12 de junho de 2016

Apêndice G - Nota sobre os textos de “A Busca De Erebor”

A situação textual desta peça é complexa e difícil de desemaranhar. A versão mais antiga é um manuscrito completo, mas tosco e muito emendado, que aqui chamarei de A. Ele leva o título de “A história dos tratos de Gandalf com Thráin e Thorin Escudo de Carvalho”. A partir dele foi feita uma versão datilografada, B, com muitas alterações adicionais, porém em sua maioria de caráter bem secundário. Essa está intitulada “A busca de Erebor”, e também “'Relato de Gandalf sobre como veio a arranjar a Expedição a Erebor e mandar Bilbo com os anões”. Alguns extratos extensos do texto datilografado estão apresentados abaixo.
Além de A e B (“a versão mais antiga”), existe outro manuscrito, C, sem título, que conta a história em forma mais econômica e de construção mais compacta, omitindo muitos pontos da primeira versão e introduzindo alguns elementos novos, mas também (especialmente na parte final) mantendo em grande medida a escrita original. Parece-me bastante certo que C seja posterior a B, e C é a versão que foi dada acima, embora pareça ter sido perdida uma parte do texto inicial, que estabelece a cena em Minas Tirith para as reminiscências de Gandalf.
Os parágrafos iniciais de B (dados abaixo) são quase idênticos a um trecho no Apêndice A (III, O Povo de Durin) do Senhor dos Anéis, e obviamente dependem da narrativa acerca de Thrór e Thráin que os precede no Apêndice A; enquanto o final de “A busca de Erebor” também se encontra, quase exatamente com as mesmas palavras, no Apêndice A (III), aí de novo nas palavras de Gandalf, falando a Frodo e Gimli em Minas Tirith. À vista da carta citada na Introdução está claro que meu pai escreveu “A busca de Erebor” para fazer parte da narrativa em O Povo de Durin no Apêndice A.


Extratos da versão mais antiga

O texto datilografado B da versão mais antiga começa assim:

Desse modo Thorin Escudo de Carvalho tornou-se Herdeiro de Durin, mas herdeiro sem esperança. No saque de Erebor, ele era jovem demais para portar armas, mas em Azanulbizar lutara na vanguarda do ataque. E, quando Thráin se perdeu, ele estava com noventa e cinco anos de idade, um grande anão de porte altivo. Não tinha Anel, e (talvez por essa razão) parecia contente em permanecer em Eriador. Ali labutou por muito tempo, e ganhou a riqueza que pôde. E seu povo cresceu com o acréscimo de muitos do errante Povo de Durin que ouviram falar de sua morada e vieram ter com ele. Agora dispunham de belos salões nas montanhas, e depósitos de mercadorias, e seus dias não pareciam tão difíceis, apesar de sempre falarem em suas canções da longínqua Montanha Solitária, do tesouro e da alegria do Grande Salão à luz da Pedra Arken.
Os anos passaram. As brasas no coração de Thorin inflamaram-se de novo à medida que ele meditava sobre as injustiças sofridas por sua Casa e a vingança contra o Dragão que lhe fora legada. Pensava em armas, exércitos e alianças enquanto seu grande martelo ressoava na forja; mas os exércitos estavam dispersos, as alianças rompidas e os machados de seu povo eram poucos. E uma enorme ira sem esperança o consumia quando ele golpeava o ferro rubro na bigorna.
Gandalf ainda não desempenhara nenhum papel na sorte da Casa de Durin. Não tinha muitos tratos com os anões; porém era amigo dos de boa vontade e gostava bastante dos exilados do Povo de Durin que viviam no oeste. Mas certa vez ocorreu que ele passava por Eriador (a caminho do Condado, que ele não vira por alguns anos) quando topou com Thorin Escudo de Carvalho. Conversaram na estrada, e repousaram naquela noite em Bri.
Pela manhã Thorin disse a Gandalf:
— Tenho muitas coisas a me preocupar, e dizem que você é sábio e conhece mais do que a maioria sobre o que se passa no mundo. Quer vir a minha casa para me ouvir e dar seu conselho?
A isso Gandalf assentiu e, quando chegaram ao salão de Thorin, sentou-se e escutou  toda a história dos agravos sofridos por ele. Desse encontro decorreram muitos feitos e eventos de grande importância; na verdade o achamento do Um Anel, sua vinda ao Condado e a escolha do Portador do Anel. Portanto, muitos supõem que Gandalf previra todas essas coisas e escolhera o momento para se encontrar com Thorin. Acreditamos porém que não foi assim. Pois, em sua história da Guerra do Anel, Frodo, o Portador do Anel, deixou um registro das palavras de Gandalf sobre este mesmo ponto. Foi isto o que ele escreveu:

