28 de junho de 2016

Capítulo 11

A chegada inesperada da embarcação de Slagor, Wolf Fang, tornou a vida em Skorghijl ainda mais desagradável. Por causa do espaço limitado, as condições de vida estavam agora piores do que antes, com duas tripulações amontoadas no local destinado para só uma. E com o excesso de pessoas vieram as brigas. Os escandinavos não estavam acostumados a longas horas de inatividade, então enchiam o tempo bebendo e jogando: uma receita quase certa para problemas. Quando só os membros de uma tripulação estavam envolvidos, os desentendimentos que surgiam geralmente eram resolvidos e esquecidos rapidamente. Mas a lealdade dos dois grupos incendiava a situação de modo que as discussões se inflamavam, a paciência se perdia e, às vezes, armas eram empunhadas antes que Erak pudesse intervir.
“Percebe-se”, Will pensou, “que Slagor nunca levanta a voz para parar as brigas”. Quanto mais observava o capitão do Wolf Fang, mais ele compreendia que o homem tinha pouca autoridade real e impunha muito pouco respeito aos outros escandinavos. A própria tripulação trabalhava por dinheiro, e não por um sentimento de lealdade.
Naturalmente, havia duas vezes mais trabalho para Will e Evanlyn. As tarefas de cozinhar, servir e limpar tinham dobrado e havia o dobro de escandinavos que exigiam que eles fizessem todos os serviços que achassem necessários. Mas, pelo menos, eles tinham conservado seu espaço. A varanda era pequena demais para que qualquer um dos imensos escandinavos sequer pensasse em solicitá-la para uso próprio. Will pensou que essa era uma das compensações por terem sido capturados por gigantes.
Mas não eram somente as brigas e o trabalho extra que tinham tornado a vida de Will e Evanlyn insuportável. As informações sobre o misterioso vallasvow feito por Ragnak tinham sido devastadoras para a princesa. A vida dela agora corria risco e o menor erro, a menor palavra descuidada de qualquer um deles poderia significar a morte dela. Ela pediu a Will para ser cuidadoso, para continuar a tratá-la como uma igual, como sempre tinha feito antes de conhecer sua verdadeira identidade. O menor sinal de deferência da parte dele, o menor gesto de respeito poderia muito bem levantar suspeitas e representar o fim para ela.
Naturalmente, Will garantiu a ela que guardaria seu segredo. Ele treinou para nunca pensar nela como Cassandra e sempre usar o nome de Evanlyn, mesmo em pensamento. Porém, quanto mais ele tentava evitar o nome, mais ele parecia querer saltar para sua língua, sem convite.
Ele vivia constantemente apavorado de que pudesse traí-la inadvertidamente. O clima desagradável entre eles, provocado pelo tédio e pela frustração, além de outras coisas, tinha desaparecido diante desse novo perigo muito real. Eles eram amigos e aliados outra vez e sua determinação em se ajudar e apoiar mutuamente recuperou a força e a convicção que tinham experimentado no curto tempo que passaram juntos em Céltica.
É verdade que o plano de Evanlyn de ser resgatada tinha ido totalmente por água abaixo. Ela nunca poderia se revelar para um homem que tinha jurado matar todos os membros de sua família. Compreender esse fato, além da obrigação de realizar tarefas domésticas e desagradáveis, tinha tornado a sua vida em Skorghijl horrível. O único ponto luminoso em seus dias era Will, sempre alegre, sempre otimista, sempre encorajador. Ela percebeu como ele assumia discretamente os trabalhos piores e mais sujos, sempre que possível, e se sentia agradecida por isso. Ela se sentia envergonhada ao relembrar como o tinha tratado alguns dias antes. Mas quando tentou se desculpar, foi franca o bastante para admitir que tinha errado, ele apenas riu.
— Todos nós estamos um pouco amalucados — ele disse. — Quanto antes fugirmos, melhor.
Ele ainda planejava escapar, e ela compreendeu que tinha que acompanhá-lo. Sabia que Will tinha algo em mente, mas ele estava trabalhando em seu plano e, por enquanto não tinha lhe contado os detalhes. Naquele momento, o jantar tinha terminado e havia uma pilha enorme de pratos, colheres e canecas de madeira para lavar na água do mar e no cascalho fino na beira da praia. Suspirando, Evanlyn se inclinou para pegá-las. Ela estava exausta e quase não aguentava lembrar que teria que se agachar na altura dos tornozelos na água fria para esfregar a gordura.
— Eu lavo isso — Will ofereceu em voz baixa.
Ele olhou à sua volta para se certificar que nenhum dos escandinavos estava olhando e então pegou o saco pesado das mãos dela.
— Não — ela protestou. — Não é justo...
Mas ele levantou a mão para interrompê-la.
