1 de maio de 2016

Parte 2

Massachusetts, 1945

Grace Cahill segurava dois envelopes em suas mãos: um bege, outro azul claro. Ela olhou para eles por um momento antes de amassar o envelope azul em uma bola e atirá-lo na lareira crepitante – a única compensação do frio quarto da Academia Miss Harper para Garotas. Não importava que a carta azul tivesse sido enviada de Paris. Ela estava farta disso tudo.
Essa Grace Cahill não existia mais.
Tudo com que ela se importava era o segundo envelope, que tinha um selo do Exército Americano e uma etiqueta em que se lia Aprovado pelo Examinador do Exército. Grace tinha recebido envelopes similares desde que o seu professor favorito, Sr. Blythe, ou melhor, Capitão Blythe, se juntara ao exército. Apesar de uma antiga lesão de futebol tê-lo deixado inapto para o serviço militar comum, o governo abriu uma exceção quando recrutaram soldados para algum projeto secreto envolvendo obras de arte roubadas. E assim, três anos após os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial, o Sr. Blythe renunciou ao cargo de história da arte e foi enviado para o exterior.
Grace deslizou seu dedo sob o selo e, cuidadosamente, abriu o envelope. A carta dentro estava escrita em papel fino e barato, e tinha todo tipo de manchas e impressões digitais, caso precisasse ser rastreada por questão de segurança. Grace tremeu quando passou o dedo sobre o papel amassado. Quase parecia ter suas próprias cicatrizes de batalha.


Grace agarrou o braço do sofá e o quarto começou a girar. Ela tentou se forçar a respirar, mas seu peito parecia estar se retraindo, em colapso no espaço entre suas costelas e seu coração.
Não foi por causa do choque de ver a caligrafia distinta do Sr. Blythe. Não era medo de que o exército estivesse desenterrando os segredos mais profundos de sua família.
Era porque o Sr. Blythe estava morto.
Grace se recostou no sofá, alheia às molas metálicas espetando-a na espinha. Há três semanas, durante a convocação da manhã, a diretora fizera um anúncio.
— Eu lamento informar — ela disse rigidamente — que o Sr. Blythe foi morto em ação durante uma operação secreta na Alemanha.
Ela colocou ênfase nas palavras estranhas, como um ator lendo um roteiro pela primeira vez, e por um momento, o significado pairou no ar. Mas, então, a capela se preencheu com os lamentos de meninas – algumas genuinamente perturbadas, algumas exagerando sua dor pelo jovem professor adorado.
Ao contrário dos outros membros do corpo docente da Academia Miss Harper, que duvidava que as meninas realmente precisavam saber muito mais do que etiqueta e dança, o Sr. Blythe tinha considerado o seu trabalho desafiar suas alunas. Ele tomara um interesse especial por Grace e disse que ela estava destinada para “grandes feitos”.
Ele não tinha ideia.
Na época em que conheceu o Sr. Blythe, Grace já tinha voado num avião no meio de uma batalha. E ainda encontrou uma das 39 pistas que sua família – algumas das pessoas mais poderosas da história – tinha passado séculos procurando.
Tinha sido fácil arriscar sua vida quando pensava que estava protegendo as pistas dos clãs famintos de poder dos Cahill ou dos misteriosos Vesper. Mas desde o último ano, quando notícias vinham da Europa em transmissões de rádio sombrias, fotos de jornais assustadoras e lista de vitimas, uma realização inquietante começou a desgastar as bordas de suas fantasias. Os Cahill não estavam salvando o mundo – eles estavam indo para uma insana caça ao tesouro enquanto o mundo queimava ao redor.
Era por isso que Grace ignorava os envelopes azuis. Eram de um Cahill no museu do Louvre, em Paris, que queria ajuda para encontrar uma pintura – algo a ver com as pistas, sem dúvida. Um ano atrás, ela estaria intrigada pelo desafio, mas agora só pensar nisso a deixava doente. Ela só podia imaginar os caminhos que seus parentes mais cruéis tinham encontrado para explorar uma guerra que já havia tirado milhões de vidas.
Ela olhou para a carta e sentiu seu estômago se revirar.
E mais uma vez.
Grace passou o dedo sobre o papel. O Sr. Blythe deveria ter escrito alguns dias antes de sua morte. O envelope tinha atravessado a paisagem devastada pela guerra, evitando as bombas e balas, a fim de encontrar o seu caminho até ela.
Tinha sobrevivido, enquanto o homem que a escreveu não.
Ela dobrou-a ao meio com cuidado e colocou-a em sua bolsa. A guerra podia não ter parado os Cahill, mas eles teriam que continuar sem ela.
Ela estava farta.

* * *

Quando chegou à sala de aula, todo mundo já estava sentando. Grace tinha acabado de escorregar para seu assento perto da porta quando a senhorita Harper, a diretora, entrou, seguida por uma mulher que Grace nunca havia visto antes.
Havia um fraco farfalhar quando as estudantes se apressaram para ajeitar seus papéis, alisar seus cabelos e reajustar bainha drapeada de suas saias graciosamente sobre seus joelhos. A diretora limpou sua garganta.
— A Sra. Prentice ficou doente e não poderá dar aulas pelo restante do semestre.
Isso era estranho. No dia anterior mesmo Grace passara pela sala dos professores e teve um vislumbre da jovial Sra. Prentice mostrando ao professor de química como dançar foxtrote. Ela certamente não parecia doente.
— Felizmente, nós conseguimos encontrar uma substituta maravilhosa, a Mademoiselle Hubert.
A diretora pronunciou o nome “Ú-ber”, contorcendo a boca como se estivesse forçando seus lábios relutantes a se enrolar em volta das sílabas com som estrangeiro.
— Ela chegou recentemente de Paris para estudar... — ela deu uma olhada para Mlle Huber.
— Pintura americana do século dezenove — a outra mulher disse, seu sotaque francês revestindo as palavras como um lustroso verniz. — Eu passo a maior parte do tempo em Boston, mas estou feliz pela oportunidade de lecionar por algumas semanas.
Grace estava tendo dificuldade em acreditar que Mlle Huber nutria um desejo profundo de lecionar. Com seus cabelos cortados elegantemente, lábios vermelhos escuros e blazer feito sob medida, parecia que deveria estar posando para um fotógrafo na frente da Torre Eiffel ao invés de estar trancada em uma sala de aula bolorenta, tentando em vão convencer Mary Atkinson que Monet e Manet eram pessoas diferentes.
De qualquer forma, esse não era o único motivo para que Grace não conseguisse tirar os olhos de Mlle Huber. Ela parecia vagamente familiar, mesmo que Grace não conseguisse se lembrar onde a havia visto. Talvez seus caminhos houvessem se cruzado em um dos museus de Boston. Nos últimos anos ela havia passado uma grande parte de seu tempo livre passeando pelo Museu de Belas Artes. Tinha até levado seu irmãozinho, Fiske, com ela algumas vezes. Embora ele nunca tivesse tido a chance de conhecer a mãe deles, Grace podia mostrar-lhe as pinturas que significavam tanto para Edith. Grace sabia que isso era bobo, mas era um conforto se deleitar com as mesmas imagens que sua mãe amava.
— Adorável — a diretora disse rapidamente. Ela apertou as mãos e sorriu para a classe. — Acredito que isso seja tudo. Sejam boas com a Mlle Hubert, meninas — ela falou enquanto seguia em direção à porta.
— Muito bem — Mlle Hubert começou, se dirigindo aos estudantes. Ela sorriu, e o canto de seus lábios vermelhos se espalharam por suas bochechas pálidas como uma faixa de sangue. — Hoje nós discutiremos o Renascimento do Norte Europeu.
Arlene Swenson, uma garota com aparência nervosa com cabelos curtos enrolados, levantou a mão. Mlle Hubert assentiu para ela.
— Sim?
— Nós estávamos estudando os impressionistas, senhorita — Mlle Hubert levantou a sobrancelha. — Quero dizer, mademoiselle.
— Bah. Eu não suporto os impressionistas — Mlle Hubbert balançou sua mão com desdém. — Todos aqueles pontos bobos — ela respirou. — Non. Os pintores do Renascimento era os verdadeiros mestres. Eu mostrarei a vocês.
Ela perambulou pela parede, apagou as luzes, e escorregou um slide para dentro do projetor. Uma imagem de um homem com aparência severa usando um chapéu preto desajeitado brilhou na tela na frente da sala de aula.
— Voilà. Temos aqui um trabalho muito importante... hum, “Homem de Chapéu.”
Arlene limpou sua garganta.
— Me desculpe, mademoiselle, mas esse não é o autorretrato de Rembrandt?
— Ah, sim, esse é o título mais... informal.
Ela trocou de slide e uma nova pintura apareceu – uma Nossa Senhora com uma criança ricamente colorida.
— E outra... obra prima... muito famosa. “Dama em Vestido Longo”.
— Calma aí. Esse não é...
Mlle Hubert mudou o slide antes que Arlene tivesse chance de falar.
— Espere! — Isabel Faust exclamou. — Pode voltar? Eu não consegui terminar minhas anotações.
— Não temos tempo — Mlle Hubert disse bruscamente. — Nós temos muito a fazer — o próximo slide apareceu, uma representação gélida da crucificação de Cristo. — Que encantador.
Ela passou pelas próximas quatro pinturas tão rápido que Grace não teve tempo de registrar o que elas eram.
— Ah, aqui está — Mlle Hubert disse, quando uma nova imagem preencheu a tela.
Grace inspirou profundamente enquanto uma enxurrada de memórias esquecidas há muito tempo passavam por ela. Era “A Adoração do Cordeiro Sagrado”, obra prima de Jan van Eyck, e a favorita de sua mãe.
— Infelizmente, o retábulo desapareceu alguns anos depois do início da guerra — a voz da Mlle Hubert trouxe Grace de volta de seus pensamentos.
— Como que uma coisa desse tamanho desaparece? — Arlene perguntou, com uma insinuação de ceticismo em seu tom.
— É uma história trágica — a professora suspirou dramaticamente. — Depois que a guerra começou, o retábulo foi levado da França para a Bélgica para ser protegido. O diretor do Louvre conseguira que peças importantes fossem escondidas por todo o país, longe das batalhas. Mas o “Cordeiro” foi apreendido pelos alemães e nunca mais foi visto.
Embora a abarrotada sala de aula estivesse cheia e quente, um calafrio passou por Grace. Era como ouvir que alguém tinha morrido. Ela sabia que era bobo – as pessoas nas pinturas não estavam vivas. Elas não se importavam se ficavam em uma catedral cheia de sol ou no porão frio e úmido de algum ladrão de arte nazista. O retábulo era só mais um infortúnio da guerra, como o Sr. Blythe.
Grace tentou tirar isso de sua mente, mas uma ideia que ela não conseguia desenraizar havia se formado.
O retábulo estava sob os cuidados do Louvre quando desapareceu. A mulher que a escrevia de Paris – Rose Valland – trabalhava no Louvre. Poderia ser isso o que ela queria que Grace encontrasse? Ela instintivamente mexeu em sua bolsa para passar os dedos pelas bordas da carta do Sr. Blythe. Seu departamento era responsável por rastrear obras de arte perdidas. Uma onda de náusea passou por ela. Ele estaria procurando pelo “Cordeiro” também?
Grace se segurou na borda da mesa enquanto a sala começou a girar. Por séculos os Cahill haviam usado os militares para seus próprios objetivos. Napoleão enviou o exército francês para invadir o Egito para ajudá-lo a encontrar uma pista perdida. E se o departamento do Sr. Blythe tivesse sido criado por Cahill procurando pelo retábulo?
Nós podemos ser os responsáveis por colocá-lo em perigo.
Nós o matamos.
— Ca-ham.
Ela olhou pra cima e viu Mllw Huber a encarando.
Grace engoliu em seco, tentando suprimir a bile subindo por seu estômago.
— Poderia repetir?
A professora pressionou seus lábios vermelhos.
— Eu estava explicando que Van Eyck escondeu várias mensagens na obra, e eu esperava que você fosse gentil e localizasse uma no slide.
Todas as outras garotas se viraram para olhar para Grace, mas os olhos dela foram automaticamente atraídos para uma das figuras no fundo. Ela sabia que havia letras em hebreu pintados na aba de seu chapéu, mas alguma coisa na expressão de Mlle Hubert a fez hesitar em mencionar em voz alta.
— Eu acho que não sei... desculpe.
Um lampejo de irritação passou pelo rosto da Mlle Huber.
— Você olha pra uma das mais belas e complexas obras de arte do mundo e não pensa em nada? C’est dommage — Mlle Hubert balançou sua cabeça. — Talvez você esteja mais interessada no quer que esteja dentro da sua bolsa?
Grace olhou para baixo e viu que sua mão ainda estava dentro de sua mochila escolar. Ela puxou a mão de volta e colocou ambas em seu colo.
— Não, mademoiselle.
A professora deu um passo pra frente e estendeu seu braço fino e macio.
— Me dê isso.
— Não é nada.
— Eu não vou pedir de novo.
Grace mexeu em sua bolsa e removeu o envelope, o suor da palma de sua mão se infiltrando no papel.
O ruído do salto alto de Mlle Hubert ecoou pela sala enquanto ela caminhava na direção de Grace e apanhava a carta da mão da garota.
— De um rapaz, presumo? — ela sorriu afetadamente. — É melhor eu ficar com isso. A senhorita, obviamente, não pode se dar ao luxo de ser distraída dos seus estudos.
Enquanto Mlle Hubert caminhava de volta em direção para o projetor, Grace sentiu uma nova onda de tristeza passar por ela. Mas então sua dor se endureceu, transformando-se em raiva. Ela podia não ter sido capaz de salvar o Sr. Blythe, mas poderia, certamente, salvar a última carta que ele havia escrito.
Mlle Úber não tinha ideia de com quem ela estava lidando.

