1 de maio de 2016

O Trabalho Submarino



Connecticut, 1955
Fiske Cahill ia se afogar.
A água enchia seu nariz, boca e olhos, e tudo o que ele podia fazer era agitar os braços e rezar para que tudo terminasse logo. O mundo ao seu redor era um rugido surdo, abafado pelo som da água que inundava seus ouvidos. A mão na parte de trás de sua cabeça ainda o segurava; não havia saída.
De repente, puxaram-no para trás. Ele arfou em busca de ar, embora o ar cheirasse a alvejante e um purificador doce demais. Ele podia sentir os produtos químicos no ar e cuspiu, tentando expelir toda a água pela boca.
— Vamos lá, agora — disse o garoto atrás dele. — Pensei que você fosse um fish. Você não é um peixe, Cara de Peixe?
— Não — Fiske grunhiu antes que seu rosto fosse enfiado de volta dentro da privada. Ele quase não fechou a boca a tempo.
Ele podia ouvir fracamente a última sineta do dia nos corredores. Como cães ao som de um assobio, os meninos deixaram Fiske de lado. Ele se lançou para trás, para longe da privada. O grupo em torno dele, quatro ou cinco garotos alguns anos à frente dele, se afastaram, rindo. Todos eles chuparam suas bochechas e colocaram as mãos no pescoço, agitando os dedos como guelras enquanto corriam para fora do banheiro.
O líder deles, Eric Landry, abriu a torneira antes de sair, jogando água em Fiske com as pontas dos dedos.
Não era uma boa maneira de terminar o dia.
Fiske levantou-se do piso molhado e escorregadio do banheiro e foi até a pia.
Seu cabelo estava encharcado e seu suéter também, desde os ombros até a barriga. Gotas de água da privada escorriam sobre suas orelhas e nariz. Fiske agarrou desesperadamente um punhado de toalhas de papel marrom e esfregou seu rosto e cabelo.
Isso era absolutamente mortificante, mesmo sem ninguém no banheiro.
Esse tipo de coisa não deveria acontecer com Fiske Cahill. Isso não deveria acontecer a um Cahill de modo algum.
Ele pegou seus livros no canto onde Eric e seu bando de amigos os tinham atirado. Seu livro de história estava jogado aberto com as suas entranhas de papel mostradas ao mundo. George Washington o encarava, espada erguida, o cavalo se levantando. Ele apostava que George Washington nunca teve sua cabeça enfiada na privada. Ou que Shakespeare nunca teve uma folha de papel escrita com “Me chute” grudada em suas costas, ou que Mozart nunca teve sua partitura jogada no vaso sanitário. Fiske tinha imaginado ter algo em comum com essas pessoas incríveis. Eles eram seus primos, afinal de contas, todos membros distantes da família Cahill.
Os Cahill – a família mais poderosa na história do mundo. Os Cahill deviam ser especiais, intocáveis. Eles deveriam ser grandes.
Não fazia nenhum bem por Fiske. A única coisa em que ele era bom era em distrair Eric e seus amigos da lição de casa.
Fiske guardou seus livros na mochila e andou até o salão principal da escola. Ele iria para casa passar o verão em breve, disse a si mesmo. Era o início de maio, então havia apenas um mês para não precisar mais ir para a escola. Ele conseguiria sobreviver mais um mês.
Lá fora, o sol de primavera estava quente e grupinhos dos seus colegas de escola passavam o tempo em bancos ou jogavam uma bola de futebol através da grama. Era um belo campus, feito de gramados exuberantes atrás de prédios de tijolos majestosos com colunas brancas na frente deles. Mas Fiske manteve a cabeça baixa enquanto cruzava em direção aos dormitórios, e por isso ele não viu muitos deles.
— Fiske Cahill! Sr. Cahill!
Uma das secretárias o chamava, acenando com uma folha de papel.
— Fiske Cahill, não faça uma velha senhora atravessar o gramado. Venha aqui, e seja rápido!
Fiske olhou para cima e ao seu redor. Estavam todos eles olhando para ele agora. Oh, não.
Fiske apressou-se pelo gramado, sentindo suas orelhas e pescoço queimarem vermelho brilhantes de vergonha.
— Por que você está todo molhado? — perguntou a secretária, franzindo o nariz para ele.
— Uh — Fiske resmungou, e então ele murmurou algo a respeito de uma fonte de água.
— Chegou um telegrama para você — disse a secretária, entregando-lhe o papel dobrado. Suas unhas estavam pintadas de escarlate para combinar com seu terninho vermelho brilhante. — Uma emergência, diz. Bobagem, se você me perguntar. Isso não faz nenhum sentido! Bem, não que eu pretendesse ler seus assuntos privados nem nada disso, mas eu tinha que ter certeza de que não era nada ruim ou ilegal.
Ela olhou para ele através dos seus óculos de meia-lua, de uma forma que o fez sentir-se como se estivesse debaixo de uma lâmpada balançando em uma sala de interrogatório.
— S-Sim, senhora — ele respondeu, desdobrando o telegrama.
— E aqui estou eu, correndo por toda a escola para entregar o seu telegrama sem sentido. Deixe-me dizer-lhe, se eu quisesse entregar mensagens, teria nascido como um pombo-correio. Certo? Não vai me agradecer, jovenzinho?
— Uh, obrigado — disse Fiske, passando sua atenção para o telegrama.
A secretária franziu a testa para ele, então se virou muito bruscamente e marchou de volta para o escritório, provavelmente murmurando alguma coisa sobre as crianças nos dias de hoje.

PROBLEMA FAMILIA PT. ANO NOVO 1946 PT.
VELHOS AMIGOS DA FAMILIA TODA PARTE PT. GRACE.

Fiske só podia encarar o telegrama. Seu estômago ficou frio e a boca, seca. Esse pareceria um simples bilhete para qualquer outra pessoa, mas Fiske podia ver através das linhas. Problema família. Grace estava com problemas.
Velhos amigos da família em toda parte.
Vesper, inimigos jurados dos Cahill.
Ano Novo de 1946? A mente de Fiske corria tanto que ele estava tendo problemas para elaborar pensamentos completos. No Natal de 1945, ele tinha ganhado um novo conjunto de aquarelas e um cavalete novo em folha. Lembrava que Grace tinha lhe dado. Em seguida, ele não fora autorizado a ficar e pintar coisas porque... por quê?
Porque eles tiveram que ir para Washington, D.C.. Havia assuntos dos Cahill a tratar e ninguém deixaria Fiske ficar em casa quando a babá estava visitando sua irmã. Então Grace estava em Washington.
Cercada por Vesper.
Fiske dobrou o telegrama novamente e o enfiou no bolso. Ele estava tremendo tão forte que pensou que sua pele iria se soltar e cair; sua respiração estava tão tensa em sua garganta que ele poderia engasgar com o ar.
Grace não teria se arriscado a enviar uma mensagem para a escola se ela não estivesse em perigo. Ele olhou em volta de novo; ainda havia alguém olhando para ele? E se estivessem mesmo vigiando, em primeiro lugar? Os assuntos dos Cahill o deixavam desconfortável – vulnerável, como se ele estivesse sendo observado.
Com mais um olhar furtivo ao redor, Fiske se moveu direto para o escritório do diretor. Ele teria de obter permissão para sair o mais breve possível.
Então ele se deparou com alguma coisa. Ou alguém. Eric Landry.
— O que você tem aí, Cara de Peixe? — Eric perguntou, estendendo a mão.
Fiske apenas o fitou. Agora não, ele gritou dentro de sua cabeça. Saia do caminho.
— Agora, o que você tem aí que reflete tanto no seu rosto? — perguntou Eric, tentando pegar o papel de Fiske. — A namorada terminou com você? Seu cachorro morreu? A vovó ficou doente, Cara de Peixe? Alguém a pegou e a mandou de volta para o mar? Sua avó é um peixe, também, não é? Uma grande baleia velha, talvez?
— Não rasgue isso! — Fiske ganiu, as palavras guinchando para fora dele como se ele tivesse sido apertado com força de mais. Ele pulou para longe, segurando o telegrama firmemente.
Oh, não rasgue isso! — Eric cantarolou, zombando de Fiske. Ele fez outra tentativa de agarrar o telegrama. Fiske pulou para fora do caminho. — Pare de se mover ao redor, Cahill, e me dê esse telegrama.
— Ei, Eric — disse um dos outros meninos. — Deixe-o ir. Ele parece mal.
— Ele vai parecer mais mal ainda se não entregar esse telegrama.
— Por que você se importa? — perguntou o outro garoto. Seu nome era Matthew, e ele fazia aula de história com Fiske. — Não é nada importante. É só o Cahill. Nada próximo de excitante ou interessante aconteceria com ele.
Fiske prendeu a respiração. Ele precisava ir; precisava sair disso.
Eric sorriu afetado para Matthew e, em seguida, empurrou Fiske para longe.
— Saia do meu caminho, Cahill.
Fiske virou as costas e saiu correndo em direção ao escritório do diretor. Eric, Matthew e os outros meninos riam enquanto ele corria para longe.
George Washington nunca, jamais fugiria de qualquer coisa.
Algo queimou nos pensamentos de Fiske.
Algo que dizia que não importava o quanto tentasse, nunca viveria nos padrões que se esperava encontrar.

* * *

No escritório do diretor, a secretária de vermelho brilhante levantou uma sobrancelha para ele.
— Você conhece as regras. Não pode simplesmente sair da escola.
— M-mas eu tenho que ir — disse Fiske, mostrando-lhe o telegrama. — É da minha irmã. Se há uma emergência familiar, eu preciso estar lá por ela.
Ele umedeceu os lábios e trocou o peso de um pé para o outro. Eles tinham que deixá-lo sair.
— Isso é muito comovente — respondeu a secretária, empurrando o telegrama de volta para ele. —Mas receio que o diretor não esteja disponível no momento. E olha, aqui diz que você tem velhos amigos de família em toda parte. Isso é bom, não? Sua irmã não está sozinha.
— É, hã, mas isso não é o mesmo que a família — Fiske devolveu. — Por favor, eu posso vê-lo? Ele vai entender, eu sei que vai.
— Não, receio que ele não esteja aqui no momento. Então, sinto muito por isso. Mas você pode agendar uma hora com ele para a próxima quarta-feira.
— Mas isso é daqui mais de uma semana! — Fiske exclamou, sua voz se quebrando. — Se for uma emergência, eu preciso sair imediatamente.
— Sinto muito pelo inconveniente, mas receio que seja o melhor que posso lhe oferecer — replicou a secretária.
Em seguida sorriu para ele, e não era o sorriso mais agradável a todos. Era o tipo de sorriso que um gato daria a um canário antes de devorá-lo.
Fiske queria arremessar coisas. Ele queria saltar em cima de sua escrivaninha e sacudi-la pelos ombros, forçá-la a ver que isso não era uma brincadeira. Não era besteira. Era assunto dos Cahill, e mais do que isso, era Grace.
Ao invés disso, ele mordeu a própria língua e saiu correndo do escritório. Ele iria para seu dormitório. Descobriria alguma coisa. Alguma forma.

* * *

A secretária esperou até que ele fosse embora, e em seguida, pegou o telefone. Com as unhas vermelhas, girou o botão rotativo para discar, esperando impaciente enquanto ele girava de um lado para o outro.
— Sim, olá — ela falou. — Aqui é Oitenta e nove. O Menino King tentará fugir em breve. Tentei atrasá-lo, mas ele arranjará alternativas. Recomendando retaguarda, e olhos em Meriden e na estação ferroviária. Muito bom. Obrigada.
Ela colocou o fone no gancho e pegou uma lixa de unha.
A porta para o escritório do diretor se abriu, e ele enfiou a cabeça para fora.
— Eu acabei de ouvir um estudante aqui, Marilyn?
— Não, claro que não. Não há nada para se preocupar, senhor — ela disse. — Não há nada para se preocupar ao todo.

* * *

Em seu quarto no dormitório, Fiske puxou uma mochila de debaixo da cama. Grace lhe dissera para sempre manter uma pronta. Ele revirara os olhos quando ela lhe disse isso, mas como um Cahill, ele na verdade não tinha uma escolha no assunto. Ele tirou o suéter úmido e trocou por um preto e limpo. Lá fora, o sol sumia atrás das árvores. Não escureceria completamente por mais algumas horas, mas ele não tinha todo esse tempo. Ele tinha que ir agora.
Fiske encostou o ouvido na porta; no corredor, meninos iam jantar ou estudar. Ele poderia dizer que estava indo para a biblioteca, mas a biblioteca era fechada durante o jantar e todos sabiam disso. Ele poderia dizer que ia para os laboratórios, mas ninguém acreditaria nisso.
Em sua penteadeira havia uma fotografia emoldurada, tirada no último Natal. Fiske estava no canto, como de costume, parecendo desajeitado e meio escondido na sombra. Seu pai, um homem de rosto severo e silencioso encarava a câmera, sentado em uma cadeira no centro da foto. Sua irmã Beatrice estava ao lado dele, um sorriso tão falso apertado em seu rosto que era como se alguém tivesse que ajeitar sua boca e queixo para lhe mostrar como fazer isso certo. E então havia Grace, radiante e tão cheia de vida que ela praticamente mudava a foto. Ela estava virada para ele, com os braços estendidos, tentando puxar Fiske para frente. Grace era doze anos mais velha que ele, mas ele nunca sentiu qualquer distância entre eles.
Eles não eram muito, aquela família. Eram fraturados e imperfeitos. Dois deles, na verdade, eram bastante disfuncionais e não muito bons. Mas ainda eram dele.
Ele pegou a moldura e olhou para a foto por mais um momento.
Fiske olhou para trás. Havia sempre a janela.
Ele puxou as cortinas e levantou a vidraça. Não havia ninguém lá embaixo, mas ele estava a dois andares do chão. Olhou para o relógio; o sino do jantar tocaria em breve.
Com um grunhido, Fiske jogou a mochila para fora da janela, em direção às árvores. Ela aterrissou com um baque nos arbustos, e ele se retraiu com o barulho. Mas parecia que ninguém tinha ouvido. Então rezou para que ninguém percebesse o calouro escalando para fora da janela, também.
Fazendo algo que tinha lido em um livro, Fiske pegou os lençóis de sua cama e amarrou-os juntos. Não ficou uma corda muito longa, e parecia até mais curta quando ele prendeu uma ponta na penteadeira. As pessoas de seus livros deveriam ter mais roupas de cama do que ele. Entretanto, ele jogou a ponta da corda de lençol para fora da janela. E ainda havia mais de dois metros entre o fim da corda e o chão.
Ele subiu no parapeito da janela e enrolou as pernas ao redor dos lençóis. A penteadeira oscilou um pouco enquanto ele avançava lentamente no caminho para baixo em sua corda caseira. Os nós dos lençóis começaram a deslizar. Fiske vacilou, seus braços e pernas tremendo tanto que ele poderia ter sido vítima do menor terremoto do mundo. Ele tentou deslizar logo para baixo antes que os lençóis se soltassem ou que a penteadeira tombasse, mas não funcionou. Ele perdeu o apoio, e antes que entendesse o que estava acontecendo, os braços e pernas de Fiske estavam se agitando no vazio, exceto pelo ar. Ele aterrissou de costas, e todo o ar saiu dele.
Ficou um minuto deitado ali nos arbustos e n a grama para recuperar o fôlego, mas levantou-se tão logo quanto pôde. Agora o quê? O aeroporto ficava a pelo menos oito quilômetros de distância. Além da linha de árvores havia uma fileira de casas dos funcionários da escola, residências especificamente reservadas para os professores e suas famílias. E ali, inclinando-se contra uma varanda dos fundos, testava uma bicicleta com fitas no guidão e uma cesta rosa de plástico.
É claro, ele pensou. É claro que a bicicleta seria de uma garota de oito anos de idade. Não poderia ser uma bicicleta motorizada ou algo legal.
Ele passou a perna sobre o banco banana rosa, jurou mentalmente à menina que devolveria sua bicicleta e, em seguida, acelerou por uma estrada de serviço.
Mas havia alguém esperando por ele lá.
A secretária estava no meio da rua, com as mãos nos quadris e um olhar muito desaprovador em seu rosto.
— Eu deveria saber que o senhor tentaria fugir. É incrivelmente rude fazer algo quando lhe foi dito que não tem permissão para isso.
— Como a senhora sabe que eu... como... e-eu sinto muito — falou Fiske. — Mas eu tenho que ir.
— Oh, a sua irmã. Eu sei, queridinho. Mas você realmente não deveria se preocupar com ela. Ela está com alguns amigos meus, e eles estão morrendo de vontade de conversar com ela.
A secretária sorriu daquela forma não muito amigável dela.
Fiske sentiu como se tivesse sido banhado em neve. Os amigos da secretária? Havia um Vesper trabalhando em sua escola?
— Nós estamos em todos os lugares, Sr. Cahill — disse a secretária. — Não pense que não estamos. Agora, eu sei que você é um bom menino. Estaria muito melhor desenhando a sua árvore genealógica do que tentando viver para ela e nunca fazendo nada, estou certa? Claro que estou. Então, desça da bicicleta. Deixe sua irmã apagar seus próprios incêndios, e talvez você viva para ver outro dia.
Uma parte de Fiske desmoronou, como um pedaço de um penhasco tombando no mar. Ele encarou a secretária com seu terninho vermelho, os cabelos grisalhos enrolados como um pequeno capacete de ferro.
Ele colocou o pé de volta no pedal.
A secretária levantou um dedo.
— Estou te dando uma chance. Você é um pequeno Cahill arrogante, mas é apenas um garoto. Os outros não serão tão complacentes. Os outros o matariam assim que botassem os olhos em você, Fiske Cahill. Não pense que eles não sabem para onde está indo, ou quem ver.
Fiske acelerou. Ele tentou ganhar o máximo de velocidade que podia, tentando passar a secretária. Ela gritou para ele, virando-se e perseguindo-o estrada a baixo. Suas unhas escarlates agarraram nas costas do seu suéter, mas ele fugiu.
Ele não queria uma chance de voltar. Ele não queria ser atrasado. Ele sabia que a secretária correria de volta para a sua mesa e ligaria para seja quem fosse que ela tinha de ligar, mas ele não podia se preocupar com nenhuma dessas coisas agora. Ele precisava chegar até Grace, e eles lidariam com isso juntos.
Ele tinha uma irmã para salvar.

