28 de junho de 2016

Capítulo 12

Havia tanta coisa para ver e ouvir que Horace não sabia para que lado devia virar a cabeça em primeiro lugar. Em toda a sua volta, a cidade portuária de La Rivage fervilhava de vida. As docas estavam lotadas de embarcações; simples barcos pesqueiros e navios de dois mastros estavam ancorados lado a lado e criavam uma floresta de mastros e adriças que pareciam se estender até onde a vista alcançava. Os ouvidos do garoto zumbiam com os gritos agudos das gaivotas que brigavam umas com as outras pelos restos jogados no porto pelos marinheiros que limpavam os peixes apanhados. Os navios, grandes e pequenos, subiam e desciam e balançavam com as leves ondas dentro do porto, que nunca ficava imóvel um instante sequer. Atrás das vozes agudas das gaivotas, havia os constantes chiados e grunhidos de centenas de cercas de vime que protegiam os cascos.
As narinas de Horace se encheram com o cheiro de fumaça e o aroma de comida, mas era um cheiro diferente das refeições simples que se preparavam no Castelo Redmont. Ali o aroma tinha um toque especial, algo exótico, estimulante e estranho.
Ele pensou que isso seria de esperar, já que estava pondo os pés num país estrangeiro pela primeira vez na sua jovem vida. Ele tinha viajado para Céltica, é verdade, mas isso não contava. Céltica era apenas um prolongamento de Araluen. Aquele lugar era totalmente diferente.
Ao seu redor, as vozes se levantavam, zangadas ou divertidas, rindo, chamando e insultando uns aos outros. E ele não conseguia entender uma só palavra daquele idioma estranho. Ele estava parado no cais onde tinham aportado, segurando as rédeas dos três cavalos enquanto Halt pagava o dono do pequeno e pesado cargueiro que os tinha transportado pelo Mar Estreito com uma carga malcheirosa de peles destinadas aos curtumes de Gálica. Depois de quatro dias muito próximo das pilhas enrijecidas de peles de animais, Horace se viu imaginando se conseguiria voltar a usar qualquer coisa feita de couro.
Uma mão puxou seu cinto, e ele se virou espantado.
Uma velha curvada e enrugada estava sorrindo para ele, mostrando as gengivas sem dentes e estendendo a mão. As roupas estavam em farrapos, e a cabeça envolvida numa bandana que talvez tivesse sido colorida, mas naquele momento estava tão suja que não se podia ter certeza. Ela disse algo na língua local, e tudo o que ele pôde fazer foi dar de ombros. Ele não tinha mesmo dinheiro e estava claro que a mulher era uma mendiga. O sorriso obsequioso se transformou numa careta feia e ela disparou algumas palavras irritadas para eles.
Mesmo sem conhecer o idioma, ele soube que não era um cumprimento. Em seguida, ela se virou e saiu mancando, fazendo um estranho gesto em cruz no ar entre eles. Horace balançou a cabeça sem saber o que fazer. Uma gargalhada o distraiu, ele se virou e viu três garotas jovens, talvez uns poucos anos mais novas do que ele, que tinham testemunhado a conversa entre ele e a velha mulher. Sem se conter, ele as admirou de boca aberta.
As meninas, todas muito atraentes, estavam vestidas com trajes que só poderiam ser descritos como excessivamente pequenos. Uma delas usava uma saia tão curta que terminava bem acima dos joelhos. As meninas gesticularam para ele novamente, imitando a sua expressão de espanto. Rapidamente, ele fechou a boca e elas riram ainda mais alto. Uma delas disse algo para ele, chamando-o. Ele não entendeu uma palavra do que ela disse e, sentindo-se ignorante e estranho, percebeu que suas faces estavam muito vermelhas.
E tudo isso fez as garotas rirem com mais vontade.
Elas levantaram as mãos até os próprios rostos, imitando o seu rubor e tagarelando umas com as outras em sua língua estranha.
— Parece que você já está fazendo amigos — Halt disse atrás dele, e ele se virou com ar de culpa.
O arqueiro, Horace nunca conseguia pensar nele de modo diferente, estava olhando para ele e as três garotas com um quê divertido no olhar.
— Você fala essa língua, Halt? — ele perguntou.
Era estranho, mas ele não estava surpreso com esse fato. Ele sempre tinha imaginado que os arqueiros eram dotados de uma ampla variedade de habilidades misteriosas e, até ali, os acontecimentos tinham provado que isso era verdade. Seu companheiro assentiu.
— O bastante para me virar — ele respondeu com calma.
Horace fez um gesto o mais discreto possível na direção das meninas.
— O que elas estão dizendo? — ele quis saber.
