1 de maio de 2016

Parte 1

Ghent, 1566

Matheus Jacobs raspou a colher na lateral da tigela de madeira, enchendo-a com flocos de cozido seco. Depois que ele terminasse seu jantar, sua visita em casa acabaria e ele teria que começar a sua longa viagem de volta para a catedral. Ele virou-se para a janela. O sol já começava a se pôr, inundando o campo de trigo com uma suave luz alaranjada. Seu pai e seu irmão mais velho, Adriaan, estavam lá fora em algum lugar, tentando persuadir as plantas do solo estéril.
Uma vez que Adriaan herdaria a terra da família, os garotos mais jovens tiveram de aprender uma profissão.
Lukas já era aprendiz do ferreiro local, e assumira que também seria mandado para trabalhar quando completasse treze anos no próximo ano. Mas, em vez de encontrar-lhe um emprego com o padeiro ou o carpinteiro da aldeia, sua mãe arranjara para que ele servisse como coroinha na Catedral de Saint Bavo em Ghent – uma viagem de uma manhã em um cavalo adequado, ou metade de um dia em sua pequena mula, Mungo.
— Você está pronto, beertje? — sua mãe, Anna, chamou do fundo do quarto, onde ela colocava o bebê Greet em seu berço.
Matheus franziu o cenho, embora ele secretamente gostasse quando sua mãe o chamava de “ursinho”, uma referência ao cabelo escuro e encaracolado que o distinguia de seus irmãos louros.
— Você precisa se apressar se quiser chegar à cidade antes do anoitecer — disse Anna.
Matheus olhou para baixo para impedir que sua mãe visse o rubor se espalhando por todo o seu rosto. Seu cabelo não era a única coisa que o distinguia. Ele era o único dos irmãos que tinha medo do escuro – que tinha medo de alguma coisa, na verdade.
Esse era provavelmente o motivo por que ele tinha sido enviado para a catedral, em vez de ser aprendiz. Ele era uma vergonha. O pai de Matheus, Joost, não tinha paciência para seu filho esguio e desajeitado, que mal podia transportar um balde cheio d’água sem encharcar sua túnica. Ele tinha visto a vergonha no rosto de seu pai quando Matheus voltou mancando para casa, depois de perder uma briga.
Antes que Matheus pudesse responder, no entanto, houve uma batida na porta da frente. Isso era estranho. A família e os vizinhos sempre entravam pela cozinha.
— Veja quem é, beertje — Anna pediu.
Matheus ergueu o trinco e abriu a pesada porta, revelando um homem alto e magro com uma roupa estranha. Em vez de túnica e calças, ele usava uma jaqueta de brocado sobre calções e meias de seda branca. Primeiramente, Matheus se perguntou como o homem tinha conseguido ficar tão limpo, mas, em seguida, ele ouviu o patear de um casco. Uma carruagem elegante puxada por quatro cavalos cinza malhados estava parada no meio da estrada.
— Esta é a casa dos Jacobs? — perguntou o homem.
Ele tinha um sotaque estranho e fez uma leve careta enquanto falava, como se as palavras estrangeiras deixassem um gosto amargo na boca. Matheus assentiu.
O homem tirou uma carta da bolsa pendurada em seu quadril.
— Tem certeza? — ele levantou uma sobrancelha. — É traição interferir em uma mensagem do rei.
O rei? Então talvez o mensageiro estivesse procurando por outra família Jacobs. Certamente o rei Felipe não teria assuntos com seus pais.
— Quem é? — a voz de Anna chamou atrás dele. Matheus se afastou para deixar sua mãe passar. — Posso ajudá-lo? — ela perguntou, enxugando as mãos no avental.
— Eu tenho uma carta para Mevrouw Jacobs — disse o mensageiro com uma nota de irritação em sua voz.
— Eu sou Mevrouw Jacobs.
— Mevrouw Anna Jacobs? — perguntou ele, lançando-lhe um olhar avaliador. — Percorri um longo caminho, e não pretendo deixar a correspondência de Sua Majestade com alguma camponesesa.
Matheus viu sua mãe endurecer ao lado dele. Ela ergueu o queixo.
— ¿Está de España? — ela falou em uma língua que ele nunca tinha ouvido antes.
As bochechas do mensageiro coraram ligeiramente.
— Eu não falo espanhol, senhora.
— Você não é da corte do rei, em Madrid.
— Eu sou o mensageiro de Sua Majestade na França.
— Donc, je suis Anna Jacobs. Donnez-moi le lettre, s'il vous plaît.
Tanto o mensageiro quanto Matheus a encararam com olhos arregalados. As únicas pessoas que ele tinha ouvido falar qualquer outra língua além do holandês eram os sacerdotes, que cantavam em latim, e os comerciantes do mercado. No entanto, ali estava sua mãe, conversando em línguas estrangeiras como uma rainha. O mensageiro entregou a carta para Anna, inclinando a cabeça, e, em seguida, caminhou de volta para a sua carruagem. Matheus virou-se para sua mãe devagar, meio que esperando descobrir que ela se transformara em outra pessoa completamente diferente. Mas lá estava ela. Os mesmos grandes olhos castanhos e bochechas rosadas.
— O que está acontecendo? — perguntou.
— Aqui não — ela sussurrou, olhando para a estrada antes de guiar Matheus para dentro e fechar a porta.
Ela ergueu a carta e examinou o selo de cera elaborado. Em vez do brasão real que vira estampado em proclamações e bandeiras, havia um grande C. Sua mãe lhe ensinou a ler e escrever, mas ele não podia imaginar o que a inicial poderia representar.
Anna quebrou cuidadosamente o selo e desdobrou a carta, apertando os lábios enquanto seus olhos viajaram pelo papel. Seu rosto estava tenso, como se os músculos estivessem se esforçando para impedir algum pensamento privado de derramar em seu rosto.
— Mãe, por que o rei está lhe enviando cartas? — Matheus indagou. — E como você fala todas essas línguas? — uma pontada de medo formou-se em seu estômago. — Estamos com problemas? — ele perguntou enquanto imagens aterrorizantes começaram a se derramar para fora dos lugares escuros em sua memória.
Durante o ano anterior, as notícias de distúrbios em outras partes do reino atingiram a sua aldeia. Dissidentes protestantes estavam se manifestando contra a Igreja Católica e o Estado espanhol. Havia rumores de que o exército do rei havia começado a prender pessoas durante os comícios, ou a tirá-las de casa no meio da noite. No entanto, sua família era católica, e ele nunca tinha ouvido nenhum de seus pais falar mal da Coroa.
Anna fechou os olhos por um momento e então respirou.
— Há algo que eu tenho que lhe contar.
A porta dos fundos bateu, e Matheus saltou. Seu pai, Joost, invadiu o quarto, deixando uma trilha de pegadas de botas sujas em seu rastro.
— O que está acontecendo? — ele trovejou. — Eu vi uma carruagem sair.
— Era uma mensagem do rei — Anna ergueu a carta. — Ele pensa que aquilo está em perigo.
— O que está em perigo? — Matheus perguntou.
Seu coração acelerou, uma mistura de medo e frustração percorrendo seu corpo.
— Olhe o seu tom — seu pai retrucou.
— Está tudo bem, Joost — disse Anna, apertando-lhe o braço. — É hora de contar a ele — ela deu um passo adiante em direção a seu filho. — Há uma razão especial porque lhe enviamos para ser coroinha, Matheus — ela lançou um rápido olhar para a janela. — É sobre o retábulo.
Matheus estava esperando que sua mãe dissesse algo que jogaria uma luz sobre o nevoeiro que se instalara sobre ele desde que o mensageiro viera, mas suas palavras só serviram para engrossar o nevoeiro de confusão. A Catedral de Saint Bavo era o lar de um magnífico retábulo – uma série de vinte e quatro pinturas do renomado Jan van Eyck. A obra foi anunciada como uma obra-prima – um dos grandes tesouros do mundo. Artistas viajaram grandes distâncias para estudar a técnica de Van Eyck.
O que o altar poderia ter a ver com a mãe de Matheus?
— Minha avó veio da Inglaterra especificamente para proteger o retábulo. E desde então, um de seus descendentes o protege.
— Protegê-lo de quem? — perguntou Matheus.
— Há um perigoso grupo chamado Vesper que está tentando roubar o retábulo há décadas. E cabe a nossa família – os Cahill – mantê-lo seguro.
Era como se ela ainda estivesse falando uma dessas línguas estrangeiras, pelo sentido que suas palavras faziam para Matheus.
— Por que nós? Será que a igreja não o protege?
Anna balançou a cabeça.
— Eles não sabem nada sobre a ameaça. Os Vesper são mestres em operar das sombras — ela levantou a carta. — Conselheiros Cahill do rei acreditam que os Vesper estão por trás da rebelião atual, e irão usá-la para roubar as pinturas. É por isso que precisamos de alguém na catedral em tempo integral — ela lhe deu um pequeno sorriso e bagunçou seu cabelo. — Alguém como um coroinha.
Matheus deu um passo para trás.
— Mas o que eu devo fazer para protegê-lo?
Ele nunca tinha ganhado sequer uma briga de rua. Como deveria afastar um inimigo misterioso?
Joost suspirou e colocou a mão no ombro de Anna, afastando-a sutilmente.
— Eu disse que ele era a escolha errada — ele murmurou. — Envie Lukas. Ele ainda é jovem o suficiente para ser um coroinha.
Suas palavras queimavam nos ouvidos de Matheus, e depois se espalharam para seu peito como uma chama crescente. Ele sabia que seu pai estava desapontado com ele, mas a prova ouvida foi pior do que ele poderia ter imaginado, como acordar depois de um sonho aterrorizante só para descobrir que o monstro de seu pesadelo está ao lado de sua cama.
— Ele é o único — sua mãe respondeu com firmeza, retornando para encarar Matheus. — Os Vesper não são um exército invasor que você possa esmagar com força superior. Isso é o que os torna tão perigosos.
— Lukas tem uma chance melhor.
— É responsabilidade da minha família, Joost. E nós escolhemos Matheus.
Joost a fitou por um momento.
— Espero que você saiba o que está fazendo — disse ele, colocando o chapéu na cabeça. — Eu estou saindo — ele acenou para Matheus. — Faça o seu melhor, rapaz. Estamos contando com você.
Anna viu-o sair, e, em seguida, caminhou até buscar a capa de Matheus do pino ao lado da porta dos fundos.
— Não dê ouvidos a ele — ela falou enquanto envolvia a lã áspera sobre os ombros dele. — Eu sei que você vai me deixar orgulhosa, Matheus.
Ela deu-lhe um beijo de despedida, abriu a porta e conduziu-o para a luz já fraca.