No lugar das palavras “Foi isto o que ele escreveu”. A, o manuscrito mais antigo, tem: “Esse trecho foi omitido da história, pois parecia longo; mas agora apresentamos aqui a maior parte”.

Após a coroação, moramos com Gandalf em uma bela casa em Minas Tirith, e ele estava muito alegre, e, por muito que lhe fizéssemos perguntas sobre tudo o que nos ocorria, sua paciência parecia tão infinita quanto seu conhecimento. Agora não consigo relembrar a maioria das coisas que ele nos contou; muitas vezes não as compreendíamos. Mas lembro-me muito claramente desta conversa. Gimli estava lá conosco, e ele disse a Peregrin:
— Há uma coisa que preciso fazer um dia destes; preciso visitar esse seu Condado*. Não para ver mais hobbits! Duvido que possa aprender algo sobre eles que eu já não saiba. Mas nenhum anão da Casa de Durin pode deixar de olhar aquela terra com assombro. Não começou lá a recuperação do Reino sob a Montanha e a queda de Smaug? Sem mencionar o fim de Barad-dûr, apesar de que ambos estavam estranhamente enredados. Estranho, muito estranho — disse, e fez uma pausa. Então, olhando firme para Gandalf, prosseguiu: — Mas quem teceu a teia? Não creio que eu jamais tenha ponderado isso antes. Então você planejou tudo isso, Gandalf? Se não, por que levou Thorin Escudo de Carvalho a uma porta tão improvável? Encontraro Anel, levá-lo longe rumo ao oeste para escondê-lo e depois escolher o Portador do Anel (e restaurar o Reino da Montanha como um mero ato à margem do caminho) não era esse seu intento?
Gandalf não respondeu de pronto. Levantou-se e olhou pela janela, para o oeste, em direção ao mar; o sol estava se pondo, e havia um brilho em seu rosto. Por bastante tempo permaneceu assim, em silêncio. Mas finalmente voltou-se para Gimli e disse:
— Não sei a resposta. Pois mudei desde aqueles dias, e não estou mais entravado pelo fardo da Terra Média como estava então. Naquela época eu lhe teria respondido com palavras como as que disse a Frodo, ainda na primavera do ano passado. Ainda no ano passado! Mas tais medidas não têm significado. Naquela época extremamente distante eu disse a um pequeno hobbit amedrontado: Bilbo foi designado a encontrar o Anel, e não por quem o fez, e portanto você foi designado a portá-lo. E eu poderia ter acrescentado: e eu fui designado a conduzi-los a ambos a esses pontos. Para fazer isso, usei em minha mente desperta somente aqueles meios que me eram permitidos, fazendo o que estava à mão de acordo com as razões que tinha. Mas o que eu sabia em meu coração, ou sabia antes de pisar nesta costa cinzenta: isso é outro assunto. Olórin eu era no Oeste que está esquecido, e somente aos que lá estão hei de falar mais abertamente.

* Gimli deve pelo menos ter atravessado o Condado em viagens desde seu lar original nas Montanhas Azuis.
A tem aqui: “e somente aos que lá estão (ou que talvez possam retornar comigo para lá) hei de falar mais abertamente”.

Então eu disse:
— Agora, Gandalf, compreendo-o um pouco melhor do que compreendia antes. Porém suponho que, designado ou não, Bilbo poderia ter-se recusado a sair de casa, e eu também. Você não podia nos compelir. Você nem tinha permissão para tentar. Mas ainda estou curioso para saber por que você fez o que fez, assim como você era então, aparentemente um ancião grisalho.

