12 de junho de 2016

Apêndice D - O Porto de Lond Daer

Foi dito em “Acerca de Galadriel e Celeborn” que na guerra contra Sauron em Eriador, ao fim do décimo sétimo século da Segunda Era, o almirante númenoriano Ciryatur mandou desembarcar um grande exército na foz do Gwathló (Rio Cinzento), onde havia “um pequeno porto númenoriano”. Essa parece ser a primeira referência a esse porto, do qual muito se conta em escritos posteriores.
O relato mais completo está no ensaio filológico acerca dos nomes de rios, que já foi citado a propósito da lenda de Amroth e Nimrodel. Nesse ensaio, o nome Gwathló é analisado como segue:

O rio Gwathló é traduzido como “Rio Cinzento”. Mas gwath é uma palavra sindarin para “sombra”, no sentido de luz obscurecida, em decorrência de uma nuvem ou nevoeiro, ou em vales profundos. Isto não parece adequar-se à geografia. As vastas terras divididas pelo Gwathló nas regiões chamadas pelos númenorianos de Minhiriath (“Entre os Rios”, Baranduin e Gwathló) e Enedwaith (“Povo do Meio”) eram em sua maioria planícies, abertas e desprovidas de montanhas. No ponto da confluência do Glanduin e do Mitheithel [Fontegris] a terra era quase plana, e as águas se tornavam preguiçosas e tendiam a se espalhar em brejos*. Mas umas cem milhas abaixo de Tharbad o declive aumentava.
O Gwathló, no entanto, nunca se tornava veloz, e navios de menor calado, fossem a vela, fossem a remo, conseguiam chegar sem dificuldade até Tharbad. A origem do nome Gwathló deve ser buscada na história. À época da Guerra do Anel as terras ainda eram bastante cobertas de florestas em certos trechos, especialmente em Minhiriath e no sudeste de Enedwaith; mas as planícies eram em sua maior parte pastagens.
Desde a Grande Peste do ano de 1636 da Terceira Era, Minhiriath estivera quase totalmente deserta, embora alguns caçadores furtivos vivessem nas florestas. Em Enedwaith os remanescentes dos Terrapardenses viviam no leste, no sopé das Montanhas da Névoa; e um grupo bastante numeroso, mas bárbaro, de pescadores morava entre as fozes do Gwathló e do Angren (Isen).
Nos tempos mais remotos, porém, à época das primeiras explorações dos númenorianos, a situação era bem diferente. Minhiriath e Enedwaith eram ocupadas por florestas vastas e quase contínuas, exceto a região central dos Grandes Pântanos. As mudanças que se seguiram foram, mormente devidas às operações de Tar-Aldarion, o Rei-Marinheiro, que fez amizade e aliança com Gil-galad. Aldarion tinha enorme avidez por madeira, pois desejava transformar Númenor em uma grande potência naval.
Sua derrubada de árvores em Númenor havia causado enorme controvérsia. Em viagens ao longo do litoral viu maravilhado as grandes florestas e escolheu o estuário do Gwathló para local de um novo porto, inteiramente sob controle númenoriano (Gondor naturalmente ainda não existia). Lá iniciou grandes obras que continuaram a ser estendidas após os seus dias. Esta entrada em Eriador demonstrou mais tarde ser de grande importância na guerra contra Sauron (1693-1701 Segunda Era); mas era na origem um porto para madeira e construção de navios. O povo nativo era bastante numeroso e aguerrido, mas eram habitantes das florestas, comunidades esparsas sem liderança central. Estavam estupefatos diante dos númenorianos, mas só passaram a ser hostis quando a derrubada de árvores se tornou devastadora. Então atacavam e emboscavam os númenorianos quando podiam; e os númenorianos os tratavam como inimigos, fazendo suas derrubadas de modo implacável, sem atentarem para o cultivo ou o replantio. Inicialmente as derrubadas haviam ocorrido ao longo de ambas as margens do Gwathló, e a madeira descia boiando até o porto (Lond Daer); mas agora os númenorianos abriam grandes trilhas e estradas florestas adentro, ao norte e ao sul do Gwathló. Com isso, o povo nativo que havia sobrevivido fugiu de Minhiriath para as escuras florestas do grande Cabo de Eryn Vorn, ao sul da foz do Baranduin, que não ousavam atravessar, mesmo que o conseguissem, por temor ao povo élfico. De Enedwaith refugiaram-se nas montanhas a leste, onde mais tarde foi a Terra Parda; não atravessaram o Isen nem se refugiaram no grande promontório entre o Isen e o Lefnui, que formava a margem norte da Baía de Belfalas [Ras Morthil ou Andrast], por causa dos “Homens-Púkel” [...]
A devastação produzida pelos númenorianos foi incalculável. Por muitos anos aquelas terras foram sua principal fonte de madeira, não apenas para seus estaleiros em Lond Daer e em outros locais, mas também para a própria Númenor. Inúmeras cargas de navio passaram para o oeste, atravessando o mar. O desnudamento das terras aumentou durante a guerra em Eriador, pois os nativos exilados deram as boas-vindas a Sauron e esperavam que ele derrotasse os Homens do Mar. Sauron conhecia a importância do Grande Porto e de seus estaleiros para seus inimigos, e usou os que detestavam Númenor como espiões e guias para seus atacantes. Não tinha forças bastantes para qualquer investida contra as fortalezas no Porto ou ao longo das margens do Gwathló, mas seus atacantes causaram muita destruição na borda das florestas, ateando fogo nos bosques e queimando muitos dos grandes depósitos de madeira dos númenorianos.
Quando Sauron finalmente foi derrotado e expulso para o leste, para fora de Eriador, a maioria das antigas florestas havia sido destruída. O Gwathló corria por uma terra que, longe em ambas as margens, se tornara deserta, sem árvores mas sem cultivo. Não era assim quando ele recebeu seu nome original dos audazes exploradores do navio de Tar-Aldarion, que se aventuraram a subir o rio em pequenos botes. Assim que era deixada para trás a região costeira, de ar salgado e grandes ventos, a floresta descia até as margens do rio; e, por larga que fosse a corrente, as enormes árvores lançavam grandes sombras sobre as águas, debaixo das quais os botes dos aventureiros se esgueiravam em silêncio para o interior da terra desconhecida. Portanto, o primeiro nome que lhe deram foi “Rio da Sombra”, Gwath-hîr, Gwathir. Mais tarde, porém, penetraram para o norte, até o começo dos grandes pantanais; muito embora ainda faltasse muito tempo para que sentissem necessidade ou dispusessem de homens bastantes para empreender as grandes obras de drenagem e construção de diques que fizeram um grande porto no local onde se erguia Tharbad nos dias dos Dois Reinos. A palavra sindarin que usaram para o pantanal foi lô, primitivamente loga [de uma raiz log— que significa “molhado, encharcado, pantanoso”]; e pensaram inicialmente que se tratava das nascentes do rio da floresta, pois ainda não conheciam o Mitheithel que descia das montanhas ao norte, e, reunindo as correntezas do Bruinen [Ruido-ságua] e do Glanduin, lançava águas de inundação na planície. O nome Gwathir foi assim mudado em Gwathló, o rio sombrio vindo dos pântanos. O Gwathló tinha um dos poucos nomes geográficos que se tornaram do conhecimento geral de outros em Númenor além dos marinheiros, e recebeu uma tradução adûnaica. Esta era Agathunish.