* * *

— Vamos lá! — Matheus meio gritou, meio gemeu enquanto batia os calcanhares contra a barriga de Mungo. Mas a mula ignorou os chutes exasperados de seu cavaleiro e continuou mastigando o trevo que tinha visto fora da estrada. Era a quarta pausa para o lanche que o animal tinha iniciado em menos de um quilômetro. Ele nem sequer se importava sobre como Matheus deveria proteger o retábulo, senão nunca poderia voltar para Ghent.
O vento tinha aumentado, e a pele do seu pescoço e do rosto começou a arder. Ele estendeu a mão e acariciou os pelos grossos no pescoço da mula.
— Por Favor? Se você me levar de volta antes de escurecer, eu te darei uma cenoura — Mungo contraiu suas longas orelhas, mas continuou mastigando. — E uma grande e suculenta maçã.
A mula levantou a cabeça e bufou, pulverizando a ponta da bota esquerda de Matheus com pedaços molhados de trevo.
Matheus sentou pacientemente enquanto os músculos do animal se contraíram experimentalmente. Era fundamental que Mungo sentisse que fora sua a decisão de continuar. Com um relincho resignado, a mula se arrastou de volta para o caminho.
Matheus suspirou quando afrouxou as rédeas. Mungo escolheria o seu próprio ritmo, de qualquer maneira. À medida que desciam a estrada através da aldeia, a mula entrou em um trote surpreendentemente animado. Sua barriga balançava a cada passo, o que tornava difícil para Matheus manter o equilíbrio.
Eles fizeram uma curva, e estômago de Matheus revirou. Um grupo de meninos com mais ou menos a idade dele estava parado em um círculo, vaiando e gritando enquanto observava uma luta. Matheus se encolheu mais profundamente na sela e puxou o capuz de sua capa para cima. Mas não adiantou. Eles o tinham visto. Normalmente, as crianças protestantes e católicas na aldeia se davam bem, ou pelo menos deixavam as outras em paz. Mas ao longo dos últimos meses, as lutas tinham começado. A maioria de seus vizinhos sabia que Matheus era coroinha, que fazia dele um alvo.
— Olha, é o garoto-coro! — um rapaz desengonçado gritou para seus amigos.
O vizinho de Matheus, Pietor, deu um passo adiante.
— Onde está a sua harpa, anjinho?
Matheus deu em Mungo um aperto firme com suas panturrilhas, mas a mula escolheu esse momento para investigar algumas maçãs podres na sarjeta. Matheus puxou as rédeas com toda sua força, mas ele não conseguia impedir a mula de se apressar em direção à fruta. O animal derrapou até parar na estrada escorregadia, e Matheus despencou em uma poça de lama e maçãs em decomposição.
Os meninos caíram na gargalhada.
— Ainda acha que é especial, coroinha? — o garoto alto chamou.
Matheus os ignorou enquanto tentava montar mais uma vez, mas suas botas estavam cobertas de lama e seu pé escorregava para fora do estribo.
Depois de algumas tentativas fracassadas, ele agarrou as rédeas encardidas e puxou Mungo para longe das maçãs. Ele subiu em uma caixa de madeira e, em seguida, passou a perna sobre a sela. Matheus cravou os calcanhares nos lados inchados da mula e o incentivou a andar para frente.
As gargalhadas dos meninos ecoaram pela praça da aldeia, mas Matheus mal podia ouvi-los. Tudo em que podia focar era no homem de pé na frente da taverna, olhando para ele com uma expressão de decepção amarga.
Matheus enfiou o queixo em sua túnica e olhou para o chão enquanto seguia caminho. Ele fingiria que não tinha visto seu pai. E seu pai poderia fingir que só tinha dois filhos.

