1 de maio de 2016

Parte 3

Londres, 2008

Ian Kabra deu um gole no café expresso e fez uma careta.
Um lampejo de aborrecimento atravessou o rosto da jovem mulher.
— Está bom, senhor? — ela perguntou, levantando uma sobrancelha afinada demais.
Ela provavelmente era uma estudante de arte que pensou que estagiar em uma causa de leilões significava catalogar Monets, não servir bebidas para adolescentes de quatorze anos de idade.
O café expresso estava perfeitamente revoltante, mas o leilão estava quase começando e Ian precisava se focar em fazer lances estratégicos. Além disso, só olhar para o cardigã de acrílico da garota fazia sua pele coçar. Por que alguém vestiria qualquer coisa além de caxemira estava além de seu entendimento.
— Está, obrigado.
Ela sorriu.
— Tem certeza de que não prefere um chocolate quente?
— Estou bem acostumado a tomar café, Fiona — Ian falou, olhando para a etiqueta com o nome da garota. — Só que isso tem gosto de que foi feito com o líquido colhido do cocho do meu cavalo — Ian deu a ela o sorriso que ele normalmente reservava a pessoas atraentes – ou muito, muito, muito ricas. — Mas terá que servir. Agora vá embora e volte a enviar mensagens de texto aos seus inegavelmente cativantes amigos, ou o que quer que seja que você pensou ser mais importante que fazer um café expresso decente.
Fiona abriu sua boca para responder, mas fechou-a rapidamente quando uma elegante mulher mais velha deslizou na direção deles. Ela apertou a mão de Ian calorosamente.
— Estou encantada em vê-lo, Sr. Kabra. Acredito que seus pais estejam bem?
— Muito bem, obrigada, Sra. Hatfield. Mamãe manda lembranças. Infelizmente ela teve que ficar em Paris.
— Oh, querido. Que inconveniente — ela respondeu suavemente.
Ian sabia que a Sra. Hatfield estava imaginando sua mãe experimentando cachecóis em uma loja chique, ou talvez bebendo champanhe caro em um restaurante exclusivo. Mas os pais de Ian não eram apenas negociadores de arte fabulosamente ricos – eles eram os líderes da elite dos clãs da família Cahill, os Lucian, e atualmente encabeçavam um plano para encontrar as 39 pistas – a chave para o histórico poder da família. Os outros clãs tendiam a chamar o talento dos Lucian para a chantagem, sabotagem e assassinatos incomuns de “cruel”, mas era só porque eles não tinham o que eram necessário para ganhar.
Ian sorriu.
— Ela me enviou para dar uma olhada no seu Van Eyck.
— Ah sim, é claro — a Sra. Hatfield respondeu quase sem ar. — Mas é uma peça muito especial — ela olhou em volta da sala, que se enchia com homens em ternos pretos e mulheres em vestidos escuros e saltos altos — eu tenho um palpite de que os lances serão animados — ela colocou sua mão nos ombros de Ian. — Espero que sua mãe não fique muito desapontada se você não conseguir ganhar para ela, querido. Esse tipo de coisa requer prática, sabe.
Ian alargou seu sorriso enquanto afastava as mãos dela.
— Nós só temos que esperar pra ver.
A primeira parte do leilão foi horrorosamente chata. Ian folheou a última edição de Cavalos & Cães enquanto algumas mulheres de meia-idade disputavam pinturas de anjos gordinhos.
— E este é o lote número quatorze, “Vida Calma com Papoulas”, vendido por quatrocentos e setenta e cinco mil libras — o leiloeiro bateu seu martelo no pódio. — A seguir, nós temos o lote número quinze, “Autorretrato do Artista” por Jan Van Eyck.
Um murmúrio se espalhou pelas pessoas quando o mostruário girou para revelar a pintura. Trabalhos do mestre flamengo do século quinze raramente estavam à venda, e esta peça seria a joia da coroa de qualquer coleção.
Ian não se importava particularmente com a pintura do velho homem amarrado que poderia ser beneficiado por um clareamento dentário. Mas sabia que se sua mãe o queria, provavelmente tinha uma importante conexão com a caça às pistas.
— Os lances começarão em... — o leiloeiro olhou suas anotações — dois milhões de libras.
A mulher perto de Ian assoviou.
— Não exatamente um trocado, hein? — ela disse com sotaque americano. — Quanto é isso? Mais ou menos um milhão de dólares?
Ian deu um sorriso forçado.
— Tente quatro milhões.
— Eu ouvi dois milhões? — o leiloeiro falou pausadamente. Um homem na segunda fileira levantou sua placa numerada. O leiloeiro acenou com a cabeça. — Estes foram dois milhões. Eu tenho dois e meio?
A mulher de pé ao lado levantou sua placa.
Ian recostou-se em sua cadeira e esticou suas longas pernas para frente. Não havia razão para gastar sua energia balançando a mão no ar como um macaco treinado. O primeiro proponente não tinha a menor chance de ganhar a pintura. Enquanto seu terno parecia ser de alta qualidade, Ian podia ver as chaves do carro do homem pulando para fora de seu bolso. Se ele tinha que dirigir por si mesmo até o leilão, nunca poderia pagar um Van Eyck.
Ele voltou sua atenção para a mulher, que depois de aumentar seu lance para quatro milhões, inclinou-se para sussurrar para seu companheiro. Seu rosto estava bem vermelho. Ela se acovardaria logo.
Ian analisou o público, procurando pelos verdadeiros jogadores. Uma mulher ruiva segurando um cãozinho Spitz alemão parecia promissora. E o jovem falando discretamente em seu celular estava certamente recebendo instruções de um proponente à distância. Ian tirou seu próprio celular do bolso e o ergueu como se estivesse procurando por sinal. O telefone fora desenhado exclusivamente para agentes Lucian e continha um aplicativo de hackers. Ele ativou o programa, e poucos segundos depois, uma transcrição em texto da conversa do jovem começou a deslizar pela sua tela. Ele estava autorizado a ir até dez milhões de libras. Brilhante.
— São seis milhões de libras do cavalheiro na frente. Eu ouvi sete?
O celular de Ian vibrou. Era uma nova mensagem de texto de sua mãe.

Nós o pegaremos em cinco minutos

Estava na hora de apressar as coisas. Ele usou seu celular para acessar as informações bancárias de seus competidores mais promissores. Suas transferências mais recentes lhe daria uma ideia de quanto eles estavam dispostos a pagar.
— Sete milhões do cavalheiro na parte de trás. Eu ouvi oito?
Ian fez alguns cálculos rápidos em sua cabeça, então levantou sua própria placa.
— Dezesseis ponto quatro milhões de libras — ele anunciou calmamente.
Um silêncio se abateu na sala. O leiloeiro piscou algumas vezes.
— Pode dizer novamente, senhor?
— Dezesseis ponto quatro milhões — Ian disse, ficando de pé. — Agora, podemos seguir em frente? Eu não tenho o dia todo.
O leiloeiro limpou sua garganta.
— Dezesseis ponto quatro milhões dou-lhe uma... — Ian viu algumas poucas pessoas se mexendo desconfortavelmente em seus assentos, como se reconsiderando suas decisões. — Dou-lhe duas... — a mulher ruiva começou a levantar sua placa, mas então a abaixou rapidamente. — Vendido para o jovem cavalheiro no fundo.
Ian caminhou para a frente da sala, ignorando os murmúrios do público borbulhando como champanhe derramado desajeitadamente.
O leiloeiro sorriu.
— Se o senhor puder seguir a Sra. Hatfield, ela providenciará a entrega — ele falou enquanto dois guardas uniformizados cuidadosamente removiam a pintura do mostruário.
— Eu vou levá-lo agora comigo, na verdade.
As sobrancelhas do leiloeiro se franziram em confusão.
— O senhor vai colocá-lo em seu carro?
Seu telefone vibrou novamente.

Estamos do lado de fora

Ian girou em seus sapatos e acenou para os guardas o seguirem com a pintura. Ele foi até o pátio de entrada iluminado por lustres e desceu a escadaria de mármore. Quando alcançou a entrada da casa de leilões, o porteiro segurou sua mão.
— Só um momento, por favor, senhor. Está havendo algum tipo de tumulto do lado de fora.
Mas Ian passou direto por ele e caminhou para a rua. Folhas e papéis rodavam pelo ar como se um tornado tivesse varrido Londres. Pedestres estavam agachados atrás de caixas de correio, ou ficavam encolhidos nas portas.
— Por favor, Sr. Kabra, espere! — Ian virou e viu o leiloeiro parar ao seu lado, ofegando. — O senhor não pode tratar um Van Eyck como um saco de peixes e batatas fritas para viagem!
Uma sombra desceu sobre a rua e o vento se agitou ainda mais. Houve alguns gritos fracos enquanto um brilhante helicóptero preto apareceu e pousou no chão. Mamãe havia chegado.
— Isso não pode ser legal — um dos guardas horrorizados murmurou em meio ao barulho das hélices.
Ian revirou os olhos. Leis eram para pessoas pobres.
É por isso que era bom ser um Kabra.

