança.
— É verdade — Horace assentiu. — Vou ter que usar o primeiro movimento para derrubar a lança dele. Isso não deve ser um grande problema.
— Senhores! — o cavaleiro gritou. — A sua resposta!
— Ah, cale a boca — Halt resmungou para o homem. — Então isso não deve ser um problema, certo?
Horace apertou os lábios e balançou a cabeça num gesto determinado.
— Bom, olhe para ele, Halt. Ele quase deixou a lança cair três vezes enquanto estamos aqui. Uma criança poderia tirá-la dele.
Halt teve de sorrir quando ouviu aquilo. Ali estava Horace, pouco mais que um garoto, declarando que uma criança poderia tirar a lança do cavaleiro que bloqueava a passagem deles. Então Halt se lembrou do que ele fazia quando tinha a idade de Horace e da batalha do garoto contra Morgarath, um oponente muito mais perigoso do que a figura ridícula na ponte. Ele avaliou o menino mais uma vez e viu nada além de determinação e uma confiança tranquila ali.
— Você sabe mesmo do que está falando, não é? — ele indagou. E, apesar de ter feito uma pergunta, suas palavras eram mais uma constatação.
Horace assentiu mais uma vez.
— Não sei como, Halt. Só tenho um pressentimento para coisas desse tipo. Sir Rodney disse que tenho uma habilidade inata.
Gilan tinha dito a mesma coisa para Halt depois do combate nas Planícies de Uthal. De repente, Halt tomou uma decisão.
— Tudo bem — ele concordou. — Vamos tentar do seu jeito. — Ele se virou para o cavaleiro impaciente e falou em voz alta: — Sir, meu companheiro prefere enfrentar o senhor numa batalha de cavaleiros! — ele avisou.
O homem ficou rígido e ajeitou o corpo na sela.
Halt percebeu que ele quase perdeu o equilíbrio diante daquele comunicado inesperado.
— De cavaleiros? — ele repetiu. — O seu companheiro não é um cavaleiro!
Halt assentiu com exagero, certificando-se de que o homem veria o gesto.
— Ah, sim, ele é! — Halt contou. — Ele é sir Horace, da Ordem da Feuille du Chêne.
Ele fez uma pausa e murmurou para si mesmo.
— Ou eu deveria ter dito Crepe du Chêne? Não importa.
— O que você disse a ele? — Horace perguntou, tirando o escudo das costas e ajeitando-o no braço esquerdo.
— Eu disse que você é sir Horace da Ordem da Folha do Carvalho — Halt contou. — Pelo menos, acho que foi isso o que eu disse — ele acrescentou indeciso. Talvez eu tenha dito que você pertence à Ordem da Panqueca.
Horace olhou para ele com uma leve ponta de desapontamento no olhar. Ele levava as regras da ética da cavalaria muito a sério e sabia que ainda não tinha o direito de usar o título de “sir Horace”.
— Isso foi mesmo necessário? — ele perguntou, e o arqueiro assentiu.
— Ah, sim. Você sabe que ele não vai lutar com qualquer um. Precisa ser um cavaleiro. Não acho que ele tenha percebido que você está sem armadura — ele acrescentou, quando Horace ajeitou com firmeza o capacete cônico na cabeça.
Ele já tinha arrumado a malha de ferro que levava jogada sobre os ombros, debaixo da capa. Ele a desamarrou e procurou um lugar para deixá-la, mas Halt estendeu a mão para pegá-la.
— Deixe que eu seguro — ele se ofereceu, pegando a vestimenta e dobrando-a sobre a sela.
Horace percebeu que, quando fez isso, Halt tomou cuidado para não cobrir o arco. O aprendiz fez um gesto na direção da arma.
— Você não vai precisar disso — ele garantiu.
— Já ouvi isso antes — Halt respondeu e então olhou novamente para a ponte quando o vigia chamou outra vez.
— O seu amigo não tem lança — ele disse, gesticulando com a arma de 3 metros de comprimento coroada por uma ponta de ferro.
— Sir Horace propõe que vocês lutem com a espada — Halt respondeu, e o cavaleiro balançou a cabeça violentamente.
— Não! Não! Eu vou usar a minha lança!
Halt ergueu uma sobrancelha na direção de Horace.
— Parece que ele não se importa se você é cavaleiro ou não, mas esqueça tudo, se isso representar esquecer uma vantagem de 3 metros — ele disse em voz baixa.
— Isso não é problema — Horace disse com calma, dando de ombros. Então, um pensamento lhe veio à cabeça. — Halt, tenho mesmo que matar ele? Quer dizer, posso lidar com ele sem ter que ir tão longe.
Halt pensou na pergunta.
— Bom, não é obrigatório — ele disse ao aprendiz. — Mas não se arrisque. Afinal, ele merece ser morto. Talvez ele não ficasse tão ansioso em cobrar tributos dos passantes depois disso.
Foi a vez de Horace olhar para Halt intrigado. O arqueiro deu de ombros.
— Bem, você sabe o que eu quis dizer — ele replicou. — Apenas se certifique de que esteja bem antes de deixa-lo ir embora.
 Seigneur! — o cavaleiro gritou, colocando a lança debaixo do braço e batendo as esporas nos flancos do cavalo. — Engarde! Vou acabar com você!
Houve um rápido raspar de aço sobre couro, quando Horace puxou a longa espada da bainha e virou Kicker para ficar de frente para o oponente, pronto para atacá-lo.
— Não vou demorar nem um minuto — ele disse a Halt, e então Kicker se afastou, atingindo alta velocidade no espaço de alguns metros.

6 comentários:

  1. "Sir Panqueca!" Morri de ri! kkkkkkkkkkkk.
    Ass: Bina.

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  2. ''Talvez eu tenha dito que você pertence à Ordem da Panqueca.'' Meu Deus eu to morrendo de rir aqui kkkkkk

    Ass: Adryan.

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  3. KKKKKKKKKKKKKKKKk ordem da panqueca amei essa Halt!!

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  4. Somos todos da ordem das panquecas!!!! Kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Ass:lana

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  5. — Ah, sim, ele é! — Halt contou. — Ele é sir Horace, da Ordem da Feuille du Chêne.
    Ele fez uma pausa e murmurou para si mesmo.
    — Ou eu deveria ter dito Crepe du Chêne? Não importa.
    — O que você disse a ele? — Horace perguntou, tirando o escudo das costas e ajeitando-o no braço esquerdo.
    — Eu disse que você é sir Horace da Ordem da Folha do Carvalho — Halt contou. — Pelo menos, acho que foi isso o que eu disse — ele acrescentou indeciso. Talvez eu tenha dito que você pertence à Ordem da Panqueca.
    Morri de tanto rir
    Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Ass:Ester

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