Então Gandalf lhes explicou suas dúvidas daquela época a respeito do primeiro movimento de Sauron, e seus temores por Lórien e Valfenda. Nesta versão, depois de dizer que um golpe direto contra Sauron era ainda mais urgente que a questão de Smaug, ele prosseguiu:

— Para dar um salto adiante, foi por isso que parti assim que estava bem encaminhada a expedição contra Smaug, e persuadi o Conselho a atacar Dol Guldur primeiro, antes que ele atacasse Lórien. Fizemos isso, e Sauron fugiu. Mas ele sempre estava à nossa frente em seus planos. Preciso confessar que pensei que ele realmente se retraíra, e que poderíamos ter outro período de paz vigilante. Mas não durou muito. Sauron decidiu dar o próximo passo. Retornou imediatamente a Mordor, e em dez anos declarou-se. “Então tudo ficou escuro. E, no entanto não era esse seu plano original; e ao final foi um erro. A resistência ainda tinha um lugar onde podia se aconselhar livre da Sombra. Como poderia ter escapado o Portador do Anel se não houvesse Lórien nem Valfenda? E esses lugares poderiam ter caído, penso eu, se Sauron tivesse lançado todo o seu poder contra eles primeiro, e não gasto mais de metade no ataque a Gondor”.
“Bem, aí está. Essa foi minha razão principal. Mas é uma coisa ver o que precisa ser feito, e outra bem diferente encontrar os meios. Eu começava a me preocupar seriamente com a situação no norte quando encontrei Thorin Escudo de Carvalho certo dia: em meados de março de 2941, eu acho. Ouvi toda a sua história e pensei: Bem, eis pelo menos um inimigo de Smaug! E um que é digno de ajuda. Preciso fazer o que puder. Devia ter pensado nos anões antes”.
“E havia o povo do Condado. Comecei a ter uma pontinha de afeto por eles em meu coração durante o Inverno Longo, que nenhum de vocês consegue recordar*”.
Sofreram muito naquela ocasião: um dos piores apertos em que estiveram, morrendofa de frio e passando fome na terrível escassez que se seguiu. Mas essa foi a hora de ver sua coragem e compaixão de uns pelos outros. Foi por sua compaixão, tanto quanto por sua dura coragem sem queixas, que sobreviveram. Eu queria que sobrevivessem ainda. Mas vi que as Terras do Oeste ainda viveriam situações muito ruins, mais cedo ou mais tarde, porém de um tipo bem diferente: uma guerra impiedosa. Para superar essa dificuldade pensei que necessitariam de algo mais do que tinham então. Não é fácil dizer o quê. Bem,  precisariam de saber um pouco mais, compreender com um pouco mais de clareza do que se tratava e qual era sua situação.
“Haviam começado a esquecer: esquecer seus próprios primórdios e suas lendas, esquecer o pouco que tinham conhecido da grandeza do mundo. Ainda não se fora, mas estava sendo sepultada: a lembrança do sublime e do perigoso. Mas não se pode ensinar essa espécie de coisa rapidamente a todo um povo. Não havia tempo. E de qualquer modo é preciso começar em algum ponto, com alguma pessoa determinada. Atrevo-me a dizer que ele foi escolhido' e eu apenas fui escolhido para escolhê-lo: mas dei a preferência a Bilbo”.
— Ora, é bem isso o que quero saber — disse Peregrin. — Por que fez isso?
— Como selecionar um certo hobbit para tal propósito? — perguntou Gandalf. — Eu não tinha tempo de testá-los a todos; mas a essa altura conhecia muito bem o Condado, apesar de, quando encontrei Thorin, ter estado afastado por mais de vinte anos em atividades menos agradáveis. Assim, repassando naturalmente os hobbits que conhecia, disse a mim mesmo: “Quero uma pitada de Tûk” (porém não demais, Mestre Peregrin) “e quero uma boa fundação do tipo mais impassível, quem sabe um Bolseiro”. Isso apontava para Bilbo imediatamente. E eu o conhecera muito bem, quase até ele chegar à maioridade, melhor do que ele me conhecia. Gostava dele então. E agora descobria que ele estava “solteiro” (saltando adiante mais uma vez), pois evidentemente eu não sabia de tudo isso antes de voltar ao Condado. Descobri que ele nunca se casara. Achei isso esquisito, apesar de imaginar por quê; e o motivo que suspeitei não era o que a maioria dos hobbits me dava; que cedo ele ficara bem de vida e era seu próprio patrão. Não, imaginei que ele queria permanecer “solteiro” por alguma razão bem profunda, que ele mesmo não compreendia ou não queria reconhecer, pois ela o alarmava. Queria, rnesmo assim, ser livre para partir quando surgisse a oportunidade ou quando ele tivesse reunido coragem. Lembro-me de como costumava me atormentar com perguntas, quando era jovem, sobre os hobbits que às vezes “tinham-se ido”, como dizem no Condado. Havia pelo menos dois tios seus, do lado Tûk, que tinham feito isso.