* * *

Isabel Kabra sorriu quando Ian colocou cuidadosamente a pintura no assento de couro, e, em seguida, sentou-se ao seu lado.
— Muito bem, querido — disse ela, lançando um olhar avaliador para o retrato.
O helicóptero subiu no ar. Fora da janela, ele podia ver os pedestres se espalhando como pombos afobados. Sua irmã de onze anos, Natalie, fez uma careta de seu assento ao lado de sua mãe.
— Eu acho que é horrível. Não vou querê-lo no meu quarto.
— Nós abriremos um espaço para ele na galeria — Isabel falou, pescando seu BlackBerry em sua bolsa. — Olá?
Ela segurou a mão livre na frente dela para examinar a manicure francesa. Impecável, como de costume.
— Sim, é ela... Ian não foi à aula de história esta tarde? — ela colocou a mão sobre a boca em uma expressão de horror fingido, e depois sorriu para Ian. — É claro que não. Ele está doente, o pobrezinho... Esqueci completamente de lhe avisar, estou terrivelmente arrependida... Sim, terei certeza de que ele receberá suas tarefas... Concordo plenamente, a Revolução Francesa é muito importante... Obrigada, Sr. Wilcox. Adeus — Isabel sorria enquanto colocava o telefone em seu colo. — Como se aquele solteirão pudesse ensinar-lhe alguma coisa sobre a Revolução Francesa.
Natalie estremeceu e levou as mãos ao pescoço. Maria Antonieta e seu marido, o Rei Luís XVI, tinham sido Lucian, é claro. Mas eles, infelizmente, perderam a cabeça, porque alguns camponeses arrogantes tinham decidido que estavam cansados de ser pobres.
— Pare de ser tão dramática — Ian revirou os olhos. — Isso não aconteceria hoje.
O ramo Lucian controlava os governos de quase todas as superpotências da terra. Sua mãe poderia mobilizar um exército mais rápido do que a maioria das mães poderia fazer uma daquelas coisas ruins, de que as pessoas pobres gostavam de comer. Sanduíches.
— Muito bem, querido — Isabel falou enquanto olhava seus e-mails. Seu rosto se iluminou quando ela leu algo na tela. — Isso é maravilhoso — ela murmurou.
— O que é maravilhoso, mamãe? — perguntou Natalie, inclinando-se para olhar para o telefone de Isabel.
Isabel colocou o BlackBerry de volta na bolsa.
— Parece que Ian não terá o grande prazer de ouvir a próxima parcela da palestra sobre da Revolução Francesa do Sr. Wilcox depois de tudo.
Natalie juntou as mãos.
— Será que vamos sair de férias? — ela exclamou.
Um sorriso travesso surgiu nos lábios de Isabel, e Ian sentiu uma vibração em seu estômago.
— Nós estamos indo para uma missão? — ele perguntou, trabalhando duro para manter o tom ligeiramente entediado que ele tinha aprendido com seus pais.
Ele e Natalie vinham treinando para as caças as pistas durante suas vidas inteiras. Enquanto a maioria das crianças ia para a prática de futebol ou a aula de balé, Ian e Natalie estudavam criptografia ou aprendiam a saltar de paraquedas. No entanto, eles só tinham acompanhado seu pai, Vikram, em uma visita à meia-noite ao Museu Britânico e distraído o embaixador chinês enquanto Isabel copiava seu disco rígido. Nem Ian nem Natalie tinham sido enviados em uma viagem solo de caça às pistas.
Natalie nem sequer tentou conter sua excitação.
Ajoelhou-se no banco e inclinou-se para Isabel.
— Diga-nos, mamãe — ela pediu, saltando um pouco para cima e para baixo, ignorando as rugas que ela estava criando em seu vestido rosa.
Apesar de ser uma menina de 11 anos de idade, que gostasse de vestidos de babados, não era a escolha mais óbvia para um agente secreto, mas Ian sabia que sua irmã seria capaz da tarefa. Ela tinha pontaria mortal e poderia derrubar qualquer alvo com qualquer uma arma de tranquilizantes.
No entanto, era importante que ela soubesse quem estava no comando.
— Acalme-se, Natalie — disse ele, fazendo um show ao inclinar-se para trás em sua cadeira. — Você se parece com um dos terriers da vovó implorando por um carinho.
Natalie estreitou os olhos.
— Não finja que você não se importa — ela sorriu. — Você provavelmente já decidiu o que levar na viagem além do Sr. Buttons.
Ian abriu a boca para responder, mas depois viu sua mãe erguendo a sobrancelha. De acordo com Isabel, era impróprio para eles brigar como crianças camponesas.
— Nós os deixaremos ir para a Bélgica amanhã de manhã, cedo — Isabel explicou. — Um Ekaterina na Universidade de Ghent está desenvolvendo uma ferramenta para restauração de arte que seu pai e eu acreditamos ser bastante útil — ela fez uma pausa e depois sorriu. — Vocês dois vão buscar os projetos do computador dele para o nosso engenheiro poder construir um modelo.
Natalie gritou, e Ian sentiu seu estômago revirar de uma maneira que não tinha nada a ver com a súbita descida do helicóptero. Após anos de preparação e incontáveis horas de treinamento, ele finalmente estava indo em uma missão real.
— Você irá nos deixar esta noite? — perguntou Ian
O helicóptero embicou para a esquerda, e do vasto gramado verde da propriedade Kabra surgiu à vista.
— Irina está esperando por vocês na biblioteca. Ela vai explicar tudo.
Ian viu Natalie torcer seu rosto. Nenhum deles gostava de Irina Spasky, a agente russa de alta patente que era enviada em todas as missões mais importantes. Irina podia pensar que a ele e Natalie estava sendo dado um tratamento especial por causa de seus pais, mas eles provariam que ela estava errada.
Ian não era apenas o filho de Vikram e Isabel Kabra. Ele era um Lucian, Era hora de mostrar ao mundo o que ele podia fazer.