* * *

Matheus não conseguia dormir. Era difícil trocar o sonolento calor de sua confortável casa pelo frio do dormitório gelado. O vento sempre o manteve acordado como um incansável companheiro de cama, agitando-se e revirando durante a noite.
Mas os estranhos ruídos eram a menor das preocupações de Matheus. As palavras de sua mãe ecoavam por seu cérebro, afogando todos os outros sons. Matheus era responsável pela proteção do retábulo. Mas o que isso significava? Ele deveria andar de um lado para o outro em sua frente a noite toda, balançando um bastão no ar? Matheus não achava que o sacristão ficaria muito feliz com essa opção. E o que ele faria se alguém tentasse roubá-lo? Ele não podia suportar a lembrança do olhar que viu no rosto de seu pai, e tentou afastar a memória para o canto mais escuro de sua mente. Mas ele ainda podia sentir sua lâmina afiada perfurando através de seus pensamentos.
A respiração alta e regular de seus companheiros coroinhas o encheram de inveja. Eles não tinham mães que lhes atribuíssem tarefas impossíveis e bizarras. Eles não tinham pais que esperavam que eles falhassem.
Matheus olhou para cima, através da estreita janela a partir de seu catre. Uma lua cheia oscilava no canto, distorcida pelo vidro espesso. Já passava da meia-noite, o que significa que o santuário estaria vazio.
Estava na hora de checar o retábulo.
Matheus se levantou e foi silenciosamente em direção à porta, estremecendo quando o frio do chão se infiltrou em seus pés descalços e subiu até as suas pernas. O longo corredor era escuro, mas a lua iluminava pelo menos o suficiente para Matheus encontrar o caminho para o primeiro andar. Ele atravessou rapidamente o pátio e entrou sorrateiramente na sala onde o bispo se encontrava com visitantes importantes, e então passou correndo pelo claustro em frente ao salão.
Matheus parou quando chegou à entrada do santuário. Era estranho estar ali sozinho – normalmente, a catedral estava cheia de devotos, sacerdotes, freiras e coroinhas. Ele deu um passo a frente na nave, o coração da igreja. Demorou ainda mais no escuro.  O longo corredor parecia se esticar interminavelmente, e o púlpito no final era pouco visível na luz fraca.
Ainda assim, mesmo que Matheus geralmente odiasse o escuro, havia algo reconfortante na catedral à noite. Durante o dia, o sol brilhava pelos vidros coloridos das janelas, preenchendo as imagens de santos em tamanho natural com um brilho sagrado que fazia Matheus querer curvar sua cabeça em reverência. Mas à noite, a luz da lua filtrada pela vidraça fazia as imagens parecerem quase humanas.
Enquanto ele andava pelo corredor, passando pelos bancos vazios e pelos nichos escuros que abrigavam altares menores e criptas de pedras, até as sombras eram mais confortantes que ameaçadoras.
Os mesmos formatos se desenrolavam pelo chão branco e preto toda noite, como flores noturnas que viviam por séculos. O tempo parecia parar na catedral. Não havia mudança nas estações. Nem ciclos de nascimento e morte. O ar era sempre pesado com o cheiro de incenso, o eco da música e a memória de orações murmuradas.
Quando ele finalmente alcançou o púlpito, Matheus ajoelhou e fez o sinal da cruz antes de se levantar e virar para encarar o retábulo.
Mesmo com a fraca luz ele perdeu o fôlego. Os painéis articulados estavam abertos, então a parte interna estava visível – 12 pinturas de tamanhos diferentes que haviam sido conectadas para formar uma tela. Todas juntas, a peça inteira, era maior que a frente da sua casa. Os olhos de Matheus primeiro viajaram até o painel central, onde a imagem de Deus olhava para baixo, de seu trono dourado. Um arrepio desceu por sua espinha e ele inclinou a cabeça para olhar para a grande cena no painel de baixo, a pintura mais celebrada do retábulo – “A Adoração do Cordeiro Sagrado”, onde Van Eyck retratou o momento anterior ao sacrifício. O cordeiro permanecia orgulhoso sobre o pedestal em um campo verde, rodeado de anjos.
Grupos de devotos assistiam de uma distância respeitável. O sol brilhava sobre o povo reunido e, parado na fria e escura catedral, Matheus conseguia imaginar o calor em sua pele.
Van Eyck gastou seis anos nas vinte e quatro pinturas individuais, e o nível de detalhes era impressionante. Cada uma das centenas de imagens tinham rostos únicos e expressões distintas. As túnicas dos santos caíam em lustrosas ondas sobre a grama. Estranhas e exóticas folhagens desabrochava no plano de fundo. Matheus conseguia apenas imaginar quão longe alguém teria que viajar para ver plantas como aquelas. Ainda que não houvesse provas de que Van Eyck deixara os Países Baixos, havia rumores de que seu patrono, o Duque de Burgundy, enviara o artista para terras distantes em negócios da corte. Teria essa jornada alguma coisa a ver com os Vesper?
Matheus ficou vesgo ao examinar algo que ele havia encontrado no outro dia. Uma das imagens no painel inferior esquerdo tinha símbolos estranhos bordados em sua capa. Parecidos com letras, mas não estavam em um idioma que Matheus tivesse visto antes.
Um baque alto abalou o silêncio do santuário. Matheus sentiu seu coração vibrar enquanto ele se virava. Poderia estar acontecendo um ataque? Ele abriu os braços para os lados, como um ganso protegendo um bando de gansinhos. Exceto que seus membros finos dificilmente evitariam que mesmo uma mosca pousasse no retábulo. Houve outro estalo, seguido por um som de metal batendo em pedra.
Havia alguém no santuário.
— Quem está aí? — Matheus grasnou, encolhendo-se ao perceber o quanto sua voz soava fraca e vacilante na vasta catedral. Ele limpou sua garganta e tentou novamente. — Mostre-se!
Ele procurou desesperadamente a sua volta por uma arma, mas não havia nada. Em um momento de pânico, ele se arremessou para trás de uma das colunas e se escondeu lá, tremendo.
Uma centelha de luz trepidou através da escuridão. Matheus espiou por detrás da coluna e viu uma pessoa segurando uma vela.
Faça alguma coisa! O cérebro de Matheus gritou para ele, mas seus pés permaneceram firmemente plantados no chão.
— Olá? — uma voz profunda ressoou.
Ao invés de ser absorvida pela magnitude do silêncio, a voz ecoou pelas paredes como um grande pássaro deslizando de poleiro em poleiro.

* * *

Matheus caminhou até a trêmula luz lançada pela vela, e suspirou quando viu que a pessoa vestia roupas de sacerdote. Mesmo sendo difícil de afirmar no escuro, Matheus tinha quase certeza de que nunca tinha visto aquele homem antes.
— Boa noite, padre — ele cumprimentou respeitosamente.
— Olá — o sacerdote respondeu. Era difícil saber se ele estava zangado ou apenas surpreso ao encontrar um coroinha espreitando pelo santuário tão tarde. — E quem seria você?
— Meu nome é Matheus Jacobs.
— Ah. Eu sou o padre Gerard. Acabei de ser transferido de Bruges, sabe. Acredito que eu ainda esteja me acostumando com meus novos arredores. Pode ser bem difícil cair no sono em uma casa nova — ele fez um gesto abrangendo as sombras ao seu redor. — Mesmo uma casa magnífica como esta.
— Eu não consegui dormir também — Matheus concordou, aliviado que passear pela fria catedral no meio da noite parecesse ser uma cura aceitável para insônia. — Eu tive um sonho em que o retábulo estava em perigo, então eu vim checá-lo.
O sacerdote o encarou por um momento antes de dar um riso abafado.
— Entendo. Que dedicado — ele deu um passo pra trás. — Mas não há nenhum motivo para preocupação.
— É claro, padre.
— E provavelmente é melhor você ficar no dormitório, Matheus. Nós não podemos ter garotinhos andando por aí a noite, mesmo sendo bem intencionados.
Matheus sentiu suas bochechas ruborizarem
— Sim, padre.
O sacerdote sorriu.
— Boa noite, meu filho.
Matheus correu de volta para o corredor. Quando alcançou o topo, ele parou e olhou de relance sobre os ombros. O sacerdote permanecia encarando o retábulo. Na escuridão, o contorno de sua túnica se misturava com as sombras, fazendo com que ele parecesse mais como uma estátua que com um homem, como se ele fosse uma parte da catedral quanto as janelas e as pedras.