* * *

Meriden era o aeroporto mais próximo, e enquanto se levaria dez minutos para se chegar lá de carro, levava consideravelmente mais tempo chegar lá através das trilhas arborizadas, ao crepúsculo, na bicicleta de uma garotinha.
Fiske não se atreveu a usar a estrada principal. Havia algumas trilhas antigas através da floresta que alguns dos meninos mais velhos usavam quando fugiam; Fiske seguiu uma daquelas. Seus dentes batiam uns contra os outros de medo e de frio.
Ele não tinha muito tempo; sabia que os Vesper estariam esperando, procurando por ele. Eles poderiam estar rastejando por todo o pequeno aeroporto na escuridão que caía rapidamente.
O aeroporto estava sonolento e escuro quando ele chegou ao portão de segurança. O vigia cochilava, mas abriu os olhos quando Fiske bateu na janelinha.
— Eu preciso usar o jatinho dos Cahill — ele falou. — É uma emergência.
O segurança esfregou o nariz e Fiske andou rapidamente pelos terrenos do aeroporto. Os Cahill tinham deixado um avião em Meriden e um piloto pronto. Ele estaria disponível a qualquer hora que Fiske ou Grace pudessem precisar dele. Essa era outra precaução familiar para a qual Fiske tinha bufado e lamentado, mas as escolhas de Grace estavam se tornando cada vez mais perspicazes. Tudo era sobre a caça às pistas – Fiske concordasse ou não com esse conjunto de prioridades. Ele mordeu o lábio. Não era justo pensar dessa forma, mas ele não podia evitar.
Fiske levou sua bicicleta para o hangar. Pete, o piloto, estava limpando o nariz do avião dos Cahill com um trapo. Pete tinha estado em batalhas aéreas na Segunda Guerra Mundial. O perigo o havia deixado quase destemido, mas, possivelmente, um pouco louco. O que, por sua vez, fazia dele um excelente aliado dos Cahill.
— Bem, e aí, jovem Cahill? — cumprimentou Pete. — Pensei que eu não o veria até o fim do semestre.
— E-emergência de família — Fiske respondeu. — Eu preciso ir para Washington, D.C.. Agora – agora mesmo.
— Imediatamente, não? Que bom que o senhor chegou aqui agora; mais alguns minutos e eu estaria jantando.
— Sinto muito por mantê-lo longe de sua refeição, Pete, mas isso realmente não pode esperar. Nem mais um minuto.
— Bem, então. Que bom que nós temos amendoins a bordo. Vá em frente e pegue você mesmo tudo o que quiser. Abrirei o portão do hangar e logo voaremos na velocidade da luz.
— Obrigado, Pete — respondeu Fiske, abrindo a porta do avião e subindo.
Era um avião pequeno – tinha dois assentos na cabine do piloto e quatro assentos no fundo para passageiros – não era algo em que Fiske realmente confiaria para levá-lo através do oceano, ou qualquer lugar mais longe do que os Grandes Lagos, na verdade. Mas de Connecticut para Washington, ou de Connecticut para casa, tudo bem. E rápido.
Fiske deixou a mochila na área dos passageiros, mas foi para a cabine do piloto e sentou ao lado do bando do piloto Pete. Ele não queria sentar-se sozinho – isso parecia rude.
Pete abrira o portão do hangar e ligara os motores em tempo recorde, e logo eles estavam taxiando para fora da pequena pista.
— Como foi a estada no Hyde para o senhor, jovem Cahill? — perguntou Pete.
— Foi boa, obrigado — disse Fiske. Ele olhava pela janela. Um par de faróis estava na pista. — Pete, são permitidos carros na pista?
— Não — Pete respondeu, verificando seus medidores e mostradores da cabine do piloto. — Não geralmente, pelo menos. Apenas veículos da equipe de manutenção ou algo assim.
Pete e Fiske encararam os faróis. Parecia que eles vinham na direção ao avião.
— Pete, vamos! — Fiske exclamou. Um pensamento não muito confortável se alojara em seus pensamentos e não saía dali. — Temos que ir antes que eles cheguem aqui.
— Se alguém estiver na pista – e Deus Todo Poderoso, tem alguém ali – nós não podemos decolar. Correremos direto para eles. E isso não vai acabar bem para ninguém — Pete respondeu, erguendo as sobrancelhas.
Foi quando houve uma centelha e um estampido.
— Eles estão atirando em nós — disse Fiske, seu pânico crescendo como um balão prestes a estourar. — Oh, santas panquecas, eles estão atirando em nós! Pete, nós temos que decolar!
— Eles estão atirando em nós! — Pete berrou, trocando seu olhar nervosamente entre os estranhos do outro lado do para-brisa e os medidores na cabine do piloto.
— Eles estão atirando em nós, Pete, eles estão atirando em nós! Vai, vai mais rápido! — Fiske gritou.
Ele sentiu como se estivesse prestes a pular e arrebatar o cockpit. Houve outro flash e outro estampido, e Fiske cobriu os olhos, como se isso o impedisse de morrer.
Os motores do avião rugiram com toda a força. Pete puxou o acelerador manual, e o avião começou a se mover.
— Vai, Pete, vai mais rápido!
— Eu estou indo rápido! Estou indo tão rápido quanto a física permite! — Pete gritou de volta.
Fiske olhou para seu piloto – Pete tinha os dentes cerrados juntos e uma gota de suor fazia o seu caminho até o rosto.
Eles estavam indo cada vez mais rápido, e o carro estava cada vez mais perto.
— Espero que esteja usando seu cinto de segurança, jovem Cahill! — Pete falou.
Ele puxou o manche e eles apontaram para cima. Fiske olhou para fora pela lateral do cockpit e viu os homens no carro – viu seus rostos, suas armas. O avião se ergueu, mas muito lentamente. A fuselagem estremeceu e deu um solavanco quando o trem de pouso do avião raspou na parte superior do carro. Fiske balançou ao redor como uma boneca; o cinto de segurança estava travado, então sua cabeça foi atirada para frente, seu cotovelo foi pressionado contra o vidro. O avião oscilou como se estivesse equilibrado na cabeça de um alfinete, e os estampidos continuaram abaixo.
Eles não conseguiriam sair da pista. O voo de emergência de Fiske terminaria antes mesmo de começar. Pete estava gritando algo em francês – provavelmente algo que ele tinha aprendido na guerra – e tudo o que Fiske podia fazer era segurar em qualquer coisa que estivesse ao alcance.
E então, os espasmos pararam. O ar em torno deles estava silencioso. O avião não estava caindo do céu.
— Foi por pouco lá, não foi? — Pete disse, sorrindo. — Nós deveríamos fazer isso mais frequentemente. Esse é um bom jeito de voar! Me faz sentir como um homem mais jovem, você sabe. De volta à guerra novamente. Ah, esse é um bom jeito de voar!
Fiske desabou em sua poltrona e soltou o fôlego que estava segurando. Esperançosamente, o resto de sua aventura prosseguiria tranquilamente.

* * *

O Willard Hotel era uma instituição não oficial dos Cahill. Praticamente em frente à Casa Branca, poderia se argumentar que era onde estava a sede real do poder no país. Era um dia raro quando não havia pelo menos um Cahill hospedado ali.
Grace Cahill tinha passado muitos dias e noites lá. Ela não achava que já tivesse estado tão assustada, apesar de tudo.
Estava andando, verificando o olho mágico de seu quarto cada poucos minutos. Seus nervos estavam à flor da pele, e um redemoinho preto de pavor circundava seu peito. Ela não deveria ter enviado aquele telegrama. Deveria ter encontrado uma maneira de sair por conta própria.
Mas, tão relutante quanto Grace estava em admitir isso, ela estava aterrorizada em seu interior. Odiava arrastar seu irmão mais novo para essa confusão, para esse poço de víboras e fogo. Mas ela não teve escolha.
Grace verificou o olho mágico de novo e em seguida, a janela. Ele deveria estar aqui agora. Medos e diversas possibilidades a atormentavam como fantasmas infelizes. Imaginava que eles o tivessem alcançado. Imaginava que eles o tinham capturado, atrasado-o, que estavam planejando usá-lo como isca para atraí-la para fora. Talvez eles tivessem feito pior...
Ela parou de andar e apertou as palmas das mãos contra os olhos fechados. Não faz nenhum bem pensar assim. Não há nada a fazer além de esperar.
Ela olhou para o relógio na mesa de cabeceira. Grace tentou se lembrar de que nem tudo acontecia no horário estabelecido. Poderia ter surgido qualquer quantidade de pequenos obstáculos. Ainda assim, estava ficando tarde.
Houve uma batida, e Grace voou para a porta, perscrutando pelo olho mágico. Fiske estava de pé do outro lado. Mas era realmente Fiske? E se ele tivesse sido seguido? Ela odiava, às vezes, que sua vida a fizesse duvidar até mesmo dos fatos mais simples.
— Quem está aí? — Grace exigiu.
— Sou eu — disse ele. — Fiske.
— Quando é o seu aniversário?
— 9 de fevereiro de 1941 — Fiske respondeu. — Deixe-me entrar, Grace.
— Não — Grace falou. — Isso foi fácil demais. Qual o seu animal favorito? Qual o meu animal favorito?
— O meu é a girafa. O seu é o dragão. O que, você sabe, não existe de verdade. Deixe-me entrar!
— De que cor é o tapete no segundo andar da sala de música lá em casa?
— Grace! — ele meio que gritou, meio que sibilou. — Bem, ele era branco. E então eu derramei aquela tinta verde nele, por isso agora ele meio que está... manchado. E eu disse que sentia muito por isso, de toda forma. Não há necessidade de mencionar isso. Grace, vamos lá, me deixe entrar.
Satisfeita, Grace deslizou o ferrolho e girou a fechadura, abriu a porta e agarrou seu irmão pelo colarinho. Ela arrastou-o para dentro e imediatamente fechou a porta atrás dele, deslizando e girando todas as travas de volta no lugar.
— Grace, por que está tão escuro aqui? — perguntou Fiske.
As cortinas estavam fechadas para a noite, e a única lâmpada acesa era uma pequena luz de leitura que Grace tinha colocado no chão.
— Eles sabem que eu estou aqui — ela falou, espreitando pelo olho mágico novamente. — Como você soube em qual quarto eu estava?
— Eu perguntei pela Srta. Edith na recepção do hotel — Fiske respondeu. Esse era o nome de sua mãe, e um bom pseudônimo. Fiske observava Grace com olhos nervosos. Ele nunca a tinha visto tão assustada antes.
— Certo — disse Grace. Ela pegou uma toalha do banheiro e a enfiou no vão da parte inferior da porta.
— Grace? Grace — Fiske chamou, mas ela não olhou para cima. — Grace!
Fiske agarrou seu braço e só então a fez parar, virando-se para ele com a expressão mais ansiosa que ele já tinha visto.
— O que está acontecendo? — perguntou Fiske. — Você está me assustando. Você precisa apenas... apenas sentar ali, ok? Apenas sente.
Ele ajudou-a a se sentar no canto de uma das camas e, em seguida, acomodou-se em frente a ela.
— Nós ficaremos bem por cinco minutos, certo?
— Eu não sei — disse ela. — Eles nunca estiveram tão perto antes, Fiske. Não de mim. Eu posso senti-los, posso senti-los respirando na minha nuca, e é como se não importasse onde vou, eles já estão lá. Eu diria que é ridículo pensar que eles estavam lendo meus pensamentos, mas quem sabe que tipos de truques eles podem ter arranjado ultimamente?
Arrepios passaram por Fiske, subindo e descendo por seu couro cabeludo.
— Quão – quão perto? — ele perguntou.
Grace balançou a cabeça.
— Eu não quero preocupá-lo.
— Grace, nós estamos escondidos em um hotel no meio de Washington, D.C., depois que você enviou um telegrama urgente para minha escola dizendo que você estava cercada por Vesper. Acho que já estou muito preocupado.
— Fiske — Grace falou. Sua voz estava calma e ela não olhava para ele. — Preciso de sua ajuda.
— O que... O que eu posso fazer? — perguntou Fiske.
Ele não era corajoso como Grace. Ele não era ousado. Ele não era veloz, esperto ou bom sob pressão. Ele não conseguia nem mesmo fazer as crianças da escola pararem de implicar com ele; não havia nenhuma maneira de ele ser capaz de salvar Grace. Especialmente se ela estava tão assustada.
Grace balançou a cabeça, sua respiração vindo em inspirações superficiais. Ela pegou a mão de Fiske e empurrou algo frio e duro em sua mão. Ele olhou para o fino anel de ouro em sua palma.
— Grace? O quê? Não!
— Você tem que levar isso — ela falou, dobrando seus dedos em torno do anel. — Eles sabem que estou aqui, e se me encontrarem, então pelo menos não vão achá-lo. Isso é mais importante, Fiske, manter o anel seguro.
— Não mais importante do que você! — Fiske devolveu, empurrando o anel de volta para ela. — Eu não quero isso.
Isso é — disse Grace. — Isso é mais importante do que eu. É mais importante do que qualquer um de nós. É o futuro do mundo que está na sua mão, Fiske. Você tem que mantê-lo seguro. Ninguém vai esperar que você o tenha. E é assim que nós vamos protegê-lo. Pelo menos, apenas por alguns dias. Até que eu possa me livrar deles. Você pode fazer isso, não pode?
— Você... Você quer que eu leve o artefato mais importante do mundo de volta para a escola comigo? — perguntou Fiske. Seu rosto ficou vermelho. — Outro dia alguém roubou todas as minhas meias e as jogou no lago dos patos, Grace. Eu honestamente não acho que ele vá estar seguro na escola.
— Você não vai voltar para a escola — disse Grace.
— Não vou?
— Eu tenho feito outros arranjos — ela se levantou e se afastou dele. — Eu só preciso de alguns dias. Vou distraí-los. Vou levá-los para longe de você.
— Mas se eles a pegarem...
— Então eu não estarei com o anel. Eles não triunfarão. Fiske — Grace falou — Eu preciso que confie em mim, do jeito que estou confiando em você. Eu não te pediria para fazer isso se não achasse que você é capaz.
Fiske não achou que isso fosse inteiramente verdade. Ele imaginou que ela estava confiando nele porque não havia mais ninguém a quem pudesse recorrer. Tudo nele estava escorrendo para seus pés, como se ele fosse uma banheira sendo drenada.
— Nós temos que mantê-lo seguro — disse Grace. — Então, estou te mandando para algum lugar seguro.
— Onde?
Grace pausou. Isso fez o estômago de Fiske cair.
— Você se passará como o neto do Almirante King. Você o conheceu antes – até gostou dele, lembra? Você terá um lugar a bordo do USS Nautilus.
— O que é isso? — perguntou Fiske.
— Oh, bem, é muito interessante que você tenha perguntado — disse Grace. Ela brincava com seu colar. — É um submarino nuclear. O primeiro, na verdade. Outro Cahill na dianteira da história. Estamos todos muito orgulhosos.
Fiske ficou pálido; ele podia sentir o sangue deixar seu rosto e um frio mortal apressar-se para substituí-lo. Um submarino? Um submarino com um reator nuclear a bordo?
— Tudo vai ficar bem. Agora, o que você empacotou? Você tem cuecas limpas o suficiente?
— Um submarino nuclear! — Fiske gritou. — Sério, Grace?
— Mantenha sua voz baixa! — Grace sibilou, esticando uma mão apressadamente sobre a boca de Fiske. — Eu não estou brincando, Fiske. Isso não é um treino, e não é algum tipo de brincadeira. Essa é a minha vida, a sua vida, e o futuro do mundo. É o que eu preciso que você faça. Senão... então fico sem opções, Fiske. Então eles vencem.
Fiske estremeceu involuntariamente, e seu estômago gelou e revirou de novo. Ele desejava que Grace pudesse vir com ele, que ela pudesse se esconder em um lugar seguro, também.
— Apenas alguns dias? — Fiske perguntou.
— Apenas alguns dias. Você ficará bem. Eu já tomei conta de tudo. Depois que você sair daqui, deixarei os Vesper saberem que estou no jogo novamente. Eles não vão saber que não estou com o anel. Eu tenho um falso para usar no lugar por enquanto.
Grace apertou sua mão com mais força em torno do anel.
— Você vai para New London, Connecticut. De lá, o Nautilus navegará para Porto Rico. Onde quer que eu esteja, estarei monitorando aquela embarcação, Fiske. Eu estarei sempre tomando conta de você. E uma vez que você estiver em San Juan, entrarei em contato sobre onde me encontrar e eu vou levar o anel de volta — ela pausou de novo. — Se você não souber de mim...
— Não diga mais nada. Não se atreva a terminar essa frase.
— Se você não souber de mim, então o anel será seu. Faça o que quiser com ele. Você é a única pessoa em quem eu o confiaria, Fiske.
Fiske não queria chorar. Ele tinha catorze anos, pelo amor de Deus! Era velho demais para fazer algo assim. E ele queria ser forte para Grace. Queria que ela soubesse que ela não tinha que se preocupar com ele. Que a única coisa que ela deveria fazer era se preocupar consigo mesma, em se manter segura.
— Fiske King será o seu nome na embarcação — explicou Grace. Eles se levantaram e Grace agarrou seus ombros e puxou-o para um abraço. — Você ficará bem. Vai ficar tão bem que não será capaz de aguentar tão bem que vai ficar. Entendeu?
— Por favor, não morra — disse Fiske. Ele não pôde se impedir. Ele não queria dizer isso; não queria dar voz à ideia. — Por favor, não. Se você chegar ao final de tudo, se tiver que fazer uma escolha, escolha a saída em que você não morre. Você não vai morrer, entendeu, Grace Cahill? Não vai me deixar aqui sozinho.
— Eu nunca faria isso — disse ela. — Nunca, por nada.
Ela abraçou-o com força, então, lhe entregou a mochila e conduziu-o para fora até o corredor, trancando a porta atrás dele novamente. Fiske pegou um boné da mochila e puxou-o para baixo sobre os olhos enquanto fazia o seu caminho para o saguão e para fora das portas naquela noite chuvosa.
Fiske estava de pé do lado de fora do hotel, a mochila sobre o ombro e o objeto mais valioso do mundo em seu bolso. Se ele se sentia vulnerável antes, agora sentia como se andasse por aí com imenso alvo vermelho e branco pintado nas costas. A rua estava quase vazia, mas ele podia sentir dúzias de olhos perscrutando-o, ferindo-o como pontas afiadas como navalhas.
Grace escaparia do hotel pelo elevador de carga, e ele não a veria até a próxima semana. Até que ele ressurgisse da sua aventura aquática.
Isto é, se ele ressurgisse.