* * *

Quando eles fizeram o seu caminho a partir do desembarque até a casa, Ian viu um jardineiro por trás da sebe espessa. Isabel era rigorosa sobre a equipe manter-se fora de vista, especialmente nas terras deles. Ela disse que nada arruinaria uma linda vista quanto um carrinho de mão que está sendo empurrado por um homem sem atrativos nas combinações.
E era uma linda vista. Ian tinha visto o suficiente do mundo para saber que a residência Kabra em Londres era realmente extraordinária.
A mansão fora construída no século XVIII para o Duque de Hampshire e, do lado de fora, não havia nada para sugerir que os atuais proprietários tivessem gasto milhões de libras transformando-o em um centro de comando de última geração – o centro de operações para o grupo de pessoas mais poderoso do planeta.
A porta se abriu, revelando o seu mordomo, Bickerduff.
— Boa tarde, senhora — ele cumprimentou em tom abafado, reverente ao que sempre lembrou Ian de um agente funerário. — Gostaria de um pouco de chá?
— Não agora. Será que alguém da Chanel entregou o meu vestido por obséquio?
— Sim, senhora.
— E os documentos do primeiro-ministro chegaram?
— Tomei a liberdade de colocá-los em sua mesa, minha senhora.
— Obrigada, Bickerduff — ela se virou para Ian e Natalie. — Agora andem logo, queridinhos. Irina está esperando.
Ian entregou a jaqueta para Bickerduff e, em seguida, caminhou em direção à escadaria de mármore maciço que dividia as alas leste e oeste da casa. Natalie correu atrás dele.
— Para que eles querem a ferramenta? — perguntou ela, pulando os degraus de dois em dois, a fim de manter o mesmo ritmo de Ian.
— Eu não sei — disse ele, fazendo o seu melhor para soar como se todo o seu corpo não estivesse somente em nervos e emoção.
Mas ele não conseguia manter-se calmo desde que aterrissaram. Natalie se lançou à frente, desviando para evitar a enorme urna que Isabel encontrara durante uma missão para a Grécia.
Natalie esperou por ele no topo da escada. Ela provavelmente não queria ir para a biblioteca sozinha. Eles avançaram por um longo corredor forrado com retratos de famosos Lucian ao longo dos séculos. Durante o dia, Ian mal percebia as pinturas. Mas à noite, as lâmpadas lançavam sombras estranhas na parede e criavam a ilusão de que os olhos das figuras estavam seguindo-nos.
No meio do corredor, uma porta se abriu e o pai de Ian saiu de seu escritório, seguido por um homem que ele nunca tinha visto antes.
Vikram sorria, mas o estranho parecia um pouco doente, e sua camisa amassada e manchada de suor parecia particularmente suja em comparação com terno cinza perfeitamente passado de Vikram, complementado por um lenço de seda vermelho no bolso.
— Ah, e aqui vem eles — disse Vikram quando ele os avistou. — As ações mais caras em minha carteira. Andrew, este é o meu filho, Ian, e minha filha, Natalie. Crianças, Sr. Pringle.
Ian estendeu a mão para apertar a mão do homem, mas o gesto que Sr. Pringle fez foi vacilante.
— Ouvi que você foi esplendoroso hoje — continuou Vikram, ignorando o estranho comportamento de seu convidado. Ele virou-se para o Sr. Pringle. — Ian arrematou um maravilhoso Van Eyck em leilão. Vamos dar uma olhada nele antes do jantar? Gosto bastante de ouvir a sua opinião de especialista.
O Sr. Pringle empalideceu um pouco, mas o seguiu sem palavras.
Quando seus passos desapareceram, Ian e Natalie continuaram pelo corredor e entraram na biblioteca. A luz de fim de tarde que entrava através das janelas altas fez o espaço parecer quase alegre, apesar das filas de cabeças de animais montados ao longo da parede oposta. Ian olhou para Natalie e viu que seus olhos estavam apontados para o tapete marrom. Embora ela nunca admitisse, ela odiava ter que olhar para os animais mortos.
Ian torceu o nariz. O cheiro desagradável, mas familiar de livros velhos foi pontuada por outro perfume – spray de cabelo industrial.
Irina estava sentada no sofá de couro, sem descanso tocando seus dedos em um globo antigo. As longas unhas vermelhas estavam pousavam na Islândia e na Noruega como mísseis guiados por calor.
— Pare com isso — Ian ordenou, caminhando em sua direção. — Você vai estragar tudo.
O olhar de Irina foi afiado.
— Seus pais já o arruinaram — ela parecia levar como uma ofensa pessoal que ele e Natalie não tivessem crescido de pé na fila do pão, tremendo na desoladora neve soviética. — Nunca vi crianças mais desrespeitosas.
Ian revirou os olhos para Natalie.
— Sim, bem, então sinto desapontá-la. Agora o que é que você deveria nos mostrar?
Irina suspirou.
— Eu ainda não entendo por que Vikram e Isabel colocam o futuro dos Lucian nas mãos de crianças — ela zombou, revelando dentes levemente descoloridos. — Mãos que não sabem o significado do trabalho.
Ela levantou-se do sofá e caminhou até a mesa com tampo de vidro no final da biblioteca. Ian e Natalie trocaram olhares e depois a seguiram.
A mesa estava coberta com fotos de um homem alto, de construções e plantas de aparência moderna do que Ian assumiu como sendo o interior das construções.
— Seria a universidade? — perguntou Ian.
— Talvez, espião — Irina zombou. — Talvez você possa postar fotos  na Internet e pedir a seus amigos do Bookface para confirmar.
Antes de Ian teve a chance de responder, Natalie retrucou:
— E, talvez, você possa parar de perder tempo e fazer o seu dever — ela empinou seu pequeno queixo. — Acredito que esteja aqui para nos informar sobre missão. Você pode prosseguir.
Irina olhou para Natalie por um momento, seu rosto ilegível. Em seguida, ela mergulhou a unha de seu dedo indicador em uma das fotos.
— Este é o laboratório de física na Universidade de Ghent — ela se virou para Ian. — Isto é, na Bélgica.
Ele cerrou os dentes.
— Eu sei.
— Sua mãe acredita que um dos professores seja Ekaterina e que sua pesquisa tenha algo a ver com uma pista. Ela quer que vocês dois entrem no laboratório, invadam computador e copiem seus arquivos.
Ele deslizou em uma das cadeiras em torno da mesa e fez sinal para que Natalie fizesse o mesmo.
— Então o que você tem em mente? — Ian perguntou preguiçosamente, como se Irina fosse meramente uma assistente de loja ansiosa para vender-lhe alguns sapatos novos.
Irina o encarou, seus olhos se contraindo levemente. Outro dos encantos irresistíveis da agente. Em seguida, ela apontou para uma das fotos e começou uma rápida explanação sobre a missão. Ian e Natalie iriam entrar em uma pausa pela entrada de serviço ao amanhecer – havia uma janela de dez minutos em que o sistema de alarme era reiniciado. Em seguida, eles teriam que deslocar-se para o laboratório do professor.
— Aqui está o código de entrada — disse Irina, passando para Ian um pedaço de papel. — Memorize-o e destrua-o.
— Se é uma fortaleza Ekaterina, como nós conseguimos o código? — Natalie perguntou.
O olho de Irina se contraiu quando ela se afastou deles.
— Sua mãe tem os seus métodos.
Algo sobre seu tom de voz fez Ian se sentir desconfortável, mas ele empurrou o pensamento para o lado.
— Muito bem, então. Tudo parece estar em ordem — disse ele.
Qualquer sentimento de nervosismo desonesto que ele poderia ter tido foram arrastados pela emoção.
No momento em que o Sr. Wilcox começasse sua monótona aula sobre a Revolução Francesa, ele teria completado sua primeira missão Lucian. Ele já podia imaginar a expressão no rosto de Isabel quando ele e Natalie a presenteassem com os arquivos Ekat.
Algumas crianças faziam desenhos para seus pais.
Ian e Natalie roubavam informações secretas que iria ajudá-los a dominar o mundo.
Ele virou-se para sua irmã e sorriu.
Isso seria divertido.

* * *

Ainda havia alguns minutos antes do jantar, por isso, quando Natalie correu para mandar uma mensagem para os seus amigos, Ian foi para a sala de controle próxima ao escritório de sua mãe. Quando era mais novo, ele costumava passar horas na frente da parede de monitores assistindo transmissões ao vivo de pontos ativos de Cahill em todo o mundo. Algumas das telas mostravam atividade movimentada, como os enxames de turistas que zumbiam em torno da base da Torre Eiffel ou na entrada do Castelo de Neuschwanstein. Outros pareciam mais com protetores de tela; não importa quanto tempo ele ficasse olhando para o monitor do Triângulo das Bermudas, tudo o que ele via era uma procissão interminável de ondas cinza-azuladas. No entanto, todos eles o encheram com a mesma antecedência vertiginosa – estes eram os lugares para onde ele seria enviado para explorar um dia. Era como assistir a um trailer do filme para o resto de sua vida.
Ian olhou rapidamente por cima do ombro e caminhou até o outro lado da parede, agachando-se para olhar para a tela no canto inferior. Raramente havia qualquer atividade interessante neste monitor, mas – ele olhou para o relógio – era quase o final do dia escolar em Boston. Ele olhou a imagem do prédio maçante ladeado por árvores, esperando que algo acontecesse, mas sem se permitir admitir que ele estava esperando.
Assim, quando ele estava prestes a se virar, um flash de cor chamou sua atenção. Amy Cahill estava andando no caminho a frente, seu longo cabelo ruivo soprando descontroladamente no vento de outono. Sua jaqueta verde barata parecia ter vindo direto da pilha de desconto. Ele inclinou-se para ver melhor. A cor destacava os tons avermelhados em seu cabelo, mas ele tinha certeza de que era apenas uma feliz coincidência. Sempre que via Amy em um dos terríveis encontros Cahill de sua avó, ela redefinia o termo caminhando para o desastre.
Os pobres eram tal enigma. Ele sabia que nem todo mundo podia se dar ao luxo de voar para Paris para ter o seu corte de cabelo, mas certamente havia alguém no estado de Massachusetts que poderia deixar Amy Cahill mais apresentável, ao invés daquela aparência de leprechaun irlandês deixado na chuva.
Ou não, Ian pensou, se encolhendo, enquanto observava Amy tirar uma folha úmida da bainha de seus jeans horríveis. O que havia com os americanos que os fizessem tão rudes?
O sino do jantar tocou. Ian se levantou e se espreguiçou. Quando os Lucian encontrassem as 39 pistas e liberassem o lendário poder para que eles foram feitos para usar, a primeira ordem de Ian seria recuperar as colônias americanas. Para o próprio bem deles, na verdade.
Ele virou-se para a tela para um último olhar para Amy Cahill, mas ela tinha desaparecido no interior do edifício.