* * *

Matheus caminhou para a luz solar e olhou de soslaio, ajustando a pesada cesta em seus braços em uma tentativa de encontrar uma melhor forma de segurá-la. Depois do café da manhã, padre Gerard puxou Matheus para o lado com instruções para uma tarefa. Uma família em uma vila próxima perdera uma criança, e padre Gerard estava enviando uma cesta de comida para eles. Por mais que Matheus tivesse explicado que somente os coroinhas mais velhos tinham permissão para se afastar tanto da catedral, o padre insistiu.
Ele chegou à conclusão de que seria bom para Matheus – a jornada iria cansá-lo o bastante e ele não teria mais problemas para dormir. O padre deve ter notado o olhar de incerteza no rosto de Matheus, porque ele riu e disse:
— Você pode pegar o meu cavalo, Brutus. Ele está precisando se exercitar.
Enquanto Matheus marchava pelo caminho estreito que levava das cozinhas para os estábulos, sentiu uma mistura de agitação e apreensão. Ele estava feliz por abandonar seus deveres de limpeza e polimento daquele dia, mas parecia errado deixar o retábulo sozinho depois dos estranhos eventos do dia anterior. Mas que danos poderiam possivelmente ocorrer no meio do dia?
Mungo estava no curral, deitado no chão com suas pernas cabeludas para o alto enquanto ele se contorcia na lama, tentando coçar um ponto difícil de tocar em suas costas. Quando viu Matheus, ele rolou para o lado e ficou de pé com dificuldade. Ele levantou suas orelhas e encarou Matheus, um enlameado soldado de quatro pernas postos.
— Desculpe, Mungo — ele falou. — Hoje não.
A mula trotou e enfiou seu pescoço entre a cerca para encostar o focinho na manga de Matheus. Ele deu uma rápida coçadinha no nariz de Mungo e então o empurrou para longe.
— Eu não vou te levar hoje. Você é muito lento.
Seu destino ficava na periferia da cidade, perto da vila de sua família, e ele não estava com humor para perder outras quatro horas implorando ao animal preguiçoso que se movesse.
Ele correu para os estábulos, onde os cavalos dos clérigos, de melhor qualidade, eram mantidos, selou Brutos, um cavalo marrom com boa ossatura, e o levou para fora. Foi um pouco difícil montar no alto cavalo enquanto segurava uma cesta de comida com um braço, especialmente quando Brutos começou a relinchar e empinar. Mas Matheus conseguiu subir na sela.
Mungo bufou de seu curral e pateou.
— Está tudo bem — Matheus disse para a mula enquanto reunia as rédeas de Brutus. — Estarei de volta logo.
Ele deu a Brutus uma esporada, e o cavalo partiu em um trote, espelhando um bando de galinhas pelo ar.
Matheus sorriu enquanto eles voavam pela estreita ruazinha, salpicando lama e desviando das criadas que esvaziavam cestos de roupa nas janelas dos fundos. Enquanto eles saíram bruscamente do pátio em direção à estrada principal, Brutos se apressou em um galope. Era emocionante sentir o vento batendo em seu rosto e ouvir o rápido bater dos cascos de Brutus enquanto eles engoliam o chão. Se apenas seu pai pudesse vê-lo, trovejando ao longo do canal com sua túnica branca de coroinha ao vento. Ele certamente parecia digno de proteger o retábulo agora.
Quando ele chegou ao seu destino e entregou a cesta, já era o fim da tarde, sua parte favorita do dia. A paisagem ficava mais confiante em sua beleza; o verde das colinas parava de se esforçar para superar o azul do céu, e as cores se tornavam mais suaves, mais harmoniosas.
Matheus apertou as rédeas e pediu a Brutus que trotasse. Se ele se apressasse, teria tempo de visitar o mercado do lado de fora da vila. Embora Matheus não tivesse dinheiro algum para gastar, era divertido examinar a vasta quantidade de produtos – os montes de maçãs vermelhas, as pilhas de peixe fresco, a seda vinda do Oriente.
Ainda assim, enquanto ele contornava a curva que levava ao mercado, não foi o som das barganhas ou o cheiro de carne assada que chamou a atenção de Matheus.
Um homem estava de pé em uma pilha de caixotes de madeira, rodeado por um público. Ele fazia algum tipo de discurso, embora fosse difícil entender as palavras. Depois de quase tudo o que ele disse, a audiência respondeu com vivas ou gritos próprios.
— Nós permitiremos que o rei persiga nossos irmãos?
Uma quantidade de pessoas balançou suas cabeças enquanto murmurava em desaprovação em meio à multidão.
— Iremos nos sentar ociosamente enquanto a Igreja apodrece com a corrupção da ganância humana?
— Não! — algumas pessoas responderam.
Matheus parou Brutus abruptamente, entretanto seu coração continuava a bater rapidamente. Ele sabia que deveria dar meia-volta e pegar outro caminho para retornar a Ghent. Em sua túnica de coroinha, ele era a última pessoa que a multidão estaria feliz em ver. Ainda assim, havia alguma coisa magnética sobre o orador. Era assustador, mas também um pouco excitante ver pessoas normais – lavradores, trabalhadores e comerciantes – falando sobre religião com tanto entusiasmo.
— Na semana passada, nossos bravos irmãos e irmãs na Antuérpia se levantaram para defender a justiça. Eles tomaram a catedral! — a audiência comemorou. — Eles queimaram as artes heréges.
O estômago de Matheus se revirava enquanto uma onde de aplausos e vivas surgiam em meio a praça. O clima do grupo estava mudando rapidamente.
Um homem parado na frente de Matheus limpou sua garganta. Ele era alto e vestia um chapéu e uma capa preta de viagem.
— A catedral de Ghent tem ainda mais tesouros! — ele gritou, sua voz se elevando sobre a multidão. — Se nós queremos provar nosso poder, deveríamos destruí-los também.
Um olhar de preocupação passou pelo rosto do orador.
— Bem, talvez isso devesse esperar...
— Nós não podemos nos dar ao luxo de esperar. Estamos sofrendo nas mãos deles por muito tempo — o homem na capa levantou seu queixo. Ele era tão alto que não precisava subir em nada para ser visto pela maioria das pessoas. — Agora é a hora de nos mantermos unidos, mostrar a eles o nosso poder.
— Ouçam, ouçam! — um homem gritou do outro lado da praça, desencadeando uma enxurrada de acenos com a cabeça e murmúrios.
— Nós mostraremos a eles o que pensamos de seus ídolos — o homem de capa cuspiu. — Nós queimaremos os símbolos de sua ganância. Todas as pinturas. Seu amado retábulo.
Matheus engasgou, mas o som foi perdido no frenesi de vivas.
— Amigos, por favor — o primeiro orador disse. — Eu insisto que vocês...
O homem de capa cortou sua fala.
— E nós destruiremos qualquer um que estiver em nosso caminho!
— Nós começaremos aqui! — gritou uma mulher que Matheus reconheceu vagamente. — Os católicos em nossa vila precisam aprender uma lição!
A audiência começou a seguir pela estrada, mas o homem de capa permaneceu no lugar, avaliando a cena com um sorriso sereno. Enquanto a praça se esvaziava, ele caminhou na direção contrária e desapareceu nas sombras. Mas Matheus não tinha tempo para se preocupar sobre onde ele poderia estar indo.
Algo terrível estava para acontecer. Os desordeiros já estavam se movendo em direção a Ghent – por um caminho que os levaria diretamente pela sua vila.
Matheus deu um puxão em suas rédeas e incitou Brutus a frente.
Ele não tinha certeza no que estava em perigo maior: o retábulo, ou sua família.