* * *

Grace tocou o chão silenciosamente. Havia seis meses desde que saíra em uma corrida de treino à meia-noite – seis meses desde que decidira que seus dias como uma agente Madrigal estavam acabados. Mas ela não havia perdido a habilidade de se equilibrar na soleira, saltando para o galho de árvore, e então caindo levemente na grama macia.
Ela não permitiria que a última carta do Sr. Blythe apodrecesse como algum prisioneiro esquecido.
Ela iria pegá-la de volta.
Grace deu uma breve corrida, atravessando o gramado em direção ao portão preto, passando pelo Kendrick Hall, o edifício coberto de hera que servia como escritório dos professores. Uma luz no segundo andar chamou sua atenção e uma figura escura passou em frente à janela brilhante. Grace reconheceu a silhueta elegante.
Era Mlle Hubert.
Grace se abaixou atrás de uma árvore.
A janela ficou escura, e Grace suspirou com alívio. Um minuto depois, uma figura emergiu do edifício e se apressou pelo caminho, se distanciando de Grace.
Quando Mlle Hubert desapareceu de vista, Grace se arremessou de trás da árvore e correu até a porta da frente do Kendrick Hall. Ela girou a maçaneta. Estava trancada.
Com uma rápida olhada por cima de seus ombros, Grace correu para o lado do edifício. Ela parou ali por um momento com suas costas pressionadas contra os tijolos gelados.
Ela examinou o gramado mais uma vez, e então se virou. Os tijolos grandes eram velhos e desiguais, o que tornou fácil a tarefa de encontrar um apoio para os pés para içá-la do chão.
Grace estendeu a mão para tocar os tijolos, procurando por mais fendas, e subiu ainda mais alto. Uma rajada de vento passou por ela, enroscando a barra de seu vestido em suas panturrilhas. Grace apertou ainda mais sua mão e chacoalhou suas pernas uma de cada vez.
Depois de pilotar um avião para o meio de uma batalha furiosa e se esquivar de balas na Torre de Londres, entrar escondida em um escritório no segundo andar era mamão com açúcar. Grace repousou seu joelho no peitoril da janela, apoiou um braço contra a parede e abriu a janela. Estava destrancada. Ela desceu até o chão, enrugando o nariz.
Mlle Hubert estava aqui há apenas um dia e a sala já estava toda mudada. O escritório da Sra. Prentice sempre tinha cheiro de café e biscoito de gengibre, mas agora o ar parado estava saturado com cheiro de perfume e cigarros.
A sala estava escura, mas a fraca luz da lua que passava pelo vidro providenciava luz o suficiente para bisbilhotar.
Grace rastejou em direção à mesa, procurando na confusão de papéis, livros, cinzeiros e xícaras de chá com manchas de batom vermelho na borda, mas o envelope não estava em nenhum lugar à vista.
Um barulho vindo do andar de baixo fez com que Grace mergulhasse para baixo da escrivaninha. Ela não podia se dar ao luxo de ser pega invadindo o escritório de um professor. Seu pai a havia avisado que ela estava a uma suspensão de ser enviada pra viver com parentes distantes na Sibéria. Não que a escola fosse capaz de alcançar James Cahill se a pegassem. Na última vez que ela ouvira, ele estava no Brasil. Ou era na Finlândia?
Grace dobrou suas pernas e se preparou para o som dos passos se aproximando. Mas ninguém veio. Suspirando, ela se encostou na perna da escrivaninha e estremeceu quando alguma coisa se encaixou no espaço entre suas escápulas.
Grace se virou e viu uma emenda descendo da metade inferior da perna da escrivaninha, como se uma parte tivesse sido quebrada. Ela correu seus dedos pela borda, sentindo-a mexer levemente, então afundou suas unhas e puxou. Um pedaço de madeira escorregou, revelando um cilindro de papel bem enrolado.
Grace rastejou para fora da escrivaninha até um local pouco mais iluminado, ignorando as batidas de seu coração em seu peito. A Sra. Prentice tinha feito isso? Ou a sua substituta estava redecorando?
Ela removeu o papel do topo e o abriu no chão, segurando as bordas para mantê-lo reto.
Era um telegrama enviado de Berlim para Paris, com a data de algumas semanas atrás. Mas não estava escrito em nenhuma língua que ela reconhecesse. Certamente não era alemão nem francês. Ela abaixou sua cabeça para olhar mais de perto. As letras eram todas familiares – só a ordem que não fazia sentido. Quase parecia com um código, mas que tipo de professora de história tinha o hábito de esconder mensagens encriptadas?
Ela ignorou o formigar de medo em seu estômago. Não havia nenhum motivo para tirar conclusões precipitadas.
Não antes de quebrar o código.
Grace se levantou e procurou por um lápis e um pedaço de papel na bagunça da mesa. A mensagem parecia que poderia ser um cifra de substituição e, como a letra V apareceu sozinha várias vezes, significava que provavelmente era a letra I ou A. Se V substituísse I, então fazia sentido que W substituísse J e assim sucessivamente. Ela começou a rabiscar, franzindo a testa quando um monte de bobagens apareceu. Ela riscou tudo e tentou de novo, desta vez, com V substituindo A.
Desta vez, as palavras pareciam familiares. A mensagem estava escrita em francês! Grace conhecia a língua o suficiente pra traduzir.