* * *

No momento em que Ian entrou na sala de jantar, todo mundo já estava sentado.
Vikram e Isabel estavam em seus lugares habituais nas extremidades da mesa comprida, e Natalie estava sentada em frente a seu visitante. Ian sentou ao lado de sua irmã e colocou o guardanapo de pano em seu colo. Ele estava acostumado a ter convidados no jantar, mas eles normalmente eram dignitários estrangeiros, ou bilionários locais – pessoas que geralmente não tinham manchas de suor desabrochando em suas camisas amarrotadas. O Sr. Pringle parecia ainda mais ansioso do que ele tinha aparentado no andar de cima.
Estava claro que ele não estava acostumado a jantar em um cenário deste tipo, e provavelmente ficou nervoso sobre usar o garfo errado ou cometer algum outro erro plebeu. Era como assistir a um rato que tinha acabado de cair em um tanque de cobras – seus olhos estavam arregalados e ele não parava de olhar por cima do ombro, como se estivesse tentando encontrar freneticamente uma rota de fuga.
A linha de empregados surgiu a partir da porta escondida com o primeiro prato, foie gras com caviar.
— Estou muito feliz que tenha podido se juntar a nós, Sr. Pringle — Isabel falou a partir do final da mesa, com a voz melódica ecoando na grande sala de jantar. — O senhor é um homem difícil de rastrear.
O garfo do Sr. Pringle caiu no chão.
— Eu fui v-viajar. Para minha pesquisa.
— Sim. Entendo que esteja publicando um livro sobre a arte do norte do renascimento. Eu adoro pintura flamenga — ela comeu um grande pedaço de foie gras antes de continuar. — Tão cheia de significados ocultos, não concorda?
Ele engoliu em seco.
— Suponho que sim.
— Eu sempre estive particularmente intrigada com o retábulo de Ghent. Essa história fascinante. É verdade que tem sido objeto de mais tentativas de roubo do que qualquer outra obra de arte no mundo?
— Sim — Pringle respondeu, sua voz ficando um pouco mais forte. Pessoas inábeis sempre relaxavam quando discutiam os seus pequenos hobbies. Mesmo a terrível gagueira de Amy Cahill desaparecia quando você a deixava tagarelar sobre livros. — Sete vezes, na verdade.
— Agora, por que isso? — perguntou Vikram.
— Oh, são variadas hipóteses — disse Pringle, pegando a faca de manteiga. — Motivos religiosos. Razões políticas. Um dos painéis foi roubado pouco antes da Segunda Guerra Mundial e nunca foi encontrado.
— Isso mesmo — Isabel respondeu docemente. — Ele foi substituído por uma reprodução, não foi? Seria uma maravilha se os rumores fossem verdade...
— Rumores? — perguntou o Sr. Pringle.
A mão que segurava a faca começou a tremer, impedindo-o de fazer contato com o seu jantar.
— Você sabe — disse Isabel, tocando a boca com o guardanapo, apesar de não haver um traço de qualquer coisa em seu rosto. — Sobre o mapa.
A faca de Mr. Pringle caiu no chão.
— É um mito. Não há nenhuma evidência para sugerir que o retábulo contém um mapa de qualquer tipo — ele moveu a mão vazia sobre o prato, aparentemente esquecendo de que já não segurava uma faca. Bickerduff se materializou ao lado dele e entregou uma nova para o Sr. Pringle.
— O-o-obrigado — disse Pringle, olhando por cima do ombro.
Mas Bickerduff já tinha escapado.
— É uma vergonha a sua esposa não poder se juntar a nós — Isabel falou enquanto cortava um pequeno pedaço de carne.
— Entendo que ela seja um historiadora de arte também. Será que ela compartilharia das suas opiniões sobre o retábulo? Eu adoraria ouvir seus pensamentos sobre os rumores.
O Sr. Pringle levantou a cabeça e olhou para Isabel diretamente pela primeira vez.
— Ela está de férias — ele respondeu com firmeza surpreendente. — Ela vai ficar fora do país por algum tempo. Seria inútil tentar entrar em contato com ela.
Com o canto do olho, Ian pensou ter visto seu pai endurecer, mas Isabel sorriu.
— Oh, eu não sei nada sobre isso. É impressionante o que você pode fazer com os recursos adequados — ela ergueu uma garrafa de cristal no ar. — Mais vinho?
O Sr. Pringle respirou fundo, mas, em seguida, apertou os lábios e esperou um momento antes de responder.
— Ela não tem a informação que você quer. Nenhum de nós tem.
Ian se perguntou por que sua mãe estava perdendo tempo interrogando este tolo desajeitado. Ele era obviamente inútil.
Isabel colocou a garrafa de volta na mesa e, em seguida, virou-se para Ian e Natalie.
— Hora de dormir, crianças.
— Mas nós ainda não tivemos  pudim — disse Natalie, cruzando os braços.
— Você tem um grande dia amanhã, querida. Vá se deitar.
Natalie grunhiu e em seguida saiu, pisando ruidosamente. Quando Ian levantou-se para segui-la, o Sr. Pringle se mexeu na cadeira.
— Eu deveria ir também.
— Oh, você não pode — os olhos de Isabel se arregalaram. — Não antes da sobremesa. O nosso chef é um absoluto gênio.
— A senhora é muito gentil, mas está ficando um pouco tarde... — ele parou.
A cadeira de Vikram raspou o chão de mármore enquanto se levantava.
— Claro. Há apenas a pequena questão da... transação. Se o senhor me seguir, podemos terminar a nossa conversa na ala leste.
Ian fez uma pausa. A ala leste era o centro de comando. Ninguém além de agentes de alto escalão tinha permissão de chegar nem perto da entrada, e ele estava certo de que este trapalhão não era um Cahill, muito menos um Lucian.
O Sr. Pringle forçou seus lábios em um patético sorriso.
— M-mas sua biblioteca é tão encantadora. Não podemos conversar lá?
Isabel se levantou e deslizou atrás de seu hóspede.
Ele ficou de pé tão rapidamente que quase derrubou a cadeira.
— Ah, acho que será mais confortável no escritório. Uma vez que meu marido começa a falar sobre o retábulo Ghent, pode ser difícil de fazê-lo parar. Não, venha por aqui.
Ela colocou a mão no cotovelo do Sr. Pringle e o guiou, passando por Ian na saída da sala.

* * *

Ian estava ansioso demais para dormir. Não importava que as cortinas de veludo grossas bloqueassem toda a luz, envolvendo seu quarto na escuridão completa. Não importava que ele tivesse chamado Bickerduff pedindo por um chocolate quente já duas vezes. Ele não conseguia parar de pensar no plano do dia seguinte. Ele engoliu a informação tão rapidamente que quase podia senti-la saltando em seu estômago. Eles deveriam tentar hackear o leitor de chave na entrada dos fundos. Se isso não funcionasse, eles teriam que escalar a lateral do prédio e rastejar através das saídas de ar no telhado.
Será que Bickerduff tinha empacotado seus sapatos de escalada? Ian sentou-se e estava prestes a tocar o sino pela terceira vez quando um som surgiu do fundo da casa. Quase como o grito de um homem. Uma noção aterrorizante correu em seu cérebro antes de ele enterrá-la precipitadamente em um covil escondido de pensamentos sombrios em sua mente.
Eles provavelmente estão assistindo a um filme, Ian disse a si mesmo, tentando ignorar o fato de que ele nunca viu os seus pais usarem o DVD player.
Um faixo de luz brilhante perfurou a escuridão do quarto.  Ele se sentou e apertou os olhos, protegendo-os da luz.
— Natalie? — ele sussurrou quando a figura embaçada entrou em foco. — O que você está fazendo?
Ela entrou e fechou a porta.
— Você viu os meus óculos escuros da Gucci?
— O quê? — ele esfregou os olhos. — Do que você está falando?
Natalie deu alguns passos para frente e, em seguida, pulou para sua cama como um pequeno cão vestindo pijama.
— Não consigo achar meus óculos. E se eu precisar dele na Bélgica?
Ian olhou para o relógio em sua cabeceira.
— É meia-noite, Nat. Você não pode procurá-lo de manhã?
Outro som estranho interrompeu o silêncio da casa. Dessa vez, soou mais como um guincho do que um grito. Ian viu os olhos de Natalie arregalarem-se à luz fraca e de repente compreendeu o verdadeiro motivo de sua visita à meia-noite.
— Eles devem estar assistindo à TV.
Soou menos convincente quando ele disse em voz alta.
Natalie não respondeu, e em vez disso se enrolou ao pé de sua cama.
Ian não tinha certeza de quanto tempo se passou antes que os sons parassem. Mas ainda assim ele não conseguiu dormir.
O silêncio era pior que os gritos.

* * *

Poucas horas depois eles estavam no ar novamente, desta vez em um jato particular em vez do helicóptero. Ainda estava escuro – Isabel tinha mandado Bickerduff acordá-los às três da manhã – e as luzes de Londres brilhavam vagamente na névoa do amanhecer.
Natalie estava ao seu lado, já dormindo. Mas Ian mal conseguia fechar os olhos. Ele afundou em seu assento de couro, olhando para o croissant intocado na frente dele. Quando houve um momento de turbulência, o prato de porcelana sacudiu na bandeja de plástico. Ele sabia que deveria tentar comer alguma coisa, mas seu estômago se contorcia como um animal enjaulado frenético – ele quase podia senti-lo tentando sair por sua garganta.
Ele olhou para sua mãe, que estava sentada em um assento de frente para o corredor, calmamente digitando em seu BlackBerry.
Apesar da hora ímpia, o vestido cinza de Isabel estava perfeitamente passado e o cabelo dela estava em um coque frouxo. Ele, na verdade, nunca viu sua mãe usando uma camisola ou um robe. Controlar a organização secreta mais poderosa do mundo não dava tempo para descanso. Mas valia a pena. Os Kabra não precisavam ficar descansando na cama, assistindo Ping-Pong com as Estrelas. Essa era uma das muitas coisas que os diferenciavam. Não era apenas suas enormes fortunas, a educação impecável ou a aparência estonteante. Quando eles queriam alguma coisa, eles não descansavam até consegui-la.
Isabel levantou os olhos de seu celular e o viu observando.
— Está tudo bem, querido? Não gostou do croissant? — Ela sorriu. — Não podemos deixá-lo ir em sua primeira missão de estômago vazio.
— Eu não estou com muita fome.
— Não fique nervoso, querido. Você e Natalie se saíram esplendidamente. Todo seu trabalho duro irá valer a pena. Vocês entrarão no prédio, pegarão os arquivos para mim e sairão de lá após cinco minutos. Minha única preocupação é que você ache fácil demais — ela se inclinou e apertou o seu joelho. — Nós iremos conseguir algo mais divertido da próxima vez. Já era hora de tomar vantagem de seus talentos.
A criatura selvagem no estômago de Ian parou de debulhar e enrolou-se em uma pequena bola contente, enviando uma onda de calor por todo seu corpo. Ele sentiu o trecho de sua boca se esticar em um sorriso largo que ficaria ridículo diante das câmeras, mas por que ele se importava? Ele estava prestes a realizar sua primeira missão como um real agente Lucian.
De repente, as suas pálpebras ficaram pesadas e ele se inclinou para trás, permitindo que seu corpo afundasse no couro macio.
Antes que seus olhos fechassem completamente, ele deu um último olhar para sua mãe. Ela voltou a encarar para seu celular tão alerta quanto antes. Talvez ela nunca dormisse. Ele ouviu que tubarões nunca dormiam. Eles nunca paravam de nadar. Nunca paravam de caçar.
Ian sabia que ele seria assim um dia. Mas por agora, ele precisava descansar.