* * *

Na manhã seguinte, na manhã de 10 de maio de 1955, o mundo brilhava. O sol cintilava no ancoradouro, fazendo a água parecer diamante. O ar era fresco e salgado, e mesmo que ainda estivesse oficialmente em terra, Fiske sentiu que certamente ficaria mareado.
Aqui estava ele. O Nautilus. Tão comprido quanto um dos campos de futebol da escola e feito de aço lustroso, ele era a coisa mais incrível e terrível que Fiske já vira.
O casco era negro e fosco, meio úmido pela água batendo e meio seco pelo sol quente de primavera. Gaivotas empoleiravam-se na antena e no periscópio, todos os almirantes em seus próprios pensamentos. Homens em uniformes brancos resplandecentes se movimentavam por todo lugar, carregando rolos de corda sobre os ombros ou descarregando sacos de batatas em uma longa fila que ia do caminhão até uma escotilha no topo do submarino. A bandeira norte-americana estava hasteada por todo lugar – no próprio submarino, nos caminhões de suprimentos nas portas do escritório das docas.
Fiske não estava, afinal, em perigo de esquecer em que país estava. Ele ficou sob uma grande faixa patriota, situada acima da porta do escritório, esperando por um tenente e desejando não se perder. Todas as atividades se desenrolavam na frente de Fiske como espirais de madeira em torno de um nó central. A multidão reunida para ver a partida do submarino era enorme. Estavam ali mulheres de chapéus novos e luvas espessas e crianças com balões que tinham cordões enlaçados em seus pulsos. Um velho gritava com outro para ser ouvido acima do berro de outro. O ar estava salgado e úmido, e tinha cheiro de peixes e multidão.
Fiske estava congelado, sem a mínima ideia de onde ir ou para quem olhar, ou se supostamente devia falar com alguém. Ele esperava que não. Porque tudo o que queria fazer era voltar para o carro e dirigir direto para o fundo do mar.
Um panfleto retorcido do Nautilius estava em suas mãos, o papel úmido por causa das palmas de suas mãos suadas. Ele esteve no escritório, se apresentara como Fiske King, e teve de apertar tantas mãos que pensou que a sua própria fosse cair. Agora esperava por um homem chamado Herman Oppowitz, que lhe mostraria tudo e o ajudaria.
— Bom dia, marujo!
Um homem baixo e atarracado vestindo um macacão azul se aproximou em passos curtos e rápidos, saído do escritório das docas. Ele tinha cabelo cortado bem rente à cabeça, um sorriso enorme e ombros tão largos que parecia ser metade humano e metade daqueles bois do Texas. Fiske talvez pudesse ter gostado dele se não estivesse tão assustado.
O homem arreganhou os dentes em um sorriso e o cumprimentou.
— Você deve ser o neto do Almirante King. É uma honra conhecê-lo — ele estendeu a mão. — Tenente Herman Oppowitz. Eu serei seu guia e respondedor de perguntas durante sua estada no Nautilius. Seu pai no mar, como nós chamamos.
Fiske apertou a mão de Herman; ela era tão grande que cobriu a sua até o pulso.
— Uh, olá, senhor — Fiske respondeu, em uma voz tão baixa e tímida que o fez corar. — Prazer em conhecê-lo, também.
— Ouvi que você é horrivelmente interessado em submarinos — comentou o tenente Oppowitz. — Isso é excelente. Sabia que seu avô serviu em um antes dos anos vinte? Claro que sabia. Rapaz, aposto que você tem histórias. Bem, vamos embarcá-lo. Quer que eu leve sua mochila?
— Não! — Fiske respondeu abruptamente, agarrando sua mochila apertada junto ao peito. — Não. Não, obrigado, quero dizer.
— Claro, rapaz — disse o tenente Oppowitz. Fiske diria que ele o estava olhando como a pessoa mais estranha que o tenente já havia conhecido. O tenente coçou atrás da orelha. — Então, vamos lá para baixo.
Havia uma prancha de desembarque que ia da doca até o topo plano do submarino, e então para uma escotilha aberta. Uma escada de mão descia dali, conduzindo à escuridão do submarino. Fiske seguiu o tenente através da prancha de embarque e em direção do topo do submarino. Ele esperava que oscilasse – como se estivesse entrando em um barco – mas o submarino permanecia firme e pesado na água.
— Por aqui, senhor King! — disse o tenente Oppowitz, gesticulando da escotilha. Havia uma pequena escada para a plataforma do nível, e então, através de outra abertura no chão, uma escada bem maior que levava para baixo, para dentro da “barriga” do submarino.
Fiske olhou para baixo da escotilha, viu a escada de trinta degraus, engoliu em seco e desceu.

* * *

O jovem marinheiro sentava-se no carro, um par de binóculos em seus olhos.
— É ele? — perguntou.
O garoto era pequeno e magro; seria fácil encontrá-lo novamente em meio às fileiras de militares musculosos.
— Sim — disse o motorista. — Eu sei que não era parte da sua missão original, mas parece que se tornou necessário.
— Não se preocupe — respondeu o marinheiro. — Eu posso lidar com isso.
— Você precisa — devolveu o motorista.
— Eu disse que consigo — treplicou o outro abruptamente.
Ele empurrou a porta do carro, abrindo-a, e saltou para fora, agarrando sua mochila e suspendendo-a sobre o ombro. Estava mais pesada do que ele esperava, e ele quase a deixou cair. O motorista fechou os olhos e sacudiu a cabeça. O marinheiro corou em um vermelho escarlate.
— Está nervoso? — perguntou o motorista. — É sua primeira missão.
— Não — disse o marinheiro. — Eu não estou nervoso, afinal. Sei o que esperam de mim. Eu sou inteiramente capaz de suceder.
— Não se esqueça disso — disse o motorista. Ele passou ao marinheiro-transformado-em-Vesper um dispositivo na forma de um longo cilindro, um cabo e um gatilho. No fim do cilindro estavam dois fios metálicos. O marinheiro o pegou e colocou-o em sua mochila. — Lembre-se: aprenda tudo. E então mate o Cahill.
Ele assentiu. Matar o Cahill. Não seria nada ao final, matar o Cahill.

* * *

A escotilha era pequena, e a escada descia em linha reta. Fiske estava com medo de escorregar e acidentalmente acertar o tenente Oppowitz no rosto, ou cair em cima dele. Afinal, sua última tentativa de descer uma grande altura não terminou tão bem.
— Desculpe! — ele exclamou, quando seu pé escorregou e acertou a mão do tenente. Isso estava sendo um desastre. Ele não conseguia entrar no submarino sem destruir tudo.
— Nada com que se preocupar — respondeu o tenente, parando para sacudir a dor aguda de sua mão antes de continuar descendo.
Abaixo, o mundo era muito menor do que Fiske havia pensado. O teto era baixo, e os corredores, estreitos. Equipamentos e monitores bipavam e zumbiam ao seu redor. Ele não imaginava que o tenente Oppowitz conseguisse andar pela sala sem prender-se em nada, mas o oficial se moveu como, bem, um peixe na água.
— Esta é a sala de manobra — explicou o tenente Oppowitz. — Atrás desta porta estão os motores. Aqui é onde controlamos a velocidade, a propulsão e tudo mais.
Fiske o seguiu, tentando não encarar. Talvez ele não fosse exatamente interessado em submarinos, mas isso podia mudar. Aquilo era uma peça magistral de maquinário, uma arma de guerra perfeitamente sintonizada. Ou ao menos era o que parecia. Era brilhantemente reluzente e polido, como uma moeda nova de vinte e cinco centavos. Uma moeda enorme, cara e mortal.
Ao mesmo tempo, parecia quase inacabado. Fios metálicos, circuitos e telas estavam à mostra, sem painéis para cobrir suas entranhas. Passar pelos corredores significava ter de se espremer contra uma parede.
— Este é o reator nuclear — estava dizendo o tenente Oppowitz, e foi quando Fiske tropeçou e quase caiu sobre o tenente.
Eles passaram para outra sala, e lá estava ele: o sussurrante e latejante coração do submarino. Não parecia muito: apenas um grande bloco de metal com canos que entravam e saíam dele. Ele arregalou os olhos, então encarou sua pele, meio que esperando ver novos membros brotando em todo lugar, ou escamas, ou um clone surgindo adiante.
— Não precisa se preocupar com nada aqui — falou o tenente. — Há muito aço entre nós e esta bateria gigante. Nós temos que ter certeza de que você volte para o seu avô em um pedaço só, não vários. Nós somos os dois por cento do topo da Marinha, marujo King. Ninguém está correndo o risco de radiação com uma mente afiada como esta — ele piscou e deu uma batidinha em sua têmpora. — Oh, alguns dos outros, é claro, mas eu tomo as medidas de segurança por todos. Certo? Ha! Certo?
Fiske quase sorriu. Era um alívio, afinal.
— Aqui fica o refeitório e a câmara fria. Você fará suas refeições e passará seu tempo de lazer aqui. Quererá estar por perto na hora das refeições. É a melhor comida do fundo do mar – e da superfície, também. Não temos muito com que nos vangloriarmos aqui embaixo – é apertado e escuro, e deixe-me dizer que começará a cheirar depois de um dia ou menos – mas não há nada que se equipare à nossa comida.
Fiske olhou ao redor. As mesas eram compridas e estreitas. Era como se tudo tivesse encolhido para metade de seu tamanho. De certo modo, isso era bom. Ele quase se sentiu envolvido, como se o espaço fosse pequeno demais para que algo ruim pudesse entrar. Simplesmente não havia espaço.
— Depois disso temos a cabeça do submarino, a sala de controle. Qualquer coisa que acontece aqui vem lá de cima. Eu tenho de lhe pedir, educadamente, sabe, para manter seus dedos curiosos longe de qualquer botão que eles possam querer apertar. Não que eu pense que você faria isso, mas é uma condição para a sua viagem.
— É claro — concordou Fiske.
Como se ele fosse querer apertar algum botão, afinal. Ele estava perfeitamente satisfeito em sentar-se em seu beliche e não mexer em nada. Apesar de ele estar ali há vinte minutos em sua missão, ainda se sentia despreparado. E mesmo assim, havia algo sobre isso que era... Emocionante. Talvez isto fosse ser Grace – estar sempre meio aterrorizado e ainda meio excitado. Havia algo incrível sobre isso; algo que o fazia sentir-se como se pudesse fazer qualquer coisa.
— Seu beliche fica por aqui. Nós daremos o almoço em cerca de vinte minutos. Emocionante, não é? Eu vi muito, você sabe, viajando ao redor do mundo um par de vezes. Mas um submarino nuclear! Nós viajaremos o caminho todo de Connecticut a Porto Rico embaixo d’água. O caminho todo! Eu já havia estado embaixo d’água antes, nos barcos a diesel, mas o caminho todo – rapaz, eu nunca tinha ouvido nada parecido — disse o tenente Oppowitz. Fiske pensou que ele praticamente inflou o peito, como um pássaro orgulhoso de voar. — E então aqui está você, você sabe — ele adicionou.
— E-eu sei — respondeu Fiske. Oh, ele não sabia.
— Esta é a sua suíte — disse o tenente Oppowitz. Eles andaram por um corredor estreito e entraram em um quarto pequeno delineado por beliches. Havia assustadores quarenta e cinco centímetros de colchão a colchão, e apenas uma pequena cortina de puxar para dar uma pequena privacidade. Dobrado sobre o beliche de Fiske estavam dois pares de roupas azuis. — Estes são seus macacões.
— Meus o quê?! — perguntou Fiske, tentando bravamente não rir. Mas havia algo extremamente engraçado acerca de um oficial naval dizendo a palavra macacão – remontava a um macaco gigante.
— Macacões — repetiu o tenente, seus olhos brilhando enquanto tentava segurar a risada. — Eu sei. Eu não posso evitar, de qualquer forma. Tenho um filho que pulou fora por isso, também. Guarde suas coisas aqui — ele levantou o colchão para revelar uma pequena gaveta para as coisas de Fiske.
— Obrigado — disse Fiske, sua voz um pequeno gemido.
Estava acontecendo. Tudo isso estava acontecendo de verdade. Ele iria morar num submarino.
 — Você não fala muito, não é? — comentou o tenente. Fiske ficou cor de rosa. — Ah, tudo bem. Não há nada para se envergonhar. O que se diz mesmo? Melhor manter a boca fechada do que fazer papel de tolo, ou ficar de boca fechada e não ser tolo? Algo assim? Não sei. Mas você é um rapaz inteligente, eu vejo isso.
— Obrigado — Fiske falou novamente, mexendo em uma das alças de sua mochila.
— Vou deixá-lo sozinho para colocar suas coisas em ordem — disse o tenente. — Os outros garotos estarão aqui embaixo em breve — estão em seus postos cedo o suficiente. Voltarei aqui quando estivermos no mar. Eu tenho algo inacreditável para te mostrar. Nós podemos terminar de olhar por aí, e eu poderei responder qualquer pergunta que você possa ter. Seria uma grande honra estar no mar na companhia de alguém como o Almirante King. Aposto que é uma honra tão grande quanto estar com seu neto.
O tenente Oppowitz estendeu sua mão bruscamente, e Fiske a apertou com um quê de hesitação.
Assim que o tenente foi embora, Fiske abriu sua mochila e começou uma escavação através dela. Ele sabia que estava lá; sabia porque riu quando Grace o obrigou a colocar em sua mochila, mas agora estava se tornando tão conveniente que ele mal podia suportá-lo.
E lá estava ele: um pequeno kit de costura. Um botão quase invisível não parecia poder colocar a humanidade em risco, mas havia algo sobre a caça às pistas que fazia uma pessoa olhar para o mundo de modo diferente. Agora este kit de costura estava sendo chamado além de sua vida.
Fiske pegou um macacão e o anel de seu bolso do melhor jeito que pôde – não de um jeito muito bom, mas pegando mesmo assim – e costurou o anel na parte de dentro e da frente da roupa. Ele guardou o outro conjunto e suas outras roupas embaixo do colchão; não tiraria aquele macacão por nada.
Estava terminando de abotoar o macacão quando outro garoto entrou. Ele não parecia ser muito mais velho que Fiske.
— Este é o seu beliche? — o garoto perguntou.
Fiske assentiu, alisando os vincos de sua roupa. Ela era lisa e azul, e o fazia se sentir um próprio marinheiro. E ali estava o anel, puxando levemente o tecido como uma minúscula âncora.
O garoto atirou sua mochila sobre outro colchão.
— Eles não nos dão muitos quartos, não é? É melhor não ter pesadelos ou ser sonâmbulo, certo?
— Claro — Fiske concordou, mas o outro marinheiro continuou falando.
— Esta é a sua primeira vez aqui embaixo? — perguntou.
Fiske assentiu.
— É minha primeira vez, também. Eu acabei de me formar na escola naval. Claro, ainda há muito trabalho a fazer. Eu sou apenas um puke. É como eles chamam os novos marinheiros aqui. É empolgante, não é? Um submarino nuclear, e essa é apenas a minha primeira viagem. É incrível como conseguem pegar algo como uma bomba e fazê-lo andar por aí para explodir coisas. Não que você pudesse me pagar para eu me aproximar do reator. Eu estarei na sala de controle – muito, muito longe.  Bastante. Você tem uma especialidade?
— Oh — disse Fiske. — N-não. Eu... não.
— Ah, eu ouvi algo sobre você. Bem, uma vez que se está num submarino, isto não te faz um deles, mesmo que seja só um pouquinho? — perguntou o garoto. Ele puxou seu colchão de volta para baixo. — Seja bem vindo a bordo. Tenho certeza de que você será uma boa escolha para entrar na tripulação.
Fiske corou e murmurou um obrigado, mesmo pensando que isso o fazia parecer tolo; e ele queria parecer corajoso e sério em frente aos autênticos homens da Marinha.
— Você também.
— Ah, bem, obrigado — respondeu o outro garoto.
— Será que devemos nos juntar no refeitório? Acho que estão todos se reunindo antes da partida.
— Claro. Sou Fiske, aliás. Fiske Ca... King. Fiske King.
Ele estendeu a mão.
— É bom conhecê-lo, Fiske King — disse o rapaz, apertando sua mão. — Sou George.

