28 de junho de 2016

Capítulo 10

A estrada estava chegando perto do oceano, e os bosques dos dois lados se aproximavam cada vez mais, à medida que campos férteis e cultivados davam lugar ao terreno coberto por florestas mais densas. Era o tipo de lugar em que viajantes tranquilos podiam temer bandidos, já que as árvores cerradas perto da estrada davam ampla cobertura para uma emboscada.
Halt, contudo, não tinha esses receios. Na verdade, seu estado de ânimo estava tão sombrio que ele teria recebido bem uma tentativa de bandidos de lhe roubarem os poucos pertences. Sua pesada faca de caça e a faca de atirar estavam à mão debaixo da capa, e ele levava o arco preparado, apoiado na parte mais alta da sela, à moda dos arqueiros. Uma ponta de sua capa, especialmente feita para atender a esse objetivo, formava uma dobra no ombro, deixando as extremidades adornadas de pena das duas dúzias de flechas na aljava prontas para serem apanhadas rapidamente. Dizia-se que todos os arqueiros levavam as vidas de 24 homens na aljava, tão boa e mortal era sua habilidade com o arco.
Além dessas armas visíveis e do próprio instinto muito apurado para pressentir o perigo, Halt tinha duas outras vantagens, não tão óbvias, em relação a quaisquer possíveis atacantes. Os dois cavalos de arqueiros, Puxão e Abelard, eram treinados para avisar discretamente a presença de estranhos. E naquele momento, enquanto Halt cavalgava, as orelhas de Abelard estremeceram várias vezes e ele e Puxão viraram a cabeça e resfolegaram.
Halt estendeu a mão e acariciou o pescoço do cavalo com delicadeza.
— Bons garotos — ele disse com suavidade para os dois pequenos animais atarracados.
Eles balançaram as orelhas, reconhecendo as palavras. Para qualquer observador, o cavaleiro oculto debaixo da capa estava apenas acalmando sua montaria, uma atitude perfeitamente normal. Na verdade, seus sentidos tinham sido aguçados e sua mente trabalhava a toda velocidade. Ele falou novamente, apenas uma palavra.
— Onde?
Abelard inclinou a cabeça levemente para a esquerda, apontando para um arvoredo mais próximo da estrada do que os demais, a uns 50 metros de distância. Halt olhou rapidamente sobre o ombro e percebeu que Puxão, que trotava calmamente atrás dele, estava olhando na mesma direção. Os dois cavalos tinham percebido a presença de um ou mais estranhos nas árvores. E então Halt falou novamente.
— À vontade.
E os dois cavalos, sabendo que o aviso tinha sido recebido e o lugar notado, viraram as cabeças para a estrada. Era esse tipo de habilidade especial que dava aos arqueiros uma tremenda capacidade de sobreviver e prever problemas.
Ainda fingindo ignorar totalmente a presença de qualquer pessoa nas árvores, Halt continuou cavalgando no mesmo ritmo tranquilo. Ele sorriu tristemente para si mesmo ao pensar no fato de que os cavalos só podiam lhe dizer que havia alguém ali. Eles não podiam prever suas intenções ou se era ou não um inimigo.
Ele pensou que fazer isso seria, realmente, um poder sobrenatural.
Ele já estava a 40 metros das árvores. Havia umas seis delas, frondosas e cercadas por vários arbustos. Elas ofereciam uma cobertura perfeita para uma emboscada. Ou, ele raciocinou, para alguém que quisesse simplesmente se proteger da chuva fina que vinha caindo pelas últimas 10 horas. Debaixo do capuz, escondidos e invisíveis para qualquer observador, os olhos de Halt disparavam e examinavam o esconderijo denso. Abelard, mais perto do perigo em potencial, soltou um grunhido rouco. O som quase não podia ser ouvido e foi encarado por seu cavaleiro mais como uma vibração no peito largo do animal do que qualquer outra coisa. Halt lhe deu um cutucão com o joelho.
— Eu sei — ele murmurou, sabendo que a sombra do capuz esconderia qualquer movimento de seus lábios.
Halt decidiu que aquela distância era suficiente. O arco lhe dava vantagem contanto que ficasse a distância. Ele puxou as rédeas de leve e Abelard parou, enquanto Puxão deu mais um passo antes de parar também.