— De qualquer jeito, tem uma coisa que preciso verificar. E isso vai ser um bom disfarce — ele disse. — Além disso, você teve uns dias difíceis. Vá e descanse um pouco — ele sugeriu sorrindo. — Se isso a fizer se sentir melhor, amanhã vai ter muita louça para lavar. E no dia seguinte. E você pode cuidar dela enquanto eu vou para lá sem que ninguém perceba.
Evanlyn lhe deu um sorriso cansado e tocou sua mão num gesto de gratidão. Pensar em se estender na cama dura, sem fazer nada, era quase bom demais para ser verdade.
— Obrigada — ela disse simplesmente.
O sorriso de Will se alargou e ela soube que ele tinha ficado verdadeiramente satisfeito de o relacionamento entre os dois ter voltado ao normal.
— Pelo menos, os nossos anfitriões comem com entusiasmo — ele comentou contente. — Eles não deixam muita coisa no prato.
Ele pendurou o saco e seu conteúdo barulhento no ombro e foi até a praia. Sorrindo para si mesma, Evanlyn se inclinou e entrou na varanda.
Jarl Erak saiu da confusão barulhenta e cheia de fumaça que havia na cabana e deixou que o ar frio do mar entrasse em seus pulmões. A vida na ilha estava deixando-o deprimido, principalmente pelo fato de Slagor não tentar manter a disciplina. “O homem é um bêbado inútil”, Erak pensou zangado. E ele não era um guerreiro: todos sabiam que escolhia apenas alvos mal vigiados para suas invasões e nunca participava da luta. Erak tinha sido obrigado a intervir na briga entre um de seus homens e um membro da tripulação de criminosos do Wolf Fang. O homem de Slagor estava usando dados viciados e, quando foi questionado, tentou atacar o oponente com a faca de caça.
Erak interveio e derrubou o marinheiro do Wolf Fang com um soco poderoso. Então, para mostrar que estava sendo imparcial, foi obrigado a derrubar seu próprio tripulante.
“Imparcial, ao estilo dos escandinavos”, ele pensou cansado. Um gancho de esquerda e uma cruzada de direita.
Ele ouviu o ranger de passos no cascalho da praia e viu um vulto escuro se dirigindo para a beira da água. Ele franziu a testa pensativo. Era o garoto de Araluen. Furtivamente, começou a seguir o menino. Ele ouviu o bater de pratos e canecas sendo derrubadas na ária e então o barulho da escova. “Talvez ele esteja apenas lavando a louça”, pensou. “Talvez não.” Andando com cuidado, chegou mais perto.
A ideia de se aproximar sorrateiramente não se comparava exatamente aos padrões dos arqueiros. Will estava esfregando os pratos quando ouviu a aproximação do escandinavo grandalhão. Ou era isso, ou um leão-marinho estava se arrastando nos pedregulhos.
Virando-se para olhar, reconheceu o vulto robusto de Erak, que parecia ainda maior na escuridão por causa do casaco de pele de urso que usava para se proteger do vento frio e cortante. Hesitante, Will começou a se levantar, mas o jarl acenou para que ficasse onde estava.
— Continue seu trabalho — ele disse irritado.
Will continuou a esfregar, espiando o líder dos escandinavos com o canto do olho ao mesmo tempo em que olhava o ancoradouro e sentia o cheiro de tempestade no ar.
— Lá dentro cheira mal — Erak resmungou finalmente.
— Pessoas demais num espaço muito pequeno — Will arriscou, de olhos baixos e esfregando um prato.
Erak o interessava. Ele era um homem duro e um lutador implacável, mas não realmente cruel. Às vezes, de um jeito áspero, conseguia parecer quase simpático. Erak, por sua vez, analisava Will. O que ele pretendia? Provavelmente estava tentando descobrir uma forma de escapar. Era isso o que faria no lugar do garoto. O aprendiz de arqueiro era esperto e habilidoso e também determinado. Erak tinha reparado em como ele insistia em manter seu programa de exercícios estafante correndo pela praia, fizesse sol ou chuva.
Novamente, ele sentiu uma onda de respeito pelo aprendiz de arqueiro. E pela garota. Ela também tinha mostrado muita coragem.
Pensar na menina o fez franzir a testa. Cedo ou tarde, haveria problemas em relação a ela. Principalmente com Slagor e seus homens. A tripulação do Wolf Fang era uma turma deplorável: na maioria, prisioneiros, criminosos de menor importância. Bons tripulantes não se dispunham a trabalhar com Slagor.