Hubert
Nós estamos com o retábulo, mas precisamos de mais tempo.
A maior parte dos nossos inimigos foi eliminada, mas nós não podemos nos arriscar. Vá para Massachusetts e cuide da garota Cahill. Ela fez uma bagunça na situação do Marrocos, e não podemos permitir que ela interfira novamente. Dei um jeito de tirar a professora de história da arte da escola. Descubra o que Grace sabe antes de matá-la.
Vesper Quatro.

Grace olhou para a mensagem traduzida apressadamente. Se ela esperasse tempo o suficiente, talvez as palavras se rearranjariam em palavras que fariam sentido, que não a fizessem sentir como se estivesse em queda livre.
Os Vesper estavam com o retábulo. Eles sabiam que ela havia sido recrutada para resgatá-lo. E então mandaram um de seus agentes para matá-la.
Uma coisa era lutar por sua vida em uma missão, quando ela correu para o perigo conscientemente. Mas aqui? Na escola? Ela se segurou na mesa para se equilibrar quando seus joelhos começaram a tremer.
Grace enfiou o telegrama no bolso e se virou em direção à janela. Ela tentou se apressar, mas suas pernas pareciam feitas de chumbo. Ela respirou profundamente e começou a tossir quando uma nuvem de perfume francês encheu seus pulmões.
— Boa noite.
Grace se virou rapidamente e escorregou na ponta do fino tapete, caindo com um baque duto no chão.
Ela se virou e olhou para cima.
Mlle Hubert estava apoiada na porta, uma mão apoiada casualmente em seu quadril.
A outra segurava uma faca.

* * *

— Eu não consigo decidir se você é muito mais inteligente do que supus, ou só muito... qual é a palavra?... mais intrometer? Intrometida — ela olhava para Grace com uma combinação de fascinação e desgosto. — Mas é claro que isso o que vocês Madrigais fazem.
Grace se levantou cambaleando, xingando a si mesma por não ter chegado à janela a tempo. É isso o que acontece quando você para de treinar.
— Então você está aqui pra me matar? — Grace perguntou, forçando sua voz para que ficasse com um tom ligeiramente condescendente.
Ela deu a Mlle Hubert o mesmo sorriso que ela havia visto sua prima Princesa Elizabeth dar aos jovens que tentaram impressioná-la em encontros reais.
— Eles vão descobrir. E acho que você descobrirá que as bombas de chocolate da prisão federal não são boas para o seu padrão.
Mlle Hubert bufou.
— Isso não será um problema — ela segurou a faca no alto, que brilhou levemente a luz da lua. — Desaparecer com o corpo é a parte fácil — ela girou a faca para o lado, como se fosse um bracelete que pensava em comprar em uma loja. — Mas talvez isso não seja necessário, se você decidir cooperar — ela se virou para Grace. — O que você sabe sobre o retábulo de Ghent?
— Nada — ela respondeu rapidamente.
Mlle Huber levantou uma sobrancelha.
— Então porque aquele professor estava escrevendo pra você sobre esse assunto?
O estômago de Grace se revirou ao pensar na perversa mulher lendo sua carta, mas ela manteve seu rosto impassível.
— Ele não disse nada sobre o retábulo.
— O nome verdadeiro foi censurado, é claro — Mlle Hubert disse, revirando seus olhos. — Mas eu sei a que trabalho ele estava se referindo. Era isso que ele estava tentando encontrar na Alemanha — ela sorriu afetadamente. — É por isso que nós tivemos que matá-lo.
Grace sentiu seu coração bater mais rápido.
— Os alemães o mataram.
— A ordem veio do escritório dos Vesper.
— Vocês estão trabalhando com nazistas? — Grace cuspiu.
Mlle Hubert sorriu.
— Eles são muito bons em seguir ordens. E acredito que só foi necessária uma bala para matar o pobre Sr. Blythe.
Foi como se alguém tivesse ligado uma série de pedras grudadas aos pés de Grace. Ela se jogou em cima da Mlle Hubert, lutando com ela no chão. Ela rolou para cima da mulher e estava a ponto de dar outro golpe quando sentiu alguma coisa fria e afiada pressionada contra seu pescoço. Grace abaixou seus olhos devagar. Mlle Hubert estava com a ponta faca afundando em seu pescoço.
— Levante-se — a mulher ordenou friamente.
Grace hesitou, e seu corpo ficou rígido. Ela considerou tentar derrubar a faca da mão da Mlle Hubert, mas quando ela tensionou seu ombro pra fazer o movimento, a lâmina foi mais fundo. Grace ganiu.
— Quiet! — Mlle hubert assobiou. — Levante-se, agora.
A menina se levantou cambaleando e deu alguns passos pra trás em direção à porta, mas Mlle Hubert havia se levantado rápido e já estava parada na frente dela, pressionando a ponta da faca contra a parte lateral do pescoço de Grace.
— Eu só vou te perguntar mais uma vez. O que você sabe sobre o retábulo?
A mente de Grace começou a se apressar enquanto ela tentava desesperadamente relembrar tudo que sua mãe havia lhe contado sobre o “Cordeiro”.
— Há palavras hebraicas escondidas em um dos chapéus das figuras — ela disse rapidamente, sentindo a lâmina subir e descer conforme ela falava.
Mlle Hubert pressionou a faca mais forte.
— Todo mundo sabe disso.
O coração de Grace estava martelando, incitando seu cérebro a funcionar mais rápido.
— Um dos painéis é uma reprodução.
— Eu sei. Nós roubamos o original — ela empurrou a lâmina ainda mais.
— Van Eyck era um agente secreto! — Grace improvisou, lutando para falar com a faca pressionada contra sua traqueia. Isso era algo que ela lembrava de sua mãe ter lhe contado. — Ele foi enviado... pelo Duque de Borgonha... para espiar outras cortes.
— Sim — Mlle Hubert vociferou. — Que é o motivo pelo qual nós queremos saber que informação secreta ele escondeu nas pinturas.
Ela abaixou a faca e andou para o lado.
Grace suspirou e levou sua mão até seu pescoço, enxugando o sangue que havia começado a pingar em sua gola.
— Cansei de perder meu tempo — Mlle Hubert disse. — Max! — ela gritou.
Uma figura apareceu na porta. Um homem enorme vestindo uma capa longa... e segurando uma arma.
— A senhorita Cahill não está a fim de conversar. Vamos nos certificar de que ela nunca mais fique de conversinhas novamente.
O homem levantou seu braço para que o tambor da arma ficasse apontado exatamente entre os olhos de Grace.
Grace pulou para o lado no mesmo momento em que a arma disparou. Uma bala ricocheteou na parede próxima a orelha esquerda de Grace, inundando sua cabeça com um zumbido nauseante. Ela se lançou violentamente em direção À janela, e se içou até a elevação. Houve outro estalo quando uma bala acertou a vidraça, despejando sobre Grace pequenos pedaços de vidro quebrado. Não havia tempo para descer pela parede. Ela teria que pular.
Grace se virou para que seus pés ficassem apontados em direção ao chão, inspirou rapidamente e soltou, balançando seus braços no vazio ar da noite.

* * *

Ela acertou o chão com um baque e rolou alguns centímetros. Tudo doía. Mas antes que ela pudesse verificar cada dano, os tiros recomeçaram. Grace começou a rastejar para longe do edifício, guinchando quando uma bala passou bem perto de sua bochecha. Os tiros pararam, e Grace sabia que a Mlle Hubert e os outros Vespers estavam descendo as escadas. Ela tinha que escapar. Grace se levantou, guinchando com a dor que tomou sua perna esquerda.
— Socorro! — ela gritou. — Alguém!
Ela sabia que os dormitórios estavam longe demais para que alguém pudesse ouvi-la, mas tinha que ter alguém por perto. Um zelador. Um professor voltando de uma saída tarde da noite. Qualquer pessoa.
— Socorro! — ela gritou novamente.
Mas não houve resposta. Seu grito desesperado foi simplesmente absorvido pelo silêncio da noite.
Ela tropeçou no caminho em direção à garagem dos funcionários, guinchando de dor. Antes de ela ter desistido de treinar, ela costumava “pegar emprestado” a motocicleta do homem que cuidava dos gramados para dar voltas de revirar o estômago pelas sinuosas ruas estreitas do campo. Ela rezou para que ainda estivesse lá.
Ela conseguia ouvir os passos atrás dela.
Grace pegou freneticamente o ferrolho e abriu as portas de madeira. A garagem estava praticamente vazia, mas ela sentiu uma onda de alegria quando viu a motocicleta encostada em uma das paredes – bem onde ela a havia encontrado da última vez que havia pegado.
Equilibrando-se em sua perna direita que não estava machucada, Grace se jogou no assento, colocou a chave na ignição e chutou o motor para ligá-lo. O motor rugiu. Ela apertou o combustível, correndo para fora da garagem como um foguete.
Mlle Hubert e seu assassino estavam correndo pelo caminho em direção à Grace.
— Mate-a! — a professora gritou, enquanto Grace aumentava a velocidade.
O homem levantou sua arma, mas Grace se inclinou para frente, abraçando a motocicleta enquanto as balas voaram por cima de suas costas.
— Os pneus, seu idiota! — Mlle Hubert gritou.
Mas era tarde demais. Grace passou rápido por eles, criando um uma corrente de vento que jogou o cachecol da Mlle Hubert por cima de seu rosto. O portão da frente estava levemente aberto. Os Vesper não devem ter trancado quando entraram escondidos na escola.
Grace mudou para uma marcha maior enquanto passou pela estreita abertura e foi para a estrada.
— Uhuuuuuu! — ela gritou enquanto avançava rapidamente pelo meio da rua vazia, com seu cabelo voando atrás dela.
Não importava que, com cada solavanco, seu tornozelo gritasse em protesto.
Ela estava viva.