* Há um relato do Inverno Longo de 2758-9. no que afetou Rohan, no Apêndice A (II) do Senhor dos Anéis— e o registro no Conto dos Anos menciona que “Gandalf vem em socorro do povo do Condado”.

Esses tios eram Hildifons Tûk, que “saiu para uma viagem e jamais voltou”, e Isengar Tûk (o mais novo dos doze filhos do Velho Tûk), do qual diziam “que 'se fez ao mar' quando jovem” (O Senhor dos Anéis, Apêndice C, Árvore genealógica dos Tûk de Grandes Smials). Quando Gandalf aceitou o convite de Thorin para acompanhá-lo até seu lar nas Montanhas Azuis,

— nós de fato passamos através do Condado, embora Thorin não quisesse se deter o bastante para que isso fosse útil. Na verdade, penso que foi a irritação com seu altivo menosprezo pelos hobbits que primeiro me deu a ideia de enredá-lo com eles. No que lhe tangia, tratava-se de meros produtores de alimentos que por acaso cultivavam os campos de ambos os lados da ancestral estrada dos anões para as Montanhas.

Nesta versão mais antiga, Gandalf fazia um longo relato de como, após sua visita ao Condado, voltou a Thorin e o persuadiu “a pôr de lado seus elevados desígnios e partir em segredo — levando Bilbo consigo” — sendo que essa frase é tudo o que se diz a respeito na versão posterior.

