24 de junho de 2016

Capítulo 10

— Está na hora de você conhecer as armas de que vai precisar — Halt informou.
Eles tinham tomado o café-da-manhã muito antes do nascer do sol, e Will acompanhou Halt até a floresta. Andaram por mais ou menos meia hora, e Halt aproveitou para mostrar a Will como deslizar de uma sombra até outra fazendo o menor barulho possível. Will era um bom aluno na arte de se mover sem ser visto, como Halt já tinha observado, mas tinha muito a aprender até reunir todas as habilidades de um arqueiro. Mesmo assim, Halt estava satisfeito com o progresso do garoto, que tinha vontade de aprender, especialmente quando se tratava de aulas em campo como aquelas.
O assunto era um pouco diferente quando se tratava de tarefas menos interessantes, como leitura de mapas e desenho de gráficos, pois Will costumava passar por cima de detalhes que considerava sem importância.
— Você daria mais importância a essas habilidades se estivesse planejando o caminho a ser seguido por um exército e se esquecesse de falar da existência de um córrego no trajeto — Halt comentou com seriedade.
Eles pararam numa clareira e Halt deixou cair no chão uma pequena sacola que estava escondida debaixo de sua capa.
Will olhou a bolsa desconfiado. Quando falaram em armas, o garoto pensou em espadas e lanças, as armas usadas pelos cavaleiros. Aquele pequeno pacote não tinha nada a ver com o que ele imaginara.
— Que tipos de armas nós usamos? Espadas? — Will perguntou com os olhos grudados na sacola.
— As principais armas de um arqueiro são o segredo, o silêncio e a habilidade de agir sem ser visto. Mas, se elas falharem, talvez você tenha que lutar.
— E então usamos uma espada? — Will perguntou esperançoso.
Halt se ajoelhou e abriu a trouxa.
— Não, nós usamos um arco — ele disse, colocando o objeto aos pés do menino.
A primeira reação de Will foi de desapontamento.
As pessoas usavam arcos para caçar. Todo mundo tinha um arco. Era mais um instrumento do que uma arma.
Quando criança, ele mesmo construíra vários curvando galhos de árvore verdes. Então, como Halt não disse nada, ele olhou o objeto com mais atenção. Aquele não era um galho curvado.
A arma era diferente de tudo o que Will já tinha visto. Quase todo o arco formava uma curva comprida, como todos os outros, mas suas pontas eram viradas na direção contrária. Will, como a maioria das pessoas do reino, estava acostumado aos arcos normais, que se curvavam numa linha contínua, mas esse era bem mais curto.
— Ele se chama arco recurvo — Halt informou, percebendo a curiosidade do garoto. — Você ainda não tem força suficiente para lidar com um arco comum, portanto este vai lhe dar a velocidade e o impulso necessários. Aprendi a fazê-los com os temujais
— Quem são os temujais? — Will quis saber, desviando o olhar do arco estranho.
— São guerreiros corajosos do leste e também os melhores arqueiros do mundo — Halt contou.
— Você lutou contra eles?
— Contra... e com eles durante algum tempo — Halt disse. — E pare de fazer tantas perguntas.
Outra vez, Will olhou para o arco, que estava na sua mão. Agora que estava se acostumando com seu formato diferente, viu que era uma arma muito bem-feita. Muitas tiras de madeira de grossuras diferentes tinham sido coladas umas às outras, e seus veios corriam em várias direções. Era isso que formava a curva dupla do arco, como se diferentes forças empurrassem uma às outras, dando aos pedaços do objeto uma forma cuidadosamente planejada. Talvez aquela fosse mesmo uma arma, afinal.
— Posso usá-lo?
— Se você acha que é uma boa ideia — Halt concordou com um gesto de cabeça.
Will escolheu uma flecha do estojo que também tinha estado na sacola e a ajustou à corda. Ele puxou a flecha para trás com o polegar e o indicador, mirou o tronco de uma árvore a uns 20 metros de distância e atirou.
A corda pesada do arco bateu na carne macia do lado de dentro de seu braço como um chicote. Will gritou de dor e largou a arma como se estivesse pegando fogo. Uma marca grossa, vermelha e dolorida estava se formando na pele. Will não tinha ideia de onde o arco tinha ido parar, mas nem se importou com isso.
— Que dor! — ele disse, olhando para o arqueiro de um jeito acusador.
— Você é sempre muito apressado, rapaz — Halt comentou, sacudindo os ombros. — Talvez assim aprenda a esperar um pouco na próxima vez.