* * *

Era quase de manhã quando Grace chegou ao Arsenal da Marinha de Boston. Contra o céu rosa alaranjado, os enormes navios de guerra pareciam emergir de outro mundo. Grace estremeceu quando imaginou-os sendo forjados por gigantes, enviados à Terra para lutar contra o mal que ameaçava destruí-la.
Tinha sido tolice ignorar todas aquelas cartas da mulher do Louvre. Não, não só tolice. Egoísmo. Imprudência. E fatal. Se tivesse agido antes, talvez ela pudesse ter achado o retábulo. O Sr. Blythe talvez nunca tivesse sido enviado à Alemanha. E ele nunca teria sido acertado por uma bala dos Vesper.
Tinha sido ridículo pensar que ela podia se retirar da caça às pistas, distanciar-se da rixa de séculos dos Cahill com um inimigo implacável. Ao crescer ela sempre associara a palavra Vesper com maldade, mas fora um mal abstrato; como o vilão em um conto de fadas. Nos últimos anos, Grace, como o resto do mundo, vira maldade. Ou pelo menos eles ouviam sobre isso, escutando os experientes locutores que não conseguiam mascarar o horror em suas vozes enquanto relatavam sobre as atrocidades nazistas. Eles leram sobre isso, em artigos de jornal sobre o que os soldados descobriram depois que libertaram os campos de concentração.
Uma fotografia dos prisioneiros passou por sua mente. Os rostos desgastados cuja vida parecia ter sido drenada deles, deixando os olhos ocos e as bochechas afundadas como leitos secos de rios após uma seca. O pensamento dos autores dessas atrocidades deixou Grace fisicamente doente.
Eles eram as pessoas que os Vesper escolheram pra fazer o seu trabalho sujo?
Ela não sabia o que os Vesper queriam, mas até eles acharem, pessoas inocentes continuariam a morrer.
A não ser que os Cahill os destruíssem primeiro.
Navios comerciais não estavam cruzando o Atlântico. O único jeito de ir à Europa era por um navio ou avião militar, e eles não vendiam passagens.
Grace sabia o que tinha que fazer.
Ela inclinou a moto contra uma parede e a cobriu com uma lona suja. Em seguida, com um olhar por cima do ombro, disparou para a borda de uma doca onde os trabalhadores da marina estavam carregando suprimentos para um dos navios.
Grace se enfiou no estreito espaço entre as altas colunas e segurou firme enquanto a plataforma era erguida ao  ar. Poucos minutos depois, houve um grande estrondo, e tudo ficou escuro assim que o caixote foi carregado ao que ela assumiu ser o casco do navio.
Seria uma longa, longa viagem até a França.

* * *

Na primeira vez que a Grace cruzou o Atlântico, tinha sido em um navio de luxo, onde ela passou as tardes tomando chá no salão e as noites ouvindo um trio de jazz tocar sob um dossel de estrelas. As estrelas, provavelmente, não tinham mudado, mas ela não estava em posição de se maravilhar com elas.
Grace não tinha certeza de quanto tempo passou no porão de carga. Não havia nenhuma janela, então ela não podia ver o sol nascer, e não tinha luz suficiente para ela ver seu relógio. Durante três ou quatro dias, ela se encolheu no chão frio, mordiscando os biscoitos que achou em uma das caixas, bebendo de uma mangueira de incêndio que ela encontrou enrolada no canto.
Se a Beatrice pudesse me ver agora, ela pensou sombriamente, imaginando o que sua altiva irmã mais velha diria sobre suas acomodações. Beatrice nunca entraria clandestinamente em um navio da Marinha. Ela deixara claro que não queria nada com os segredos família.
Mas Grace sabia que isso não era mais uma opção pra ela. Os Cahill tinham a obrigação de fazer o que podiam para manter pessoas inocentes longe dos Vesper.
A sua próxima parada seria no Louvre em Paris. Ela descobriria por que aquela mulher, Rose Valland, queria sua ajuda, e qual era seu plano para recuperar o retábulo.
Ela esperava que não fosse tarde demais.

* * *

Grace acordou de sua soneca com as sacudidas dos caixotes ao seu redor. À distância, ela podia distinguir o som de homens gritando, e sentiu uma corrente de excitação atravessar seus membros doloridos. Eles chegaram à Normandia, no norte da França.
Grace deu alguns passos vacilantes para frente e olhou em torno de uma pilha de recipientes de metal. Ela tinha que descobrir como sair do navio sem ser notada. Até garotas de dezessete anos não poderiam se safar por ter se esgueirado a bordo de um navio da Marinha dos Estados Unidos durante a guerra. Ela teria sorte se não fosse baleada no ato.
Ela entrou em um corredor deserto forrado por pequenas janelas redondas que mostravam um céu nebuloso e a água azul-acinzentada. Uma estranha mistura de espanto e tristeza agitou seu estômago quando viu os navios espalhados ao longo da costa. Era a mesma praia em que as forças haviam desembarcado quase um ano atrás, no Dia D, a ofensiva massiva que permitira que os Aliados ganhassem o controle do território crucial no norte da França. Ela lembrou-se dos cinejornais. Os homens saindo das ondas aos milhares, barrando o fogo do inimigo. Um número impressionante de vidas foram perdidas, mas seus sacrifícios não foram em vão. Os alemães tinham recuado.
Agora era a vez de Grace fazer com que o sacrifício do Sr. Blythe não tivesse sido em vão.
Ela chegou ao final do corredor e pressionou seu ouvido contra a porta de metal. Quando se certificou de que não havia ninguém do outro lado, Grace girou a maçaneta e pisou à luz do dia. Ela estremeceu e levantou as mãos para proteger seus olhos.
— Ei! — a voz de um homem gritou.
Grace pulou como se tivesse sido eletrocutada.
— O que em nome de Deus você está fazendo?
Ainda meio cega, Grace se virou e começou a correr.
— Volte aqui!
Grace correu com todas as suas forças, mas ela estava fraca e tonta de seus dias no porão de carga.
— Intrusa!
Os passos atrás dela explodiram em uma dezena de pés batendo e vozes gritando.
Mais à frente, havia uma lacuna na grade onde uma rampa se encontrava com o deque. Ela desviou-se à direita e derrubou o declive escorregadio.
— Peguei ela!
Grace sentiu dedos roçaram seu braço. Ela exclamou e tentou pegar velocidade, mas ela não tinha mais nada sobrando.
Ela estava na metade do caminho para baixo da rampa, e a água apareceu abaixo dela. Era uma queda de quê, seis metros? Sete?
Com as pernas prestes a ceder, Grace usou sua última gota de força para lançar-se sobre a grade. Ela forçou seus pulmões que queimavam a tomar um gole final de ar antes que seus pés tocassem na água, e mergulhou na escuridão.

* * *

Nove horas depois, Grace estava na cidade mais bonita do mundo, mas nem a Torre Eiffel nem a Catedral de Notre Dame tinham seu interesse. Tudo em que Grace conseguia pensar era como seu pé doía e quão ridícula ela devia estar parecendo andando por Paris em roupas sujas de lama que cheiravam a água salgada e gasolina.
No entanto, enquanto caminhava ao longo do Sena em seu caminho para o Louvre, Grace sentiu seu mau humor dissipando-se sob o sol da tarde.
Ela não tinha estado em Paris durante a ocupação alemã, mas estava claro que a cidade deleitava-se com a sua liberdade em sua primeira primavera desde a libertação. O som de crianças rindo dançava pelas ruas de paralelepípedo, as mulheres jovens em roupas coloridas disparavam olhares provocadores para os soldados que descansavam na grama e cafés zumbiam com conversas animadas.
Era difícil acreditar que, pouco tempo atrás, os tanques alemães tinham patrulhado as ruas e cartazes estampados com suásticas adornaram muitos dos edifícios. Paris era a prova viva de que a maré da guerra tinha virado: os alemães estavam recuando.
O estômago de Grace roncou quando ela viu uma pastelaria com a vitrine cheia de biscoitos cor dourados, mas agora não era hora de parar para o lanche. Ao atravessar a Pont des Arts e o Louvre aparecer à vista, Grace se esqueceu de seu estômago. Ela tinha ido a Paris algumas vezes enquanto crescia, mas sempre se espantava com o tamanho, beleza e grandeza do palácio renascentista. Suas três enormes alas cercavam o vasto pátio e Grace não conseguia olhar para ele sem o imaginar cheio de carruagens e senhoras com perucas empoadas.
Grace espanou sua saia suja o melhor que pôde antes de marchar para o hall de entrada. Ela não estava com a roupa ideal para pedir uma entrevista com um dos curadores, mas tinha que servir. Ela ergueu o queixo assim como tinha visto sua mãe fazer antes de expressar sua opinião para um dos muitos embaixadores que vinham à sua casa para o jantar.
Grace caminhou em direção ao balcão de informações, o som de seus sapatos ecoando por todo o vestíbulo quase vazio. A mulher atrás do balcão lixava as unhas. Quando ouviu Grace entrar, escondeu a lixa e olhou com surpresa, mas sua expressão rapidamente se transformou em desgosto.
— Est-ce que je vous aide? Em que posso ajudar?  ela perguntou, franzindo o nariz.
Grace limpou a garganta.
— BonjourJe voudrais un rendez-vous avec Madame Valland. Bom dia. Eu gostaria de me encontrar com Madame Valland.
A recepcionista olhou para Grace como se ela tivesse pedido uma audiência com o presidente.
— Você é americana, não? — Grace assentiu. — Você nadou até aqui?
Grace ergueu o queixo.
— Sim. O Atlântico Norte é lindo nesta época do ano. Especialmente agora que os alemães recuaram. De nada, a propósito.
A mulher fungou.
— E o que você quer com a Madame Valland?
— Isso é privado e confidencial.
— Bem, você terá que marcar hora, Madame Valland é muito ocupada.
— Garanto que ela está me esperando.
A recepcionista levantou uma sobrancelha.
— Rose Valland é a curadora adjunta do mais famoso museu do mundo. Ela é ocupada demais para entreter turistas americanos... molecas de rua... — ela balançou a mão. — Seja lá o que você seja.
Grace sorriu benignamente.
— Tão ocupada que, imagino, não poste suas próprias cartas?
— Eu cuido de todas as correspondências da Madame Valland.
— Então você está ciente, sem dúvida, de que ela esteve escrevendo para Grace Cahill da Academia Miss Harper em Massachusetts?
Ela estreitou os olhos.
— Como sabe disso?
— Eu sou Grace Cahill.
A recepcionista olhou para ela por um momento e se levantou.
— Percebo. Neste caso, mostrarei o escritório dela... mademoiselle.
— Não se incomode. Eu não gostaria de interrompê-la em suas tarefas aparentemente muito importantes.
A mulher corou.
— Quarto andar. Pegue a escadaria ali — ela apontou.
Grace sorriu.
— Merci.