* * *

Matheus e Brutus romperam pelas árvores, descendo por colinas escorregadias e arbustos cheios. Mas enquanto eles faziam a curva que levava à vila, Brutus derrapou em uma parada abrupta. Matheus estremeceu quando aterrissou no pescoço do cavalo antes de se ajeitar com um gemido.
— Vamos  — ele disse, rangendo os dentes enquanto tentava esporear Brutus para frente. Mas o cavalo simplesmente levantou sua cabeça elegante e bufou, sacudindo as orelhas nervosamente.
Foi quando Matheus sentiu o cheiro de fumaça. Ele segurou as rédeas e deu a Brutus um aperto firme, fazendo o cavalo começar uma rígida caminhada. Eles viraram a esquina e Matheus inspirou profundamente.
Um grupo de pessoas diferentes já havia se juntado em frente a uma pequena casa. O telhado pegava fogo. Mas ao invés de jogar água ou tentar apagá-lo, a multidão gritava.
— Queimem os infiéis! — alguém berrou, incitando um coro de vivas.
O ataque havia começado.
Com uma onda de terror, Matheus cutucou Brutus em um trote, levando-o para fora da estrada para passar pela multidão. Ele continuou pelo lado de fora da curva, e quando teve certeza de que o caminho estava livre, incitou o cavalo a um galope.
Vai ficar tudo bem, ele disse para si mesmo, enquanto passavam pelo caminho de árvores alinhadas que levava para sua casa. Vai ficar tudo bem. Ele repetiu essas palavras no mesmo ritmo do bater dos cascos de Brutus. Vai ficar tudo bem. Ele conseguiria avisar a sua família antes que os desordeiros chegassem. Eles estavam a pé. Ele estava a cavalo.
Ele pensou na mulher que vira em frente à casa em chamas. O olhar de horror e o coração despedaçado em seu rosto enquanto ela via sua casa destruída.
Isso não vai acontecer com a gente.
Eles galoparam para o alto da colina que levava para a vila. O sol estava baixo no horizonte, e ele podia ver o brilho de lampiões flutuando na névoa crepuscular.
Enquanto Brutus subia a colina, mandando torrões de barro em todas as direções, as luzes ficavam mais fortes. Não eram lampiões. Eram tochas.
Os desordeiros haviam pegado um atalho pelos campos de trigo.
Ele chegara tarde demais.

* * *

Enquanto Matheus conduzia Brutus na direção de sua casa, tudo se tornou estranhamente silencioso. Ele não conseguia ouvir o crepitar das tochas, ou qualquer grito que pudesse ser ouvido à distância. Tudo o que ele conseguia ouvir era os cascos de Brutus e a batida de seu próprio coração. Já havia pessoas do lado de fora. Eles estavam bloqueando as janelas, então Matheus não conseguia saber se alguém ainda estava dentro da casa.
A porta se abriu, e o pai de Matheus foi para o lado de fora.
— O que vocês querem? — Joost gritou.
Apesar de seu tom áspero, havia medo em seus olhos.
— Nós queremos que você pare de contaminar a nossa cidade com seus modos pecaminosos — um homem falou, iniciando uma rodada de vivas.
Enquanto a multidão gritava, um grupo de pessoas seguia pela lateral da casa, indo para a porta dos fundos.
Matheus estava quase indo atrás deles quando um craque alto chamou sua atenção.
Joost se abaixou quando uma grande rocha foi arremessada em sua direção. Ela quicou no batente da porta e caiu no chão com um pesado baque.
Havia uma agitação de movimentos enquanto os desordeiros vasculhavam o caminho por mais pedras. Bem na frente de Matheus, um homem grande com músculos enormes se endireitava em sua túnica, erguendo os braços e jogando uma rocha do tamanho de um melão por cima de sua cabeça.
— Não! — Matheus gritou, espetando Brutus com seus calcanhares. Mas o cavalo empacou, não querendo ir para nenhum lugar perto dos desordeiros e suas tochas. Ele bufou e se virou em seus cascos traseiros.
Sem pensar, Matheus pulou da sela e envolveu seu braço ao redor do pescoço musculoso do homem. Ele soltou a pedra enquanto se debatia, tentando lançar o garoto para longe. Matheus o chutou no estômago, e então caiu no chão quando o homem se curvou para frente, dobrando sobre sua barriga.
Ele correu pelo meio da multidão, empurrando seu pai pela porta antes que os desordeiros tivessem a chance de reagir.
— Matheus? — Joost perguntou, como se quase não pudesse acreditar que aquele garoto parado na sua frente fosse seu filho.
— Onde está a mamãe? — Matheus replicou, procurando freneticamente pela sala principal.
— Oh, beertje — ela disse, saindo apressada do quarto, carregando Greet. — O que você está fazendo aqui?
Matheus correu até ela, jogando os braços em volta de sua cintura.
— As janelas estão trancadas? Eles podem tentar entrar pelos fundos.
— Sim — Anna confirmou, colocando Greet em seu berço. — Nós tínhamos a sensação de que isso poderia acontecer. É por isso que era tão importante que você vigiasse o retábulo.
O peito de Matheus se apertou quando ele ouviu o pânico e a frustração em sua voz.
— O sacerdote me enviou em uma tarefa. Eu vi o grupo de desordeiros se formar.
Ele respirou, mas todas as palavras que ele estava desesperado para falar pareciam ter se entalado em sua garganta.
— Que sacerdote?
— Um novo... Padre Gerard.
Assim que o nome saiu de seus lábios, uma onda de frio passou por ele. Como ele pôde ter sido tão tolo? Padre Gerard não estava só dando uma volta na noite anterior. Ele não mandou Matheus sair só pra ser bom. Ele estava tentando mantê-lo longe do retábulo.
Ele era um Vesper.
— Mil desculpas — Matheus disse fracamente... eu nunca deveria ter...
— Está tudo bem — Ana falou, colocando seus braços em volta dele. — Logo que tudo estiver seguro, você voltará. Não é tarde demais.
— Não — Matheus gritou. A energia que havia abastecido sua jornada de alta velocidade havia desaparecido. Agora ele se sentia fraco e vazio. — Eu não vou embora.
Joost andou até ele e colocou sua mão no ombro de Matheus.
— Você mostrou uma coragem extraordinária hoje. Eu preciso que você continue forte e ouça sua mãe.
Há algumas horas, ouvir seu pai falar essas palavras teriam enchido Matheus de alegria, mas agora tudo o que ele conseguia pensar era nas tochas brilhando do outro lado da janela. Os gritos e barulhos que pareciam chacoalhar todas as estruturas da casa.
Os três deram um pulo quando um barulho de algo quebrando encheu o espaço. Matheus sentiu seu estômago pesado quando uma pessoa apareceu na porta da sala, limpando cacos de vidros de suas mangas. Era o homem de capa preta.
— Desculpem a intromissão — ele disse, andando para dentro do cômodo. Ele tinha um leve sotaque estrangeiro que Matheus não havia notado mais cedo. — Eu teria usado a porta da frente, mas não queria interromper as festividades.
Anna inspirou profundamente.
— Você é um deles, não é? Um Vesper — seu tom de voz tinha partes iguais de medo e incredulidade, como se ela estivesse falando com uma criatura que só deveria existir em lendas.
Joost andou pra frente.
— O que você está fazendo na nossa casa?
— Eu planejava fazer uma visitinha à Catedral de Saint Bavo esta noite. Ouvi que o retábulo é ainda mais impressionante à luz de velas. E então chegou aos meus ouvidos que vocês poderiam me iluminar ainda mais sobre as pinturas — ele riu. — Veja, eu não sou nenhum especialista em arte, e ficaria muito satisfeito com qualquer ajuda que vocês puderem oferecer.
— Nós não sabemos de nada — Anna disse firmemente.
O homem deu um suspiro exagerado.
— Eu temia que você dissesse isso — ele mexeu em sua capa e tirou uma longa adaga. Matheus estremeceu, como se olhar por si só fosse o suficiente para fatiar seus olhos.
O homem assoviou, e duas outras pessoas entraram no quarto. Um homem e uma mulher, ambos vestidos todos de preto. A mulher estava vestindo calças ao invés de uma saia, mas seus estranho vestuário era ofuscado pelo sorriso cruel que brincava em seu rosto longo e magro.
— Me diga como o mapa funciona, e nós os deixaremos pacificamente. Eu até farei com que a multidão se disperse — o olhar do homem deslizou na direção do berço do Greet. — Se não, vocês apenas tornarão as coisas difíceis para si mesmos.
— Eu não sei — Anna falou, incapaz de esconder o desespero em sua voz.
O homem olhou por sobre os ombros e apontou com a cabeça na direção do berço. Seus dois cúmplices caminharam na direção de Matheus e Joost, e antes que qualquer um deles tivesse tempo de reagir, forçaram suas mãos em suas costas.
— Afaste-se de mim! — Matheus gritou, contorcendo-se dolorosamente enquanto tentava chutar a canela da mulher com sua espora. Mas ela segurava firme. O homem deu alguns passos a frente, chegando perto do berço de Greet.
— Não! — Anna gritou com uma voz que não era a sua própria.
Dificilmente era humana, um som que continha todo o sofrimento do mundo. Ela se jogou em cima do homem, dando uma cotovelada em sua garganta. Ele se protegeu enquanto segurava o punho dela, então mergulhou a lâmina no peito de Anna. Ela ofegou mas não gritou, e por um momento, Matheus estava convencido de que ele tinha visto errado. Era um truque da luz. A adaga não a havia tocado. Tudo iria ficar bem.
Mas então Anna caiu para trás em direção ao chão, caindo com um baque que Matheus sentiu em seu peito.
Seu pai se afundou em seus joelhos e a encarou em silêncio, como se não quisesse profanar o último ato de sua mulher como seus próprios sons.
— Procure pela casa — o homem ordenou.
A mulher de calças pretas soltou os braços de Matheus, que correu na direção de Anna, derrapando em seus joelhos quando se curvou.
— Mãe.
Ele passou a mão pela bochecha dela, que estava tão quente e rosada como sempre estivera. Ela devia ter apenas desmaiado. Ela ficaria bem.
Os olhos dele viajaram por todo o corpo imóvel dela até alcançarem o cabo da adaga brotando de seu peito, rodeado por um círculo vermelho crescente. Ele encarava aquilo sem compreender, como quando ele se deparava com uma palavra que não entendia da Bíblia. Seu cérebro não conseguia processar a imagem. Não fazia sentido. Não podia ser real.
— Mãe — ele disse, balançando gentilmente o ombro dela. — Está tudo bem. Eles estão partindo — ele olhou em volta do quarto. — Nós vamos conseguir ajuda para você agora.
— Vá — seu pai murmurou, caindo de joelhos ao lado da mulher. — Vá agora. Eles estão indo para o retábulo.
Matheus pegou a mão de Anna.
— Se levante, mãe. Nós precisamos partir.
— Matheus — seu pai falou, a voz embargada. — Você tem que ir!
Ele soltou a mão de sua mãe e a observou cair flacidamente até o chão. Ele se sentou em seus calcanhares quando sentiu um aperto entorpecido se espalhar pelo seu peito, como se suas costelas estivessem tentando esmagar seu coração até a morte.
Ela se foi.
— Matheus! — seu pai chorou. — Por favor — um soluço escapou dele. — É o que ela iria querer.
Ele se levantou tremendo e olhou para seu pai. Joost assentiu.
Matheus se virou para sua mãe uma última vez, embora fosse difícil vê-la por trás das lágrimas quentes que haviam começando a brotar de seus olhos.
Ele enxugou seu rosto na manga e seguiu em direção à porta.

