28 de junho de 2016

Capítulo 13

Evanlyn sentiu o leve toque de Will no ombro. A surpresa a fez estremecer. Apesar de estar acordada, não tinha ouvido sua aproximação.
— Está tudo bem — ela disse baixinho. — Estou acordada.
— A Lua está escondida — Will respondeu com a voz igualmente baixa. — É hora de ir.
Evanlyn jogou os cobertores para longe e se sentou. Estava totalmente vestida, com exceção das botas. Ela as pegou e começou a calçá-las. Will estendeu um amontoado de trapos que tinha cortado dos cobertores.
— Amarre isso nos seus pés — ele disse. — Vai abafar o barulho no cascalho.
Ela viu que ele tinha envolvido os pés em grandes quantidades de tecido e se apressou em fazer o mesmo. Através da parede fina entre a varanda e o dormitório, ouviu o ronco e os resmungos dos homens que dormiam. Um dos escandinavos teve um acesso de tosse, que deixou Will e Evanlyn paralisados, esperando para ver se alguém tinha acordado. Depois de alguns minutos, o dormitório ficou em silêncio novamente. Evanlyn terminou de envolver os pés com as tiras de pano, levantou-se e seguiu Will até a porta.
Ele tinha lubrificado as dobradiças da porta da varanda com gordura da cozinha. Prendendo a respiração, Will abriu a porta devagar; soltando um suspiro de alívio quando ela não rangeu. Sem lua, a praia era uma faixa escura, e a água um lençol negro que refletia levemente a luz das estrelas. O tempo tinha estado bom nos últimos dias. A noite estava clara e o vento tinha diminuído consideravelmente, mas eles ainda podiam ouvir o seco ribombar das ondas batendo contra a face externa da ilha.
Evanlyn mal enxergava o contorno imenso dos dois navios puxados para a praia. De um lado, havia uma forma menor: um bote, deixado ali por Svengal depois de sua última pescaria. Era para lá que eles estavam indo.
Pacientemente, Will mostrou a rota que tinha escolhido. Eles a tinham examinado antes, naquela noite, mas ele queria ter certeza de que ela se lembrava. Mover-se sem ser visto era quase uma segunda natureza para Will, mas ele sabia que Evanlyn ficaria nervosa quando estivesse do lado de fora e iria querer chegar aos navios depressa. E velocidade significava barulho e uma chance maior de serem vistos ou ouvidos. Ele colocou a boca bem junto do ouvido dela e sussurrou o mais baixo que pôde.
— Fique calma. Os bancos primeiro. Depois as pedras. Depois os navios. Espere por mim ali.
Ela assentiu. Will viu quando ela engoliu em seco nervosa e percebeu que a respiração dela tinha se acelerado. Ele apertou o braço dela com delicadeza.
— Se acalme. E lembre: se alguém sair, fique imóvel. Onde você estiver.
Aquele era o segredo de um bom resultado num local pouco iluminado como aquele. Um vigia poderia não ver uma pessoa que estivesse totalmente imóvel, mas o menor movimento chamaria a atenção imediatamente.
Ela assentiu novamente, e ele lhe deu um tapinha no ombro.
— Agora vá — ele disse.
Evanlyn respirou fundo outra vez e saiu para o ar livre. Ela se sentiu terrivelmente exposta ao andar na direção do abrigo dos bancos e da mesa a dez metros de distância das cabanas. As fracas luzes das estrelas agora pareciam tão brilhantes quanto a do dia e Evanlyn se obrigou a caminhar devagar, pisando com cuidado, lutando contra a tentação de correr para o esconderijo.
Os panos que cobriam os pés resolveram o problema de abafar o som de seus passos, mas mesmo assim o rangido do cascalho parecia ensurdecedor para ela. Quatro passos a mais... três... dois... um.
Com o coração aos pulos e o pulso acelerado, ela mergulhou agradecida na sombra da mesa e dos bancos rústicos. Seu próximo alvo era um pequeno amontoado de pedra a meio caminho da praia. Ela hesitou, querendo ficar na confortável sombra oferecida pela mesa, mas sabia que se não fosse logo talvez nunca tivesse coragem de se mover. Saiu dali decidida, um pé depois do outro, encolhendo-se por causa dos rangidos abafados das pedras debaixo dos pés. Essa parte do trajeto a levou diretamente para a frente da porta do dormitório. Se algum dos escandinavos saísse, ela seria vista.
Ela chegou ao abrigo das pedras e sentiu a proteção das sombras envolvê-la mais uma vez. A parte mais difícil da travessia tinha terminado. Ela esperou alguns segundos até que sua pulsação se normalizasse e então se dirigiu para os navios. Agora que estava quase lá, queria desesperadamente correr. Mas lutou contra a tentação e andou devagar e com cuidado na escuridão ao lado do Wolf Fang.
Extremamente cansada, deixou-se cair nas pedras úmidas, recostou-se nas tábuas do navio e esperou que Will a seguisse.