* * *

Havia um sedan preto lustroso esperando por eles no aeródromo privado fora de Ghent. Já estava quase amanhecendo, e o carro passava pela a cidade em silêncio, como se estivesse tentando vencer os raios de sol que tinham começado a brilhar por cima dos telhados pontiagudos.
Enquanto Londres era uma mistura de velho e novo, os edifícios em Ghent tinham sido muito bem preservados. Com suas ruas estreitas ladeadas por prédios góticos pontudos e alastradas por edifícios renascentistas, a cidade parecia algo dos contos de fadas, fazendo com que os carros modernos estacionados ao lado da estrada parecessem ter sido cuspidos de uma máquina do tempo descontrolada.
Agora ele e Natalie estavam bem acordados, ambos sentados ao lado de Isabel. O carro virou para uma avenida maior e fugiu do centro histórico da cidade, em direção à universidade. Quanto mais se aproximavam, mais rápido o coração de Ian começou a bater. Ele se afastou de sua mãe, preocupado que ela pudesse senti-lo.
— Tudo bem — Isabel falou alegremente enquanto um conjunto de arranha-céus modernos aparecia à distância. — Eu irei deixar vocês dois ao lado da entrada. Então Hendrik dirigirá o carro pela quadra para evitar suspeita. Vocês têm dez minutos antes da equipe de limpeza da manhã chegar. Vocês sincronizaram seus relógios?
Ian e Natalie assentiram.
— Ótimo — ela sorriu. — Seu pai e eu somos tão sortudos por ter crianças tão inteligentes.
Ela se inclinou e pegou a mão dos dois.
— Agora, fiquem juntos, não importa o que aconteça.
O carro foi parando. Houve um leve clique quando Hendrik destrancou as portas. Um som comum nunca tinha soado tão ameaçador.
Isabel se inclinou e deu beijo na bochecha dos dois.
— Ora de ir, patinhos. Eu sei que vocês me deixarão orgulhosa.
Ian abriu a porta e saiu para o ar fresco da manhã, dando um passo para o lado para dar espaço para Natalie. O edifício de física tinha vinte e dois andares e era feito de vidro e ferro, brilhando sob o sol nascente. Apesar de suas grandes janelas cheias de luz, pareceu para Ian tão impenetrável quanto um forte. As palmas de suas mãos ficaram suadas quando ele esticou o pescoço para ver o telhado. O plano B – escalar ao topo para entrar pelas aberturas de ar – de repente pareceu insano. Ian arrumou a mochila que continha seu equipamento de rapel e outras ferramentas, silenciosamente rezando para que ele não precisasse usá-lo.
— Há um helicóptero de extração esperando, certo? — Ian perguntou.
Era prática padrão dos Lucian ter um pronto durante as missões, em caso de emergências.
— Não há sempre? — Isabel respondeu rapidamente, olhando para seu celular. — Ah, e mais uma coisa. Reative o alarme quando sair. É o mesmo código.
Ela deslizou a mão e agarrou a maçaneta da porta.
— Boa sorte, queridos.
— Tchau, mamãe — Natalie disse e Isabel fechou a porta.
O carro foi embora e virou uma esquina. Ela tinha ido embora.
Ian assentiu para Natalie, e eles correram por um caminho de cascalho, que levava a um beco ao lado do prédio. Sem dizer uma palavra, eles pressionaram-se contra a parede e olharam ao redor, mas o caminho estava livre.
Havia um leitor de chave eletrônica ao lado da porta. Natalie enfiou a mão na mochila e tirou um cartão de plástico. Ela o balançou contra o sensor, que produziu uma série de bips. Então apertou alguns números no teclado, e a porta se abriu. Ian exalou alto. Ele nem tinha percebido que estava segurando a respiração.
Dando mais uma olhada para trás, ele e Natalie entraram no edifício. Era improvável que a universidade tivesse instalado sensores de movimento no que parecia ser uma sala de abastecimento do zelador, mas, por precaução, ele pressionou suas costas contra a parede e avançou em direção à porta do outro lado. Ele olhou em volta, e depois sinalizou para Natalie segui-lo para o corredor.
Eles se moveram rápida, porém silenciosamente, pelo corredor escuro até a escada de emergência para o quarto andar, onde o professor Ekaterina tinha seu laboratório. O sol tinha subido alto o suficiente para inundar o corredor com uma luz fraca e iluminar os cartazes coloridos na parede. Havia enormes fotos de satélites dos planetas intercaladas com folhetos de publicidade de eventos estudantis. Ou, pelo menos, era isso que Ian assumiu. Era difícil dizer quando tudo estava escrito em holandês.
Apesar de seu nervosismo, Ian sorriu. Era divertido pensar nos estudantes universitários de todo o mundo tendo aulas, fazendo planos para o futuro, quando, na verdade, era a família de Ian que tomava todas as decisões. Ser um Cahill era tudo o que importava. E Ian e Natalie estavam prestes a estabelecer-se como duas de suas estrelas em ascensão.
—  Ian — Natalie chiou. — O que você tá fazendo?
Ele tinha parado sem perceber. Suas bochechas coraram enquanto corria para alcançar Natalie, que esperava por ele na frente de um conjunto de portas duplas pesadas. Laboratório número 403. Era isso. Ao contrário das outras salas ao longo do corredor, esta tinha sinais de alerta apostos nas pequenas janelas de plástico. INGANG VERBODEN.
Havia um teclado na parede. Ian ergueu a mão e viu que ela estava tremendo. Acalme-se, ele repreendeu a si mesmo. Tudo está indo conforme o planejado.
Ele se virou para Natalie.
— 4-8-1-8, certo?
Ela assentiu.
Ian digitou o código e prendeu o fôlego. Um agonizante momento de silêncio se passou, seguido por um tranquilizante bip. Funcionou.
— Pronta? — Ele estendeu a mão, empurrou a barra e abriu a porta.
A grande sala sem janelas estava escura. Longas mesas de laboratório estavam dispostas em fileiras, e as prateleiras estavam cheias de equipamentos. Ian reconheceu os béqueres e os microscópios da aula de ciências, mas a maioria das ferramentas ele não estava familiarizado.
Havia um computador em cada mesa, mas a mesa na frente da sala tinha o maior, o mais novo monitor. Tinha que ser aquele. Ian fez sinal para que Natalie o seguisse quando se lançou para a mesa e tocou no teclado. Os dois saltaram quando ele ganhou vida, em seguida, começaram a trabalhar.
Natalie inseriu um flash drive na entrada do USB enquanto Ian fazia uma pesquisa pelos arquivos. De acordo com Irina, o projeto do Professor Hauser tinha o codinome Arquimedes. Uma mensagem de erro apareceu. Era necessária uma senha. Ele respirou fundo e flexionou os dedos, em seguida, começou a digitar furiosamente enquanto abria o programa que ele tinha aprendido com seu tutor de hack. A tela ficou preta por um momento, em seguida, linhas de código começaram a rolar pela tela. Ian clicou na pasta novamente. Tinha-se aberto, mostrando seis documentos rotulados como Arquimedes.
— Nós conseguimos! — Natalie sussurrou.
Eu consegui — Ian corrigiu, sorrindo enquanto copiava a pasta para o USB. — Agora vamos. Vamos sair daqui.
Ele colocou o drive no bolso, desligou o monitor e se dirigiu para a porta.
Eles voltaram, e Ian se virou para o teclado e digitou o mesmo código que eles tinham usado para entrar: 4-8-1-8. Uma mensagem apareceu na tela.
INDRINGER
Antes que Ian tivesse tempo de reagir, um alarme estridente soou de algum lugar do corredor. Natalie exclamou e Ian se virou. Luzes vermelhas começaram a piscar e um fluxo de sinais sonoros juntaram-se ao alarme.
Não entre em pânico, ele pensou, se forçando a respirar. Eles estavam em um laboratório de física de uma universidade, pelo amor de Deus, não no Pentágono. Na pior das hipóteses, alguns segurança apareceria no corredor, e Ian e Natalie iriam fingir estar perdidos. Ele podia se livrar de qualquer coisa, conversando. Sua irmã poderia chorar, se necessário. Ninguém iria prendê-los.