Ele se abaixou, tirou da sacola um punho comprido de couro duro e o colocou no braço esquerdo de Will para protegê-lo da corda do arco. Chateado, o menino percebeu que Halt estava usando um punho parecido. Mais chateado ainda, lembrou que o tinha visto antes, mas não se perguntou para que servia.
— Agora, tente outra vez — Halt sugeriu.
Will escolheu outra flecha e a colocou na corda, mas, quando a puxou para trás, Halt o fez parar.
— Não com o polegar — Halt ensinou. — Deixe que a flecha fique apoiada entre o primeiro e o segundo dedos na corda... assim.
Ele mostrou a Will como o entalhe no fim do arco prendia a corda e mantinha a flecha no lugar. Depois Halt demonstrou como fazer que a corda se apoiasse nas juntas dos três primeiros dedos e finalmente como soltar a corda para que a flecha disparasse.
— Assim está melhor — ele disse. — Tente usar os músculos das costas, e não só os seus braços. Procure deixar suas omoplatas juntas... — Halt ensinou quando Will puxou a flecha para trás.
Will fez como Halt sugeriu e teve a impressão de que o arco ficou mais leve e de que podia segurá-lo com mais firmeza. Ele soltou a flecha de novo, mas não conseguiu acertar o tronco da árvore que tinha escolhido como pontaria.
— Você precisa praticar — Halt disse. — Solte o arco por enquanto.
Com cuidado, Will colocou o arco no chão. Ele estava ansioso para ver o que Halt iria tirar da sacola em seguida.
— Estas são as facas usadas pelos arqueiros — Halt lhe entregou um estojo duplo igual ao que ele carregava do lado esquerdo do cinto.
Will o pegou e o examinou. As facas estavam colocadas uma em cima da outra. A primeira era pequena, com um cabo grosso e pesado feito de uma série de discos de couro colados um no outro. Havia uma cruzeta de bronze entre o punho e a lâmina e um botão na ponta que combinava com ela.
— Tire a faca do estojo com cuidado — Halt pediu.
Will tirou a faca curta da bainha e notou que ela tinha um formato diferente. Era estreita no cabo, alargava-se no meio e tornava a se afinar na ponta extremamente afiada. O garoto olhou para Halt curioso.
— Foi feita para ser atirada. A largura dela compensa o peso do cabo, e a combinação do peso dos dois ajuda a fazê-la chegar aonde você quer quando atirada. Olhe.
A mão de Halt se moveu com suavidade e rapidez para a faca de lâmina larga que carregava na cintura. Ele a tirou da bainha e, com um movimento leve, atirou-a numa árvore próxima.
A faca bateu no tronco com um barulho forte. Will olhou para o arqueiro, impressionado com sua habilidade e velocidade.
— Como você aprendeu a fazer isso? — ele perguntou.
— Prática — Halt respondeu, fazendo um gesto para que Will examinasse a outra faca.
A segunda faca era mais comprida. O cabo era feito com os mesmos discos de couro e tinha uma cruzeta curta e firme. A lâmina era pesada e reta, muito afiada num dos lados, grossa e pesada no outro.
— Essa é para o caso em que o inimigo chega muito perto — Halt explicou. — Mas, se você for um arqueiro, isso nunca vai acontecer. Ela serve para ser atirada, mas essa lâmina também pode bloquear o ataque de uma espada. Foi feita pelos melhores ferreiros do reino. Cuide dela e a mantenha afiada.
— Está bem — o aprendiz concordou, admirando a faca que tinha nas mãos.
— Ela é parecida com uma faca usada pelos escandinavos — Halt informou. — Serve como faca e ferramenta. Repare que a qualidade do aço da nossa faca é muito superior ao aço deles.
Will examinou a faca com mais atenção, percebeu a cor azulada da lâmina e sentiu o seu equilíbrio perfeito. O cabo de couro e bronze dava a ela uma aparência simples e útil, mas era uma arma excelente e muito superior às espadas grosseiras usadas pelos guerreiros do castelo Redmont.
Halt mostrou a Will como prender a bainha dupla em seu cinto para que conseguisse pegar as facas com facilidade.
— Agora tudo o que você precisa fazer é aprender a usar as facas. E você sabe o que isso significa, não sabe?
Will sacudiu a cabeça sorrindo.
— Muita prática ele respondeu.

2 comentários:

  1. Barão de Bransburg13 de outubro de 2015 18:43

    "os melhores arqueiros do mundo Halt contou."
    Não deveria ter um travessão antes de Halt¿

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  2. "— Muita prática ele respondeu."
    Essa parte, eu acho que faltou um travessão entre "prática" e "ele"

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