Nuvens espalhadas atravessavam o céu e estendiam várias sombras mais escuras sobre a praia. Will fez seus movimentos acompanharem o ritmo do vento e das nuvens e andou com passos firmes pela trilha que Evanlyn tinha acabado de seguir. Surpresa, ela prendeu a respiração quando teve a impressão de que ele desapareceu depois dos primeiros metros, confundindo-se no movimento da luz e da sombra e se tornando parte da paisagem. Ela o viu de novo, rapidamente, nos bancos e depois nas pedras. Depois ele pareceu surgir do chão a alguns metros dela.
Evanlyn balançou a cabeça espantada. “Não é à toa que as pessoas imaginam que os arqueiros são mágicos”, ela pensou. Sem perceber a reação dela, Will sorriu rapidamente e se aproximou para que pudessem falar.
— Tudo bem? — ele perguntou em voz baixa. — Tem certeza de que quer fazer isso? — acrescentou quando ela assentiu.
— Tenho, sim — Evanlyn respondeu sem hesitação.
Ele lhe deu um aperto no ombro num gesto de encorajamento.
— Que bom.
Will olhou ao redor. Agora eles estavam longe das cabanas e havia poucas possibilidades de suas vozes serem ouvidas. O vento, embora não tão forte quanto antes, também ajudava a disfarçá-las. Ele sentiu que algum estímulo seria bom para Evanlyn e então apontou o bote.
— Lembre-se de que essa coisa é pequena. Não é como os navios. Ele vai navegar sobre ondas grandes, não vai atravessá-las. Vamos ficar tão seguros como se estivéssemos numa casa.
Will não tinha muita certeza sobre as duas últimas afirmações, mas elas lhe pareceram lógicas. Ele tinha observado as gaivotas e os pinguins ao redor da ilha flutuando nas ondas imensas e pareceu que, quanto menor era o objeto, mais seguro se estava.
Ele estava carregando um odre de vinho roubado da despensa. Tinha jogado fora a bebida e enchido o recipiente com água. Ela não tinha um gosto muito bom, mas os manteria vivos. “Além disso”, pensou filosoficamente, “quanto pior for o gosto, mais tempo ela vai durar.” Ele o colocou com cuidado no fundo do bote e levou alguns minutos para verificar se os remos, o leme e o pequeno mastro e as velas estavam guardados em segurança. A maré estava subindo e fazia a água bater quase na borda do barco. Will sabia que ela não iria subir mais e que em alguns minutos eles teriam que partir. E ele e Evanlyn estariam a caminho. Vagamente, sabia que a costa da Teutônia ficava em algum ponto ao sul de onde estavam. Ou talvez eles encontrassem algum navio, já que parecia que as tempestades de verão estavam desaparecendo. Ele não pensava muito no futuro, só sabia que não podia continuar vivendo como prisioneiro. Se fosse o caso, preferia morrer tentando ser livre.
— Não podemos ficar sentados aqui a noite toda — ele disse. — Vá para o outro lado e vamos pôr esse bote na água. Levante e depois empurre.
Segurando nas laterais do barco, eles levantaram e empurraram juntos. Primeiro, o bote ficou firmemente preso no cascalho, mas depois de alguns minutos de esforço, ele começou a deslizar com mais facilidade. Logo ele flutuou e os dois subiram a bordo.
Will deu um último empurrão com o pé e o bote se afastou da praia. O garoto sentiu uma onda de triunfo e então percebeu que não tinha tempo para comemorar. Evanlyn, pálida e nervosa, estava se segurando nas amuradas de ambos os lados enquanto o barco era balançado pelas pequenas ondas.
— Até agora, tudo certo ela disse.
Mas a voz dela traía o nervosismo que sentia. Desajeitado, Will ajeitou os remos nas forquetas. Ele tinha observado Svengal fazê-lo dezenas de vezes, mas constatou que ver e fazer eram duas coisas diferentes e, pela primeira vez, sentiu uma pontada de dúvida. Talvez ele estivesse assumindo uma tarefa maior do que pudesse realizar. Sem habilidade, tentou movimentar os remos, batendo na água e puxando. Ele errou do lado esquerdo, fazendo o bote virar e quase caiu no chão.
— Devagar — Evanlyn aconselhou e ele tentou novamente com mais cuidado.
Desta vez, ele sentiu um forte e bem-vindo impulso para a frente. Will se lembrou de ter visto Svengal girando os remos ao fim de cada movimento para evitar que as lâminas batessem na água. Quando ele fez a mesma coisa, sua tarefa ficou mais fácil. Mais confiante, continuou a remar e o barco se moveu com mais suavidade. A maré estava bem alta e, quando Evanlyn olhou para a praia, sentiu uma onda de medo ao ver o quanto estavam longe.
Will percebeu a reação dela.
— O barco vai andar mais depressa assim que estivermos em alto-mar — ele garantiu entre uma remada e outra. — Nós estamos bem onde as ondas quebram.
— Will! — ela gritou alarmada. — Tem água no bote!