— Está tudo bem — Ian disse, se forçando a soar calmo. — Nós só vamos voltar para o térreo e fugir.
Ele agarrou a mão de Natalie e eles correram pelo corredor. Ian abriu a porta e se atirou na escada, puxando sua irmã com ele enquanto descia, pulando dois degraus de vez.
Pas op stop! uma voz profunda ecoou de um alto-falante.
— Ah, não — Natalie exclamou. Os pés dela pararam de se mover e ela deslizou para baixo dos últimos degraus antes de colidir com Ian no patamar. — É a polícia.
Isso não era nada bom. Um guardinha, eles podiam combater facilmente. Mas uma força policial treinada era uma história diferente. Ian girou sobre os calcanhares e começou a voltar.
— Precisamos ir ao telhado.
Eles correram até as escadas, dobrando a esquina e passando pelo patamar do sexto andar. Faltavam mais dezesseis. Com sua vantagem, eles não teriam problemas para chegar lá antes da polícia. Mas então por que os gritos estavam ficando mais altos?
— Eles estarão... esperando... pela... gente, certo? — Natalie engasgou, agarrando no corrimão para subir no patamar do décimo primeiro andar. Ela fez uma pausa como se fosse parar e recuperar o fôlego, mas não havia tempo.
Ian puxou-a para frente.
— Sim, é claro — Ian respondeu, forçando as palavras através de seus pulmões que queimavam.
Os músculos das costas de suas pernas pareciam que prestes a estourar. Mas eles tinham que continuar. A equipe de apoio estaria monitorando os alarmes e saberia que Ian e Natalie estavam em apuros. O helicóptero estaria lá.
Quando eles passaram para a entrada do décimo sétimo andar, o eco de passos se aproximando ficou mais forte. A polícia estava se aproximando. Ele e Natalie não poderiam ser presos em sua primeira missão. Se havia uma coisa que Vikram e Isabel desprezavam mais, era o fracasso.
No momento em que eles chegaram ao último andar, as pernas bambas de Ian pareciam estar se movendo por conta própria, e os seus pés pareciam estranhamente entorpecidos. O rosto de Natalie estava vermelho e ela respirava rápido, com arquejos curtos. Ele tinha que tirá-la de lá.
Ian agarrou a mão pequena e suada dela e se jogou na luz do dia, preparando-se para o barulho do helicóptero.
Mas o telhado estava completamente em silêncio.
O céu era uma mistura impressionante de rosa e amarelo, mas ele não tinha tempo para pensar sobre quão pitoresca as torres medievais pareciam à luz do amanhecer, ou como o prédio ao lado brilhava sob o sol nascente. Tudo com que ele se importava era achar o helicóptero.
Ian esquadrinhou o horizonte, procurando a forma familiar do helicóptero Lucian, mas não havia nada se movendo no céu da manhã.
Alguém cometera um erro terrível.
Ian podia ouvir o barulho das botas da polícia através da porta aberta. Eles estavam encurralados.
A não ser...
Ele jogou a mochila no chão, enfiou a mão dentro e puxou um arpéu anexado a uma corda comprida.
Os olhos de Natalie se arregalaram.
— Ah não, não, não, não — ela recuou um passo. — Ian, você não pode. Você vai matar a gente.
A porta se abriu, liberando um fluxo de uniformes azuis e botas pretas.
Natalie gritou e agarrou-se em Ian. Ele levantou o arpéu sobre a sua cabeça, balançou-o em círculos, e, em seguida, atirou-o para o ar. Houve um estrépito satisfatório quando ele se prendeu na varanda que se projetava do lado de fora do edifício adjacente.
Ian enrolou a ponta da corda em volta de seu antebraço e, em seguida, passou o outro braço em torno de Natalie.
— Vamos!
Eles correram para beirada. Ian sentiu Natalie hesitar, mas ela não foi párea para o ímpeto do seu peso corporal. Ele se inclinou para frente e eles caíram sobre a borda.
Parecia queda livre. Como se eles tivessem presos em nada. Natalie gritou, mas Ian sentiu peito ceder à pressão, como se todo o ar tivesse sido sugado para fora dele.
Esta tinha sido uma ideia idiota.
Eles iriam morrer.
Mas então, a corda se esticou. Eles ganharam velocidade, mas estavam se movendo para o lados em vez de para baixo.
Ian sentiu um breve momento de alívio antes de se chocar com a parede. Desta vez, ele gritou quando o choque da dor sacudiu todos os ossos do seu corpo. O impacto os mandou de volta para o ar, mas depois eles balançaram para a frente e bateram no prédio uma segunda vez, dessa vez à esquerda de uma grande janela.
Ele gemeu e sentiu seu corpo ficar mole. Natalie começou a deslizar para baixo.
Ian! ela gritou.
Ele arquejou e apertou ainda mais, içando-a sob os seus braços. Ele não seria capaz de segurá-la por muito tempo. Eles precisavam entrar no prédio.
— Nós temos que quebrar a janela. — ele disse, com dificuldade para falar por causa do esforço de segurar sua irmã e a corda. — Empurre com suas pernas.
Natalie gritou.
— Ian, estou escorregando. Estou escorregando! — Sua voz ficou histérica.
O suor escorria pelo seu braço e ele a sentiu deslizar mais para baixo. Ele gemeu enquanto se esforçava para forçar seu aperto. Alguns centímetros a mais, e ela despencaria vinte dois andares.
— Segure-se!
Ele empurrou os pés contra o prédio em um ângulo que o faria bater na janela quando voltasse. Mas não havia força suficiente e eles ricochetearam novamente.
Seus braços estavam queimando, e ele quase podia sentir suas fibras musculares se quebrarem. A corda cortava sua mão como uma faca, e o braço que segurava Natalie começou a tremer. Com um gemido, ele empurrou-se contra a janela com toda força. Eles foram ao ar, ganhando velocidade no caminho de volta. Ele ergueu o pé e bateu-o no vidro.
Ian sentiu outra explosão de dor quando ele e Natalie atravessaram a janela, caindo em um monte de cacos de vidro sobre um piso de linóleo. Ele gemeu e rolou para o lado. Natalie estava toda estatelada, o cabelo polvilhado com vidro. Um filete de sangue corria por sua testa.
Ele colocou as mãos contra o chão e forçou-se a sentar-se.
— Natalie — ele colocou a mão em seu ombro. — Natalie!
Sua visão ficou embaçada e lágrimas quentes juntaram-se em seus olhos, queimando um caminho através do suor e da sujeira pelo seu rosto.
— Natalie — ele chamou, engasgando com as sílabas.
Ela gemeu baixinho e girou. Suas pálpebras se contraíram e depois se abriram.
— Graças a Deus — Ian sussurrou.
Natalie apoiou-se sobre os cotovelos e olhou em volta. Eles estavam em outro edifício de uma universidade – uma espécie de departamento administrativo. As paredes eram pintadas em um cinza pouco inspirador e cadeiras laranja de plástico horrorosas foram organizadas em um aglomerado.
Ian ajudou Natalie a se levantar. Apesar de não houver nenhum alarme tocando neste edifício, eles precisavam sair de lá.
— Vamos — ele disse. — A polícia vai estar aqui a qualquer momento.
Natalie deu um passo a frente e fez uma careta. Ele se ajoelhou e a ergueu em suas costas. A polícia provavelmente já tinha cercado as entradas principais. Eles precisavam encontrar outra saída.
Enquanto ele se apressava pelo corredor, um cheiro rançoso o fez enrugar seu nariz. Ele se virou e viu uma calha de metal de lixo. Ele desceu Natalie para o chão e puxou a alça. Parecia larga o suficiente para eles deslizarem para baixo.
— Está brincando? — Natalie perguntou, seus olhos arregalados em horror.
— Não — ele disse, dobrando as pernas para que ele coubesse dentro. — Agora, vamos. Mamãe vai ficar preocupada.
E provavelmente nauseada quando os visse, mas não importava. A primeira missão deles tinha que ser um sucesso, mesmo que isso os matasse.