* * *

Ao contrário das cenas alegres que vira lá fora, o Louvre ainda tinha as marcas da guerra. Quando Grace chegou ao quarto andar, encontrou-se em um corredor forrado com molduras douradas ornamentadas, do tipo usado para exibir as obras de mestres da antiguidade como Rafael e Rembrandt. Só que as molduras estavam vazias. No lugar de telas, seus títulos foram rabiscados a giz nas paredes. Ela estremeceu, seguido de um calafrio que não tinha nada a ver com as correntes de ar que sopravam através das galerias cavernosas. Era como caminhar através de um cemitério e reconhecer os nomes nas lápides.
Ela abriu uma porta pequena que dizia ADMINISTRAÇÃO e entrou em um longo corredor. Na metade do caminho, viu uma porta com o nome VALLAND. Estava aberta.
Grace parou. Ela estava tão focada em chegar a Paris que não tinha pensado sobre o que diria quando chegasse. “Desculpe por ter ignorado todas as suas cartas?” “Eu não podia perder o treino de hóquei de campo?” “Eu estava convencida de que minha família era do mal, mas agora sei que os Vesper são piores e aqui estou?”
Ela respirou fundo e bateu na porta.
— Entrez  uma voz chamou.
Grace entrou no escritório. Uma mulher mais velha de cabelo escuro, elegantemente disposta, estava sentada atrás de uma enorme mesa. Livros e plantas cobriam todas as superfícies. Pilhas altas equilibravam-se precariamente nas mesas e cadeiras, e havia documentos espalhados pelo chão. No entanto, apesar da confusão, o escritório não parecia bagunçado ou desorganizado. Em seu terno azul-marinho, a mulher atrás do balcão irradiava calma e autoridade.
Grace limpou a garganta.
— Eu sou Grace Cahill. Acredito que esteja esperando por mim.
Rose Valland olhou para ela pelo o que pareceu um minuto inteiro, indo do cabelo emaranhado de Grace e Às roupas manchadas. Então seu rosto se abriu em um sorriso.
— Bem, isso é uma surpresa — ela fez um gesto apontando para um assento vazio. — Por favor, sente-se.
Enquanto Grace se acomodava na poltrona puída, Rose se levantou para recuperar uma bandeja de chá equilibrada na borda de uma mesa bagunçada e trouxe-o até a mesa.
— Chá?
Grace assentiu e ela lhe entregou uma delicada xícara branca decorada com flores azuis.
— Desculpe por não ter escrito de volta — Grace falou.
Ela pegou a xícara de chá, saboreando o calor que se infiltrava em sua pele.
— Entendo — Rose respondeu, tomando um gole de chá e, em seguida, devolvendo a xícara ao pires. — A guerra está sendo difícil para todos nós.
Grace inclinou a cabeça para baixo, de modo que Rose não pudesse ver o rubor se espalhando por suas bochechas. Ela passou a maior parte dos últimos anos sã e salva na América, longe da luta.
Mas ela estava ali agora.
Ela ergueu o queixo.
— Assumo que você queira que eu encontre o retábulo.
Rose pareceu assustada.
— Como você sabia? Eu não mencionei o nome nas minhas cartas. Era muito perigoso.
Rose ficava cada vez mais pálida enquanto Grace lhe contava sobre o Sr. Blythe e Mademoiselle Hubert.
— Mas por que eles querem o retábulo? — Grace perguntou, levando um momento para bebericar o chá.
Rose se aproximou de uma das pilhas e pegou um grande livro no topo. Ela o trouxe até a mesa e sentou-se em sua cadeira.
— Bem — ela começou, abrindo uma página em que havia uma ilustração do retábulo de Ghent. — Estudiosos sempre foram fascinados pelos elementos que sugerem que Van Eyck viajou muito além da Europa — ela apontou para um conjunto de palmeiras tão realistas que pareciam prestes a começar a se balançar na brisa. — Como um homem que supostamente passou toda a vida na Bélgica poderia pintar palmeiras sem nunca tê-las visto?
Rose moveu seu dedo ao longo de uma estátua clássica no canto de outro painel.
— E isto. É quase uma reprodução perfeita de uma peça de Donatello na Itália. Você tem que se lembrar que, nos dias de Van Eyck, livros eram extremamente raros. Não é como se ele pudesse ter visto uma pintura da escultura de Donatello. A incrível precisão sugere que ele fez viagens que escolheu não documentar.
Ela olhou para Grace.
— Os Vesper acreditam que os painéis escondem um mapa que leva aos locais secretos que Van Eyck visitou.
— O que eles estão procurando?
— Nós não temos certeza — ela apertou os lábios e seu rosto ficou sério. — Mas é importante o suficiente para eles estarem dispostos a matar. — Ela colocou a mão no ombro de Grace. — Venha comigo.
Grace seguiu Rose pelas galerias vazias. Quando passaram por inúmeras molduras vazias, Rose explicou que os nazistas tinham apreendido obras de arte desde o início da guerra, mas o retábulo tivera um fascínio particular.
— O “Cordeiro” tem sido um símbolo de muitas coisas para muitas pessoas — ela falou enquanto elas desciam uma escadaria de mármore. — Ao longo dos séculos, ele foi reclamado pelos governantes, que o viram como uma marca de prestígio. Outros – até os não-Cahill – acreditam que ele esconde a chave para um tesouro inestimável. Hitler está convencido que um dos painéis contém um mapa que leva À coroa de espinhos que Cristo usou durante sua crucificação, que supostamente tem poderes sobrenaturais — ela lançou a Grace um sorriso irônico. — Por isso, provavelmente, foi tão fácil para os Vesper convencê-lo a rastrear.
Elas viraram para uma galeria cavernosa de esculturas. Na penumbra, as poucas estátuas restantes lançavam sombras longas, fazendo parecer que os pedestais vazios eram assombrados pelos fantasmas de seus ocupantes desaparecidos.
— Então precisamos achar o retábulo antes que os Vesper descodifiquem o mapa? — Grace perguntou, passando a mão ao longo do topo de um pedestal vazio onde, de acordo com a placa, uma estátua grega de Atena uma vez descansou. — E eu sou parte do grupo de resgate?
Rose concordou com a cabeça.
— A divisão do seu amigo Sr. Blythe – os Caçadores de Obras-Primas – acredita ter localizado o armazém onde os alemães estão escondendo as obras de arte roubadas.
— Então para que precisa de mim? — Grace perguntou, levantando a voz em frustração.
Rose ignorou seu tom e prosseguiu com calma.
— Os alemães estão monitorando os Caçadores de Obras-Primas. Nós acreditamos que eles têm ordem de destruir o armazém caso os Aliados cheguem perto demais. Eles prefeririam destruir várias obras-primas europeias a nos deixar pôr a mão em seus tesouros roubados.
Grace estreitou os olhos.
— Como você sabe disso?
Rose se aproximou de uma grande urna cerâmica. Ela olhou por cima do ombro, agarrou a alça e puxou.
Em vez do barulho de algo se quebrando que Grace esperava, ela ouviu engrenagens girando. A urna começou a girar, afundando no pedestal de concreto até desaparecer completamente, revelando um compartimento vazio. Rose enfiou a mão ali, tirou uma pasta e acenou para Grace se aproximar. Ela tirou uma pilha de documentos: cartas e telegramas em uma variedade de idiomas.
Grace exclamou quando vislumbrou uma águia preta segurando uma suástica.
— Como você conseguiu isso? — ela sussurrou.
Rose sorriu.
— Porque, querida, eu não sou apenas uma Madrigal. Também sou membro da Resistência Francesa.