— Por fim decidi-me e voltei a Thorin. Encontrei-o em conclave com alguns de seus parentes. Balin e Glóin estavam lá, bem como vários outros.
“'Bem, o que tem a dizer?', perguntou-me Thorin assim que entrei”.
“'Primeiro isto', respondi. 'Suas próprias ideias são as de um rei, Thorin Escudo de Carvalho; mas seu reino foi-se. Se for para ser restaurado, do que duvido, isso tem de acontecer a partir de um pequeno começo. Eu me pergunto se você, aqui tão longe, compreende plenamente a força de um grande Dragão. Mas isso não é tudo: há uma Sombra muito mais terrível crescendo depressa no mundo. Eles se ajudarão entre si.' E certamente já o teriam feito, se eu não tivesse atacado Dol Guldur ao mesmo tempo. 'A guerra aberta seria totalmente inútil; e de qualquer forma para você é impossível organizá-la. Você terá de tentar algo mais simples e no entanto mais ousado, na verdade algo desesperado'”.
“'Você é ao mesmo tempo vago e inquietante', disse Thorin. 'Fale mais claro!'”
“'Bem, por um lado', disse eu, 'você próprio terá de ir nesta busca, e terá de ir secretamente. Sem mensageiros, arautos ou desafios, Thorin Escudo de Carvalho. No máximo poderá levar consigo alguns parentes ou seguidores fiéis. Mas precisará de algo mais, algo inesperado'”.
“'Diga o que é!', disse Thorin”.
“'Um momento!', disse eu. 'Você espera lidar com um Dragão; e ele não apenas é muito grande, mas agora também é muito velho e astucioso. Desde o começo de sua aventura você terá de levar isso em conta: a memória e o olfato dele'”.
“'Naturalmente', disse Thorin. 'Os anões trataram mais com Dragões que a maioria, e você não está instruindo um ignorante'”.
“'Muito bem', respondi; mas seus próprios planos não me pareciam considerar este ponto. Meu plano é de dissimulação. Dissimulação*. Smaug não se deita sem sonhos em seu precioso leito, Thorin Escudo de Carvalho. Ele sonha com anões! Pode ter certeza de que ele explora seu palácio dia após dia, noite após noite, até se certificar de que não haja por perto nem o mais tênue ar de anão, antes de buscar o sono; seu meio-sono com as orelhas em pé para o som de... pés de anões'”.
“Você faz sua dissimulação soar tão difícil e sem esperança quanto qualquer ataque aberto', disse Balin. 'Impossivelmente difícil!'”
“'Sim. é difícil', respondi eu. 'Mas não impossivelmente difícil, do contrário eu não perderia meu tempo aqui. Eu diria absurdamente difícil. Portanto, vou sugerir uma solução absurda para o problema. Levem consigo um hobbit! Smaug provavelmente nunca ouviu falar de hobbits e certamente nunca os farejou'”.
“'O quê!', exclamou Glóin. 'Um desses simplórios lá do Condado? De que poderia servir um deles na face da terra, ou debaixo dela? Não importa o cheiro que tenha, ele nunca se atreveria a chegar à distância de faro do mais pelado dragonete recém-saído da casca!'”.
“'Vamos lá!', disse eu, 'Isso é bem injusto. Você não sabe muito sobre o povo do Condado, Glóin. Suponho que você os considere simplórios porque são generosos e não barganham; e os considere tímidos porque nunca lhes vende armas. Você está errado. Seja como for, existe um que estou destinando a ser seu companheiro, Thorin. Tem mãos hábeis e é esperto, porém astuto e nem um pouco precipitado. E creio que tem coragem Grande coragem, eu acho, conforme a maneira do seu povo. Poderíamos dizer que são “bravos no aperto”. É preciso pôr esses hobbits num lugar apertado para descobrir como são de fato?.'
 “'O teste não pode ser feito', respondeu Thorin. 'Pelo que observei, eles fazem o possível para evitar lugares apertados'”.
“'É bem verdade' disse eu. 'São um povo muito sensato. Mas este hobbit é bastante incomum. Penso que ele possa ser persuadido a entrar em um lugar apertado. Creio que no fundo do coração ele de fato deseja isso — viver, como ele diria, uma aventura'”.
“'Não à minha custa!' disse Thorin, levantando-se e andando furioso de um lado para o outro. 'Isto não é conselho, é tolice! Não consigo ver o que qualquer hobbit, bom ou mau, poderia fazer que me compensasse o sustento de um dia, mesmo que ele pudesse ser persuadido a partir'”.
“'Não consegue ver! O mais provável é que não consiga ouvir' respondi. 'Hobbits movem-se sem esforço em maior silêncio que qualquer anão do mundo conseguiria, mesmo que sua vida dependesse disso. Suponho que tenham os passos mais leves de todas as espécies mortais. De qualquer forma você, Thorin Escudo de Carvalho, não parece ter observado isso ao marchar pelo Condado, fazendo um barulho (devo dizê-lo) que os habitantes escutavam a uma milha de distância. Quando eu disse que você precisaria de dissimulação, foi isso o que quis dizer: dissimulação profissional'”.
“Dissimulação profissional?', exclamou Balin, interpretado minhas palavras de modo bem diverso do que eu pretendia. 'Quer dizer um caçador de tesouros treinado? Ainda se pode encontrá-los?'”
“Hesitei. Essa era uma faceta nova, e eu não tinha certeza de como encará-la. 'Penso que sim' respondi afinal. Mediante um prêmio, eles entram onde você não se atreve, ou quem sabe não consegue, e obtêm o que você desejar”.
“Os olhos de Thorin brilharam à medida que as lembranças de tesouros perdidos se agitavam em sua mente; mas comentou com desdém, 'Um ladrão pago, você quer dizer. Isso poderá ser considerado, se o prêmio não for alto demais. Mas o que tudo isso tem a ver com um desses aldeões? Eles bebem em recipientes de barro, e não distinguem uma pedra preciosa de uma conta de vidro'”.