* * *

Matheus escorregou para fora pela janela. Os baderneiros ainda estavam na frente da casa, mas haviam se espalhado ao longo da estrada. Pareciam estar esperando instruções do homem de capa preta.
Ele olhou em volta. Brutus não estava em nenhum lugar à vista.
Ele estava completamente sozinho.
De repente, as botas de Matheus pareciam tão pesadas que ele achou que não conseguiria dar nem mais um passo. Sua mãe estava morta. O retábulo estava em perigo. E ele estava há dezesseis quilômetros de distância, sem nenhum jeito de voltar pra Ghent.
O mundo começou a girar, e Matheus teve que se segurar na cerca para se equilibrar. Ele queria se sentar. Ele queria ir dormir e acordar quando tudo isso tivesse acabado – ou nunca mais acordar.
Estava quase fechando os olhos quando uma forma emergiu da escuridão. Uma forma com quatro pernas... e orelhas muito grandes.
Era o Mungo.
Pelos pedaços de madeira grudados em seu pelo encaracolado, parecia que ele havia quebrado e atravessado a cerca de sua baia na catedral.
E pela lama que cobria suas pernas entroncadas, parecia que ele estava com pressa de chegar ali. Matheus não sabia se a mula viera encontrá-lo ou se estava procurando por comida, mas ele não se importava. Ele arremessou seus braços em torno do pescoço de Mungo enquanto as lágrimas caíam em sua crina áspera.
— Peguem aquele garoto! — uma voz gritou.
Matheus se virou. Era a mulher de calças.
Segurando-se na crina para se equilibrar, Matheus subiu na cerca e saltou para as costas nuas de Mungo. Antes mesmo que ele tivesse tempo de dar uma esporada na lateral da mula, Mungo partiu.
— Parem-no! — a mulher berrou.
Havia uma agitação de passos quando algumas pessoas começaram a correr atrás de Matheus. Ele olhou por cima do ombro e viu alguns homens pularem em cima de cavalos e começarem a descer a estrada atrás deles.
Matheus agachou em cima do pescoço de Mungo, incitando-o adiante. A mula se esticou até o mais próximo que podia de um galope. Matheus escorregava de um lado para o outro a cada passo, se agarrando com suas pernas para salvar sua preciosa vida.
A maior velocidade de Mungo não era páreo para os cavalos os perseguindo. Matheus podia ouvir as batidas dos cascos chegarem cada vez mais perto, os rápidos baques ultrapassados apenas pela frenética batida de seu coração.
Era difícil montar sem uma rédea, mas, guiando Mungo com suas esporas, Matheus conseguiu incitar o burro para fora da estrada principal e em direção à trilha que levava pela floresta.
A cobertura de folhas era tão densa que bloqueava as últimas luzes do dia, fazendo parecer que eles estavam galopando para um abismo. Matheus ouviu os cavalos atrás deles relinchando em protesto, mas Mungo estava destemido e cheio de energia.
Uma agitação de gritos e estampidos de chicotes atravessou o som de cascos martelando e cavalos ofegantes.
Ele estavam chegando mais perto.
À frente havia um muro de pedras que corria ao longo do canal. Se ele pudesse pensar em uma maneira de dar a volta nele – e convencer Mungo a entrar na água – eles conseguiriam usar um atalho para chegar em Ghent.
As árvores começaram a rarear quanto mais perto do limite eles chegavam. Nas luzes fracas, Matheus podia ver o muro ficando maior. Ele virou sua cabeça, procurando por uma abertura, mas o muro seguia tão longe quanto ele conseguia ver.
Se quisesse ultrapassá-lo, eles teriam que pulá-lo.
Matheus afundou suas esporas mais fundo na lateral de Mungo. O muro parecia que tinha aproximadamente 1,3 metros de altura. A mula conseguiria pular tão alto?
Os cavalos atrás deles estavam chegando ainda mais perto. Ele quase conseguia sentir seus bafos quentes em seu pescoço.
A alguns passos do muro, Matheus apertou Mungo o mais forte que conseguiu e decolou nas costas do burro. Sem perder o ritmo, Mungo jogou seu traseiro para o alto, não acertando o topo do muro por apenas uns poucos centímetro e aterrissando na água com um splash.
Matheus se virou e viu os cavalos derrapando e parando. Um cavaleiro agarrou no pescoço de sua montaria no último minuto. O outro foi catapultado por cima da cabeça de seu cavalo e tombou na margem lamacenta, aterrissando com um gemido.
Matheus deu a Mungo um grande afago e o enviou em frente, vasculhando pela água escura. À distância, a geralmente escura paisagem urbana estava cheia de pontos de luz agrupados. Os baderneiros haviam invadido a cidade também. Era só uma questão de tempo antes de atacarem a catedral.
Ele apenas esperava que não fosse tarde demais.