* * *

Grace vagou pela galeria vazia em transe. Ela não podia acreditar que tinha concordado com isso. Rose queria que ela parasse os nazistas – que mantivesse o retábulo seguro até os Caçadores de Obras-Primas chegassem. Porque se o “Cordeiro” fosse destruído antes que os Cahill decodificassem o mapa, eles perderiam sua única chance de descobrir do que os Vesper estavam atrás.
Grace sabia por que salvar o retábulo era importante, mas o plano – se é que se podia chamá-lo assim – era insano. Para alcançar o “Cordeiro”, Grace teria de infiltrar-se no coração da Europa ocupada pelos nazistas. O pensamento de ficar na Áustria era uma loucura. Explorar Altaussee – a cidade que Rose identificou – era equivalente a uma missão suicida.
Rose revelou a Grace que ela conhecia alguém que poderia estar disposto a levá-la para Áustria – um contato da Resistência Francesa. Seu código de sigilo impediu Rose de se comunicar com ele enquanto Grace estava na sala, e ela educadamente pediu que esperasse na galeria.
O museu estava tão tranquilo que Grace podia distinguir o som de uma transmissão de rádio proveniente de um dos escritórios próximos.
As cadências familiares liquidadas no ouvido dela enviavam um arrepio na espinha. Era o Presidente Roosevelt – o falecido Presidente Roosevelt, para ser mais preciso. Ele morreu apenas algumas semanas atrás, e todo o país ainda estava de luto. Este programa de rádio francês parecia estar jogando trechos de discursos famosos de Roosevelt. Mas isso era algo que Grace não tinha ouvido antes: um discurso sobre a arte desaparecida na Europa.
— Independente do que estas pinturas possam ter representado para os homens que olharam para elas gerações atrás, hoje elas não são apenas obras de arte. Hoje são os símbolos do espírito humano, símbolos do mundo, da liberdade do espírito humano.
Ela estremeceu. A liberdade do espírito humano.
O Sr. Blythe não sabia nada sobre os segredos do retábulo, e ainda estava disposto a arriscar sua vida para protegê-lo. Ele sabia que valia à pena lutar pela arte.
Não era sobre pistas escondidas ou mapas secretos. Ser um Cahill significava usar seu poder para impedir qualquer mal que ameaçasse a liberdade do espírito humano.
Seja lá o que os Vesper estivessem procurando, eles não poderiam encontrar. Alguém tinha que salvar o retábulo antes que fosse tarde demais.
Ela olhou ao redor da galeria vazia.
Aparentemente, esse alguém era ela.

* * *

Grace olhava nervosamente para a jovem ao seu lado – uma jovem mulher que pilotava um avião monomotor sobre a devastada paisagem austríaca. Sendo uma Madrigal, sabia dos riscos envolvidos, mas voar pelo território alemão em um avião raquítico era uma coisa completamente diferente. Era um desejo de morte.
No entanto, Jane Sperling – se esse fosse mesmo seu nome verdadeiro – parecia completamente à vontade com a pequena aeronave sobre o leste Suíça.
Grace tinha um milhão de perguntas para a garota misteriosa. Como ela conhecia Rose? Por que diabos ela estaria disposta a levar Grace à Áustria? E qual era o seu plano para mantê-las seguras uma vez que entrassem no espaço aéreo inimigo?
No entanto, havia algo no sorriso de Jane que manteve Grace longe de expressar qualquer uma das suas preocupações.
— Então... — Grace tentou mais uma vez, tentando extrair um fragmento de informação. — Você é uma amiga de Rose?
Jane sorriu, mas manteve os olhos voltados para frente.
— Correto.
— Você estava na Resistência com ela?
Ela riu, o que a fazia parecer muito mais jovem. Ela estava mais próxima da idade de Grace do que ela havia percebido.
— Se eu estivesse, você acha que eu teria durado tanto tempo se eu contasse segredos para estranhos? — Jane se virou para olhar para Grace pela primeira vez. — Rose disse que você fala alemão.
— Sim... ja... um pouco. Mas não o suficiente para esconder o fato de que sou americana.
Jane voltou-se para o para-brisa.
— Isso pode ser um problema — Grace endureceu, o que resultou em um bufo irônico de Jane. — Se você já está com medo, estará em apuros lá.
— Se eu não estivesse com medo, acho que eu seria louca — disse Grace, estreitando os olhos.
— E ainda assim você está arriscando sua vida para encontrar o retábulo de Ghent — ela sorriu. — Você deve ser uma grande amante da arte.
— É um pouco mais complicado do que isso — Grace respondeu.
Elas voaram em silêncio. Jane mexeu os controles no painel, e depois se sentou ereta.
— Nós atravessamos a Áustria — ela falou.
O avião afundou sob a cobertura de nuvens, e o campo veio à tona. Parecia algo vindo de um cartão postal – lagos azul-turquesa estavam entre os campos verdes esmeraldas pontilhados com pequenas casas com telhados pontiagudos.
— Você vai voltar para a França? — Grace indagou.
Jane balançou a cabeça.
— Tenho assuntos a tratar na Baviera — ela se virou para Grace. — Isto é, na Alemanha.
— Eu sei — Grace estalou.
Um estrondo à distância balançou a mente de Grace, livrando-a de todos os pensamentos, exceto um. Ela engasgou quando uma aeronave saiu de um banco de nuvens, seguido por mais dois. Cada asa trazia uma cruz em preto-e-branco, que ela reconheceu de inúmeros noticiários. Suas caudas sustentavam grandes suásticas.
Era a Luftwaffe.
A força aérea alemã.

* * *

Sem dizer uma palavra, Jane virou o avião bruscamente para a esquerda, e Grace sentiu seu estômago despencar para os dedos dos pés. Os caças alemães desapareceram de vista, mas ela podia ouvir o zumbido de suas hélices logo atrás.
A superfície verde do chão sumiu repentinamente quando Jane girou o avião. Grace fechou os olhos, o sangue desceu para sua cabeça.
— Segure-se aí! — Jane gritou enquanto nivelava o avião e começava a pegar velocidade.
— Obrigada pelo aviso! — Grace respondeu, sem abrir os olhos. — Eu estava prestes a tirar um cochilo.
Jane riu enquanto puxava o manche para trás ao máximo. O avião começou a tremer.
— Abra os olhos. Você está perdendo a vista.
Os picos nevados da Áustria.
Os Alpes brilhavam a distância.
— En-encantador — disse Grace, quando o avião sacudiu violentamente. Ela juntou as mãos sobre o estômago, uma onda de náusea passando por ela.
Grace ganiu quando o tamborilar de tiros perfurou o rugido dos motores. O avião balançava para frente e para trás. Ela podia ouvir o ping de balas rasgando nas asas.
Jane empurrou o manche para frente, e enviou a nave em queda livre. Elas estavam sendo arremessadas direto para o chão. As casas e as árvores abaixo pareciam crescer a uma velocidade alarmante. Um grito se formou no peito de Grace, mas ficou preso em sua garganta.
No último minuto, Jane endireitou o avião e elas deslizavam sobre as copas dos pinheiros farfalhando ao vento.
— Você está bem?
Grace se forçou a engolir.
— Nunca estive melhor.
Jane sorriu quando fez uma grande volta, contornando a lateral de uma montanha íngreme e entrando em um vale estreito.
— Devemos estar seguras aqui. Esses caças da Luftwaffe são grandes demais para manobrar através desta passagem.
O fosso entre as montanhas era tão pequeno que a luz solar filtrada entre os espessos pinheiros dava-lhe uma coloração esverdeada. Sombras esmeraldas encheram as janelas do avião, fazendo parecer que elas tinham voado através de um portal para outro mundo. Um mundo encantado, intocado pela guerra. Incólume dos Cahill.
Mas parecia ter seus próprios monstros.
À frente, uma forma escura se arremessava na direção delas em uma grande velocidade.
— Parece que eu estava errada — disse Jane, rangendo os dentes. — Há uma primeira vez para tudo.
No passado, situações perigosas sempre tinham feito Grace se sentir mais viva, dando-lhe a energia para fazer o que fosse preciso para sobreviver.
Mas agora não havia como escapar. Uma estranha dormência caiu sobre ela, como se seu corpo estivesse tentando obter uma vantagem sobre a morte.
Houve um rápido tamborilar de tiros, quando os caças que se aproximavam começaram a atirar contra elas. Jane virou com dificuldade para a esquerda até que elas estavam quase na vertical, e depois deu um giro de cento e oitenta graus na direção oposta, balançando o avião para frente e para trás como um pêndulo.
O avião alemão estava tão perto que Grace podia ver a forma do piloto através do para-brisa.
O único pensamento reconfortante era que, em menos de dez segundos, ele seria morto também. Grace fechou os olhos. Ela queria gritar, mas sua garganta não deixaria qualquer som escapar.
Em seguida, ela estava leve, flutuando no ar. Isto deve ser o que se sente ao morrer.
Seu estômago despencou, como se estivesse de paraquedas, fora do avião, sozinha. Ela abriu os olhos e viu que elas estavam subitamente voando baixo perto do chão. O outro avião não estava à vista.
— Uhuuu! — Jane gritou. Ela se aproximou e deu um tapa no ombro de Grace. — Eu sabia que ele ia voar sobre nós no último minuto. Esses nazistas são todos covardes, quando você chega até eles.
Elas voaram para fora do vale e de volta para a luz do sol, passando sobre um prado verde salpicado de flores silvestres.
— Estamos perto de Altaussee. Descerei agora, e então você poderá caminhar montanha abaixo. Tudo bem?
— Absolutamente — Grace respondeu, recuperando o fôlego.
Ela apertou o nariz contra a janela enquanto inspecionava a área. Não havia presença militar óbvia, mas isso não significava que eles não estavam por perto. Os pilotos da Luftwaffe não teriam problemas em colocar as tropas terrestres em estado de alerta, e o exército alemão não aceitaria de bom grado uma garota americana se esgueirando através de sua fronteira. Não seria nem mesmo “atirar primeiro, perguntar depois”. Seria algo mais como “atirar primeiro, em seguida, atirar o corpo no lago”.
Houve uma pancada quando as rodas bateram no chão. Depois de uma curta taxiagem, Jane desligou o motor, apertou a mão de Grace e abriu a porta.
Grace desafivelou o cinto de segurança e se virou para a pilota.
— Obrigada pela carona.
— Boa sorte. Espero vê-la novamente algum dia, Grace.
Grace deu-lhe um aceno de cabeça e pulou.
Ela viu quando Jane, religando o motor, virou o avião e decolou na pista improvisada. Então ela se foi, deixando Grace sozinha em um dos países mais perigosos da Terra.