O arqueiro assumiu a expressão vazia que Horace estava aprendendo a conhecer tão bem.
— Talvez seja melhor você não saber — Halt respondeu por fim.
Horace concordou, sem realmente compreender, mas não querendo parecer mais bobo do que se sentia.
— Talvez — concordou.
Halt estava saltando com facilidade para a sela de Abelard e Horace o imitou, montando Kicker, seu cavalo de batalha. O movimento provocou um coro de exclamações admiradas das meninas. Ele sentiu o rosto ficar vermelho de novo. Halt olhou para ele de um jeito que parecia pena misturada com divertimento. Balançando a cabeça, ele fez o cavalo se afastar do cais pela rua lotada e estreita nas margens da água.
Montado, Horace sentiu a onda habitual de confiança que sentia ao montar no lombo de um cavalo. E com ela veio a sensação de igualdade em relação àqueles estrangeiros apressados e tagarelas. Agora, parecia que ninguém estava correndo para se divertir às custas dele, pedir-lhe esmolas ou disparar insultos em seu rosto. Havia um respeito natural das pessoas que andavam a pé em relação a homens montados e armados. Sempre tinha sido dessa maneira em Araluen, mas parecia que em Gálica a vantagem era ainda maior. As pessoas ali se moviam com mais entusiasmo para abrir caminho para os dois cavaleiros e o pequeno cavalo robusto de carga que os seguia.
Ocorreu a Horace que talvez as leis não fossem tão imparciais em Gálica como em sua terra natal. Em Araluen, os pedestres davam lugar a homens montados por uma questão de bom senso. Ali eles pareciam apreensivos e até temerosos. Ele ia perguntar a Halt sobre a diferença e tinha até respirado fundo para começar a falar quando se interrompeu.
Halt o censurava constantemente por causa de suas perguntas e, decidido a controlar a curiosidade, resolveu falar no assunto quando parassem para a refeição do meio-dia.
Satisfeito com a decisão, acenou com a cabeça para si mesmo. Então outro pensamento lhe ocorreu e, antes que pudesse impedir, tinha começado a fazer outra pergunta.
— Halt? — ele chamou tímido.
Ele ouviu um suspiro profundo vindo do homem baixo e magro que cavalgava a seu lado. Mentalmente, deu um chute em si mesmo.
— Pensei que você estava doente — Halt disse sério. — Não se passaram mais de 2 ou 3 minutos desde que você me fez uma pergunta.
Decidido, Horace continuou.
— Uma daquelas meninas... — ele começou e imediatamente sentiu os olhos do arqueiro sobre ele — estava usando uma saia muito curta.
Houve uma pausa muito breve.
— Sim? — Halt replicou sem ter certeza do rumo que a conversa ia tomar.
Horace deu de ombros, pouco à vontade. A lembrança da menina e de suas pernas bem feitas fez suas faces corarem de constrangimento novamente.
— Bem... — ele continuou hesitante. — Eu só me perguntei se isso é normal, isso é tudo.
Halt analisou o jovem rosto sério ao seu lado. Ele pigarreou várias vezes.
— Acho que às vezes as meninas de Gálica aceitam emprego como mensageiras — ele contou.
— Mensageiras? — Horace repetiu com a testa franzida.
— Mensageiras. Elas levam mensagens de uma pessoa para outra. Ou de uma oficina para outra nas cidades e vilas — Halt verificou se Horace dava a impressão de estar acreditando nele. Parecia não haver motivos para pensar de outra forma. — Mensagens urgentes — ele acrescentou.
— Mensagens urgentes — Horace repetiu, ainda sem entender a ligação.
Mas ele parecia inclinado a acreditar no que Halt lhe dizia, de modo que o homem mais velho continuou.
— E eu acho que, quando a mensagem é realmente muito urgente, é preciso correr.
Então ele viu um brilho de compreensão nos olhos do garoto. Horace assentiu várias vezes quando finalmente ligou os fatos.
— Então, as saias curtas... servem para ajudar as meninas a correrem com mais facilidade? — ele indagou, e Halt assentiu.
— Certamente é um traje mais adequado do que saias compridas, se você precisa correr muito.
Ele lançou um olhar rápido para Horace para ver se a brincadeira não iria se voltar contra ele: na verdade, para verificar se o garoto tinha percebido que Halt estava falando bobagens e simplesmente pregando uma peça nele. Contudo, a expressão de Horace se mostrava aberta e crédula.
— Acho que sim — Horace respondeu finalmente. — E elas também ficam muito mais bonitas desse jeito — ele acrescentou em voz baixa.