* * *

Ian e Natalie escaparam da sala de lixo para dentro do beco, então atravessaram o jardim, que parecia levar para o ponto de encontro. Ian pegou a mão de sua irmã e eles saltaram pelo portão, virando em uma quieta rua de três pistas. Estava vazia. Nenhum carro preto esperava por eles.
Ian pegou seu telefone para ligar para Isabel. Ela não atendeu. Natalie tentou ligar pelo seu telefone, mas não deu em nada também. Ela deixou uma mensagem vaga e então desligou.
— Cadê ela? — Natalie perguntou. — Ela disse que estaria esperando aqui —  ela procurou na rua vazia. — Ela não percebeu toda a polícia?
Ian fechou os olhos quando um turbilhão de pensamentos inundou seu cérebro sobrecarregado. Um mal entendido. Eles não devem ter entendido Isabel corretamente quando deixaram o carro. Eles provavelmente estavam muito nervosos para prestar atenção direito.
— Eu acho que ela está esperando por nós... em algum outro lugar — ele falou, abrindo seus olhos.
— O quê? — a sobrancelha manchada de sangue da Natália se franziu com a preocupação. — Não foi isso o que ela disse.
A conversa do jantar de ontem a noite repassou pela cabeça de Ian, acelerando seu coração. E então a resposta veio para ele. Havia mais uma coisa que a mãe dele estava interessada. Ele pressionou seus lábios enquanto abria um navegador de internet em seu telefone e digitou retábulo de Ghent. O primeiro resultado de pesquisa no mapa era Catedral de Saint Bavo, a aproximadamente cinco quilômetros de distância. Ele fechou os olhos em uma fútil tentativa de silenciar os pensamentos correndo por seu cérebro.
— Acho que sei onde ela está.

* * *

Ian usou o GPS de seu celular para chegar até a catedral. Ainda era bem cedo e a maioria das ruas estava vazia. Não havia pedestres e quase nenhum carro. Se algum motorista notou as duas crianças se arrastando pelas ruas sinuosas, com roupas cobertas de lixo e sangue seco, nenhum deles pensou em parar.
Quanto mais perto eles chegavam, mais uma mistura de confusão e preocupação o percorria, agitando o estômago de Ian como caviar barato. Parte dele desejava que sua mãe estivesse na Catedral, e então todos eles poderiam apenas ir para casa. Mas outra parte dele temia encontrá-la lá. Ele não podia aceitar a possibilidade de que ela tinha armado pra eles.
Ian virou a esquina com Natalie e se encontrou no meio de uma vasta praça dominada por uma enorme catedral gótica. Ian havia visto incontáveis igrejas, mas nada não impressionante – ou intimidante – quanto a de Saint Bavo. A torre central era tão alta que Ian teve que erguer seu pescoço para ver o topo, mas o brilho intenso do sol da manhã bloqueou sua visão. De acordo com seu telefone, era apenas 6:23 do horário de Ghent, mas a enorme porta da frente estava com uma fenda aberta. Com um olhar para Natalie, eles se arrastaram pela entrada e deslizaram pela abertura, entrando em um átrio escuro.
O ar estava pesado com a poeira e o cheiro distinto de pedra antiga. Ian e Natalie corriam por baixo de uma arcada baixa e entraram no santuário principal.
Por um momento, Ian não conseguiu fazer nada além de olhar maravilhado. As elevadas colunas pareciam impossivelmente altas, sustentando um teto arqueado em que sombras se juntavam como um crepúsculo perpétuo. Ainda assim a luz do sol fluía pelas janelas de vitral, salpicando o chão com poças de cores suaves. Ian e Natalie se moveram silenciosamente pelo corredor preto e branco do meio, passando por alcovas escuras e estreitas nas quais vários altares e esculturas brilhavam suavemente. Ele não tinha certeza se estava sendo silencioso para evitar ser detectado ou porque parecia errado perturbar o silêncio. Era difícil imaginar a catedral cheia de adoradores, quanto mais turistas. A quietude por si mesma parecia muito antiga – como se a luz e a poeira e o cheiro das pedras tivessem se misturado por milênios.
Mas então um som rompeu a quietude como um porrete, estilhaçando o silêncio. Um gemido baixo que Ian sentiu em seus ossos tanto quanto o escutava em seus ouvidos. Ele e Natalie seguiram o barulho até um das alcovas sombrias, mas então deram um pulo pra trás, assustados. Dois guardas uniformizados estavam sentados de costas um para o outro no chão, amarrados. Uma echarpe de seda tinha sido usada para amordaçar um deles, que olhou para Ian e Natalia com um olhar agitado. O outro homem parecia inconsciente.
Ian colocou sua mão no ombro de Natalie e se distanciou vagarosamente. Um nó havia começado a apertar mais forte em seu estômago, coletando partículas de pavor de todas as partes de seu corpo.
Eles chegaram até o corredor central e quase alcançaram o átrio frontal quando Ian parou abruptamente.
— O que está ac... — Natalie começou a falar, mas Ian pressionou sua mão sobre a boca da menina.
— Shh — ele sussurrou, e então apontou na direção de outra alcova.
Isabel estava parada em frente a uma pintura enorme. Ou, talvez, uma série de pinturas, cada uma descrevendo uma cena vagamente religiosa. Mas Ian não conseguiu focar em nenhuma das imagens. Seu cérebro se recusava a processar o monte de formas e cores. Tudo o que ele conseguia ver era a sua mãe.
Ela não estava em seu telefone, ligando freneticamente para o time de apoio. Ela não estava mandando e-mails para o secretário de relações exteriores britânico, enviando um alerta máximo.
Ela estava examinando a pintura.
Seu olhar estava fixo no painel do canto inferior esquerdo. Ian deu um passo pra frente, e as imagens entraram em foco. A pintura mostrava um grupo de monges carecas vestindo túnicas coloridas brilhantes.
Ela mexeu em sua bolsa e tirou uma faca longa e prateada.
— Mamãe — ele falou, hesitando quando sua voz ecoou pelo santuário vazio, fazendo-a soar como cem garotos chamando suas mães.
Isabel girou sem baixar a faca. Sua pele parecia pálida na escuridão eclesiástica, e ainda assim seus olhos brilhavam tão vivamente quando a lâmina prateada.
Quando Isabel viu seus rostos amedrontados, ela baixou seu braço, mas sua expressão não se aliviou.
— O que vocês estão fazendo aqui? — ela perguntou com uma voz que Ian nunca tinha ouvido antes.
Ian sentiu Natalie se enrijecer próximo a ele, e sabia que era ele quem deveria explicar.
— Alguma coisa deu errado. O código que você nos deu, quer dizer, o código que a gente tinha, disparou um alarme. Mas nós pegamos os arquivos — ele mexeu em seu bolso e puxou um pen drive, segurando-o em sua palma estendida.
Isabel não pareceu notar.
— Onde está a polícia? Eles o seguiram até aqui?
— Na universidade. Eles não sabem que nós escapamos.
Ela exalou audivelmente.
— Brilhante. Muito bem, queridos.
Ian deu outro passo pra frente.
— Você não quer os arquivos?
Isabel sorriu, e de repente, Ian se sentiu como uma criança que tinha acabado de oferecer os restos úmidos de seu biscoito meio mastigado.
— Guarde-o com você por enquanto, doçura. Eu tenho que cuidar de uma coisa aqui antes que a polícia chegue.
— Isso é uma porcaria qualquer, não é? — ele falou, sua voz palpitando até o teto. — Você nunca precisou disso. Nós só tínhamos que criar uma distração, não era?
O nó em seu estômago se transformou em um buraco negro, sugando todos os sentimentos dele, não deixando nada pra trás, apenas raiva.
— Sim, e vocês forem esplêndidos. Eu estou tão orgulhosa de vocês — seu tom frio só o deixou ainda mais furioso.
— Natalie e eu quase fomos presos — o calor de seu rosto escorria por sua garganta, criando uma piscina de fúria latente em seu peito. — Nós quase morremos tentando escapar.
— Pare de ser tão dramático, querido, você parece estar bem pra mim. Agora, corra lá para fora e espere no carro. Eu só vou demorar um minuto.
Isabel virou seu rosto para o painel que ela estava examinando antes. Os monges tinham quase o tamanho real, e cada um de seus rostos era tão diferente um do outro que parecia que eles estavam prestes a começar a falar. Isabel levantou seu braço para que a lâmina da faca apontasse para o rosto de um dos monges. Ian sentiu seu estômago revirar. Ele sabia que era apenas uma pintura, mas mesmo assim parecia que sua mãe estava a ponto de perfurar carne de verdade. A imagem do guarda inconsciente estalou em sua mente, seguido do rosto aterrorizado do Sr. Pringle.
Não! — ele gritou, se jogando para frente.
Isabel deu um passo para o lado, fazendo com que Ian tropeçasse.
— O que você acha que está fazendo? — ela sibilou. — Você ficou louco?
— Acho que talvez ele seja o único na nossa família que não ficou louco.
Todos eles se viraram e viram uma mulher de pé na borda da alcova. A luz a iluminava por trás, e tudo o que eles conseguiam ver era sua silhueta alta. Sua voz era lenta e ressonante. Se Ian não soubesse, pensaria que ela tinha acabado de sair de um dos vitrais.
A mulher andou para frente. Ian reconheceu seus cabelos grisalhos e os penetrantes olhos azuis. Era a avó de Amy, Grace Cahill.
Ian olhou de volta para sua mãe.  Ela estava com a mandíbula enrijecida e apertava a faca com tanta força que a mão inteira tinha ficado branca. Mas então ela sorriu, e seu rosto se transformou.
— Grace — ela falou com uma cordialidade exagerada, como se estivesse cumprimentando um convidado em uma festa. — Que surpresa adorável. Que maravilhoso vê-la tão... viva.
Inicialmente, Ian não estava certo do que Isabel estava falando, mas então Grace deu alguns passos para perto e ele notou que ela estava mais magra do que jamais vira. Havia manchas fundas embaixo de seus olhos, e suas maçãs do rosto se projetavam tanto que pareciam que estavam prestes a passar por sua pele. Ele se lembrou de uma conversa que tinha ouvido entre seus pais há algumas semanas. Alguma coisa sobre Grace ter apenas alguns meses de vida.
Apesar de sua aparência esquelética, ela estava tão ereta quanto sempre esteve.
— Sim, bem, impedir uma Lucian de desfigurar “A Adoração do Cordeiro Sagrado” estava na minha lista de coisas a fazer antes de morrer, então pensei em fazer uma tentativa e dar uma passada na Bélgica — ela sorriu e, por um momento, a velha Grace entrou em foco. — E olha, aqui está você. Que feliz coincidência.
Isabel deu um passo em direção a Grace, deixando a mão com a faca balançando pra frente e pra trás.
— Eu sabia que deveria ter esperado até depois da sua morte. Os médicos te deram, o quê, mais algumas semanas?
Grace encolheu os ombros.
— Eu nunca fui muito de seguir programações.
— Bem, eu fui criada para dar valor à pontualidade. E a menos que você vá embora agora mesmo, eu vou garantir que sua partida final aconteça bem na hora programada.
Ian esperou sua mãe sorrir, para mostrar que estava brincando, mas seu rosto continuou o mesmo. Ela não podia estar falando sério. Era uma coisa demitir alguém ou – seu estômago se encolheu quando ele pensou no Sr. Pringle – usar outras “técnicas persuasivas”, mas sua mãe certamente não ameaçaria matar alguém.
— Eu não estou muito preocupada com isso — Grace falou alegremente. — Mas eu não a aconselharia chegar nem um passo mais perto daquela pintura. Eu tenho quatro atiradores só esperando pela minha ordem.
— Você está blefando — Isabel disse.
Ian conseguia ver que ela estava tentando soar confiante, mas ainda existia uma hesitação familiar em sua voz.
— Posso ser muitas coisas, Isabel, mas você sabe que não sou mentirosa.
Isabel sorriu afetadamente.
— Até onde eu sei, aqueles remédios para câncer  apodreceram o seu cérebro. Pelo que eu ouvi, você está praticamente delirando.
O rosto de Grace endureceu.
— Isso não vai me impedir de dizer as pessoas o que você realmente é — Isabel deu um passo para frente, mas quando seu punhal tocou a pintura, o clique foi alto demais. Todos eles pularam. Parecia exatamente como uma arma sendo engatilhada.
— Tem certeza de que quer fazer isso? — Grace perguntou. — Me parece um risco grande demais, especialmente com Ian e Natalie aqui.
Isabel a encarou pelo que pareceu uma eternidade antes de finalmente falar.
— Você está perdendo seu tempo, Grace — ela falou, colocando a faca de volta em sua bolsa. — Eu sempre posso voltar. Sei que você tem muitos contatos, mas nem você será capaz de fazer nada a sete palmos do chão.
— Oh, acredito que você achará muito difícil se livrar completamente de mim, Isabel.
Isabel virou para seus filhos.
— Vamos, queridos — ela colocou uma mão no ombro de Ian e acenou para Natalie seguir. — É impossível apreciar arte com turistas americanos horríveis por toda parte — ela deu uma última olhada para Grace. — Eles não tem nenhum senso de decoro.
Enquanto seguiam Isabel para fora da alcova, Ian olhou por cima de seus ombros. Grace levantou suas sobrancelhas e então deu a ele um pequeno aceno. Uma mistura estranha de orgulho e vergonha passou por ele. Ele não tinha certeza se impedir sua mãe de esfaquear a pintura tinha sido corajoso ou incrivelmente tolo.
Ian piscou enquanto andava em direção à luz do sol. Era como acordar de um sonho, como se os estranhos eventos dentro da catedral tivessem ocorrido há muito tempo, ou talvez nunca tivessem acontecido. Ele balançou sua cabeça, como se para separar suas memórias reais das ilusões. Tinha que ter alguma coisa que ele não estava entendendo, alguma coisa que explicaria o que aconteceu.
Eles subiram no carro, Natalie encolheu seus joelhos até seu peito e fechou os olhos, mas Ian tinha certeza que ela não estava indo dormir. Isabel tinha pegado o telefone e parecia estar falando com o pai das crianças.
— Eu o acordei? — ela perguntou. — Ah, bom... sim... sim, exatamente. Eles foram brilhantes.
Ela estendeu o braço e apertou a mão de Ian, então enxugou a palma na saia.
— Apesar de estarem precisando desesperadamente de um banho.
Ian afundou no assento de couro. Sua mãe estava orgulhosa deles. Eles fizeram alguma coisa certa – mesmo sem saber do plano completo. Sentando em um carro aquecido, o pensamento de cortar uma obra de arte parecia ridiculamente inofensivo. Quem se importava que aquelas figuras parecessem com pessoas reais?
Ele se lembrou da expressão no rosto de sua mãe quando ela olhou para Grace. Algumas vezes, ser um Lucian significava que você tinha que destruir o que quer que estivesse em seu caminho.