Com um movimento tranquilo e desembaraçado, Halt pegou uma flecha da aljava e a ajeitou na corda do arco. Ele não tentou atirar. Anos de prática constante o tornaram capaz de pegar o arco, mirar, atirar e atingir o alvo um piscar de olhos.
— Eu gostaria de ver você abertamente — ele disse em voz alta.
Houve um momento de hesitação e então um vulto robusto, montado num cavalo, saiu do meio das árvores e parou na beira da estrada.
Halt constatou que se tratava de um guerreiro, ao notar o brilho opaco da malha de ferro nos braços e em volta do pescoço. Ele também usava uma capa para se proteger da chuva. Um capacete de aço cônico e simples estava pendurado na sela e um escudo redondo e sem brasão pendia de suas costas. Halt não viu sinal de espada ou outra arma, mas sabia que elas normalmente eram carregadas do lado esquerdo, o lado que não via bem. Era seguro supor que o cavaleiro estaria carregando algum tipo de arma. Afinal, não havia sentido em usar meia armadura e não estar armado.
O vulto, porém lhe lembrava alguém. Um momento mais e Halt reconheceu o cavaleiro. Ele relaxou, recolocando a flecha na aljava com o mesmo movimento suave e experiente. Ele fez com que Abelard fosse para a frente e se aproximou para cumprimentar o outro cavaleiro.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, já com uma boa ideia de qual poderia ser a resposta.
— Vou com você — Horace comunicou, confirmando a desconfiança de Halt. — Você vai procurar Will e quero acompanhar você.
— Entendo — Halt disse, puxando as rédeas enquanto emparelhava o cavalo com o do rapaz.
Horace era um garoto grande, e seu cavalo de batalha era muitos palmos mais alto do que Abelard. O arqueiro teve que olhar para cima para falar com o jovem e notou a expressão determinada do rapaz.
— E o que você acha que seu mestre vai dizer sobre isso quando descobrir?
— Sir Rodney? — Horace disse dando de ombros. — Ele já sabe. Eu disse que estava indo embora.
Halt inclinou a cabeça um tanto surpreso. Ele tinha imaginado que Horace fosse simplesmente fugir em sua tentativa de se juntar a ele. Mas o guerreiro aprendiz era um tipo franco e não estava acostumado a enganar ou usar subterfúgios. Ele se deu conta de que o caráter de Horace não lhe permitia simplesmente fugir.
— E como ele recebeu essa importante notícia?
Horace franziu a testa sem compreender.
— Como? — ele perguntou indeciso, e Halt suspirou baixinho.
— O que ele disse quando você contou pra ele? Suponho que tenha dado um safanão na sua orelha...
Rodney não era conhecido por sua tolerância com aprendizes desobedientes. Ele tinha um temperamento irritadiço e os garotos da escola de Guerra muitas vezes sentiam sua força na própria pele.
— Não — Horace respondeu imperturbável. — Ele disse para lhe entregar uma mensagem.
— E qual é essa mensagem? — Halt tornou, balançando a cabeça intrigado, notando que Horace se mexeu na sela pouco à vontade antes de responder.
— Ele disse “boa sorte” — o garoto declarou finalmente. — E disse para lhe falar que vim com a aprovação dele... extraoficialmente, é claro.
— É claro — Halt respondeu conseguindo esconder a surpresa que sentia diante desse inesperado gesto de apoio vindo do comandante da Escola de Guerra. — Ele dificilmente poderia lhe dar aprovação oficial para fugir com um criminoso banido, poderia?
— Acho que não — Horace respondeu depois de pensar no assunto. — Então, vai deixar que eu vá com você?
— Claro que não — ele disse rispidamente, balançando a cabeça. — Não tenho tempo para cuidar de você em todos os lugares.
O rosto do garoto ficou vermelho de raiva diante do tom de rejeição de Halt.
— Sir Rodney também disse para lhe informar que uma espada poderia ser útil para proteger você em suas viagens.
Halt olhou para o garoto alto com cuidado enquanto falava.
— Foi isso exatamente o que ele falou? — ele perguntou, e Horace negou com a cabeça.
— Não exatamente.
— Então me conte exatamente o que ele disse — Halt pediu.
— Suas exatas palavras foram: “Uma boa espada poderia ser útil para protegê-lo”.
— A quem ele se referia? — Halt devolveu, escondendo um sorriso.