Halt olhou para ele de novo, mas Horace parecia estar contente com a resposta. Por um momento, Halt se arrependeu de sua artimanha e sentiu uma ponta de culpa. Afinal, Horace era uma pessoa que confiava totalmente nele, por isso era fácil brincar com ele dessa forma. Então o arqueiro olhou para aqueles límpidos olhos azuis e para o rosto honesto e satisfeito do aprendiz de guerreiro e afastou qualquer sentimento de arrependimento. Horace tinha muito tempo para aprender sobre o lado mais desagradável da vida. Ele podia conservar a inocência por um pouco mais de tempo.
Eles deixaram La Rivage pelo portão norte e se dirigiram para as fazendas que a cercavam. A curiosidade de Horace continuou forte como sempre, e ele olhava de um lado para outro, enquanto a estrada os levava pelos campos, plantações e casas. O interior era diferente em Araluen. Ali havia diferentes variedades de árvores e, como resultado, havia diversos tons de verde. Algumas das plantações também eram desconhecidas: folhas grandes e largas sobre hastes da altura de um homem eram deixadas para secar e, aparentemente, para murchar na haste antes de serem colhidas. Em vários lugares, Horace viu as mesmas folhas penduradas em grandes galpões sem paredes, secando ainda mais. Ele se perguntou que tipo de planta seria aquela. Mas, como antes, decidiu guardar as perguntas para depois.
Havia outra diferença, apesar de mais sutil. Durante algum tempo, Horace nem mesmo a percebeu. Os campos e plantações pareciam um tanto abandonados. Elas recebiam cuidados, é verdade, e alguns dos campos tinham sido arados, mas parecia lhes faltar o cuidado carinhoso e meticuloso que se via nos campos e plantações em casa. Era possível perceber a falta de atenção dos fazendeiros e, em alguns lugares, as ervas daninhas eram claramente visíveis.
— É a terra que sofre quando os homens lutam — Halt murmurou com um suspiro.
Horace olhou para ele. Não era comum o próprio arqueiro quebrar o silêncio.
— Quem está lutando? — ele perguntou com súbito interesse.
— O povo de Gálica — Halt respondeu coçando a barba. — Não há uma lei central forte aqui. Há dúzias de nobres e barões de menor importância. Opressores, se você preferir. Eles estão constantemente atacando uns aos outros e lutando entre si. É por esse motivo que os campos estão tratados com tanto desleixo. Metade dos fazendeiros foi recrutada por algum exército.
Horace olhou para os campos que margeavam os dois lados da estrada. Não havia sinais de batalha ali. Apenas negligência. Um pensamento lhe veio à cabeça.
— É por isso que as pessoas pareciam um pouco... nervosas com a nossa presença? — ele perguntou, e Halt assentiu com ar de aprovação.
— Você percebeu isso, não foi? Bom garoto. Então ainda existe esperança para você. Sim — ele continuou, respondendo a pergunta de Horace — homens armados e montados neste país são vistos como possível ameaça, não como defensores da paz.
Em Araluen, os fazendeiros procuravam os soldados para protegê-los, assim como a seus campos, da ameaça de possíveis invasores. Ali, Horace percebeu que os próprios soldados eram a ameaça.
— O país está vivendo numa grande agitação — Halt continuou. — O rei Henri é fraco e não tem verdadeiro poder. Assim, os barões lutam, discutem e matam uns aos outros. Se bem que isso não é uma grande perda. Mas é muito injusto quando matam os pobres fazendeiros também, simplesmente porque eles atrapalham. Isso pode ser um problema para nós, mas nós só temos que... ah, droga.
As duas últimas palavras foram ditas em voz baixa, mas não com menos intensidade. Horace, seguindo o olhar de Halt, observou a estrada.
Eles estavam descendo uma pequena colina em que o caminho era cercado dos dois lados por um arvoredo espesso. No pé da colina, atravessado por uma ponte de pedra, um pequeno riacho corria entre os campos e as árvores. Era uma cena tranquila e bastante normal e, de seu jeito, muito bonita.
Mas não foram as árvores, nem a ponte, nem o riacho que tinham provocado o comentário de Halt. Era o guerreiro montado e armado que estava com o cavalo no meio da estrada bloqueando a passagem.

8 comentários:

  1. Kkkkkkkkkk. Amei a historia sobra as saias da Halt!
    ass: Bina.

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  2. nem preciso dizer o que essas moças eram....

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  3. Eu não entendi,sério não entendi mesmo alguém pode me explicar??

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  4. "Saias estremamente curtas, batiam acima do joelho..."o Horace n pode vir pro Brasil n se n eke tem um ataque cardíaco
    Ass:lana

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