* * *

Fiske e George estavam seguindo para o refeitório quando o tenente Oppowitz os saudou da cozinha.
— Ah, Fiske! — o tenente Oppowitz levantou seu braço e acenou para ele.
Fiske, sentindo-se bastante como um marinheiro em seu macacão azul, acenou de bom grado. Era fácil mergulhar em um papel quando se está acostumado.
— Nós temos mais do nosso tour para ver e fazer — ele levou Fiske a outro corredor estreito. — Você sabia que o Nautilus é o primeiro submarino a ter uma escadaria? Olhe para nós! É como um hotel cinco estrelas aqui embaixo.
O tenente Oppowitz subiu as escadas como um rinoceronte e Fiske arrastou-se atrás dele. Era fácil seguir o tenente – Fiske podia ouvi-lo indo e vindo, não importava se seus olhos estivessem vendados – e era fácil gostar dele. Ele falava o suficiente pelos dois, e Fiske não sentia necessidade de preencher nenhuma pausa na conversa.
As escadas levavam à sala de controle. Se Fiske tinha pensado que as outras salas e quartos no Nautilus eram complexas, a sala de controle envergonhava todas elas. A sala era movimentada, como um cérebro-robô gigante que era meio humano, meio máquina.
Cada centímetro do espaço dizia algum tipo de informação sobre o submarino: a profundidade, a pressão e temperatura interna e externa, velocidade, direção, leitores de sonar, níveis de oxigênio...
Um marinheiro não muito mais velho que Fiske sentava-se na frente de algo que parecia um volante de direção, seus olhos colados no pequeno monitor acima do volante.
De pé no meio daquela multidão estava um homem baixo de cabelos negros e um rosto inteligente.
— Fiske, deixe-me apresentá-lo ao comandante Eugene P. Wilkinson, da Marinha dos Estados Unidos — disse o tenente Oppowitz.
O comandante Wilkinson estendeu sua mão para cumprimentar Fiske. Ele pensou que o comandante parecia um professor de Literatura, ou um homem que vendesse chapéus bem feitos, não um comandante naval.
— O comandante Wilkinson é o chefe do submarino, aliás. Se você não se importar com a informalidade, senhor.
— Não, claro que não, tenente. É um prazer conhecê-lo, Fiske King — o comandante falou quando Fiske pegou sua mão. — Espero que entenda o privilégio que é estar aqui embaixo, jovenzinho.
— Eu entendo, senhor — respondeu Fiske, sua voz falhando um pouco em sua garganta. — Sim. E é bom, hum, conhecê-lo também.
— Muitos garotos matariam pela oportunidade — falou o comandante. — Espero que aprenda bastante enquanto estiver aqui. Que faça jus ao nome de sua família.
— Eu... sim, sim.
O comandante pareceu satisfeito com isso e virou-se de volta para os assuntos da sala de controle.
— Tudo certo, então. Ranker, o motor está pronto?
— Sim, senhor — disse um marinheiro.
— Então vamos fazer isso direito. Quero explodir todos eles. Vamos zarpar.
Ranker acionou um interruptor que enviou um zumbido através do barco, e colocou o rádio próximo de sua boca. — Iniciando energia nuclear.
— Estamos em movimento? — perguntou Fiske.
Ele mal conseguia sentir. Ele esperava que o barco guinasse ao mergulhar nas profundezas.
— Nós com certeza estamos — respondeu o tenente.
Ele apontou para a tela do sonar. Um marinheiro estava com um bloco de papel à sua frente e um lápis na mão. Ele assistia a tela e fazia uma anotação a cada poucos sinais sonoros. O fundo da enseada apitou, alertando o espaço que havia entre cada monte de areia, cada mergulho no fundo do mar.
Fiske observou fascinado. Era algo como uma dança, com o comandante gritando os passos e cada um dos marinheiros pisando no chão com suas telas, mapas e painéis de controle.
Isso o fez sentir-se seguro. Nada de ruim poderia acontecer por aqui. Alguém notaria se alguém estivesse fora de passo, e isso então seria corrigido imediatamente. Simplesmente não havia espaço para erro.
O tenente Oppowitz o chamou de volta de seus pensamentos, de sua boca aberta para a sala de controle.
— Pronto para algo melhor ainda? — perguntou o tenente.
— Melhor do que isso?
O tenente sorriu e assentiu.
— Não há nada igual. Especialmente a primeira vez que se vê. É minha parte favorita.
Fiske seguiu obsequiosamente enquanto eles faziam seu caminho de volta para onde tinham entrado pela primeira vez no submarino. O tenente Oppowitz subiu as escadas, uma grande massa negra acima de Fiske. E então, com uma corrida rápida, ele tinha ido embora. E tudo o que deixou para trás foi um círculo azul do céu.
Fiske o seguiu, e a primeira coisa que o atingiu foi o cheiro no ar. Ele era limpo, marcado com o sal e a água. Fiske se puxou para fora e foi engolido pelo azul à tua volta.
O Nautilus estava deslizando através da água. O céu acima estava sem nuvens e perfeitamente azul claro, e Fiske imaginou se poderia esticar o braço e tocá-lo. O vento estava forte e ele estava com um pouco de frio, mas parecia um pequeno preço a pagar pela alegria.
Não havia grades em torno do topo do submarino; não havia nada entre ele e a água ondulante. O nariz do submarino era contundente e redondo, e não furava as ondas como a proa de um navio. Em vez de uma divisão marcante através da água com um V de espuma se espalhando atrás do barco, a água borbulhava e rolava para longe do casco em grandes plumas brancas.
Fiske teve que abrir os braços para manter seu equilíbrio, mas os outros marinheiros faziam seus deverem em cima do submarino como se tivessem crescido na coisa. Eles checavam as antenas da torre periscópio e enrolavam a corda que tinha mantido a prancha no lugar, mas alguns deles apenas estavam lá para ver o horizonte.
Fiske não poderia culpá-los. O vento açoitava o tecido largo de seu macacão fazia seu cabelo bem penteado bagunçar como um ninho de pássaro. Ele se sentia como um pássaro, que a qualquer momento iria decolar e deixar o mundo inteiro para trás. Ele gostaria de pegar as nuvens e verter sobre Grace, levando-a para londe de tudo o que estava respirando em seu pescoço.
Grace. Seus braços caíram. Como podia sequer pensar em ter um bom momento quando ela estava lá fora, arriscando sua vida pelo anel?
Ele colocou a mão em seu peito; estava lá.
— Eles querem ter seu último pedaço do bom ar do mar antes que todos nós estejamos enfiados sob como um cardume de sardinhas fedorentas — explicou o tenente Oppowitz, apontando para os marinheiros. — Às vezes eu desejo que nós pudéssemos flutuar sobre eles e fazer alguma boa pesca. Você já foi pescar no Mississippi, Fiske?
— Uh, não, senhor.
— É a melhor pesca que existe. Há pessoas que vão tentar dizer-lhe que nada bate o oceano, e com certeza, ele é bom. Mas não há nada como aquele velho rio lento com seu filho num joelho e uma isca na linha — o tenente jogou abriu bem os braços e balançou-os para frente e para trás, esticando os músculos em seu pescoço e costas. — Não seremos capazes de fazer isso novamente por algum tempo, certo?
Abaixo, uma campainha soou e os marinheiros começaram a finalizar e deixar suas funções.
— É o sinal para voltar para dentro — o tenente Oppowitz explicou. — Nós mergulharemos logo. Certamente que não queremos ficar aqui fora quando isso acontecer!
— Não, não mesmo — Fiske respondeu, seguindo rapidamente o tenente de volta para dentro da embarcação.
Não que ele realmente pensasse que o submarino desceria abaixo da linha água com uma dúzia de membros da tripulação acima dele. Mas apenas no caso, ele queria estar bem longe de quaisquer portas ou escotilhas quando acontecesse.
O último homem a descer trancou a escotilha bem fechada. Agora, Fiske pensou, absolutamente nada mais poderia entrar no barco. Não passou por sua cabeça que isso significava que ele não podia sair, também.

* * *

No refeitório, o tenente Oppowitz acenou para um marinheiro e chamou-o.
— Fiske, este é Pequeno Oficial de Terceira Classe Ralph Kane. Todo mundo tem que conquistar seu lugar aqui embaixo, sabe, então você estará ajudando Ralph. Ralph é um técnico de mísseis. Você gastará muito tempo no torpedo quarto.
Ralph era alto e largo e tinha a aprência de um marinheiro. Ele ofereceu uma mão para Fiske.
— Prazer em conhecê-lo.
Apesar de Fiske ter pensado que poderia não ser tanto assim um prazer. Ralph parecia um pouco irritado, como se alguém tivesse acabado de tornar-lhe a babá mais letal sob o mar.
— Prazer meu também — disse Fiske. — Mas eu não ficarei com você, tenente?
— Você ficará entediado comigo — respondeu o tenente. — O trabalho divertido é de Ralph. Não que eu o inveje, juro. Minha vida é excitante o suficiente apenas por estar no mar. Eu não preciso acrescentar torpedos a ela. O Ralph aqui, por outro lado, é cheio de emoção e perigo, não é?
— Sim, senhor — concordou Ralph.
Mas Fiske não concordava. O rosto de Ralph era tão sério, Fiske pensou que sua ideia de emoção e perigo poderia estar em reorganizar sua coleção de rochas.
— Muito bom — disse o tenente Oppowitz. — Fiske, você estará em boas mãos. Kane aqui é um excelente marinheiro. Agora, estou saindo para relatar para o serviço. Você vai ficar com Ralph e ele vai mantê-lo longe de problemas.
— Sim, senhor — respondeu Fiske, se mexendo um pouco.
Ele não se sentia longe de problemas ao lado de Ralph. Na verdade, sentia-se dentro do problema, só que ele não tinha feito nada ainda.
Ralph olhou para Fiske quando o tenente se afastou. Fiske corou em um escarlate profundo e desejou saber a coisa certa a dizer. Se Ralph quisesse, Fiske estava perfeitamente disposto a passar os próximos quatro dias escondido em seu beliche.
— E-então — disse Fiske, tropeçando no silêncio constrangedor como um cego em um parque de diversões. — Quão profundo isto vai?
Ralph parecia irritado novamente.
— Bem, se você fosse um marinheiro de verdade, saberia disso, não é? — Ralph agarrou um marujo pelo cotovelo – era George. — Puke, quão profundo nós vamos?
— Uh-uh — disse George. Ele tinha sido muito bom conversando com Fiske anteriormente, mas agora o rosto de George tinha virado uma estranha combinação de leitosa pálida com manchas vermelhas brilhantes. — Uh, isso é, uh, 700 pés. Senhor. Uh, senhor.
— Humf — resmungou Ralph. Ele voltou seu olhar muito sério para Fiske. — Este não é um navio de cruzeiro. Não é um período de férias para ninguém. Aqui embaixo, você vai ter que trabalhar como todo mundo. Então não faça bagunça e não me faça ficar mal. Certo?
— Oh sim, claro.
Fiske olhou para George, que ergueu as sobrancelhas. Fiske esboçou um pequeno sorriso.
E isso foi um erro.
Ralph agarrou a gola do macacão de Fiske. O coração de Fiske saltou para a garganta; seu único pensamento naquele momento foi para o anel.
— Olha — disse Ralph. — Eu não me importo de quem você seja neto. Faça bagunça aqui, e eu farei com que você deseje nunca ter posto os pés neste barco. Entendeu?
— Sim — Fiske respondeu, seu coração batendo muito rápido. — Sim. Eu entendi.
— Bom — disse Ralph, largando Fiske depois de dar-lhe um empurrão. — Vamos ao trabalho.
Fiske olhou para George novamente antes de seguir Ralph. George deu de ombros.
Isso ia ser interessante.