“Gostaria que você não falasse sempre com tanta confiança sem conhecimento' disse eu com aspereza. 'Esses aldeões moram no Condado há uns mil e quatrocentos anos, e aprenderam muitas coisas nesse tempo. Tratavam com os elfos e com os anões, mil anos antes de Smaug chegar a Erebor. Nenhum deles é rico como seus antepassados julgavam a riqueza, mas você descobrirá que algumas das suas moradias contêm coisas mais belas do que você pode vangloriar-se aqui, Thorin. O hobbit em quem estou pensando possui ornamentos de ouro, come com talheres de prata e bebe vinho em cristais elegantes'”.
“'Ah! Finalmente percebo aonde quer chegar', disse Balin. 'Então é um ladrão? É por isso que você o recomenda?'”
“Diante desse medo perdi minha paciência e minha cautela. Essa presunção dos anões, de que ninguém pode ter ou fazer nada 'de valor' exceto eles próprios, e de que todos os objetos refinados em mãos alheias devem ter sido obtidos, se não roubados, dos anões em alguma ocasião, era mais do que eu podia suportar naquele momento. 'Um ladrão?, disse eu, rindo. Ora, sim, um ladrão profissional, é claro! De que outro modo um hobbit conseguiria uma colher de prata? Vou pôr a marca dos ladrões em sua porta, e assim vocês a encontrarão.' Então levantei-me, já que estava com raiva, e disse com uma veemência que me surpreendeu a mim mesmo: 'Você tem de procurar essa porta, Thorin Escudo de Carvalho! Falo sério. ' E de repente senti que de fato eu estava sendo extremamente sincero. Essa minha ideia esquisita não era piada, estava certa. Era desesperadoramente importante que se realizasse. Os anões tinham de deixar de ser cabeçudos”.
“'Escutem-me, Povo de Durin!', exclamei. Se persuadirem esse hobbit a se unir a vocês, vocês terão êxito. Se não, fracassarão. Se se recusarem mesmo a tentar, não vou mais querer saber de vocês. Não vão mais receber conselhos nem ajuda minha até que a Sombra se abata sobre vocês!'”
“Thorin voltou-se e me olhou espantado, como era de esperar. 'Palavras vigorosas!', disse ele. 'Muito bem, irei. Você teve algum presságio, se não estiver simplesmente maluco'”.
“'Ótimo!', disse eu. 'Mas você tem de ir de boa vontade, não apenas esperando demonstrar que sou um tolo. Precisa ter paciência e não desistir facilmente, caso nem a coragem nem o desejo de aventura dos quais falei estejam evidentes à primeira vista. Ele os negará. Ele tentará esquivar-se; mas você não pode deixá-lo fazer isso'”.
“'Barganhar não vai lhe adiantar nada, se é isso o que você quer dizer' disse Thorin. 'Eu lhe oferecerei um prêmio justo por tudo o que recuperar, e nada mais'”.
“Não era o que eu queria dizer, mas parecia inútil tentar esclarecer. 'Mais uma coisa', prossegui, 'você tem de fazer todos os seus planos e preparativos com antecedência. Apronte tudo! Uma vez persuadido, ele não pode ter tempo para pensar melhor. Vocês têm de partir direto do Condado, para leste em sua busca'”.
“'Parece ser uma criatura muito estranha, esse seu ladrão', disse um anão jovem chamado Fili (um sobrinho de Thorin, como descobri depois). Como se chama, ou que nome ele usa?'”
“'Os hobbits usam seus verdadeiros nomes', disse eu. O único que ele tem é Bilbo Bolseiro.' Que nome!' disse Fili, e riu.”
“'Ele o considera muito respeitável' disse eu. 'E lhe assenta bastante bem; pois Bilbo é um solteirão de meia-idade, e está ficando um tanto flácido e gordo. Talvez a comida seja seu principal interesse no momento. Dizem que mantém uma excelente despensa, e talvez mais de uma. Pelo menos serão bem servidos'”.
“Já basta' disse Thorin. 'Se não tivesse dado minha palavra, eu não iria agora. Não estou com humor para ser feito de tolo. Pois eu também falo sério. Muito sério, e meu coração está quente aqui'”.
“Não dei atenção a isso. 'Agora veja, Thorin', disse eu, 'abril está passando e a primavera chegou. Apronte tudo assim que puder. Tenho alguns assuntos a resolver, mas estarei de volta em uma semana. Quando eu voltar, se tudo estiver em ordem, cavalgarei na frente para preparar o terreno. Então todos nós o visitaremos juntos no dia seguinte'”.
“E com essas palavras despedi-me, sem querer dar a Thorin mais oportunidades do que Bilbo teria para pensar melhor. O resto da história é bem conhecido de vocês — do ponto de vista de Bilbo. Se eu tivesse escrito o relato, teria soado bem diferente. Ele não sabia tudo o que estava acontecendo: o cuidado que tomei, por exemplo, para que a chegada em Beirágua de um grande grupo de anões, fora da estrada principal e de seu trajeto usual, não lhe chegasse aos ouvidos cedo demais”.
“Foi na manhã da terça-feira, 25 de abril de 2941. que fiz uma visita a Bilbo; e, apesar de saber mais ou menos o que esperar, devo dizer que minha confiança ficou abalada. Vi que as coisas seriam muito mais difíceis do que eu pensara. Mas perseverei. No dia seguinte, quarta-feira, 26 de abril, levei Thorin e seus companheiros a Bolsão; com grande dificuldade, no que tangia a Thorin — ele relutou na última hora. E é claro que Bilbo ficou completamente aturdido e se comportou de modo ridículo. Na verdade tudo correu extremamente mal para mim desde o princípio; e aquela história infeliz do 'ladrão profissional', que os anões haviam metido firmemente na cabeça, só piorou as coisas. Fiquei grato por ter dito a Thorin que devíamos todos passar a noite em Bolsão, pois precisaríamos de tempo para discutir os aspectos práticos. Isso me deu uma última chance. Se Thorin tivesse saído de Bolsão antes que eu pudesse falar com ele a sós, meu plano teria sido arruinado”.