* * *

Grace parou na frente do retábulo, sorrindo para os rostos familiares. Ela veio ver o “Cordeiro” muitas vezes desde seu retorno a Ghent, mas parecia que tinha muitos anos desde sua última visita. Ela estava feliz pela chance de dizer adeus. Grace tinha pensado em trazer Amy para mostrar-lhe a pintura que significava tanto para ela, mas estava agradecida por ter decidido não o fazer. Era melhor que seus netos não soubessem nada sobre as pistas ou os Vesper por enquanto.
Grace mexeu em seus bolsos e pegou um aparelho de raio-X portátil que ela construíra baseado no protótipo que ela “pegara emprestado” da fortaleza Ekaterina no Cairo. Ela o segurou na frente do painel que Isabel estava examinando e apertou um botão. Uma imagem apareceu na tela. Parecia quase idêntica à pintura, exceto por uma diferença chave. Havia palavras bordadas nas mangas de um dos santos. Uma frase em holandês. Deve ter sido pintada por cima em algum momento, porque não era mais visível a olho nu.
Grace sorriu sombriamente enquanto escaneava os outros painéis. Cada um revelava outra frase. Algumas em holandês. Outras em latim, e algumas poucas estavam escritas em línguas que Grace não reconheceu.
Ela escaneou o painel central, “A Adoração do Cordeiro Sagrado”, e inspirou pesadamente.
Zij zullen de aarde zerplaatsen.
Eles moverão a terra.
Então era verdade.
Uma onda de náusea passou por ela e ela tropeçou, segurando-se em um corrimão de madeira para se equilibrar. Tudo o que ela fez, todos os sacrifícios para encontrar as pistas – qual era o sentido se os Vesper tinham o poder de destruir a todos eles?
Grace respirou fundo. Estava na hora de ir. Ela tinha uma longa viagem de volta a Massachusetts, e ela não queria arriscar perder seu final de semana com Amy e Dan. Não haveria muitos mais deles. Mesmo que pensamentos similares tivessem passado por sua mente inúmeras vezes nos últimos meses, ela ainda sentia uma dor em seu peito.
Ela se virou para um último olhar nas pinturas que sua mãe havia amado.
Sua mãe nunca a deixou realmente.
E Grace não tinha nenhuma intenção de deixar Amy e Dan.
“Elas não são apenas obras de arte. Hoje são os símbolos do espírito humano.”
As palavras do presidente Roosevelt passaram pela mente de Grace como se alguém tivesse ligado um rádio sem fio dentro de sua cabeça.
Ela olhou para o retábulo e sorriu.
Algumas coisas eram mais poderosas que a morte.
O espírito humano continuava a viver.

7 comentários:

  1. Pedro Cahill 😢7 de maio de 2016 01:09

    Lendo isso me toquei que sinto falta de Irina e da Natalie 😢

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    Respostas
    1. Eu realmente tava online as 01:09 da madruga

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  2. só eu q senti as referências a tubarão e tals???

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  3. Esse final realmente me fez chorar.Q palavras lindas!!
    Descanse em paz Grace Cahill!!

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  4. Oi Karina,
    Eu encontrei uns errinhos no livro tem como consertar por favor?
    "olhar para o cardigã de acrílico da garota fazia sua pele começar." acho que faltou uma palavra nessa frase;
    "Um homem na secunda fileira" aqui tem um erro de digitação;
    "a residência Kbra em Londres" tem uma letra a menos em "Kabra";
    "podia sentir suas fibras musculares se quebrar." não seria "quebrarem"?
    "eles precisava sair de lá." não seria "precisavam"?
    "— Pare se ser tão dramático," aqui tem outro erro de digitação;
    "As palavras do p residente Roosevelt" e eu acho que aqui era pra ser "presidente".
    Valeu Karina!!

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