24 de junho de 2016

Capítulo 14

— Leve-o para dar uma volta — Halt sugeriu.
Will olhou para o pônei desgrenhado que o observava com um olhar inteligente.
— Vamos, garoto — ele chamou, puxando o cabresto.
No mesmo instante, Puxão firmou as pernas dianteiras e recusou-se a se mexer. Will puxou a corda com mais força e tentou de tudo para fazer o pequeno pônei teimoso se mover.
O Velho Bob se torcia de tanto rir.
— Ele é mais forte do que você!
Envergonhado, Will sentiu as bochechas ficarem quentes. Ele puxou com mais força. Puxão agitou as orelhas e resistiu. Era como tentar puxar uma casa.
— Não olhe para ele — Halt ensinou com suavidade. — Apenas pegue a corda e se afaste. Ele vai acompanhar você.
Will tentou desse jeito. Virou as costas para Puxão, segurou a corda com firmeza nas mãos e começou a andar. O pônei trotou docilmente atrás dele. Will olhou para Halt e sorriu. O arqueiro fez um gesto de cabeça na direção do portão na outra extremidade do cercado. Will olhou para lá e viu uma pequena sela colocada sobre a cerca.
— Ponha os arreios nele — o arqueiro mandou.
Puxão trotou para a cerca com facilidade. Will prendeu as rédeas na cerca, colocou a sela nas costas do pônei e se abaixou para apertar as tiras da barrigueira.
— Puxe com bastante força — o Velho Bob aconselhou.
Finalmente, a sela estava firme no lugar, e Will olhou ansiosamente para Halt.
— Posso montar nele agora?
O arqueiro acariciou a barba irregular com um ar pensativo antes de responder.
— Se você acha que é uma boa ideia, vá em frente — ele disse finalmente.
Will hesitou por um momento. A frase despertou uma lembrança vaga dentro dele, mas a ansiedade superou a cautela. Ele colocou um pé no estribo e jogou o corpo com agilidade nas costas do animal. Puxão não se mexeu.
— Vamos! — Will ordenou, batendo os calcanhares na lateral do pônei.
Por um momento, nada aconteceu. Então Will sentiu um leve movimento estremecer o corpo do pônei. De repente, Puxão arqueou as costas pequenas e musculosas e deu um salto no ar, fazendo que as quatro patas deixassem o chão ao mesmo tempo. Ele se virou violentamente para um lado, pousou nas patas dianteiras e chutou as traseiras na direção do céu. Will foi parar em cima das orelhas do pônei, deu uma cambalhota no ar e caiu de costas na terra. Ele se levantou, esfregando as costas.
Puxão ficou parado perto dele de orelhas empinadas, observando-o com atenção.
“Por que você foi fazer uma coisa boba como essa?”, ele parecia perguntar.
O Velho Bob se recostou na cerca, sacudindo-se de riso. Will olhou para Halt.
— O que eu fiz de errado?
Halt passou por baixo da cerca e foi até onde Puxão estava parado olhando para os dois, esperando para ver o que ia acontecer. Ele devolveu as rédeas para Will e pousou uma das mãos em seu ombro.
— Nada, se esse fosse um cavalo comum — ele respondeu. — Mas Puxão foi treinado especialmente para os arqueiros.
— Qual é a diferença? — Will interrompeu zangado, e Halt levantou a mão pedindo silêncio.
— A diferença é que se deve pedir permissão a todos os cavalos dos arqueiros antes de montar nele pela primeira vez — Halt explicou. — Eles são treinados desse jeito para que nunca possam ser roubados.
— Nunca ouvi falar de uma coisa dessas — Will disse, coçando a cabeça.
— Poucas pessoas ouviram — ele disse, sorrindo ao se aproximar. — É por isso que os cavalos dos arqueiros nunca são roubados.
— Bom. — disse Will — O que se deve dizer ao cavalo de um arqueiro antes de montar nele?
Halt deu de ombros.
— Isso varia de um cavalo para outro. Cada um reage a um pedido diferente — ele fez um gesto na direção do cavalo maior. — O meu, por exemplo, reage às palavras permettez-moi.
— Permettez-moi? — Will repetiu. — Que palavras são essas?
— Isso é francês e quer dizer: “Você me dá permissão?” É que os pais dele vieram da Gália, entende? — Halt explicou e então se virou para o Velho Bob. — Quais são as palavras para o Puxão, Bob?
Bob fechou os olhos, fingindo que não conseguia lembrar, e então seu rosto se iluminou.
— Ah, sim, eu lembro! Para esse aqui a gente tem que perguntar: “Tudo bem?”
— Tudo bem? — Will repetiu, e Bob sacudiu a cabeça.