* * *

A vida embaixo d’água era boa para Fiske. A saber, porque as pessoas no mar eram muito mais legais com ele do que seus colegas de classe já tinham sido. Excetuando Ralph, mais ou menos. Parte disso provavelmente acontecia porque todos pensavam que tinham de ser assim, já que ele supostamente era o neto de um herói da Segunda Guerra Mundial, mas ele estava disposto a buscar mais além, se isso significasse alguma paz.
Foi fácil aclimatar-se à vida estruturada no submarino. Havia seis horas de sono no, reconhecidamente, minúsculo e não muito confortável beliche. Em seguida, seis horas de trabalho nos torpedos com Ralph.
Alguém deve ter contado a ele sobre o interesse de “Fiske King” sobre submarinos e de ser indulgente em relação a isso, já que Ralph estava cheio de palestras: sobre torpedos e quão sério era o trabalho que ele tinha, acerca de medidores e mostradores, sobre a nobreza do submarino.
— Tal qual uma baleia — disse Ralph. — Não há nada mais nobre do que uma baleia.
— É claro — concordou Fiske.
Nada.
— Eu concordo!
Uma vez que esta viagem no Nautilus era apenas um teste para ver todas as suas  imperfeições antes de sair em missões reais, não havia muito para se preocupar em termos de atirar em coisas. Ainda assim, todos os dias, Ralph estava lá, verificando medidores e leituras de pressão. Ele chegava cedo nos turnos e era o último a sair no final. Fiske pensou que ele provavelmente cantava canções de ninar para os mísseis quando ninguém estava olhando.
Depois de marchar por toda a sala de torpedos, Ralph iria para o refeitório estudar. Suas habilidades chegavam a quase tudo. Mais um teste e ele ganharia seus Golfinhos - ele seria um submarinista completo com todo o dever e respeito que viesse com isso.
Já que ele deveria ser tão interessado em submarinos, Fiske se juntaria a ele lá, assim como George quando estava de folga. George estava apenas começando a estudar para suas qualificações, mas ele já sabia muito. Mais que Ralph, na verdade. Ralph ficava olhando para uma página em seu guia de estudo, sua boca se movendo lentamente enquanto lia as palavras, uma a uma em sua cabeça. George disparava trivialidades sobre submarinos como um foguete, e ele acelerava através de seus cálculos e questões de seu pequeno guia de estudo como se fossem as coisas mais fáceis do mundo.
Os números e símbolos que George rabiscava no papel deixavam Fiske piscando em confusão.
— Você poderia ter ido para Harvard — disse Fiske. — Quero dizer, você poderia ter ido para o MIT. Mas está aqui.
George deu de ombros.
— Eu tenho o dever de servir — respondeu ele.
— E v-você? — Fiske perguntou a Ralph.
Ralph levantou os olhos, lançou um olhar a Fiske e então voltou a atenção para os livros.
E até agora, depois de dois dias no submarino, o anel tinha ficado em segredo. Fiske se mantinha sério em não tirar o macacão para nada. E embora soubesse que estava começando a cheirar, não se incomodava por isso. Isso, ele disse a si mesmo, era porque os produtos químicos a bordo do submarino que sugavam o dióxido de carbono eram aversamente afetados por desodorizantes, e com uma equipe com mais de cem homens, sem desodorantes, e fontes muito limitadas de água quente, todo mundo fedia.
Fiske provavelmente era o pior de todos eles.
Os outros caras pulavam, gritavam, sob o chuveiro gelado por alguns segundos, mas Fiske era inflexível. Ele não tirava a roupa de marinheiro por nada. Mas pelo menos mantinha-se lavando o cabelo e escovando os dentes.
Ele esfregava uma toalha na cabeça enquanto entrava na sala com os beliches. E quando tirou a toalha do rosto, congelou em seu lugar.
Sua cama estava uma bagunça, tudo estava revirado. Os lençóis haviam sido puxados e a gaveta sob a cama, saqueada. Sua mochila, suas meias e cuecas, seus poucos produtos de higiene pessoal estavam espalhados por todo o chão.
Nada mais no quarto tinha sido tocado.
A mão de Fiske voou para o seu peito, e ele apertou o anel com força contra a sua pele. Estava lá. Estava ali com ele – não foi perdido, não foi roubado.
Ainda assim, a visão provocou calafrios até a nuca; seu couro cabeludo arrepiou, como se tivesse mergulhado a cabeça no chuveiro gelado. Alguém estava procurando alguma coisa em seu beliche.
Não havia razão para isso, a menos que alguém soubesse quem ele era de verdade.
Fiske não ia entrar em pânico. Disse a si mesmo que não faria isso. Mas ele podia sentir seus medos acordando dentro dele, como o monstro de Frankenstein vindo à vida. Podia provar o choque de adrenalina em sua boca; podia ouvir um leve zumbido, como o zumbido de um barco que aparece e desaparece em torno dele. Seus pés balançaram sob ele e Fiske teve de se segurar na beliche mais próxima para não cair.
Ele estava preso a setecentos pés abaixo d’água com alguém que conhecia a sua verdadeira identidade, que sabia que ele estava escondendo algo, e que estava à procura de um segredo.
Procurando por ele.
Algumas das cortinas nas outras beliches estavam puxadas – havia homens que dormiam enquanto isso acontecia. Então, quem quer que fosse, deve ter sido incrivelmente silencioso.
A cortina de George estava aberta, então Fiske correu pra lá. Se havia alguém que entenderia seu terror, seria George.
— George! — ele sussurrou, sacudindo o companheiro com força.
George deu um grande empurrão e seus olhos se abriram, os braços e as pernas balançando para cima e para baixo. Ele tentou se sentar ereto e bateu a cabeça com força na beliche de cima.
— O quê? O quê? — George gritou. Ele esfregou os olhos e olhou para Fiske com uma carranca sonolenta. — O que é, Fiske?
— Olha — disse Fiske, apontando para a sua beliche na direção oposta. — Você deveria estar aqui. Não estava assim antes. Você viu... você ouviu alguma coisa?
— O que...? — George esfregou os olhos e deslizou para fora de seu beliche para ver os danos mais de perto. — Essas são suas coisas?
— Sim — disse Fiske, passando a mão no cabelo ainda úmido. Ele estava assustado e tremendo. — Eu fui tomar um banho e quando voltei estava assim. Você ouviu alguma coisa? Você estava dormindo, eu sei, mas se ouviu, eu só...
— Sabe, posso ter visto algo, eu estava lendo um pouco antes de adormecer e... ouvi esses passos. Passos pesados. Como se houvesse um gigante na sala. Pensei que fosse Ralph, e como não queria ouvir uma de suas palestras, fiquei quieto e mantive a cortina fechada. Você não acha... não acha que foi Ralph, não é?
— Ralph? — Fiske repetiu.
Ralph, que sempre parecia tão irritado com Fiske? Se houve um... um Vesper a bordo, poderia ser ele?
A pele do pescoço de Fiske se arrepiou como se o Vesper estivesse lá, observando-o. Esperando por ele, aguardando a hora em que Fiske se confundiria, olharia para o lado errado, diria a coisa errada – como ambos sabiam que ele faria.
E então tudo estaria terminado. O Vesper atacaria e tiraria o seu anel. Fiske falharia.
— Fiske? — George chamou, inclinando a cabeça. — Você está bem?
— Eu não deveria tê-lo a-acordado — disse Fiske. — Desculpe.
— Você precisa de ajuda para pôr as coisas no lugar? — perguntou George.
— Não. Eu consigo... consigo fazer isso. Não conte sobre isso a ninguém, tudo bem?
— Tudo bem. Seu segredo está seguro comigo.
Não, pensou Fiske. Não está seguro com ninguém.

* * *

Naquela noite, enquanto Fiske se preparava para dormir, Ralph entrou na sala de beliches. Ele tinha todo o direito de estar lá, mas isso não significava que Fiske não saltaria para cima dele e espetaria seu peito com a sua escova de dente.
— O que foi? — perguntou Ralph, e Fiske podia jurar que ele estava mostrando os dentes quando disse isso.
— Nada — disse Fiske.
— Sabe, você não tem que vestir essa roupa todos os dias, o tempo todo. Nós temos pijamas aqui embaixo. E chuveiros — alertou Ralph.
— Eu estou bem.
— Na verdade, você cheira mal — Ralph apontou. — Ou eu não deveria falar assim com o neto do Almirante King?
Ele disse isso como um desafio, pensou Fiske. Ele não acreditava totalmente na história.
— Você pode falar comigo como quiser — respondeu ele. — Eu não m-me importo.
Ralph não disse nada, mas enquanto saía, fez questão de dar um empurrão forte no ombro do garoto. Fiske tropeçou para trás na direção dos beliches, o seu coração batendo descontroladamente em seu peito.
Na manha seguinte, porém, Ralph agia como se nada estivesse acontecido.
Ele e Fiske estavam na sala de torpedos, como se esperava deles.
— As baleias — Ralph estava dizendo — são criaturas fascinantes. Você sabia que elas sabem o que está nadando em volta delas em um clique? Coisas bonitas, elas.
Estava perto do fim do horário deles.  Por seis horas, Fiske andou em ovos em torno de Ralph. A única coisa que o impedia de ir completamente à loucura era os outros marinheiros de plantão.
— Você, hum, sabe muito sobre baleias? — perguntou Fiske.
Qual o beneficio de um Vesper saber tanto sobre as baleias?, ele se perguntou. Eram as baleias muito mais cruéis do que Fiske pensava?
— Eu cresci no Maine — Ralph falou. — Na costa mesmo. Meu pai mantinha um farol, então quando eu era criança, vivia na água.
— E então você entrou pra Marinha — Fiske completou, afiando a língua em cada palavra.
— Parecia algo natural a fazer — disse Ralph. — Pensei em fazer sonar como o seu amigo George ali, mas não sou esse tipo de cérebro. Acho que estou mais para o trabalho manual.
— Vamos, Kane — um dos outros marinheiros berrou. — Nós queremos o almoço. Jack fez carne assada e não queremos perder.
Fiske levantou e se preparou para seguir os outros marinheiros.
— Nosso horário não acabou, ainda faltam três minutos — Ralph se pronunciou, seu olhar varrendo os outros marinheiros e parando em Fiske como uma bigorna.
— Mas é carne assada — disse o marinheiro. — Pense na carne de panela, Kane. O assado, as batatas e cenouras e tudo mais vão nos deixar estufados o dia todo — ele esfregou o estômago e fez um som ridículo estalando os lábios.
Ralph não disse nada, mas revirou os olhos para o outro marinheiro, gesticulando que ele estava livre para levar os outros e ir de cabeça para o almoço.
— Onde você pensa que está indo? — Ralph perguntou quando Fiske tentou segui-los.
— E-eu... uh, vou comer um pouco de assado.
— Ainda faltam três minutos — Ralph apontou. — Nós vamos ficar esses três minutos.
Tanta coisa pode acontecer em três minutos!
Fiske deslizou para longe de Ralph. O último dos marinheiros tinha saído, deixando Fiske sozinho com ele.
A sala de torpedos parecia crescer, ficando mais alta, larga e profunda, e com muito mais espaço vazio. Quão longe estava a cozinha?  Fiske passou o caminho em sua cabeça. Será que alguém o ouviria gritar?
Fiske queria correr, mas não conseguiu encontrar as palavras para bolar uma desculpa, e sua língua parecia congelada em sua boca.
No painel de controle de torpedos, uma luz vermelha começou a piscar.
— Tiro — disse Ralph, murmurando para si mesmo.
— O quê? — perguntou Fiske.
Vesper ou não, eles ainda estavam cercados por mísseis. Fiske não tinha certeza do que devia sentir mais medo.
— Há algo de errado com o número quatro — Ralph falou, olhando pra cima.
Os torpedos eram empilhados em três fileiras altas; o número quatro estava perto do topo da sala. Havia uma escada que levava até uma passarela, por onde dava para passar entre os mísseis.
— Errado? — perguntou Fiske. Sua voz tremendo um pouco mais do que ele desejaria. — Errado c-como?
— Eu não sei. A maneira mais fácil de saber seria ir lá em cima e dar uma olhada nisso — ele apontou o polegar para a escada. — Vá lá dê um olhada.
— Eu? — Fiske esganiçou. — Eu tenho que ir lá em cima?
— Bem, isso ou você pode ficar aqui embaixo e usar a sua vasta experiência subaquática para ler esses indicadores e descobrir quando o sistema estiver estabilizado. Parece bom?
— Vou subir — disse Fiske.
Ele fingiu que suas mãos não estavam suadas e escorregadias contra o metal frio da escada. Ele também fingiu que três fileiras de torpedos não eram grande coisa. Tentou lutar contra a vertigem enquanto subia e contra a sensação de que cada pequeno movimento de seu corpo iria mandá-lo de volta para o chão de metal duro. Seu coração sacudia em seu peito, como se o pânico soltasse suas amarras.
Três fileiras de torpedos eram realmente altas uma vez que estava lá em cima. No topo da escada, ele teria que fazer a transição para a passarela. Havia uma razão para que apenas os gatos fazerem coisas como estas, e Fiske suspeitava que era porque eles tinham as vidas extras para gastar, apenas.
Ele olhou para cima. Faltava mais um pouco.
E, em seguida, as luzes se apagaram.

* * *

Não há janelas em um submarino; então não havia chances de entrar alguma luz natural. Quando não há luzes acesas, aparelhos fazendo barulho, nem sombras; não há nada além do breu e escuridão.
Fiske congelou, as mãos coladas ao redor do degrau da escada. Se ele se soltasse, ele cairia. Sabia disso. Algo na escuridão iria sacudi-lo, como uma folha no outono.
— Fiske! Fiske! Você está ai em cima? — Ralph estava gritando. — Fique onde está. Não toque em nada ao redor. Pode explodir qualquer coisa.
 Á sua direita, Fiske ouviu movimento. Ralph deve ter saído de ser lugar, em busca de um interruptor, uma lâmpada – alguma coisa. A menos que ele estivesse indo na direção de Fiske, a fim de matá-lo no escuro. Fiske não podia se mover. Ele só poderia espremer os olhos e esperar que as luzes se acendessem – e rápido.

* * *

O Vesper colocou seus óculos infravermelhos e trancou a porta. O Cahill estava agarrado à pequena escada de metal como se fosse sua mãe, provavelmente com medo de tanto escuro e da perspectiva de ficar sozinho com Ralph.
O Vesper revirou os olhos. Como se os Vesper fossem recrutar uma mente tão crua como a de Ralph. Se ele falasse mais sobre suas preciosas baleias, o Vesper vomitaria direito em uma rampa torpedo.
Ralph estava indo na direção da porta, e o Vesper foi facilmente capaz de evitá-lo. Ralph não era o alvo. Ele não era o Menino King de que ele estava atrás. Fiske espremeu mais os olhos, e o Vesper viu quando ele tentou colocar uma mão na lateral da escada. Levou algumas tentativas – assim que afrouxou seu aperto, Fiske voltou a mão para os degraus, relutante em se soltar mesmo que apenas um momento. Mas, finalmente, ele conseguiu, e fez um movimento agarrando seu peito. Fiske apertou um pouco mais seu coração, e algo que estava ali o deixou visivelmente relaxado. Fiske estava escondendo alguma coisa, e agora o Vesper sabia exatamente onde. Ele deslizou para a escada e começou a subir.

* * *

Fiske ainda estava congelado lá em cima, mal conseguia respirar. Ele fechou os olhos. Assim, sentia-se cego mais por opção, e não por pânico. Ele tentou desacelerar sua respiração e o seu coração, que batia fortemente em seu peito.
Será que ele poderia descer? Ralph estava lá, e como ele saberia que não foi Ralph que planejou tudo isso?
— A porta está trancada — Ralph gritou.
 Sua voz soava distante – mesmo em uma sala apertada de um submarino. Mas havia outro som. Um som mais próximo. O som da escada rangendo.
Mas isso não fazia qualquer sentido – Ralph estava perto da porta, e Fiske não movera um fio de cabelo.
Alguém tinha que estar ali.
Alguém mais estava na escada.
Alguém atrás de Fiske.
— Ralph? — Fiske chamou. — Ralph, você ainda está ai?
— Pare de falar, estou tentando consertar isso — Ralph respondeu de volta.
Será que ele estava mais próximo? Era ele na escada?
Fiske não podia dizer, ele não podia ver. Ele pressionou uma mão contra o macacão; o anel ainda estava lá.
— Estou ouvindo alguém chegando — disse Ralph. Ele começou a bater na porta. — Aqui! A porta está bloqueada ou presa ou alguma coisa! Alguém ai, deixe a gente sair!
— Ralph, é você? — Fiske gritou.
A escuridão era tão espessa que o deixava no esquecimento. Nada era como parecia; nada era seguro e que tudo era perigoso. Pânico se arrastava para cima dele como aranhas. Ralph tinha cortado as luzes e os trancara; é claro que sim. Ralph o mandara ir tão alto, de modo que quando as luzes se apagassem, Fiske faria o quê? Nada. Sim, ele tinha feito isso. Ele iria cair, ou atingiria acidentalmente um dos mísseis, e então todos eles iriam explodir. Ele precisava descer, precisava sair da sala de torpedos!
Ele iria descer. Ele se esconderia onde Ralph não pudesse encontrá-lo.
— Fique onde está, Fiske, estou indo com a lanterna — disse Ralph.
Ele estava perto agora, só não podia dizer o quanto.
E então, alguém agarrou o tornozelo de Fiske e o puxou.
Fiske desceu, um grito de surpresa saiu quando ele caiu em cima de outro corpo.  Fiske se debateu e chutou, e a pessoa sob ele gritou e bateu de volta.
— Você está aí, Kane? — chamou alguém do outro lado da porta. — Fiske está com você?
— Tenente Oppowitz! — Fiske gritou. Seu rosto estava latejando por causa de um cotovelo que o acertou debaixo de seu olho. — Estou aqui! Socorro!
— Para de gritar! Pare de ser mexer! — Ralph gritou de volta para ele.
Mãos alcançaram Fiske, e ele podia sentir alguém puxando seu macacão. Ele estava tentando tirar o anel. Quem estava no escuro podia ver, e eles sabiam o que o anel era. Fiske tentou rolar para longe, mas alguém agarrou suas pernas e girou em torno dele.
— Fique longe de mim! Deixe-me em paz! — Fiske gritou. Ele deu um chute e tentou se mexer pra longe.
As luzes se acenderam um momento depois, e o tenente Oppowitz se postava à porta aberta, um molho de chaves pendurado em sua mão.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou o tenente.
Fiske estava lutando à distância. Ele podia sentir o seu rosto começar a inchar. Ralph levantou-se e limpou o nariz que estava sangrando. Fiske, Ralph e o tenente. Não havia mais ninguém na sala.
— Ele tentou me atacar! — Fiske gritou.
— Eu não fiz isso! Você pulou em mim! — Ralph disse.
— Vamos nos acalmar — disse o tenente Oppowitz. — Senhor King, eu não acredito que o Pequeno Oficial Kane faria algo assim. Não acredito nem por um momento.
— Ele me puxou para fora da escada — Fiske falou.
— Eu não fiz isso — Ralph respondeu. — Eu não o toquei até que ele caiu sobre mim. E então, com certeza não foi intencional.
— Você está dizendo, Pequeno Oficial, que mais alguém estava na sala? — o tenente Oppowitz perguntou.
Ambos ficaram em silencio. Isso não estava fora de questão. Esta era uma das maiores salas no submarino, com abundância de cantos e recantos onde se esconder. Fiske olhou em volta, como se esperasse que alguém aparecesse por trás de um míssil e lhes desse um bote. Mas ninguém o fez.
— E-ele me atacou — Fiske falou novamente. — Ele era o único aqui. Os outros tinham ido almoçar e ele me fez ficar para trás para que pudesse me atacar.
— Isso é mentira! — Ralph rugiu, e enrijeceu.
Fiske poderia dizer que cada grama de seu treinamento militar estava sendo usado para impedi-lo de ser atacado novamente.
— Fiske — o tenente Oppowitz chamou em voz baixa. Ele tomou Fiske suavemente pelo ombro e levou para longe de Ralph. — Pense no que você está dizendo. Realmente acredita que o Pequeno Oficial Kane o manteria por perto para atacá-lo no escuro? Por que ele faria isso? Sei que ele é um pouco áspero em torno dos mísseis, mas eu o escolhi para ajudá-lo porque confio nele. Ele é um bom marinheiro, e isso é a coisa mais importante para ele. Será que isso soa como uma pessoa que iria atacá-lo?
Fiske olhou entre o tenente Oppowitz e Ralph, que estava com tanta raiva que praticamente queimava em torno dele. É claro que o tenente não podia ver isso; ele não sabia o que Fiske sabia.
— Desculpe-me — Fiske falou.
Ele saiu da sala de torpedos com pressa, voando ao passar por Ralph e depois pelo tenente Oppowitz sem olhar para trás. Não havia como negar isso agora, nada disso era coincidência. Ralph tinha quer ser o Vesper.