* * *

Quando chegou à estrada, Grace virou à esquerda. Rose tinha lhe dito que o armazém ficava em algum lugar na cidade, mas a localização exata era desconhecida. Ela poderia muito bem descer ladeira abaixo e tentar se orientar. Ou, pelo menos, pensar sobre como evitar ser morta.
Ela derrapou para baixo, o caminho ladeado de flores silvestres era íngreme.
Grace tinha que continuar se lembrando que estava em território inimigo. Não importava que todas as casas parecessem pertencer a um relógio cuco.
O belo cenário não mudava o fato de que a Áustria estava sob o controle de um dos regimes militares mais cruéis da história moderna.
O som de um carro se aproximando chegou até ela e Grace correu, voando pela rua e se abaixando atrás de uma parede de pedra em ruínas. Quando virou uma esquina, Grace se sentou e olhou por cima da borda. Era apenas um caminhão cheio de legumes. Ela suspirou. Seu progresso seria muito lento se se escondesse cada vez que alguém passase.
Quando ela se aproximou da cidade, as casas cresceram, ficando mais próximas umas das outras. Um garotinho brincava com um cachorro na frente de uma delas.
Grace respirou fundo e endireitou os ombros. Aja como se você pertencesse ao lugar, disse a si mesma.
— Guten Tag! — ela chamou alegremente.
O menino só olhava para ela. Ok, então, talvez os austríacos não fossem simpáticos. Ela só esperava que não tivesse despertado muita desconfiança.
Um grupo de meninos virou uma esquina e começou a caminhar na direção dela. Um deles sorriu para Grace, tirou o chapéu, e se dirigiu a ela, rápido, com forte sotaque alemão.
Ela sentiu seu coração acelerar. Se ela respondesse, eles saberiam não era austríaca, e poderiam fazer perguntas. Usando seus nervos para sua vantagem, ela corou e deu um sorriso tímido. O menino riu e continuou andando.
No momento em que Grace chegou à vila, seu coração batia tão alto que ela ficou surpresa de que o exército não tivesse sido chamado para investigar o tumulto. Sem saber o que fazer, ela se sentou em um banco e tentou o seu melhor para parecer austríaca. O que quer que isso significasse.
clip-clop dos cascos chamou sua atenção e ela olhou para cima. Um cavalo cinza esquelético puxava uma grande carroça coberta por uma lona. Embora o condutor parecesse um agricultor normal, Grace engasgou quando viu os três homens de pé ao lado da carroça.
Com seus longos casacos, botas de cano alto brilhantes e braçadeiras vermelhas, não havia dúvida alguma.
Eles eram membros da SS – a elite da elite – e mortal – unidade do exército de Hitler.
A SS tinha sido uma das chaves para a ascensão de Hitler ao poder. Eles prendiam pessoas no meio da noite. Torturavam qualquer um que pensassem ter informações úteis. Qualquer um que representasse uma ameaça era levado para um beco escuro e morto em seguida. Não importava que Grace tivesse apenas dezessete anos. Que ela fosse uma menina. Se fosse apanhada, seria tratada como um espião.
Ela seria torturada.
Em seguida, morta.
— Alles in Ordnung, Fräulein?
Grace olhou para cima e viu-se diante de um dos oficiais. Ele tinha uma cicatriz curva que se estendia desde o canto da boca até a ponta de sua orelha. Sua expressão era inescrutável.
Ele poderia ter estar comentando sobre o tempo, ou acusando-a de traição.
— Ja — ela resmungou, rezando para que ele tivesse mesmo dito “Como você está?”
O policial olhou para ela por um momento.
Ele balançou a cabeça, girou sobre os calcanhares e começou a marchar em direção à carroça.
Grace, meio relaxando, meio soluçando, escondeu o rosto em sua manga. Ela tinha que sair dali. Não havia nenhuma maneira de ela encontrasse o retábulo. A única coisa a fazer era tentar fugir com sua vida.
Grace olhou para cima e viu a carroça dobrar uma esquina. A lona escorregou um pouco, permitindo-lhe ter um vislumbre da carga. Dinamite.
Era verdade. Eles iam explodir o retábulo.
Se ela estava certa sobre o dinamite, então as chances eram de que a carroça estivesse indo para o local secreto do tesouro. Esta era sua melhor chance.
Grace se colocou de pé e correu atrás da carroça. Quando os oficiais da SS se distraíram, olhando para frente, ela levantou a lona e entrou embaixo dela.
Foi um mergulho de cabeça de um rato num poço de cobras.
Um rato delirante o suficiente para pensar que poderia salvar o mundo.

* * *

Essa é a coisa mais estúpida que eu já fiz, Grace adimitiu para si mesma enquanto balançava para frente e para trás com o movimento das rodas, lutando para conseguir manter o equilíbrio sentada em uma pilha de dinamite fundida.
Depois seguir firmemente por mais ou menos 20 minutos, a carroça parou. Os oficiais começaram a gritar ordens em alemão, e ela ouviu passos pesados de botas se aproximando. Grace se afundou mais no monte de explosivos, rezando para que eles não estivessem planejando descarregar tudo de uma vez só. Havia uma mistura de gritos e movimentação, e Grace podia sentir a camada superior de dinamite sendo carregada para fora do vagão.
A cada movimento, os soldados ficavam cada vez mais perto de descobri-la.
Ela não achava que o se coração poderia bater mais rápido do que já estava, mas então sentiu uma brisa roçar sua panturrilha e percebeu que sua perna estava à mostra. Grance sentiu um estranho torpor, como se quanto mais rápido seu coração batesse, mais devagar o restante de seu corpo apareceria. Em pouco tempo ele pararia para sempre. Ela tinha certeza disso.
Doeria? Ou os soldados só dariam um tiro em sua cabeça e acabariam com isso? Ela se encostou no fundo do vagão, esperando pelo estalar da arma seguido de... o que quer que viesse depois.
— Halt! — uma voz ressoou.
A movimentação da carroça parou, e ela ouviu o som de passos enfraquecer. Quem quer que estivesse descarregando o vagão parecia ter indo embora. Grace se sentou lentamente e rastejou para a borda. Ele respirou fundo e então espiou ao redor.
Para sua surpresa, ela não estava na cidade.
Tinha chegado à conclusão que as obras de arte estariam escondidas em uma vila fortificada, ou talvez em um armazém discreto. Mas a carroça havia parado a meio caminho de uma colina íngreme, perto da entrada de algum tipo de caverna, ou talvez uma mina.
Havia soldados correndo para dentro e para fora, dando ordens para os trabalhadores que carregavam sacos de dinamite lá pra dentro.
Ela se abaixou de volta atrás da carroça enquanto duas longas filas de soldados marchavam em uma rígida formação. O pesado som de suas botas poderia ser usado com um metrônomo. Eles não usavam os uniformes elaborados dos oficiais da SS, mas todos eles tinham braçadeiras vermelhas com o grande brasão da suástica que fez com que o estômago de Grace se revirasse em repulsa.
Alguma coisa estava definitivamente acontecendo. Grace não era nenhuma especialista militar, mas sabia que não se mandava o que parecia ser mais de 40 soldados para guardar uma mina. A menos que houvesse algo importante dentro.
Quando o caminho estava livre, Grace se atirou da carroça e mergulhou atrás de uma rocha grande perto da entrada. Ele recuperou o fôlego por um momento, e então olhou ao redor. Algumas das dinamites estavam sendo carregadas dentro de carrinhos de metal cujos trilhos pareciam levar para dentro da mina. Se o retábulo estava em algum lugar ali dentro, o carrinho provavelmente a levaria para lá.
Ela observou o movimento dos soldados e trabalhadores por um momento, esperando por uma pausa no fluxo. Suas batidas de coração estavam rápidas, mas haviam desacelerado consideravelmente, como se estivesse contando os momentos antes que ela fizesse os movimentos mais arriscados de sua vida.
Três... dois... vai! Grace se lançou de trás da rocha, deu alguns passos leves e pulou dentro de um carrinho, aterrissando com um baque que  estremeceu todo o seu corpo. Ela ouviu um oficial gritar outra rodada de ordens, e de repente, o carrinho começou a se mover. Ela estava indo para dentro da mina.