— Não é para mim que deve dizer isso, jovem! Fale isso no ouvido do cavalo!
Sentindo-se um pouco idiota e sem ter certeza de que os outros não estavam se divertindo às suas custas, Will se aproximou e disse suavemente no ouvido de Puxão:
— Tudo bem?
Puxão relinchou levemente. Will olhou desconfiado para os dois homens, e Bob acenou, encorajando-o.
— Vamos! Suba agora! O jovem Puxão não vai mais lhe fazer mal!
Com muito cuidado, Will subiu no lombo desgrenhado do pônei outra vez. Suas costas ainda doíam da tentativa anterior. Ele ficou ali por um momento e nada aconteceu. Então, bateu nas costelas de Puxão com os calcanhares delicadamente.
— Vamos lá, garoto — disse baixinho.
As orelhas de Puxão se levantaram e ele deu um passo à frente devagar.
Ainda com cuidado, Will deixou que ele andasse ao redor do cercado uma ou duas vezes e então deu mais uma batidinha com os calcanhares. Puxão começou a trotar levemente. Will se movia com facilidade ao ritmo do trote do cavalo, e Halt observava tudo com olhar de aprovação. O garoto era um cavaleiro nato.
O arqueiro soltou a corda que fechava o cercado e abriu o portão.
— Leve ele para fora, Will — mandou — e veja o que ele realmente sabe fazer!
Obediente, Will dirigiu o pônei na direção do portão e, quando passaram por ele rumo ao campo aberto, bateu mais uma vez nas costelas do animal com os calcanhares. Ele sentiu o pequeno corpo musculoso do animal se encolher um pouco, e então Puxão disparou num galope rápido.
O vento zunia nos ouvidos de Will quando ele se inclinou para a frente sobre o pescoço do pônei, estimulando-o a correr ainda mais. Como resposta, as orelhas de Puxão se empinaram e ele andou ainda mais depressa do que antes.
Ia rápido como o vento. Suas pernas curtas se misturavam à paisagem enquanto ele levava o garoto a toda velocidade pela beira das árvores. Com delicadeza, sem ter certeza de como o pônei iria reagir, Will fez um pouco de pressão na rédea esquerda.
No mesmo instante, Puxão virou para a esquerda, afastando-se das árvores em diagonal. Will continuou exercendo uma leve pressão na rédea até que Puxão foi outra vez levado na direção do cercado. O garoto abafou um grito de surpresa quando viu a distancia que tinham percorrido. Halt e Velho Bob eram figuras minúsculas ao longe, mas cresciam rapidamente enquanto Puxão voava sobre a grama áspera para perto deles.
Um tronco caído apareceu no meio do caminho e, antes que Will pudesse fazer qualquer coisa para contorná-lo, Puxão se preparou, firmou as patas e saltou sobre o obstáculo. Will soltou um grito de entusiasmo, e o pônei relinchou levemente em resposta.
Eles já estavam quase de volta ao cercado quando Will puxou delicadamente as duas rédeas. No mesmo instante, Puxão diminuiu o passo para meio galope, depois para um trote e finalmente passou a andar, enquanto Will continuava a segurar as rédeas. Ele fez que o pônei parasse ao lado de Halt. Puxão agitou a cabeça desgrenhada e relinchou outra vez. Will se inclinou e acariciou o pescoço do animal.
— Ele é fantástico! — disse sem fôlego. — É tão rápido quanto o vento!
— Talvez não tão rápido, mas certamente sabe correr — Halt disse sério. — Você fez um bom trabalho com ele, Bob — elogiou, virando-se para o velho.
O Velho Bob curvou a cabeça num sinal de agradecimento e se inclinou para também afagar o pônei desgrenhado. Ele tinha passado a vida criando, treinando e preparando cavalos para o Corpo de Arqueiros, e esse estava entre os melhores que já tinha visto.
— Ele consegue manter esse ritmo o dia todo — garantiu orgulhoso. — Põe qualquer cavalo de batalha no chinelo. O rapaz até que cavalga bem, não é, arqueiro?
— Não foi tão mal — Halt concordou, coçando a cabeça e escandalizando Bob.
— Não foi tão mal? Você é um homem muito duro, arqueiro! O garoto parecia leve como uma pena naquele salto! — o velho olhou para Will, sentado de lado no pônei, e fez um gesto de apreciação. — E também sabe usar as rédeas, ao contrário de muitos. Ele sabe lidar com o animal.
Will sorriu ao ouvir o elogio do velho treinador de cavalos. Arriscou uma olhada para Halt, mas o arqueiro estava sério como sempre.
“Ele nunca sorri”, Will pensou. Começou a desmontar, mas parou de repente.
— Tem alguma coisa que eu devo dizer a ele antes de descer?