* Neste ponto uma frase no manuscrito A foi omitida no texto datilografado, talvez não propositadamente, à vista da observação subsequente de Gandalf sobre Smaug nunca ter farejado um hobbit: “Também um odor que não pode ser identificado, pelo menos não por Smaug. O inimigo dos anões”.

Ver-se-á que alguns elementos dessa conversa foram utilizados na versão posterior, na discussão entre Gandalf e Thorin em Bolsão. A partir desse ponto, a narrativa da versão posterior segue a antiga muito de perto, e esta portanto não é mais citada aqui, exceto um trecho ao final. Na anterior, quando Gandalf parou de falar, Frodo registra que Gimli riu.

— Ainda parece absurdo — disse ele —, mesmo agora que tudo saiu mais do que bem. Conheci Thorin, é claro; e gostaria de ter estado lá, mas eu estava longe na ocasião da primeira visita que nos fez. E não me foi permitido partir na busca: jovem demais, disseram, embora aos sessenta e dois anos eu me considerasse apto a qualquer coisa. Bem, estou contente de ter ouvido a história completa. Se é que é completa. Na verdade não acho que mesmo agora você esteja nos contando tudo o que sabe.
— Claro que não — disse Gandalf.

E depois disso Meriadoc fez mais perguntas a Gandalf acerca do mapa e da chave de Thráin; e no decorrer de sua resposta (a maior parte da qual está mantida na versão posterior, em ponto diferente da narrativa) Gandalf disse:

— Fazia nove anos que Thráin havia deixado seu povo quando o encontrei, e estava nos poços de Dol Guldur havia cinco anos pelo menos. Não sei como suportou tanto tempo, nem como mantivera aqueles objetos escondidos ao longo de todas as torturas. Penso que o Poder escuro nada desejava dele além do Anel e, quando o tomou, não se importou mais, mas somente lançou o prisioneiro alquebrado nos poços, para delirar até morrer.
Um pequeno descuido; mas que demonstrou ser fatal. E o que costuma acontecer com pequenos descuidos.

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