* * *

George estava saindo da cozinha quando Fiske agarrou-o pela manga e o levou para a sala de armazenamento a frio.
— O quê? O que foi?! — George esganiçou.
— Silêncio! — Fiske assobiou para ele. — Eu preciso da sua ajuda.  Preciso confiar em alguém e você foi voluntariamente bom para mim aqui em baixo. E-então eu preciso pedir a sua ajuda.
— Eu?? — George repetiu, as sobrancelhas erguendo. — Quero dizer, claro. O quê? O que posso fazer?
— Eu sou... eu não sou quem todo mundo acha que eu sou — Fiske falou.  — Eu realmente não posso... realmente não posso falar sobre isso, mas há alguém aqui que sabe quem eu sou, hum, e eu acho, tenho certeza que essa pessoa quer me matar.  Eu acho que você talvez possa adivinhar quem.
— O que você precisa? — perguntou George. — Você precisa de mim para enviar uma mensagem a alguém? Esconder algo para você? O que posso fazer?
— Eu preciso... — Fiske começou.
Mas então, Ralph virou a esquina.
Foi como uma câmera lenta, ele descendo a passagem com rapidez, seus olhos de ferro focados em Fiske. Parecia prestes a jogá-lo para longe. Então, alguns momentos depois, ele tinha ido embora de novo. Mas Fiske sentia como se vários anos de sua vida tivesse sido jogados fora.
Os olhos de George iam de Fiske para a porta que Ralph tinha atravessado, como se a qualquer momento guardas armados fossem aparecer e o arrebentar.
— Eu não posso falar agora. Mais tarde. Vamos conversar mais tarde. Eu tenho que ir.
Ele tinha que ficar longe de tudo. Ele queria ir para algum lugar seguro. Mas não achava que existia um nesse barco.
— Claro — disse George. — Eu vou ficar de olho nele.
Fiske balançou a cabeça e, em seguida, fugiu.
George observou-o ir e expirou. E então ele sorriu.

* * *

Fiske almoçou com os oficiais naquele dia. O tenente Oppowitz, que era agradável demais para deixar a pequena desavença de mais cedo deixá-lo de mau humor por muito tempo, estava mais do que feliz por ter Fiske por perto, pois significava ter alguém para mostrar as fotos de família.
— Está é a Lucy — ele dizia, apontando para um bebê muito gordo, com cachos loiros. — Ela tem apenas dois anos agora, e é cabeça quente. Aqui, esse é o Peter.
Peter era o oposto de Lucy, muito magro e com um cabelo bem rebelde.
— Ele tem seis. Eu não consigo vê-los muito, vou sempre que posso. Minha esposa, Beth, ela que escreve, quero dizer. Mas as crianças enviam mensagens. Lucy começou a falar. Você sabe o que a Beth me disse que ela falou outro dia? Ela disse “Papa”! Eu nem estou lá e mesmo assim me gravou no cérebro. Uma boa menina, estou certo? Filhinha do papai.
— Vamos, Herman. O garoto não quer ouvir falar de sua família lá de Saint Louis — disse um dos oficiais. — Conte a ele sobre quando você explodiu alguma coisa.
— Eu não me importo — Fiske respondeu, pegando a foto para um olhar mais atento. — Deve ser difícil ficar longe deles por tanto tempo.
Fiske simpatizava com isso. Sua única família que importava nunca estava perto por muito tempo. Fiske achava que Grace era como um tubarão – se parasse de se mover, ela morreria.
Antes, ele havia dito isso como uma piada. Mas agora, tudo era uma grande possibilidade. Algo balançou dentro dele e ele sentiu a necessidade de falar com ela. Só por um momento. Só para verificar se ela estava bem, ouvir a voz dela. Ele sabia que Grace queria que ficasse seguro, mas de repente, não era justo ficar no submarino quando isso significava ficar longe dela.
Ele devolveu a foto para o tenente.
— Ah, você sabe que é — disse Tenente Oppowitz. Ele pegou a foto de volta e colocou no bolso de seu macacão. — Mas é um bom trabalho, e acho que Beth gosta da tranquilidade. Sou um pouco tagarela, sabe – deve ser por isso que Lucy lembra de mim.
O oficial médico-chefe, tenente Robinson, veio em seguida. Ele parecia sombrio.
— Oppowitz, eu poderia roubar o seu menino King por uns instantes?
— O que há de errado? — perguntou Fiske.
— Um dos homens — falou o tenente Robinson — foi atacado. Ele está pedindo para vê-lo. Disse que você pode saber de algo sobre isso?
— Atacado? — repetiu o tenente Oppowitz. — E você está envolvido de novo?
— O que, eu? Quem... quem está pedindo pra me ver?
— Marujo Carmel. George Carmel.
Fiske empalideceu. Ralph o tinha visto falar com George.
— E-eu vou imediatamente — Fiske respondeu, deixando o guardanapo de lado e levantando-se.
— Eu vou também — disse o tenente Oppowitz, seu rosto sombrio.
Eles seguiram o tenente Robinson para os catres médicos. Fiske podia sentir a confusão e a raiva do tenente Oppowitz enquanto caminhava.
Fiske se afastou dele.
— Ele está mal? — perguntou Fiske.
— Ele sofreu uma concussão. Alguém acertou-lhe na parte de trás da cabeça.  Repentinamente, ele disse. O Pequeno Oficial Kane o encontrou no corredor fora da sala de controle — o tenente Robinson sacudiu a cabeça.
— Será que ele sabe o que o atingiu? — perguntou o tenente Oppowitz.
— Ele pode falar — disse Robinson. — Mas queria falar com o garoto aqui, em primeiro lugar.
O tenente Robinson abriu a porta para a enfermaria. Cheirava a álcool e antissépticos, como água sanitária e remédios.
George estava deitado em uma das camas.
— George Carmel — disse o tenente Oppowitz. — O que aconteceu? Você só precisa dizer um nome e nós vamos cuidar disso imediatamente.
— Eu não sei ao certo, aconteceu tão rápido. Mas eu tenho certeza... acho que sei quem era — ele fez uma pausa. — Pequeno Oficial Kane.
Os dois tenentes estavam visivelmente atordoados por isso, mas Fiske não podia imaginar o porquê. Era óbvio que Ralph faria algo assim!
— Kane? — repetiu o tenente Robinson. — Você tem certeza?
— Eu não sei — disse George.  — Fiske pode dizer... ele esteve atrás de mim desde que nós pusemos os pés nesse submarino. Eu não sei por que, acho que por eu ser o melhor em minhas qualificações. Não é uma desculpa, é claro, mas Fiske pode lhe dizer...
— King? — perguntou o tenente Robinson.
Fiske abriu a boca pra concordar, mas o tenente Oppowitz levantou a mão.
— Espere — disse o tenente Oppowitz. — Eu sou o tipo de homem que se baseia nos fatos, não se enganem sobre isso. E agora eu tenho dois homens que dizem que o Pequeno Oficial Kane os atacou no período de uma hora. Eu o conheço desde que ele se matriculou na escola naval. E Ralph não faria uma coisa assim.
É claro que não!, Fiske queria gritar. O Ralph que você conhece não é um Vesper! O Ralph que você conhece está trabalhando duro para se parecer com um marinheiro para que não seja descoberto e mandado para fora!
— Eu vou pedir que  você pense sobre a sua história de novo, George — falou o Tenente, cruzando os braços. — O Pequeno Oficial Kane foi quem o encontrou no corredor. Tem certeza de que não está confuso?
— Não — disse George, franzindo o rosto em frustação. — Foi ele! Eu não estou mentindo. Eu não faria isso. Não tenho nenhuma razão para isso.
Os dois tenentes se entreolharam.
— Eu não estou dizendo isso, mas eu sei que Ralph Kane não faria isso! — disse o tenente Oppowitz. O tenente Robinson suspirou. — Não fique aí e aja como se não conhecesse Ralph, tampouco, Jim. Ele é um bom marinheiro e um homem melhor ainda. Você sabe ele não agiria assim.
— Eu estou apenas olhando para as provas, Herman — disse o tenente Robinson.
Fiske queria pegar o tenente Oppowitz pelos ombros e sacudi-lo. Como ele não poderia ver? Como podia ser tão cego para ver o que Ralph realmente era?
— Sua evidência é bobagem — disse o tenente Oppowitz. — Ouvir bobagens de uma criança quando conhece Ralph tão bem quanto eu.  É da vida de um homem e de seu trabalho que estamos falando!
— Nós vamos trazer Kane para o escritório dos oficiais e falar com ele — disse o tenente Robinson, tentando injetar um pouco de racionalidade de volta para a realidade. — Tem que haver uma explicação para isso.
— Você — disse o tenente Oppowitz, apontando o dedo para Fiske. — Você ficará grudado em mim a partir de agora. Não andará por aí por conta própria. E não vai entrar em mais problemas. E quem estiver atacando meus marinheiros não vai colocar a mão em você, está claro?
Fiske podia se sentir encolher – podia sentir toda a sua bravura e fúria se enrolarem dentro de si mesmo, dentro do seu ventre. Mas ele concordou. Não havia mais nada que pudesse fazer.
— Bem, então — disse o tenente Robinson. Ele foi até a mesa e pegou o telefone, e discou o número do salão oficial. — Robinson aqui. Temos uma situação. Sim, George Carmel. Mande o Pequeno Oficial Kane para o escritório dos oficiais. Já estarei aí.
E ele desligou.
— Você vem, Herman?
Fiske podia ver o conflito no rosto do tenente Oppowitz. Sim, ele queria muito ir, Fiske podia ver. Mas ele não estava disposto a deixar Fiske sozinho.
E ele certamente não queria Fiske na mesma sala que Ralph.
— Ah, tudo bem. Você ficará grudado em mim depois disso. Agora vai voltar para o seu beliche e não moverá um músculo até eu resolver isso, entendeu? E a partir de hoje, não vai sair do meu lado a menos que esteja no trabalho ou dormindo, entendido? Temos 12 horas juntos neste submarino e você vai me ajudar... Entendido?
— Sim. Eu entendi — concordou Fiske.

* * *

Fiske ficou com o tenente Oppowitz o resto do dia, até a hora de dormir.
E a única razão pela qual eles se separaram para isso, foi a de que não havia beliches livres no quarto dos oficias.
Na manhã seguinte, a noticia sobre Ralph e George tinha se espalhado através das fileiras. Estava na boca de todos no café da manhã.
Fiske tinha esperado que o tenente Oppowitz o encontrasse no refeitório dos oficiais, mas quando ele não apareceu, Fiske foi para a mesa da tripulação por conta própria.
— Bem, se isso fosse acontecer com alguém — falou um dos outros marinheiros, um mecânico chamado Dale — ia ser com Ralph. Você tem que admirar como ele mesmo era para esse submarino, em primeiro lugar. Caso não tenha notado, ele não era a ferramenta mais afiada no galpão.
Fiske cutucou seus ovos.
— Eu ouvi dizer que ele teve que ir para a escola naval duas vezes — disse outro mecânico. — Na primeira vez que ele não conseguiu terminar, teve que implorar para ser autorizado a voltar.
— Você acha que ele vai entrar para a Marinha ou para a escola naval depois desta aventura? — Dale perguntou a Fiske.
Fiske deu de ombros. Ele achava que não, é claro. Se quisesse, ele poderia simplesmente pedir ao secretário da Marinha para deixá-lo ficar em torno.
— Ir para a escola naval duas vezes — disse o outro mecânico com uma risada. — Ele realmente deveria querer isso, eu penso.
Algo chamou a atenção de Fiske então – algo que não estava certo sobre toda esta situação. Mas ele não conseguia dizer exatamente o que era.
— Onde ele está agora? — perguntou Fiske, cutucando uma pilha de ovos mexidos.
Os outros marinheiros ficaram quietos, então Fiske olhou pra cima.
— Quero dizer, ele está... ele está em apuros, ou...
— Sim — disse Dale. — O fizeram sair do submarino. Jogar limpo ou jogar com os peixes.
Os outros marinheiros riram.
— Eles... eles realmente fariam isso — perguntou Fiske, olhando ao redor.
Ele soube a resposta quando os marinheiros riram ainda mais alto.
— Eu não sei, ele provavelmente foi movido para algum lugar — disse Dale, com uma pilha de ovos e bacon em sua boca. — Podem tê-lo mudado da sala de torpedos. Alguns dos caras mais altos têm camas lá se não cabem em seus próprios beliches.
Assim, ele não estava sob custódia ou metido em alguma briga, ou qualquer coisa assim. Fiske franziu a testa e empurrou o prato – ele não tinha comido nada – e se desculpou.
A conversa no café da manhã tinha deixado um sentimento estranho por algum motivo – como se estivesse de pé no meio de um campo sem nenhuma chance de ver o que podia vir até ele entre as árvores.
Ele foi tentar encontrar o tenente Oppowitz.
Apertou a mão contra o peito. Sim, o anel ainda estava lá. Engraçado – ele não parecia ser algo muito importante. Não era coberto de diamantes e pedras preciosas; anéis como o dele geralmente só tinham seu valor sentimental. E, no entanto, era a coisa mais importante no mundo.
Ele encontraria o tenente Oppowitz, e suas últimas horas no submarino seriam rápidas e seguras. Esse pensamento o impeliu. Ele abaixou-se para entrar na sala de controle e verificação dos indicadores e dos mapas. Ele não era um especialista em lê-los, é claro, mas mesmo Fiske podia dizer que eles estavam quase lá. Eles estavam quase em Porto Rico.  Ele estava quase fora do submarino. Ele tinha conseguido. Bem, quase. Mas ele estava quase, lá!
— Que viagem, não é? — disse o tenente Robinson.
— Oh, hum, sim — concordou Fiske. — Você não... Quero dizer, o senhor não devia estar na enfermaria?
— Não tinha nenhum paciente — disse Robinson. — O meu único se foi esta manhã e seu amigo estava bem. Nada muito sério.  Ele parecia pior do que realmente estava. Não posso acreditar nós estaremos em Porto Rico. O caminho todo embaixo d’água, Sr. King. Estamos quebrando recordes.
— Sim — Fiske confirmou. — Então, o senhor viu o tenente Oppowitz? Ele queria que eu ficasse com ele... e eu não o vi.
— Não desde a noite passada — disse Robinson. — Você já tentou nas acomodações dos oficiais? Ele gosta de roubar alguns minutos quando pode para poder escrever para Beth e as crianças.
— Obrigado.
Fiske partiu da sala de controle, desceu para o quarto dos oficiais e bateu na porta.
— Tenente Oppowitz? — ele chamou. — Ouvi dizer que você ainda estava aqui, senhor. Senhor? É Fiske King, senhor. Eu tenho algo para lhe dizer.
Mas não houve resposta.
Fiske bateu novamente, e quando o tenente Oppowitz não abriu a porta, Fiske tentou  fazê-lo ele mesmo. Ela se abriu facilmente e ele entrou.
O quarto cheirava estranho. Cheirava a fumaça, como cabelo queimado. Fiske entrou com cuidado. Os beliches na sala dos oficiais não eram empilhados tão alto; havia mais espaço para se movimentar e respirar. O tenente Oppowitz estava deitado no segundo beliche da última fila.
Ele estava morto.
Fiske recuou. O tenente encarava com os olhos semiabertos. Sua pele parecia cinzenta e fria como se não tivesse sido usada em um longo tempo. Havia duas manchas de queimadura na frente de seu macacão, diretamente sobre o seu coração, onde o tecido do macacão e da camisa do tenente tinha sido queimado. Sua mão esquerda estava esticada para frente, e a pele ao redor de seu anel de casamento estava queimada.
Ele tinha sido eletrocutado.
Fiske tropeçou em direção à porta, querendo gritar, querendo chamar por socorro, mas incapaz de fazer qualquer coisa, exceto arfar e depois se jogar no meio do corredor. Ele estava suando frio; o suor corria para baixo de seu pescoço e descia sob o colarinho de seu macacão. Ele ainda sentia náuseas.
Alguém matara o tenente Oppowitz.
Tenente Oppowitz estava morto.
Tenente Oppowitz, que tinha esposa, Peter e Lucy em casa.
Tenete Oppowitz que tinha sido tão bom, que só queria fazer a coisa certa e direita por sua família, e por isso estava em um submarino. E por isso estava cuidando de Fiske esse tempo todo.
E ele estava morto.
O tenente Oppowitz provavelmente não seria o único a morrer. Fiske era um Cahill; Fiske viveria com a constante ameaça de destruição. Ele não gostava, mas quase esperava por isso agora. O tenente Oppowitz não esperava. Ele não estava nem mesmo em uma missão de guerra agora; estava em um submarino para dar a volta nela.
— Fiske?
Fiske tinha tropeçado de volta para a sala de controle. Havia marinheiros em seus afazeres, o comandante Wilkinson no centro da sala. Estavam todos olhando para ele. E Fiske abriu a boca. Mas nada saiu.
— Você parece horrível — falou o comandante Wilkinson, aproximando-se para observar Fiske. — Você está enjoado? Depois de todo esse tempo? Ranker, vá buscar o tenente Robinson.
Não! Fiske queria gritar. Pare!
Ele queria gritar para eles o que aconteceu ao tenente Oppowitz, que estava morto e que alguém o havia matado, mas todas as palavras morreram em sua boca, e ele não podia fazê-las sair. Seu rosto ficou mais quente e mais vermelho, seu sangue fervia, uma vez que borbulhava em todo o seu corpo.
— O t-tenente está... — começou Fiske.
Ele não conseguia respirar. Ele agarrou o peito, segurando o anel através do tecido de seu macacão.
— Fiske, não fale — disse George. Ele apareceu na porta atrás de Fiske.
— O tenente Oppowitz está morto.
As palavras foram saindo da boca dele, arremessadas do outro lado da sala de controle e batendo no rosto de cada um dos homens.
— O quê? — exclamou o comandante. — O que quer dizer... como ele... Robinson! Onde ele está, Fiske? Quero dizer, o morto?
— Beliche dos oficiais — disse Fiske.
— Alguém vá chamar o tenente Robinson agora! — Wilkinson rugiu. — Alguém chame os médicos.
— É tarde demais para isso — Fiske falou. — Ele está morto. Eu o vi. Alguém o matou.
Essas três palavras lançou um silêncio sobre o quarto. O comandante Wilkinson pareceu se transformar em pedra.
— E-eu sei quem fez isso — disse Fiske. Ele olhou para George, que ficou pálido. — Ralph Kane.
— Comandante, nós...
— Não. A toda velocidade — disse o comandante, limpando a mão sobre a testa enrugada. — Nós não vamos nos abater por qualquer coisa, Washington está nos esperando para fazer uma boa exibição, e nós vamos lhes dar isso.
Ele se voltou para Fiske.
— Ralph Kane não iria matar o tenente Oppowitz. Isso não faz sentindo algum. Herman era como um pai para Kane. Ele o trouxe para o submarino. Ralph não mataria o tenente. Robinson está indo vê-lo. Ele é um médico, vai chegar ao fundo das coisas.
Todo mundo continua negando, Fiske pensou, mas por que eles não conseguem entender o que é tão óbvio? O tenente Oppowitz está morto!
E ele sabia quem tinha feito aquilo. Fiske zumbia com raiva; ele podia ouvi-la em seus ouvidos e senti-la em sua pele e isso o fez tremer, o fez queimar e congelar ao mesmo tempo. Não era justo. E Fiske faria algo sobre isso.