* O Glanduin (“rio-limite”') descia das Montanhas da Névoa ao sul de Moria para se unir ao Mitheithel acima de Tharbad. No mapa original do Senhor dos Anéis, o nome não foi marcado (ocorre apenas uma vez no livro. no Apêndice A (I, iii). Em 1969 meu pai comunicou à srta. Pauline Baynes certos nomes adicionais para serem incluídos no seu mapa ilustrado da Terramédia: “Edhellond”, “Andrast”, “Drúwaith Iaur (Velha Terra Púkel)”, “Lond Daer (ruínas)”, “Eryn Vorn”, “R. Adorn”, “Cisnefrota” e “R. Glanduin”. Os três últimos desses nomes foram então inscritos no mapa original que acompanha o livro, mas não consegui descobrir por que isso foi feito; e, enquanto “R. Adorn” está colocado corretamente, “Cisnefrota” e “Rio Glandin” [sic] estão equivocadamente apostos ao curso superior do Isen. Para a interpretação correta da relação entre os nomes Glanduin Cisnefrota.

A história de Lond Daer e Tharbad é mencionada também nesse mesmo ensaio, em uma análise do nome Glanduin.

Glanduin significa “rio da fronteira”. Foi o primeiro nome dado (na Segunda Era), já que o rio formava o limite meridional de Eregion, além do qual viviam povos pré-númenorianos e geralmente hostis, tais como os ancestrais dos Terrapardenses. Mais tarde ele, juntamente com o Gwathló, que era formado por sua confluência com o Mitheithel, representou o limite sul do Reino do Norte. A terra mais além, entre o Gwathló e o Isen (Sîr Angren), era chamada de Enedwaith (“Povo do Meio”); não pertencia a nenhum dos reinos e não recebeu povoação permanente de homens de origem númenoriana. Mas a grande Estrada Norte-Sul, que era a principal rota de comunicação entre os Dois Reinos, à exceção do mar, cortava essa terra de Tharbad até os Vaus do Isen (Ethraid Engrin).
Antes da decadência do Reino do Norte e das catástrofes que assolaram Gondor, na verdade até a chegada da Grande Peste em 1636 Terceira Era, ambos os reinos tinham um interesse compartilhado nessa região, e juntos construíram e mantiveram a Ponte de Tharbad bem como os longos diques que levavam a estrada até ela, de ambos os lados do Gwathló e do Mitheithel, atravessando os pântanos das planícies de Minhiriath e Enedwaith*. Uma considerável guarnição de soldados, marinheiros e engenheiros fora mantida lá até o décimo sétimo século da Terceira Era. Mas daí em diante a região caiu rapidamente em decadência; e, muito antes da época do Senhor dos Anéis, ela havia retrocedido à condição de pantanal selvagem. Quando Boromir fez sua grande viagem de Gondor a Valfenda — a coragem e a resistência requeridas não são plenamente reconhecidas na narrativa — a Estrada Norte-Sul não mais existia a não ser pelos restos desmoronados dos diques, pelos quais se podia empreender uma perigosa aproximação a Tharbad, apenas para encontrar ruínas sobre morros minguantes, e um arriscado vau formado pelas ruínas da ponte, que seria impossível de atravessar não fosse o rio naquele trecho lento e raso, mas largo.
Se o nome Glanduin chegava a ser recordado, o era somente em Valfenda, e aplicava-se apenas ao curso superior do rio, onde ainda corria veloz, para logo se perder nas planícies e desaparecer nos pântanos: um emaranhado de brejos, lagoas e ilhotas, cujos únicos habitantes eram bandos de cisnes, e muitas outras aves aquáticas. Se o rio tinha algum nome, era na língua dos Terrapardenses. Em O Retorno do Rei, VI, VI é chamado de rio (não Rio) Cisnefrota, sendo simplesmente o rio que descia para Nín-in-Eilph, “as Terras Úmidas dos Cisnes”**.