* * *

No momento em que Mungo e Matheus entraram no estábulo, os dois estavam ensopados e tremendo. No entanto, Matheus mal sentia frio.
Ele não tinha certeza se poderia sentir qualquer outra coisa de novo.
Matheus desmontou e correu para o pátio deserto.
— Eles estão vindo — ele gritou, enquanto cambaleava para o dormitório — eles estão vindo!
Apesar de sentir a força das palavras em sua garganta, elas mal parecia fazer algum som. Era como ouvir outra pessoa gritar bem longe.
Alguns dos outros coroinhas vieram correndo.
— O que há de errado? — Jan perguntou.
— Chame o reitor. Ou o cânone. Qualquer um — ele ofegou.
— Matheus — padre Gerard falou, entrando no aposento. — Diga-me o que está acontecendo.
— Você! — Matheus encontrou-se dizendo. — Para trás!
Os olhos dos coroinhas se arregalaram, mas ele não se importou. Que eles pensassem que ele tinha enlouquecido.
— Eu sei quem você é.
— Eu garanto que, seja lá o que esteja pensando, está errado. Venha comigo.
 Não  Matheus cuspiu, voltando a sentir seu corpo, como um membro tirado do frio. Tudo o que ele sentia era raiva escaldante. — Seus amigos estão vindo atrás do retábulo, mas eu não deixarei.
O rosto de padre Gerard ficou pálido, mas sua expressão se manteve calma.
— Jan, corra para a torre de guarda — o padre ordenou ao garoto. — Diga-lhes para mandar o máximo de soldados que puderem. E espere lá até o amanhecer. Não é seguro voltar.
Jan o encarou por um momento, sem certeza se o padre estava falando sério.
 Agora!
O menino se moveu rapidamente.
— Thomas, tranque todas as portas. E tranque as janelas dos escritórios e dos dormitórios.
Thomas não esperou que ele dissesse outra vez.
— Livrar-se dos coroinhas não irá ajudá-lo — Matheus disse. — Eu não irei a lugar algum.
Ele desviou do padre para o corredor, e começou a correr para o santuário.
— Matheus! — padre Gerad gritou.
Ele olhou por cima do ombro e viu o padre o seguindo, suas vestes ondulando atrás dele.
Matheus se virou e correu para o corredor central. Quando chegou ao altar, ele girou sobre os calcanhares e esticou os braços.
— Para trás! — ele gritou ao mesmo tempo em que Padre Gerard o alcançava.
— Meu filho — ele ofegou — você entendeu errado. Eu não sou o seu inimigo.
— Então o que você é, padre? Você sequer é um padre de verdade?
O olhar severo no rosto do Padre Gerard apagou as chamas da ira de Matheus.
— Sou. Eu dediquei a minha vida a dois propósitos: servir a Deus, e lutar contra aqueles que desejam desfazer o Seu trabalho.
— Os Vesper? — Matheus sussurrou.
O padre balançou a cabeça.
— Eles estão vindo — Matheus continuou — eles estão vindo pegar o retábulo.
Padre Gerad pressionou seus lábios juntos e se virou para as pinturas.
— O que eles querem com ele? — Matheus perguntou. — O homem – o Vesper – disse alguma coisa sobre um mapa.
O padre olhou para Matheus, assustado.
— O que você sabe sobre isso?
Matheus sentiu seu estômago despencar.
— Minha mãe sabia, mas ela nunca teve a chance... de explicar.
Padre Gerard olhou para Matheus por um momento. Sua expressão encheu-se de compreensão, ele colocou suas mãos em seu ombro.
— Eu sinto muito, muito, mesmo, meu filho.
Eles foram interrompidos pelo som de passos. Padre Gerard e Matheus se viraram e viram uma fila de soldados marchando pelo corredor. Ver suas espadas reluzirem à luz das velas era quase tão incompreensível quanto ver o punhal no peito de sua mãe. Armas não pertenciam à igreja.
O capitão deu um passo a frente e tirou o chapéu.
— Nós já guardamos as entradas, Padre — ele falou, inclinando a cabeça. — E eu tenho homens cercando o perímetro.
Padre Gerard assentiu.
— Por quanto tempo acha que podemos segurá-los?
O capitão se mexeu desconfortavelmente.
— Há pequenas multidões pela cidade. Eles estão queimando lojas, quebrando janelas. Se continuarem assim, estaremos bem. Mas se eles decidirem se juntar...
Ele parou de falar.
— Se eles de algum modo conseguirem entrar, teremos que mover o retábulo — padre Gerard falou energicamente, e os olhos dos soldados arregalaram. — Nós não podemos nos arriscar mover as pinturas da catedral esta noite, no entanto — o padre continuou. — Teremos que desmontar o retábulo e esconder as pinturas em algum lugar no interior do edifício.
— Que tal a cripta? — sugeriu um soldado.
— Eles irão olhar lá.
— A cozinha?
O padre balançou a cabeça.
Isso é inútil, Matheus pensou. Por que razão esconder as pinturas? Os Vesper não iriam deixar a multidão parar até que as encontrassem. Eles não iriam embora de mãos vazias. Se todos os soldados estivessem na catedral, seria difícil convencer que elas estivessem em outro lugar.
A não ser que...
— Padre — Matheus disse, se virando ao padre — Eu tenho uma ideia.