Os panos que envolviam os pés de Evanlyn tinham evitado que ela sentisse a água até aquele momento, mas, quando ficaram encharcados, conseguiu vê-la subindo e descendo por entre as tábuas.
— É só um pouco de espuma — ele disse despreocupado. — Vamos tirar tudo quando estivermos mais longe do porto.
— Não é espuma! — ela replicou com voz aguda. — O bote está fazendo água! Olhe!
Ele olhou para baixo e o coração começou a bater acelerado. Evanlyn tinha razão. A água estava a vários centímetros acima das tábuas do fundo e parecia estar subindo mais.
— Oh, meu Deus! — ele exclamou. — Comece a tirar a água, depressa!
Havia um pequeno balde na popa. Evanlyn o pegou e começou a jogar água sobre a beirada freneticamente. Mas o nível estava subindo lentamente e Will pôde sentir o bote responder mais pesadamente à medida que mais água entrava.
— Volte! Volte! — Evanlyn gritou.
Qualquer preocupação com a discrição tinha sido abandonada. Will assentiu com um gesto de cabeça, ocupado demais para falar, e empurrou um dos remos desesperado, fazendo o bote virar em direção da praia. Agora ele tinha que lutar contra a maré, e o pânico o deixava desajeitado. Ele errou um movimento, perdeu o equilíbrio e quase soltou um dos remos. Com a boca seca de medo, agarrou o remo, impedindo-o de cair na água no último instante. Evanlyn, tirando a água do barco desesperada, percebeu que estava pondo tanta água para dentro quanto estava pondo para fora. Ela lutou contra a sensação de pânico que tomava conta dela e se obrigou a baldear a água com mais calma. “Assim é melhor”, pensou. Mas a água ainda estava vencendo.
Felizmente, Will teve o bom senso de mover o bote para onde a correnteza não era tão forte, fazendo que começasse a ganhar impulso. Mas ele ainda estava afundando e, quanto mais afundava, mais depressa a água entrava. E mais difícil era remar.
— Continue remando! Reme com todas as suas forças! — Evanlyn estimulava.
Ele grunhia, empurrando os remos desesperadamente, arrastando o bote lento de volta à praia. Eles quase tinham conseguido. Estavam a três metros da praia quando o pequeno barco finalmente afundou. O mar subiu pelas beiradas e, enquanto os dois se debatiam exaustos com água pela cintura, Will se deu conta de que, livre do peso, o bote estava flutuando novamente logo abaixo da superfície. Ele o pegou e guiou de volta para a beirada, seguido por Evanlyn.
— Tentando se matar? — uma voz ríspida perguntou.
Eles olharam e viram Erak parado na beira da água.
Vários de seus tripulantes estavam parados atrás dele com um largo sorriso no rosto.
— Jarl Erak... — Will começou, mas parou em seguida. Não havia nada a dizer. Erak estava virando um pequeno objeto nas mãos e o entregou a Will.
— Talvez você tenha esquecido isso — ele disse com a voz ameaçadora.
Will analisou o objeto. Era um pequeno cilindro de madeira de aproximadamente seis centímetros de comprimento e dois de diâmetro. Ele o examinou sem entender.
— É o que nós, simples marinheiros, chamamos de tampão — Erak explicou irônico. — Ele impede a água de entrar no bote. Geralmente é uma boa ideia verificar se está no lugar.
O desânimo tomou conta de Will. Ele estava encharcado, exausto e trêmulo por causa do imenso medo sentido nos últimos 10 minutos. E, principalmente, muito desanimado por causa do fracasso. Um pedaço de cortiça! Seus planos tinham sido arruinados por causa de um maldito tampão de cortiça! Então uma mão forte agarrou a frente de sua camisa e ele foi erguido do chão, ficando com o rosto a poucos centímetros da expressão furiosa de Erak.
— Nunca pense que sou um idiota, garoto! — o escandinavo rosnou para ele. — Se você tentar qualquer coisa parecida com isso de novo, vou arrancar sua pele! — Ele se virou para incluir Evanlyn na ameaça. — Estou falando de vocês dois!
Erak esperou até ter certeza de que o recado tinha atingido o destino e então soltou Will. Totalmente derrotado, o aprendiz de arqueiro caiu estendido nas pedras duras da praia.
— Agora voltem para, a cabana! — Erak ordenou.

6 comentários:

  1. Putz! Derrotado por um tapão?!
    Ass: Bina.

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  2. Nossa eu sentir meu coração pular quando will remava de volta a praia pensando se ele conseguiria ou não conseguiria

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  3. Fiquei mt bolada quando a tripulação inteira estava olhando pra eles, tipo, a volta foi mt discreta...

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  4. Qual é mano é sacanagem,coitado do Will... Tudo por causa de um tampão!!!

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  5. Tudo culpa do tampão
    Ass:lana

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