— Não, garoto — Bob garantiu rindo. — Basta a primeira vez, e Puxão vai lembrar, contanto que seja você a montar nele.
Aliviado, Will desmontou e ficou ao lado do pônei, que o empurrava com a cabeça carinhosamente. Will olhou para a tina de maçãs.
— Posso dar outra para ele?
— Só mais uma — Halt respondeu. — Mas não faça disso um hábito. Ele vai ficar gordo demais para correr se você lhe der comida o tempo todo.
Puxão resfolegou alto. Aparentemente, ele e Halt discordavam quanto à quantidade de maçãs que um pônei devia ganhar todos os dias.
Will passou o resto do dia recebendo dicas do Velho Bob sobre como montar e aprendendo a cuidar da sela e a consertar os arreios de Puxão. Também ficou sabendo de todos os detalhes de como cuidar do pequeno cavalo.
Ele escovou e tratou o pelo desgrenhado até deixá-lo brilhando, e Puxão pareceu gostar dos cuidados. Finalmente, cansado, com os braços doloridos do esforço, ele se deixou cair num monte de feno. Este, é claro, tinha que ser o exato momento em que Halt entrou no estábulo.
— Venha — ele disse. — Não temos tempo para ficar por aí à toa. É melhor irmos andando se quisermos chegar em casa antes de escurecer.
E, ao dizer isso, ele jogou uma sela nas costas de seu cavalo. Will não se preocupou em reclamar e dizer que não tinha ficado “à toa”, como o arqueiro tinha dito. Para começar, sabia que não ia adiantar. E, em segundo lugar, estava animado com a ideia de voltar a cavalo para a pequena cabana de Halt na beira da floresta. Parecia que os dois cavalos passariam a ser parte permanente do local.
Will tinha chegado à conclusão de que o animal de Halt já vivia lá e que o arqueiro só estava esperando que o garoto mostrasse habilidade para cavalgar para então lhe entregar Puxão e poder levar também seu cavalo de volta para casa.
Os cavalos relinchavam um para o outro de tempos em tempos enquanto trotavam de volta na floresta escura e verde. Era como se estivessem participando de uma conversa só deles. Will estava explodindo de curiosidade e tinha mil perguntas a fazer, mas ainda não se sentia à vontade para tagarelar demais na presença do arqueiro.
Finalmente, não conseguiu mais se conter.
— Halt? — ele começou com cautela.
O arqueiro grunhiu. Will entendeu isso como um sinal de que podia continuar a falar.
— Qual é o nome do seu cavalo?
Halt olhou para ele. O seu animal era um pouco maior que Puxão, mas não chegava perto dos gigantescos cavalos de batalha que havia no estábulo do barão.
— Acho que é Abelard — ele contou.
— Abelard? — Will repetiu. — Que raio de nome é esse?
— É francês — o arqueiro explicou, obviamente pondo fim na conversa.
Eles cavalgaram alguns quilômetros em silêncio. O sol já estava descendo sobre as árvores, e suas sombras estavam compridas e distorcidas no chão. Will observou a sombra de Puxão. O pônei parecia ter pernas extremamente compridas e um corpo ridiculamente curto. Ele queria chamar a atenção de Halt para o fato, mas imaginou que um comentário bobo como aquele não iria impressionar o arqueiro. Em vez disso, reuniu coragem para fazer outra pergunta que tinha ocupado seus pensamentos durante alguns dias.
— Halt? — ele disse outra vez.
O arqueiro soltou um leve suspiro.
— O que é agora?
Seu tom definitivamente não encorajava o início de uma conversa, mas Will insistiu.
— Você lembra que me contou que um arqueiro foi responsável pela derrota de Morgarath?
— Hum — Halt grunhiu.
— Bom, eu estava só pensando... Qual era o nome do arqueiro? — o garoto quis saber.
— Nomes não são importantes — Halt disse. — E eu não lembro.
— Foi você? — Will continuou, certo de que o arqueiro sabia a resposta.
Halt jogou o seu olhar tranquilo e sério sobre ele.
— Já disse, nomes não são importantes.
Houve um silêncio entre eles por alguns segundos e então o arqueiro disse:
— Você sabe o que é importante?
Will sacudiu a cabeça.
— O jantar é importante! E nós vamos nos atrasar para o jantar se não corrermos.
Ele bateu os calcanhares na barriga de Abelard e o cavalo disparou para a frente como uma flecha, deixando Will e Puxão bem para trás em questão de segundos. Will bateu nos lados do pônei com os calcanhares e o pequeno animal saiu correndo em perseguição a seu amigo maior.
— Vamos, Puxão! — Will estimulou. — Vamos mostrar a eles como corre o verdadeiro cavalo de um arqueiro!

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