“Bem”, ele pensou filosoficamente, “se isso acontecer, vou ter que bater algumas cabeças umas nas outras”.  Ele não iria permitir que sua autoridade fosse desafiada por uma turba como os homens de Slagor. Os dois escravos lhe pertenciam. Eles seriam seu único lucro nessa viagem desastrosa para Araluen e, se alguém tentasse machucar qualquer um deles, teria que se ver com ele. Enquanto pensava nisso, tentou dizer a si mesmo que estava apenas protegendo seu investimento. Mas ele não tinha certeza de que isso era totalmente verdadeiro.
— Jarl Erak? — o garoto chamou na escuridão com incerteza na voz, já que não sabia se deveria fazer perguntas ao líder escandinavo.
Erak grunhiu. O som foi neutro, mas Will o entendeu como uma permissão para continuar.
— O que é o vallasvow de que jarl Slagor falou? — ele quis saber tentando parecer casual.
Erak franziu a testa quando ouviu o título.
— Slagor não é um “jarl” — ele corrigiu. — É apenas um skirl, o capitão de um navio.
— Desculpe — Will retrucou com humildade.
Deixar Erak zangado era a última coisa que queria. Era óbvio que, ao se referir a Slagor como seu igual, Will tinha se arriscado a isso. Ele hesitou, mas o aborrecimento de Erak parecia ter diminuído, então ele tornou a perguntar.
— E o vallasvow? — ele insistiu.
Erak arrotou baixinho e se inclinou para o lado para poder coçar as costas. Ele tinha certeza de que a tripulação de Slagor tinha trazido pulgas para a cabana. Aquele era um desconforto que não tinham tido que suportar até aquele momento. Frio, umidade, fumaça e mau cheiro. E agora todos podiam acrescentar pulgas. Ele desejou, não pela primeira vez, que o navio de Slagor tivesse naufragado no mar de Stormwhite.
— É um juramento — ele começou de má vontade — feito por Ragnak. Não que ele tivesse algum motivo — acrescentou. — Você não irrita os Vallas por bobagens. Não se tem bom senso.
— Os Vallas? — Will perguntou. — Quem são eles?
Erak olhou para o vulto agachado abaixo dele e balançou a cabeça espantado. Como o povo de Araluen era ignorante!
— Nunca ouviu falar dos Vallas? O que eles ensinam à vocês naquela pequena ilha úmida onde vocês moram? — ele indagou.
Will, sabiamente, não respondeu. Houve alguns momentos de silêncio e então Erak continuou.
— Os Vallas, garoto, são os três deuses da vingança. Eles tomam a forma de um tubarão, um urso e um urubu.
Ele fez uma pausa para ver se Will tinha entendido. O menino achou que agora deveria fazer algum comentário.
— Entendo — ele disse devagar.
Erak grunhiu num gesto de zombaria.
— Tenho certeza de que não entendeu. Ninguém que tenha algum bom senso vai querer ver os Vallas. Ninguém que não esteja louco pensa em fazer um juramento para eles.
— Então um vallasvow é um juramento de vingança? — Will perguntou depois de pensar um pouco, e Erak assentiu.
— Vingança total — ele respondeu. — É quando se odeia tanto alguém que se promete vingança, não apenas para a pessoa que fez mal para você, mas para todos os membros de sua família também.
— Todos os membros? — Will se espantou.
Por um momento, Erak se perguntou se havia algum motivo para esse tipo de pergunta. Mas ele não conseguia entender como aquelas informações poderiam ajudar numa tentativa de fuga e então continuou.
— Até o último — ele contou. — É um juramento de morte, é claro, e não pode ser quebrado. Se a pessoa que fez o juramento mudar de ideia, os Vallas tomarão a ela e sua família em vez das vítimas originais. Eles não são do tipo de deuses com quem você gostaria de lidar, acredite em mim.
Novamente, um breve silêncio. Will se perguntou se ele tinha feito perguntas suficientes e decidiu que poderia continuar mais um pouco.
— Então, se eles são tão terríveis, por que Rag-nak...? — ele começou, mas Erak o interrompeu.
— Porque ele é louco! — ele disparou. — Eu lhe disse, somente um louco faria um juramento para os Vallas! Ragnak nunca foi muito bom da cabeça... e agora é evidente que a perda do filho o fez perder a razão de vez.
Erak fez um gesto de desagrado. Ele parecia estar cansado de falar sobre Ragnak e os assustadores Vallas.
— Apenas fique agradecido por não pertencer à família de Duncan, garoto. Ou de Ragnak.
Ele se virou para ver a luz do fogo que aparecia entre as várias frestas e aberturas nas paredes da cabana, jogando desenhos estranhos e alongados de luz no cascalho molhado.
— Agora, volte ao trabalho — ele mandou zangado e voltou para o calor e o mau cheiro da cabana.
Enquanto mergulhava lentamente o último prato na água fria do mar, Will observou Erak.
— Nós precisamos muito sair daqui — ele disse baixinho para si mesmo.

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