* * *

Matheus estava sentado nos degraus de pedra que levavam até o altar, agora vazio. Ele estremeceu quando a umidade da pedra infiltrou-se em suas calças que mal teve tempo de secar desde que ele e Mungo saíram do canal.
O santuário estava completamente deserto, graças a ele e ao padre Gerad. Eles observaram os soldados tirarem o retábulo e levarem as pinturas para o esconderijo escolhido.
Pela última hora, o barulho lá fora tinha aumentado. O que começou como um punhado de gritos abafados tinha crescido em um frenesi de gritos irritados, pisões e berros que encheram a catedral como acordes de um órgão demoníaco.
Os números das tochas também se multiplicaram. Os lampejos fracos atrás dos vitrais cresceram para chamas, engolindo as figuras em um fogo sombrio que só poderia ter escapado das profundezas do inferno.
O crepitar da lenha ficou mais alto, e Matheus agora podia sentir o cheiro da fumaça vagando pelas frestas das janelas. Tinha havido uma série de golpes contra a porta – provavelmente de homens tentando entrar – mas a tinha aguentara.
Mas então houve outro barulho na porta. Um estampido alto seguido por um apavorante crac.
— Eles encontraram um aríete — padre Gerard disse, se levantando do degrau. Ele se virou para Matheus. — Está na hora. Pronto?
Matheus assentiu, mesmo que seu coração frenético quisesse dar outra resposta.
Ele apertou o braço de Matheus.
— Boa sorte.
Matheus correu para o corredor e começou a subir a escada em espiral que o levava para a torre do sino. A poucos degraus para o topo,  ele se virou e respirou fundo, repassando o plano em sua mente.
Houve outro crac, seguido por um coro de gritos que ecoou pelo santuário até a torre. O corpo inteiro de Matheus congelou.
O choque de espadas se juntou à cacofonia de sons que encheu a catedral. Os soldados deveriam estar tentando afastar a multidão. Mas era óbvio que estavam em menor número, porque logo gritos ressoaram através do prédio.
— Cheque a cripta! — Matheus ouviu alguém exclamar.
— Alguém pode ter escondido na sacada.
— Olhem nos bancos!
Suor desceu pela testa de Matheus quando os ruídos ficaram mais altos. Eles estavam chegando perto.
— Procurem nas torres — uma voz baixa comandou, deixando as bochechas de Matheus em chamas enquanto seu estômago revirava.
Era o Vesper.
Um sentimento de raiva surgiu dentro dele, incinerando qualquer outro sentimento. Os músculos dele estavam em chamas. Ele sentia que podia levantar o retábulo sozinho. Ele poderia lutar contra os invasores, sozinho.
Ele poderia empurrar o homem na parede da catedral até que o corpo dele se desintegrasse em pó.
Matheus desceu os degraus, pousando no patamar, suas mãos fechadas em um punho. Então outro pensamento surgiu em sua mente, como uma fênix surgindo das chamas.
Seu trabalho era proteger o retábulo. Sua mãe tinha dado a vida por isso.
Matheus respirou fundo e voltou ao seu lugar no degrau.
Os gritos ficaram mais altos, pontuados por berros. Matheus fechou os olhos, tentando focar em alguma coisa que não fosse a cena terrível que se seguia lá embaixo. Ele pensou no painel principal do retábulo. O prado verde brilhando na deslumbrante luz do sol. O cordeiro branco como a neve.
O som de passos se aproximando ressoou através da escada.
O seu sinal.
Matheus subiu correndo as escadas, sentindo a temperatura de seu corpo mudar quando chegou ao topo. Ele nunca esteve lá, já que a torre do sino era estritamente restrita. Mas agora não era o momento para se preocupar com regras.
Ele abaixou-se sob uma porta rebaixada, tremendo com o ar da noite em torno dele. Os grandes sinos bloqueavam quase toda a lua, mas o céu estava cheio de estrelas brilhantes. Matheus passou sob uma viga de madeira e deu alguns passos vacilantes em direção à borda estreita. À sua direita ficava a câmara que abrigava as cordas e engrenagens que controlavam os sinos. À sua esquerda havia um muro baixo de pedra, e, além disso, nada. Qualquer pessoa que tivesse a infelicidade de perder o equilibro teria uma queda de 90 metros.
Contra o seu bom-senso, Matheus abaixou a cabeça para ver sobre a borda. Através da escuridão nauseante, ele podia ver chamas cintilando por todos os lados.. A catedral estava cercada.
Houve mais sons de passos, seguidos por uma série de gritos. No início, tudo o que ele podia ver era uma linha de sombras que deslizava ao longo da parede de pedra da escada. Mas então, duas figuras surgiram após a curva, espantando as sombras com suas tochas – o Vesper e outro homem de preto.
Matheus correu até o outro lado do sino, rezando para que as sombras projetadas pelas vigas fossem suficientes para esconder a sua própria.
Ele pescou no bolso os retalhos de pano que o padre Gerard tinha lhe dado e os enfiou em seus ouvidos até que o mundo ficasse em silêncio. Então ficou na ponta dos pés e pegou a pesada corda que pendia de um gancho em uma das vigas.
Sua sombra começou a deslizar ao longo da borda. Se eles olhassem para a câmara do sino, encontrariam o que estavam procurando. Com a sugestão de Matheus, os soldados tiraram o retábulo e esconderam os painéis no interior da torre.
Ele agarrou a corda e segurou-a firmemente com as duas mãos, enquanto observava os homens se aproximarem.
Estava na hora.
Matheus respirou fundo, flexionou os joelhos e puxou a corda mais forte que pôde. Houve um estrépito baixo e, de repente, o chão desapareceu sob seus pés. Ele gritou e segurou a corda, enquanto sentia-se balançar no ar. Então outro som explodiu pela torre, assim que o sino começou a tocar. Matheus fechou os olhos enquanto as vibrações percorriam seu corpo inteiro, fazendo todos os seus ossos tremerem.  Em um breve momento de alívio, ele achou ter ouvido os Vesper gritarem, mas não tinha tanta certeza.
O sino tocou de novo e de novo, enviando ondas pulsantes pelo seu corpo. Por um momento, tudo o que existia era o som do sino, como se o céu tivesse se aberto e o próprio Deus estivesse distribuindo a vingança dos céus.
Matheus abriu os olhos e viu os homens tropeçarem para a porta, seus rostos contorcidos em agonia.
Logo os sons pararam, e ele se abaixou para a borda. Seus pés cederam e ele caiu sobre a pedra fria. Ele começou a chorar silenciosamente. O sino tocando tinha silenciado todos os sons do mundo.

* * *

Na manhã seguinte, Matheus estava no topo da torre do sino, ajudando o padre Gerard supervisionar a remoção do retábulo. A multidão tinha finalmente dispersado, e o prefeito de Ghent concordara em deixá-los manter o retábulo no forte até que a cidade se reestabelecesse.
Após o último painel ter sido removido com segurança, Matheus virou-se para assistir o nascer do sol ao longo da borda leste da cidade, lançando um brilho cintilante nas casas e deixando o rio com uma luz dourada brilhante. Era difícil acreditar que apenas algumas horas antes, as chamas de tochas iluminavam o céu noturno.
Enquanto examinava o horizonte, ele tentou imaginar a cena em sua casa. Sua mãe ainda estava deitada aonde caiu? A casa sequer estava de pé? Ou teria sido devorada pelo fogo faminto que ele tinha visto cuspindo e assobiando nas tochas? Ele rezou para que seu pai e o bebê Greet tivessem saído ilesos.
— Você foi muito corajoso ontem à noite, Matheus — o padre falou, colocando sua mão no ombro do garoto.
— Obrigado, padre — ele achou que deveria estar orgulhoso, mas tudo o que sentia era perda. O retábulo estava seguro, mas sua mãe se fora.
Padre Gerard se virou para olhar para ele.
— Você pode não entender agora, mas fez para o mundo um imenso serviço. Os Vesper são uma força perigosa. Se eles tivessem posto as mãos no retábulo, seriam ainda mais poderosos.
— Por causa do mapa? Do que aquele homem estava falando? Não tem nenhum mapa nas pinturas.
— Os Vesper acreditam que há símbolos no retábulo que, quando traduzidos corretamente, levarão a inúmeros lugares secretos no mundo. Esconderijos para coisas de grandes valores.
Matheus inclinou a cabeça para o lado.
— Um tesouro?
Padre Gerad lhe deu um sorriso triste.
— Se apenas fosse isso.
Matheus fechou os olhos enquanto a terrível imagem que ele tinha se esforçado para banir enraizou em sua mente. Sua mãe caída no chão. Seja lá o que os Vesper estivessem procurando, eles não achariam. Matheus garantiria isso.
Uma brisa suave soprou através da torre, e o ar fluindo através do sino criou um som sibilante, como fantasmas dos toques de sino da noite anterior. Não, Matheus pensou enquanto escutava melhor. Soa como uma voz. Ele quase podia ouvir o sino sussurrando para ele. Ele esticou a cabeça para olhar para o céu claro, e murmurou um adeus silencioso.

5 comentários:

  1. Ótimo conto, usa muito bem o contexto histórico, acho que 1566 é bem recente, imagino que Luke, Katherine, Thomas, Jane e Madeleine ainda estão vivos, por isso nenhum clã é citado provavelmente ainda estão se formando

    #PostaOGuiaTiaK

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  2. MeoDeoooss eu estava aqui no site procurando um livro pra ler, e encontro The 39 Clues Files, eu estava morrendo de saudades de ler T39C no início do ano eu tinha terminado todas as series da saga (que você postou) aí comecei a pesquisar (muitooo) sobre os autores e a saga, quando eu volto de novo pro site encontrei os livros/contos novos (T39C <3) Karina, o que seria de mim sem você? Sério, o escritores sempre se superam. <3

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  3. Não sei porque, mas prefiro a escrita e a história desses contos dos bônus do que da história da saga mesmo (Amy e Dan)

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  4. Oi Karina,
    Só queria dizer que eu amo muito seu blog s2s2s2s2
    E também eu achei uns errinhos no texto tem como consertar?Por favor?
    "um enlameado soldado de quatro pernas a postos." a letre "a" está em negrito;
    "mas a tinha aguentara." e essa frase ficou meio estranha;
    Muito Obrigado Karina!!

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  5. Nossa eu li o capítulo e não percebi, Acho que estou ficando desatento rsrseses

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