Horace se ajeitou no cavalo, corando furiosamente e não respondeu. Aquela era a melhor resposta que ele poderia ter dado. Halt o examinava com cuidado. Ele não estava desconsiderando a recomendação de Rodney e sabia que o garoto tinha coragem de sobra. Ele tinha provado isso ao desafiar Morgarath para um combate direto nas Planícies de Uthal. Mas havia a possibilidade de ele ter se tornado orgulhoso e superconfiante. De que adulação e elogios demais tivessem lhe subido à cabeça. Entretanto, se esse fosse o caso, ele teria respondido a pergunta sarcástica de Halt de imediato. O fato de não ter respondido, mas simplesmente ter permanecido parado na sua frente com a expressão determinada dizia muito sobre seu caráter. “É estranho como eles se transformam”, Halt pensou. Ele se lembrava de Horace como um menino um tanto valentão quando mais jovem. Era evidente que a disciplina da Escola de Guerra e alguns anos de maturidade tinham provocado certas mudanças interessantes.
Ele analisou o garoto mais uma vez.
Para falar a verdade, seria bom ter um companheiro. Ele tinha recusado Gilan porque sabia que o outro arqueiro era necessário em Araluen. Mas com Horace a questão era diferente. Seu mestre de ofício tinha lhe dado permissão, extraoficialmente, e Horace era um espadachim bastante competente, leal e confiável também.
E, além disso, Halt tinha que admitir que, como Will tinha sido capturado, ele sentia falta de alguém mais novo ao seu lado. Ele sentia falta do entusiasmo e da ansiedade que acompanhava os jovens. E, por incrível que parecesse, ele até sentia falta das intermináveis perguntas que vinham com eles também.
Ele notou que Horace o olhava ansiosamente. O garoto estava esperando uma decisão e, até aquele momento, não tinha recebido nada mais do que uma pergunta irônica de Halt sobre a “boa espada” sugerida por sir Rodney. Ele soltou um suspiro profundo e deixou uma carranca zangada cobrir seu rosto.
— Você vai me bombardear com perguntas dia e noite?
Horace deixou os ombros caírem com esse tom de voz e então, de repente, compreendeu o significado dessas palavras. Seu rosto ficou radiante e ele levantou os ombros novamente.
— Você quer dizer que vai aceitar minha companhia? — ele indagou num tom de voz que o entusiasmo deixou muito mais agudo do que pretendia.
Halt olhou para baixo e ajeitou uma alça da sacola pendurada na sela que não precisava de ajuste nenhum. De nada serviria se o garoto visse o leve sorriso que encrespava seu rosto cansado.
— Parece que não tenho escolha — ele disse com relutância. — Dificilmente você pode voltar para sir Rodney agora que fugiu, não é mesmo?
— Não, não posso! Quer dizer... isso é maravilho! Obrigado, Halt! Você não vai se arrepender, juro! É que eu prometi para mim mesmo que eu encontraria Will e que ajudaria a resgatá-lo.
O menino estava praticamente gaguejando por causa do prazer de ser aceito. Halt cutucou Abelard com o joelho e começou a cavalgar, seguido tranquilamente por Puxão. Horace deu impulso para seu cavalo de batalha acompanhar Halt e continuou a derramar palavras de agradecimento.
— Eu sabia que você iria atrás dele, Halt. Eu sabia que foi por isso que fingiu estar zangado com o rei Duncan! Ninguém em Redmont acreditou quando ouviu o que tinha acontecido, mas eu sabia que assim você poderia ir e resgatar Will dos escandinavos...
— Chega! — Halt disse finalmente, levantando a mão para impedir o fluxo de palavras, o que fez Horace parar no meio da sentença e curvar a cabeça num gesto de desculpas.
— Sim, claro. Desculpe. Nem mais uma palavra — ele disse.
— Assim é melhor — Halt assentiu agradecido.
Corrigido, Horace cavalgou em silêncio ao lado do novo mestre, enquanto se dirigiam para a costa leste. Eles tinham percorrido outros 100 metros quando ele finalmente não aguentou mais.
— Onde vamos encontrar um navio? — quis saber. — Vamos navegar diretamente para a Escandinávia atrás dos piratas. Podemos atravessar o mar nesta época do ano?
Halt se virou na sela e jogou um olhar furioso para o jovem rapaz.
— Estou vendo que já começou — ele disse irritado.
Mas, dentro do peito, seu coração estava leve pela primeira vez em semanas.

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