* * *

Fiske abriu a porta da sala de torpedos.
Ralph estava ali, prancheta na mão, verificando seus medidores de pressão. Fiske respirou fundo e, em seguida gritou para a parte de trás da cabeça de Ralph.
— Eu não sei como você fez isso — Fiske gritou com ele. — Mas eu estou aqui agora. E isso é só comigo.  Então, se você está atrás de alguma coisa minha, é melhor levá-la agora, porque eu não vou deixar mais ninguém morrer, está bem?
Ralph se virou para ele.
— Do que você está falando? — ele perguntou.
— Eu sei o que você fez! Eu o encontrei. Você matou o tenente Oppowitz! Eu sei para que você está aqui!
— O tenente Oppowitz está morto? — Ralph perguntou. Ele se virou e deixou cair a prancheta. — O que você... ele está morto? Como ele morreu? Nós não estamos em guerra. Quero dizer... foram os russos? Como é que... do você está falando?
Fiske sentia sua determinação começar a desaparecer. De repente, havia aquele sentimento subindo – como se tivesse esquecido de colocar as calças de manhã. Como se houvesse chocolate em seu rosto. Como Ralph não tinha absolutamente nenhuma ideia do que Fiske estava falando.
— Você... você não é...? — Fiske gaguejou. — Quero dizer, você não é um Vesper?
— Um o quê? — perguntou Ralph. — O tenente Oppowitz está morto?
Claro, Ralph não era um Vesper. Ele tinha feito o teste duas vezes para chegar até o submarino. Um Cahill mexeria uns pauzinhos para entrar em um lugar como este. Um Vesper... um Vesper seria um dos melhores. Ele teria sido recrutado. E nada contra Ralph, mas gente grande e musculosa havia aos montes por aí. Não, não seria um membro da tripulação que estava anos-luz à frente de todos os outros. Apenas um poderia ter ido para MIT ou Harvard, mas em vez disso tinha escolhido salário baixo e quartos apertados.
— Um Vesper.
Fiske se virou.
George.
George estava ali. Ele segurava algo na mão que parecia meio como uma arma e meio como um marcador de gado.
— Um Vesper, isso é certo. Ralph apenas desejaria poder aspirar estas fileiras, Fiske. Talvez um dia, menino baleia. Talvez um dia você aprenda a dar dez passos, mantendo seus sapatos.
— Corra, Ralph! — Fiske gritou.
Ele saiu correndo assim que seus pés foram capazes de obedecer seu cérebro. Ficar de pé para negociar com um Vesper armado não era uma coisa sensata a fazer, e Fiske não tentaria nada disso. Ele não tinha tempo para pensar sobre onde iria. Tudo o que sabia era que não podia ficar aqui.

* * *

Antes de Fiske descobrir que havia um Vesper a bordo e que estava disposto a matar; antes de ter que correr por sua vida para escapar do Vesper, o Nautilus tinha sido uma coisa incrível. A façanha da engenharia e arte que combinadas para fazer algo totalmente notável, praticamente sobre-humano.
Agora, com sua vida correndo risco, Fiske não via o Nautilus como algo de tirar o fôlego – era mais como uma armadilha mortal aquática. O submarino que há tanto tempo conhecia de repente estava cheio de sombras e vapor, ruídos e sons de engrenagens. Fiske atravessou as passarelas metálicas e subiu as escadas, fez tudo o que podia para se perder no labirinto de metal e tubulações. Talvez se ele não conseguisse encontrar seu caminho de volta, George também não conseguiria encontrar o seu caminho até ele.
Ele desejava que houvesse tempo para pensar em tudo o que tinha acontecido no Nautilus. Ele desejou que pudesse assinalar cada sinal que deveria ter visto chegando, cada erro que cometera. Desejou que pudesse se lembrar se tinha dado para George as pistas, sobre o anel, sobre Grace. Mas a única coisa que podia fazer era correr por sua vida. Haveria tempo para se sentir estúpido mais tarde.
Ou haveria tempo para morrer mais tarde.
Ele podia ouvir George vindo – os rangidos das passarelas, o som da respiração pesada – e se ele podia ouvir George, então George podia ouvi-lo. Fiske parou de correr. Lenta e silenciosamente, Fiske escorregou para trás de um dos tubos maiores que soltava vapor. Agachou-se e manteve-se na sombra.
George se virou para onde Fiske se escondeu. Fiske podia ver seus sapatos. Ele olhou ao redor. Não havia nada para jogar em George, nada para acertá-lo, se chegasse a esse ponto. Havia apenas Fiske.
— Vamos sair, Sr. Cahill — disse George.
Ele estava andando pelo corredor, com a cabeça girando de um lado para o outro enquanto tentava descobrir onde Fiske poderia estar escondido.
— É sempre bom entrar em uma luta, mas há sabedoria em saber quando desistir. Você sabe o que vai acontecer agora.  Você vai sair, vai me contar os seus segredos, e em seguida... bem, tenho certeza de que você pode adivinhar. Venha.
Fiske se agachou ainda mais fundo. Havia um pequeno espaço – cerca de quarenta e cinco centímetros – entre a passarela e o chão. Uma confusão de pequenos tubos e fios corria debaixo dela, mas Fiske estava bastante certo de que ele poderia se espremer lá dentro se fosse necessário. Ele moveu seu peso em direção a ela.
— Venha! — George gritou. — Acha que vou deixar você estragar isso para mim? Você sabe o que eles fizeram por mim, Fiske? Os seus velhos amigos da família? Sabe o que eles fizeram? Eles me procuraram. Está certo. Eles me queriam. Pobre George Carmel de Massillon, Ohio. George Carmel que não podia dominar uma bola de futebol ou correr uma milha para salvar sua vida, mas era um gênio. E só de pensar em saber que eles vão ficar orgulhosos quando descobrirem que eu peguei você. Eu só estava aqui para mexer nos sistemas de computadores e, em seguida, você foi enviado a bordo do navio. Eu o teria reconhecido imediatamente, mesmo que não soubesse que estaria aqui — George fez uma pausa. — Você vai me fazer virar uma lenda em suas fileiras, Fiske. Não pense que não sei que você está escondendo alguma coisa, e vou encontrar. Nós dois sabemos que eu sou melhor que você. Nós dois sabemos que eu vou ganhar.
Fiske estremeceu, mas ficou onde estava. George estava bem na frente dele agora, segurando a metade da arma. Pequenas faíscas azuis voavam intermitentemente dos dois fios curtos na extremidade do cilindro. Parecia uma péssima maneira de morrer.
A solidão da sua situação girava em torno de Fiske como uma colcha escura. George estava indo matá-lo, e ninguém saberia o que tinha acontecido. Ele iria desaparecer de maneiras imagináveis – sem ter dito adeus a ninguém. Ele deveria ter fugido para um lugar onde haveria mais pessoas, percebeu agora, ele era tão estúpido.
Ele deveria ter ido para a sala de controle, onde não estaria sozinho. Mas talvez ainda fosse possível chegar lá. Talvez ele não tivesse que morrer no escuro.
Fiske trouxe a manga para a boca e mordeu o fio que prendia seu botão de punho no lugar.
Seu coração estava batendo todos através de seu corpo; era como se tivessem ligado um sistema de caixa de som que transmitia o seu medo do seu cérebro até os dedos dos pés. Um movimento em falso, um barulho, e tudo estaria terminado.
Levou um pouco de mastigação, mas logo ele tinha arrancado o botão. Tomando o botão de sua boca e segurando-o entre dois dedos trêmulos, ele o jogou como uma bola de papel. O botão voou para trás de George e ao longo da passarela onde ele estava, sacudindo contra os tubos.
George virou e enfiou a arma de choque no escuro. Houve um flash de luz, e isso era o que Fiske precisava. Ele deslizou por baixo da passarela, se arrastou para cima do corredor, e começou a correr. George virou-se e correu atrás dele, a arma levantada. Fiske correu com flashes de luz surgindo ao lado dele enquanto George atirava raio após raio, choque após choque.
A eletricidade chiava contra o metal, contra os canos e fios ao redor. Um dos raios deve ter acertado uma solda de um dos tubos. Ele fritou o metal, e a pressão de dentro era muito grande. Um jorro de água brotou, e depois outro, e depois mais dois. Água pulverizou em todas as direções, molhando Fiske e fazendo a corrida nas passarelas ficar perigosa.
O reator nuclear cantarolava lá na frente. Fiske continuou correndo, ainda que seus pulmões gritassem e arranhassem sem parar, mesmo que os músculos de suas pernas parecessem prestes a parar de funcionar a qualquer momento. George disparou novamente. O raio elétrico voou por cima do ombro de Fiske e estalou no painel de controle do reator. Faíscas voaram como fogos de artifício e começou a sair fumaça dali.  A água se misturou com a eletricidade, e todo o reator começou a fritar e rachar.
As luzes piscaram imediatamente e um alarme começou a soar, suavemente a principio, como se estivesse acabando de acordar de um longo sono, e em seguida, com uma ferocidade que era quase mais assustadora do que o próprio reator. Todas as luzes do painel do reator ficaram vermelhas e piscaram como o display mais terrível de luzes de Natal do mundo.
Foi o suficiente para congelar até mesmo George por um momento – ele parecia incapaz de se mover. O zumbido do reator se transformou em um gemido e um estrondo. O submarino começou a tremer.
Fiske se afastou dele. Ele queria correr, mas estava com medo de tirar os olhos do reator, com medo de que no momento em que ele desviasse o olhar, a coisa toda iria derreter.
Mas ele tinha que ir.
Sala de controle, sala de controle – ele repetiu várias vezes em sua cabeça e para suas pernas. Ele deixou o reator uivando e um George com aparência arrasada e fugiu.
A sala de controle estava sombria quando ele chegou em uma explosão de ar e pânico. O comandante Wilkinson franziu a testa para ele, e em seguida, virou-se para a falar com seus marinheiros pelo rádio. A sirene soava aqui também, e o comandante estava fazendo o seu melhor para falar mais alto do que ela.
— Todas as mãos – todas as mãos para as estações de emergência. Repito: todas as mãos para as estações de emergência — ele gritou, acenando o braço para os homens na sala de controle. — Incendeie os motores a diesel reserva; Ranker, mantenha essa bagunça funcionando no submarino e não pare por nada. Estamos quase lá. Estamos quase lá!
Os marinheiros se espalharam – a maioria deles foi direto para fora da sala de controle e desceu para onde se encontrava o reator ou os motores a diesel. Em seguida, o comandante voltou-se para Fiske.
— Não há nada para se preocupar, senhor King — ele disse, colocando a mão no ombro de Fiske e tentando guiá-lo na direção da porta. — Simplesmente sente-se e... e nós vamos resolver isso, tenho que verificar os reparos.  Volte para a sua cama ou para o refeitório e fique sentado lá.
Mas Fiske não acreditou nele, e ele não achava que o comandante acreditava.
— Ranker — disse o comandante. — Você está no comando até eu voltar.
E em seguida, partiu para o reator.
Fiske o assistiu ir com a boca aberta, mas nenhuma palavra saia. Ele não podia sair! Havia tanta coisa para lhe dizer – sobre George e o tenente Oppowitz, Ralph, sobre a vida de Fiske pendurada na balança. Se era falta de ar ou de coragem, Fiske não poderia dizer. As palavras ficaram presas no interior de sua boca e debaixo de sua língua. Mais do que tudo, Fiske queria enrolar-se sobre si mesmo. Ele cerrou os punhos furiosos e curvou o lábio inferior entre os dentes. Havia apenas alguns homens restantes na sala, mas mesmo entre eles, o pânico se espalhava como um vírus. Fiske sentia também. Tudo saiu do controle tão rapidamente que ele não conseguia nem descobrir o primeiro momento em que as coisas começaram a dar errado.
Ele se sentiu deslocado e à deriva no oceano, sem nada para impedi-lo de lavar a face da terra. E agora não havia ninguém para pedir ajuda, ninguém para salvá-lo. Ele correu para este lugar em busca de proteção, mas se sentia mais sozinho e mais exposto.
E se George viesse – o que aconteceria com a tripulação? E o que havia acontecido com Ralph? O sangue de Fiske pulsava no ritmo da sirene. A possibilidade de que ele poderia realmente morrer, que este grupo de homens poderia morrer por causa dele, bateu com força e o deixou sem fôlego.
Ralph explodiu para dentro da sala.
— Aí está você! — disse ele. — O que... o que é... onde está George?
— E-eu — Fiske começou, encolhendo os ombros e tentando não tremer como uma folha frágil.
A sirene parou por um momento, e uma voz estalou pelo interfone no silêncio.
— Reator crítico. Todas as mãos devem permanecer nas estações de emergência.
— Você deve estar... — Fiske recomeçou, mas Ralph o cortou.
Ele olhou para os outros marinheiros, e em seguida agarrou o braço de Fiske, puxando-o para o corredor.
— Eu vi George, da mesma forma como você, e o ouvi também. O tenente Oppowitz teria feito de tudo para mantê-lo a salvo. E é isso o que eu vou fazer — disse Ralph. — Além disso, eu sabia que George não era bom desde que me acusou de bater nele. Acredite em mim, se fosse em qualquer outro lugar eu não ligaria, mas aqui é diferente. Eu levo esse trabalho a sério, e não vou deixar um puke qualquer tomá-lo de mim.
Fiske quase podia respirar melhor por causa disso. Ele não queria colocar mais um no caminho, mas não negaria que se sentia muito melhor com Ralph do seu lado. Ainda assim, a culpa pendurava-se em volta do seu pescoço como um cachecol de chumbo. O tenente Oppowitz tinha feito o máximo que podia para ajudar Fiske.
Agora, porém, Fiske não sabia se essa ajuda seria boa. 
O submarino podia explodir e George estava atrás dele, e o que ele deveria fazer em qualquer um desses cenários para se manter vivo? Ele se sentiu estúpido. Nada disso teria acontecido se ele não tivesse entrado neste submarino para começar.
— O que podemos f-fazer? — Fiske perguntou, olhando ao redor do corredor deserto.
— Ter esperança — Ralph respondeu.
O submarino deu um grande tremor, que fez tanto Fiske quanto Ralph segurarem nas paredes para não cair. O cheiro de óleo e sujeira penetrou pelo corredor, arrastando-se pelo ar como névoa.
— O que é isso, o que está acontecendo? — Fiske perguntou selvagemente.
— Eles se voltaram para os motores a diesel.
— Isso é uma coisa boa?
— Eu acho que nós vamos descobrir — disse Ralph.
Fiske pressionou sua mão contra o anel.
— Você continua fazendo isso — Ralph comentou, apontando para a mão de Fiske.
Fiske ficou de pensar em algo para dizer, mas foi salvo pelo crepitar do interfone.
— Reator estável. Repito: reator estável. Relaxem, rapazes. Vamos sair disso ainda.
O som fraco de aplausos ecoou pelos corredores vazios, e Fiske sentiu seu corpo relaxar por um momento. Seus músculos afrouxaram da tensão, e calor o varreu. Mas foi só por um momento. Porque, mesmo que ele não estivesse prestes a explodir em uma explosão nuclear, ele ainda tinha um Vesper em fúria para lidar.
O Vesper que não pararia até matá-lo. O Vesper de que ele não podia se distanciar.
— Ralph — disse Fiske. — E-eu preciso sair dessa embarcação.
— O quê? Você... não é assim que funciona nos submarinos, Fiske.
— Não, mas eu tenho que... Todo mundo está indo para seus postos de emergência por um tempo, né?
— Sim, mas...
— Então, George vai me encontrar. E ele vai tentar me matar. Eu não posso deixar que isso aconteça, Ralph, não posso deixar isso acontecer. Não é... não é por mim. Ajude-me a sair daqui. Por favor?
Ralph olhou para ele, o rosto um mar de confusão, preocupação e tristeza.
— Por que você está aqui, de verdade?
— Para esconder — disse Fiske. — Um monte de coisas que sou, eu acho.
Os garotos se entreolharam por um momento, e Fiske silenciosamente implorou para que o marinheiro o ajudasse a escapar.
— Vamos lá — Ralph concordou, agarrando o braço de Fiske e levando-o pelos corredores para a escada que Fiske tinha usado para subir a bordo do submarino. — Suba rapidamente.
Fiske subiu a escada, impulsionado pela adrenalina e medo.
— Você pode morrer fazendo isso também, sabe — Ralph comentou, desparafusando a porta hermética para a fuga.
— Se eu morrer na água, o que tenho vai morrer comigo. Se eu morrer aqui, e George pegar...
Fiske não queria tremer na frente de Ralph. Mas ele o fez, e não podia evitar. Ralph agarrou um grande veste de borracha de um gancho. Parecia o que os astronautas em filmes classe B usavam enquanto exploravam Marte ou a lua.
— Coloque isso. Este é um pulmão de Momsem. Ouça-me – você está me ouvindo?
Fiske assentiu enquanto puxava o colete ao redor de seu corpo e o dobrava.
— Isso vai na sua boca — Ralph explicou, entregando-lhe um bocal conectado a dois tubos de borracha que corria pelo colete. — Não segure a respiração. Você vai querer prender a respiração. Está no meio do oceano, é profundo debaixo d'água, cada parte de você vai estar gritando para que você segure a sua respiração. Segure a respiração, e você morre. Está me ouvindo? Prenda a respiração e você morre. Há tanta pressão aqui embaixo que o ar em seus pulmões está sob pressão, também. Quando você subir, vai se expandir, e se você prender a respiração, seus pulmões vão explodir.
Fiske empalideceu.
— Você tem que respirar normalmente — Ralph continuou, apertando tiras e afivelando os fechos. — Inspire através deste tubo, e expire por este outro. Respire normal. Não exploda. Você consegue fazer isso?
Fiske assentiu. Respire normalmente. Não exploda.
— Está vendo o botão verde ali? — Ralph falou. — Há outro do lado de fora da porta, também.  Aperte esse botão verde uma vez que a escotilha estiver fechada e você está pronto pra ir. Se você se acovardar e não apertar, então eu vou. Entendeu? Prepare-se — disse Ralph. Ele olhou pra Fiske. — Você pode ser o garoto mais corajoso que eu já conheci. Ou o mais estúpido.
— Provavelmente os dois.
Ralph sorriu pra ele, só por um momento.
— Estúpido — disse George.
Ele estava de pé na porta, encharcado com a água do submarino descendo por suas têmporas. A arma de choque estava a seu lado, meio quebrada por causa da água, mais perigosa por causa dela.
— Absolutamente o mais estúpido.
Ele levantou a arma e a apontou.
Para Ralph.
— Dê-me o que você está escondendo — disse George.
— Eu não tenho nada — Ralph respondeu.
Mas George balançou a cabeça.
— Não você. Cahill. Dê-me, Cahill. Você não odiaria se acontecesse? Não o destruiu quando o tenente Oppowitz morreu? Será que você não odeia que isso volte a acontecer, exatamente na sua frente?
Fiske entregaria. E George sabia disso, o que só queria dizer que Fiske era tão transparente como o vidro.
— Não o envolva — disse Fiske. — Ele não tem nada.
— Cala a boca, Fiske — Ralph falou, seus olhos correndo entre Fiske, George e as faíscas na ponta da arma. — Não adianta mais fingir.
— Do que você está falando? — George perguntou, voltando-se para Fiske em confusão. — Do que ele está falando?
Fiske não tinha ideia.
— Estamos do mesmo lado — Ralph respondeu. — Eu estou com você, George. Eu sou um... um Vesper.
Fiske estava atordoado em silêncio congelado. Como isso era possível? Como ele podia ser tão incrivelmente estúpido a ponto de confiar em um Vesper? De novo?
— Você é o quê? — perguntou George. — Você está do meu lado? Por quê? Por que você está aqui? Quem te mandou? Eles acharam que eu não poderia fazer por conta própria?
— Isso não importa — disse Ralph. — Eu o peguei. Não é isso o que conta?
— Cala a boca — estalou George, seus olhos balançando para frente e para trás entre Fiske e Ralph.
A mente de Fiske girava rapidamente e fora de controle enquanto tentava entender o que se passava na frente dele. Como ele podia ser tão estúpido? Como podia ter decepcionado Grace tanto assim?
— Eu o peguei primeiro. Ele é meu — disse Ralph, novamente.
— Ele não é! Eu o venho perseguindo esse tempo todo! Eu matei aquele oficial para chegar até ele! Você não vai levar o meu trabalho duro bem debaixo do meu nariz.
Ele levantou a arma para Ralph.
— Você vai realmente atirar em seu companheiro? — Ralph perguntou. — Não acho que eles pensem muito gentilmente sobre isso. E você?
George vacilou.
— Você o está ajudando a escapar.
Isso era verdade, pensou Fiske. Ele olhou para Ralph. Ralph olhava para ele com olhos resolutos, rosto firme. Fiske queria desistir. Ele não podia começar a colocar em palavras o quanto queria desistir. Parte dele queria apenas entregar-lhes o anel – um deles, os dois, isso não importa. Mas a outra parte sabia que havia mais na história. Sabia que havia algo acontecendo aqui. Que se ele apenas pudesse confiar em si mesmo, descobriria.
— Eu menti — Ralph explicou para George. — Eu estava prestes a descobrir o que ele estava escondendo quando você apareceu. Aí eu poderia tirar dele.
— Bem — disse George, um sorriso de satisfação rastejando sobre o seu rosto. — Eu não sei o que é, mas sei onde está. Tire esse colete, Cahill.
Fiske não se moveu. Ele podia se mover se quisesse, e definitivamente não queria.
— Eu sei que está na frente de seu macacão! — George gritou, acenando com a arma.
Fiske balançou um pouco a cabeça. Mas George não acreditou nisso. Ele marchou até Fiske e agarrou o pulmão de Momsen com uma mão, a outra apontando a arma diretamente para o rosto de Fiske.
— Eu deveria apenas fritá-lo e pegar eu mesmo.
Naquele momento de distração, Ralph disparou para a porta.
— Respire! — Ralph gritou, fechando a porta da escotilha.
Houve um momento de silêncio. George girou para trás quando Ralph fechou a escotilha. O olhar de Fiske foi para o botão verde, e quando George se virou, seus olhos seguiram lá.
— O que...
Fiske olhou para George e depois para cima na escotilha. Ele sabia o que estava por vir. Ele sabia o que Ralph faria. Fiske esteve assustado antes, mas nada se compara a este momento – este momento antes de o compartimento se abrir, e Fiske e George serem arrastados para o oceano.