* Nos primórdios dos reinos, descobriu-se que a rota mais expedita de um até o outro (exceto para grandes exércitos) era por mar até o antigo porto na extremidade do estuário do Gwathló, continuando até o porto fluvial de Tharbad, e de lá pela Estrada. O antigo porto marítimo e seus grandes cais estavam em ruínas, mas com intenso trabalho fora construído em Tharbad um porto capaz de receber embarcações de alto-mar, e lá se erguera um forte sobre grandes aterros de ambos os lados do rio, para vigiar a outrora famosa Ponte de Tharbad. O antigo porto era um dos primeiros dos númenorianos, começado pelo renomado rei-marinheiro Tar-Aldarion, e mais tarde ampliado e fortificado. Era chamado de Lond Daer Enedh, o Grande Porto do Meio (visto que ficava entre Lindon ao norte e Pelargir no Anduin). [N. do A.]
** Sindarin alph, ura cisne, plural eilpb; quenya alqua, como em Alqua-londê. O ramo telerin do eldarin transformou o kw original em (mas o original permaneceu inalterado). O sindarin da Terra Média, muito modificado, transformou as oclusivas em fricativas após ler. Assim, o alkwa original tornou-se alpa em telerin, e alf (transcrito como alph) em sindarin.
Era a intenção de meu pai inscrever, num mapa revisado do Senhor dos Anéis, Glanduin como nome do curso superior do rio, e marcar os pântanos como tais, com o nome Nîn-in-Eilph (ou Cisnefrota). Sua intenção acabou sendo mal compreendida, pois no mapa de Pauline Baynes o curso inferior está marcado como “R. Cisnefrota”, enquanto no mapa do livro, conforme mencionado em nota anterior, os nomes estão apostos ao rio errado. Pode-se notar que Tharbad está mencionada como “as ruínas de uma cidade” em A Sociedade do Anel, II, III, e que Boromir contou em Lothlórien que perdeu seu cavalo em Tharbad, ao vadear o Rio Cinzento (ibid., II, VIII). No Conto dos Anos, a atina e a deserção de Tharbad estão datadas com o ano 2912 da Terceira Era, quando grandes inundações devastaram Enedwaith e Minhiriath.
A partir dessas considerações, pode-se ver que a concepção do porto númenoriano na foz do Gwathló tinha sido expandida desde a época em que foi escrito “Acerca de Galadriel e Celeborn”, a partir de “um pequeno porto númenoriano” para Lond Daer, o Grande Porto. Trata-se evidentemente do Vinyalonde ou Porto Novo de “Aldarion e Erendis”, apesar de esse nome não constar dos estudos recém-mencionados. Consta em “Aldarion e Erendis” que as obras que Aldarion reiniciou em Vinyalonde após tornar-se Rei “nunca foram completadas”. Isto provavelmente significa apenas que nunca foram completadas por ele, pois a história posterior de Lond Daer pressupõe que o porto tenha acabado sendo restaurado, e tornado seguro contra os ataques do mar. Com efeito o mesmo trecho de “Aldarion e Erendis” prossegue dizendo que Aldarion “estabeleceu as bases para o empreendimento de Tar-Minastir muitos anos após, na primeira guerra contra Sauron; e, não fosse por suas obras, as frotas de Númenor não poderiam ter trazido seu poderio a tempo ao lugar certo — como ele previa”.
A afirmativa, no estudo do termo Glanduin em nota anterior, de que o porto foi chamado de Lond Daer Enedh “o Grande Porto do Meio”, visto que ficava entre os portos de Lindon ao norte e Pelargir no Anduin, deve referir-se a uma época muito posterior à intervenção númenoriana na guerra contra Sauron em Eriador; pois, de acordo com o Conto dos Anos, Pelargir somente foi construído no ano de 2350 da Segunda Era, e tornou-se o principal porto dos Númenorianos Fiéis.

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