* * *

A luz desapareceu rapidamente enquanto ela descia pelos trilhos. Por um momento ela foi completamente engolida pela escuridão, mas então o carrinho fez uma curva e Grace se encontrou em uma passagem acesa com lâmpadas bruxuleantes. Ela tentou escutar passos ou vozes, mas não havia nada além do ruído de eletricidade.
Grace ficou de joelhos, estremecendo enquanto esfregava seus ombros. Aparentemente, ser uma Madrigal significava passar toda a sua vida com marcas roxas. Mas enquanto olhava pra cima, uma careta se transformou em um sobressalto. Esta não era apenas uma mina, era um armazém sofisticado. Prateleiras de metal alinhavam-se nas paredes de pedras, intercaladas com pesados ganchos.
Mas não foi isso o que tirou o ar de Grace.
Foram as pinturas.
Havia milhares delas penduradas em fileiras limpas, estendendo-se por todo o caminho da passagem até desaparecerem na escuridão. Pinturas a óleo enormes, pequenas obras pasteurizadas, paisagens horizontais e retratos circulares. Ela piscou, esperando as pinturas desaparecerem, como os fragmentos de sonhos desaparecendo na luz do sol. Mas lá estavam elas. O carrinho parou e Grace saltou para fora. Ele deu uma olhada por sobre o ombro e correu para onde uma tela de lona cobria uma escada. Havia barulhos vindo da passagem, vozes irritadas e passos de botas.
— O que você acha que está fazendo? — um homem sussurrou em inglês.
— Warum sprechen Sie auf Englisch?
— Estou falando em inglês para que ninguém me ouça por acaso e entre em pânico — o primeiro homem respondeu. Grace espiou por um buraco na lona e viu um oficial alto com cabelos grisalhos rangendo os dentes com frustração. — Os Aliados estão vindo. Eles estão a menos de 16 quilômetros de distância.
O outro, também vestindo um uniforme de oficial, encarou-o em choque.
— Quais são as nossas ordens?
O primeiro homem fez uma careta.
— Encher a mina com dinamite e acender o pavio.
O segundo homem olhou em volta aturdido.
— Sem tirar as peças de arte?
— Já — o primeiro oficial cuspiu. — Agora vá buscar seus homens, Schnell!
Ele girou em seus calcanhares e marchou para longe. O segundo homem murmurou alguma coisa em alemão e então o seguiu.
Grace sentiu seus joelhos se dobrarem enquanto se agarrava àfria parede para ter apoio. Ela provavelmente não tinha mais do que cinco minutos para achar o retábulo. Mas então o que aconteceria? Ele não tinha uma arma. Como deveria mantê-lo a salvo até os Aliados chegarem?
Ela olhou em volta para ter certeza de que o caminho estava livre e então saiu de trás da escada. Uma luz na próxima passagem chamou sua atenção – um leve brilho na escuridão. Ela andou em sua direção, sentindo o ar ficando mais frio enquanto entrava mais fundo na mina.
Eram as asas do anjo Gabriel, pintadas com requintadas folhas de ouro, cintilando em uma pintura enorme.
Era o retábulo.
Ela o encontrara.
Inicialmente, ela estava simplesmente hipnotizada pelas cores – matizes vibrantes que ela nunca havia nem pensado em imaginar enquanto olhava para as fotos em preto e branco no livro de sua mãe. Era inquietante ver tantos rostos que ela conhecia tão bem exibidos em uma escala tão grande – como ver uma estrela dos filmes andando na rua. Alguns deles pareciam tão realistas que Grace mal conseguia manter seu olhar fixo. Ela quase se sentia mal em encarar.
Grace olhou em volta. O retábulo estava em uma caverna fora da passagem principal, mais para dentro da mina. Ela bateu com os nós dos dedos na parede de pedra. Parecia forte o bastante para resistir a, pelo menos, uma explosão pequena. Mas isso seria o suficiente para manter o “Cordeiro” a salvo se os Nazistas acendessem o pavio?
Se houvesse uma maneira de selar a entrada da caverna, o retábulo poderia sobreviver a uma explosão maior. Ela correu para fora da caverna, para a passagem. O carrinho ainda estava lá, cheio de dinamite. Ela pegou uma braçada cheia de bananas de dinamite e correu de volta para o retábulo, amaldiçoando silenciosamente o corpo docente da Academia Miss Harper por nunca tê-la ensinado nada de útil.
Como explosivos.
Dez minutos depois, Grace deu alguns passos para trás para avaliar seu trabalho manual. Era reconhecidamente um trabalho ruim.  Seu primo Ekaterina Bae Oh teria certamente rido dela. Mas ela tinha firmado uma banana de dinamite acima da entrada da caverna – longe o bastante para selar a entrada da caverna, mas deixando as paredes e seu conteúdo intactos.
Se a explosão fosse muito grande, destruiria a mina toda – matando a ela e a todos lá dentro. Todos aqueles trabalhadores que ela viu entrando e saindo. Eles não eram nazistas – eram apenas homens lutando para dar assistência às suas famílias na única casa que já conheceram.
Grace pulou quando um grito ecoou pela mina. Até onde ela sabia, aquela poderia ter sido a ordem para evacuar antes que eles explodissem tudo.
Não havia tempo a perder.
Grace pegou uma caixa de fósforos de seu bolso e, com os dedos tremendo, tirou um fósforo. Ela o encarou por um segundo antes de riscá-lo na parede de pedra. Uma minúscula chama dançou na escuridão. Grace olhou uma última vez para o retábulo e sussurrou “Fique com Deus” antes de tocar a chama no pavio.
Por um momento, ela sentiu como se estivesse correndo em câmera lenta. Então houve um bum de chacoalhar os ossos seguido por uma onda de calor.
A força da explosão jogou Grace para o chão. Ele sentiu uma rajada de dor em seu pulso que foi rapidamente ofuscada por uma sensação de queimadura em seu pé.
Ela deitou de costas e viu que estava cercado por uma espessa fumaça preta.
Grace ficou de pé, gritando enquanto uma chama chamuscava sua panturrilha e começava a se espalhar pela barra de sua saia. Ela a apagou com as mãos, deu a volta, e começou a correr por sua vida.
Ela sentiu uma onda de cascalho e fuligem na parte de trás de seu pescoço enquanto subia pelos trilhos. No meio do caminho, encontrou outro carrinho vazio e mergulhou para dentro, ofegando enquanto seu corpo tremia por causa do esforço. Havia um coro de gritos vindo da parte superior.
— Sie sind hier! — uma voz gritou. Eles estão aqui. — Zerstören das Altarbild! — Destrua o retábulo!
Grace ouviu um som baixo, seguido por um guincho que praticamente estourou seus tímpanos.
— O que você quer dizer com a caverna está selada?
Ela não conseguiu conter a gargalhada que explodiu de dentro dela. Grace se virou e viu um soldado parado na frente do carrinho, com a arma apontada diretamente para sua cabeça. E então tudo ficou escuro.

* * *

— Senhorita... senhorita... Você está bem? — uma voz chamava de algum lugar bem distante.
Ela se sentou e foi dominada por um onda de náusea. O mundo era um mar de ondas azuis e linhas verdes que se recusava a entrar em foco.
— Deite-se — a voz comandou enquanto uma grande mão guiou a parte de trás de sua cabeça até o chão.
Ela piscou e viu alguém parado na sua frente. Ele era alto e vestia um uniforme muito sujo.
— Quem é você? — Grace murmurou. Sua boca parecia estar cheia de cinzas.
— Você é americana? — ele se abaixou até o chão e a encarou. — Eu sou o Tenente Greene. O que, em nome de Deus, você está fazendo na Áustria?
— O retábulo está bem? — ela perguntou, tentando se sentar.
Os Aliados haviam obviamente chegado, mas o que acontecera com o “Cordeiro”?
— Como você sabe sobre isso? — ele perguntou, seus olhos se arregalando. — Quem é você?
Grace ignorou a pergunta.
— Eu... Eu... — ela inspirou bruscamente. — Eu acho que posso tê-lo explodido — só dizer as palavras já era o suficiente para fazer seu corpo começar a tremer.
— Uou! Calma aí — Tenente Greene segurou seus ombros. — Está bem. Nós temos um mapa do armazém – ou o que quer que essa coisa seja. O retábulo estava em sua própria caverna, que foi selada de alguma forma. Está sob alguns pedregulhos, mas nossos engenheiros acham que, muito provavelmente, está intacto.
Grace suspirou, se abaixou de volta para o chão e fechou seus olhos.
— Apenas fique aqui — ela ouviu o Tenente Green dizer. — Os médicos estão a caminho. Não se preocupe, nós a levaremos de volta para casa em segurança.
Segurança.
O retábulo não fora destruído. Os Cahill ainda tinham uma chance de descobrir o que os Vesper buscavam e encontrar uma maneira de detê-los.
Algum dia, a palavra segurança significaria alguma coisa novamente.
Ela respirou fundo, inalando o perfume de pinho que pontuava o ar enfumaçado, e sorriu. Se você tivesse que ficar deitada, meio inconsciente, em algum lugar, os Alpes Austríacos não eram o pior lugar para se estar.
Ela tinha a sensação de que terminaria em lugares muito mais estranhos antes que isso tudo acabasse. Ele não iria se esconder mais – das pistas ou da luta conta os Vesper.
Os Vesper estavam certos em enviar Mademoiselle Hubert atrás dela. Grace era uma ameaça. E ela estava apenas começando.

5 comentários:

  1. Mlle Úber não tinha ideia de com quem ela estava lidando


    A derradeira fusão entre Amy e Dan

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  2. Oi Karina,
    Eu achei uns errinhos no texto tem como consertar?Por favor?
    "Mlle Hubert estava com a ponta faca afundando em seu pescoço." acho que aqui faltou uma palavra;
    "indo do cabelo emaranhado de Grace e Às roupas manchadas." e essa frase tem letra maiúscula no meio.
    Valeu Karina!!

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    Respostas
    1. Nossa, tbm n percebi esses errinhos soh agora voltando que os vi.realmente n estou lendo direito.

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  3. Oi Karina,
    No final reparei q estavam se referindo a Grace com "ele" em vez de "ela" vc poderia concertar esse erro?
    Obrigada

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