* * *

Fiske estava respirando. Seus olhos estavam fechados com força, apertados, mas ele inspirou e expirou, subindo lentamente à superfície. Era aterrorizante e surreal. O Nautilus saiu em disparada para cima, também subindo para a superfície.
Fiske saiu da água com um pop, chacoalhando-se como um pato de borracha. Ele puxou o bocal para longe e não pôde evitar – ele gritou. Gritou por medo e alívio, por tristeza e na alegria sem limites. Ele conseguira. Escapara do submarino. Não estava morto. Ainda tinha o anel. Viu Porto Rico. Ele estava acima da água.
George não.

* * *

Nadar até a praia foi cansativo, mas Fiske estava tão feliz por estar fora do barco que ele não se importava em tudo. Sua mente girava com perguntas, mas a necessidade física de erguer um braço depois do outro, de bater os pés através do oceano, manteve seus pensamentos afastados e fora de foco.
Era um longo trajeto. Mas, uma vez que não houvesse nenhum tubarão ao redor, ele estaria bem.
Antes que ele estivesse cansado demais para continuar, sentiu a areia debaixo dos seus pés calçados de tênis ensopados e seguiu para uma praia. Seus sapatos estavam cheios de areia e água; seu macacão amassado não só cheirava a sal, peixe e algas, mas grudava como uma segunda pele. Fiske soltou o pulmão de Momsen e lançou-o na areia. Desejou desesperadamente uma das roupas limpas que havia deixado em sua cabine no submarino.
Ele se deixou cair de barriga na praia, completamente exausto. Havia areia em sua boca, suas orelhas e todas as outras partes de seu corpo, mas ele não se importava. Nunca deixaria a terra novamente, por nada no mundo. Fiske rolou de costas e abriu os braços e pernas, aquecendo-se ao sol. Vivo. Ele estava vivo. Missão cumprida.
A mão voou para seu peito de novo, pressionando freneticamente o tecido do macacão. E lá estava ele.
Ele tinha se escondido no submarino. Manteve o anel de segurança.
Sua missão foi, para todos os efeitos, um sucesso. Mas ele não sentia assim. Olhou para o céu mais azul que ele já tinha visto e pensou no tenente Oppowitz, e Beth, Peter e Lucy em Saint Louis. Pensou nas piadas do tenente e no seu senso de dever e orgulho. E Fiske percebeu que foi um fracasso total.

* * *

Grace tinha organizado tudo, e logo Fiske encontrava-se em um avião para Attleboro.
Ela esperava por ele na pista, e Fiske correu para ela logo que estava no chão. Grace colocou os braços ao redor dele de forma mais fraternal possível; não haveria mais perigo, não haveria mais mortes, pelo menos, nos próximos dez segundos e isso era tudo o Fiske queria no mundo.
— Eu sinto muito — ela falou, tomando seu rosto entre as mãos e examinando-lhe bem. — Fiske, eu sinto muito. Não posso lhe dizer o quanto estou triste. Eu não sabia... eu simplesmente não estava pensando direito, eu sinto muito.
— Eu estou bem — disse Fiske. — Estou muito bem. Eu juro.
Ainda assim, era bom ser consolado.
— Mas como você sabe que eles não vão estar esperando por nós em casa? Ou no próximo lugar que você for?
Grace limpou a garganta.
— Eu cuidei deles.
— O que quer dizer com... o que aconteceu com seu carro? — perguntou.
Era preto antes; agora era um conversível azul.
— Eu tive que jogar o antigo de um penhasco — Grace respondeu. — Mas eu gosto mais deste de qualquer maneira.
— Você teve que... jogar de um penhasco... Grace!
— Eu disse que cuidei disso.
— Grace!
— Eu estou bem — ela falou. — Você está bem. Todos estamos bem.
Exceto que eles não estavam. Nem todos.

* * *

Ele e Grace voltaram para casa por alguns dias. Após o Nautilus, a escola era como uma brisa. Ainda assim, Fiske precisava de alguns dias de calmaria antes de ser capaz de fazer qualquer coisa, seja uma missão Cahill ou uma prova de geometria.
Ele procurou nos jornais notícias sobre a tripulação do Nautilus - do colapso do reator, da morte do tenente Oppowitz. Mas a única coisa que pôde encontrar foi um artigo louvando a tripulação por sua quebra de recordes sem precedentes da viagem de Connecticut para Porto Rico.
Ainda assim, apenas porque estava nos jornais que o fato tinha acontecido de uma forma não significava que fosse toda a verdade. Ele sentia culpa dia e de noite, e podia senti-la sugando-o como areia movediça.
E então ele teve que voltar para a escola, para completar.
— Você tem estado mais silencioso do que o normal — Grace comentou uma manhã. Era domingo, o que significava que ele voaria de volta para a escola naquela noite. — Eu sei que você teve um... um tempo ruim, então se quiser falar sobre qualquer coisa, sabe que eu estou aqui por você, Fiske.
Ele olhou para ela. Sabia que Grace estava falando sério. Sabia que ela o amava e que queria o melhor para ele.
— Eu simplesmente não posso acreditar que isso aconteceu. Eu não posso acreditar que eu... e que você... você teve que conduzir o seu carro de um penhasco?
— Sim — respondeu Grace. — Mas eu estou bem. E você está bem. Tudo está bem, Fiske. Você precisa se concentrar nisso.
— Não, não está — disse Fiske, passando a mão pelo cabelo. — Grace, você poderia ter morrido. Eu poderia ter morrido. E tenente Oppowitz está morto, Grace. Ele não está bem. Você sabia que ele tinha dois filhos pequenos? Pequenos, tão pequenos, e agora ele está morto.
Grace olhou para o chão.
— Eu sinto muito em ouvir isso, Fiske.
— E você sabe qual é a pior parte disso? Não é como se ele tivesse morrido por seu país. Não é como se ele tivesse morrido por algo que ele acreditava, ou queria. Ele foi assassinado porque mentimos para ele. Você e eu, Grace. Ele pensou que eu fosse alguém que não era porque nós lhe contamos isso. Ele não sabia nada sobre o anel, ou as pistas, ou os Vesper. Ele está morto por nossa causa. Por minha causa.
Então havia George. Fiske tentou não pensar nisso. Ele não tinha sido o único a apertar o botão para abrir o portão para a água acima, com certeza. Mas George não tinha visto isso acontecendo. Ele matou o tenente e ia matar Fiske quando tivesse a oportunidade. Mas aquilo foi certo? Qualquer pessoa pensaria que ele era louco por lutar pelos Vesper. Ainda assim, não era algo que Fiske poderia suportar.
— Não, Fiske — disse Grace. Ela colocou as mãos em seus ombros e pôs o rosto diretamente na frente dele. — Eles morreram por causa dos Vesper. Foram os Vesper, Fiske. Não você.
Fiske a encarou, incredulidade esculpida em seu rosto como hieróglifos sobre um túmulo. Como ela podia dizer isso? Como ela podia pensar que não era culpa dele? Grace não percebia que, se Fiske nunca tivesse estado naquele barco, então o tenente ainda estaria vivo?
— Você manteve o anel seguro. Manteve-se seguro. Estou muito triste pelo tenente, Fiske, você sabe que estou. Mas há coisas em jogo – enormes riscos que podem mudar o mundo, riscos que que precisam ser enfrentados. Olhe o que você fez, Fiske — disse Grace. — Você foi tão bravo. Tão corajoso, Fiske. Eu nunca estive mais orgulhosa.
— Eu não quero que você se orgulhe de mim por isso. Vou mandar alguma coisa para a esposa do tenente Oppowitz. O nome dela é Beth. Nós vamos... Eu não sei. Não posso comprar-lhes outro pai. Não posso voltar no tempo. Mas vou fazer alguma coisa.
— Você é uma boa pessoa, Fiske — Grace.
Mas ele não se sentia desse jeito.

* * *

Era estranho estar de volta à escola. Os pátios ainda estavam verdes e os tijolos ainda eram vermelhos, apesar de Fiske ter fingindo ser outra pessoa em um submarino nuclear, viajado sob a água de Connecticut até Porto Rico, evitado ser morto por um espião Vesper, escapado desse submarino e depois nadado até a costa. Fiske não achou que o céu precisasse estar laranja ou qualquer coisa assim a partir de agora – as coisas não tinham que ser drasticamente diferentes – mas algo supostamente mudara?
Ele levou um minuto para perceber, porém, que alguma coisa mudou – ele. Antes, ele corria de aula para aula, do dormitório para sala de jantar com a cabeça baixa e seus livros apertados contra o peito, como se todas as suas entranhas fossem cair se ele não as estivesse segurando. Agora, ele olhava em volta enquanto andava. Seu queixo não estava enterrado no peito.
Era uma pequena mudança, mas fez toda a diferença. Ele voltou para a escola, mas apenas para os exames.
Em seu último dia, chegou um pacote. Ele teve que ir ao escritório do diretor buscá-lo. Sentada à mesa da secretária estava uma jovem mulher com cabelo castanho e blusa amarela.
— Você é Fiske Cahill? — ela perguntou.
— Sim — disse Fiske, olhando para trás para certificar se não havia qualquer outro Fiske Cahill ao redor. — Você é nova.
— Ah, sim — ela concordou, entregando o seu pacote. — A outra secretária teve um problema familiar para resolver e teve que deixar a cidade. Ouvi dizer que ela tinha terminado uma parte do trabalho. Tenha um bom verão!
— Obrigado — disse Fiske, segurando o pacote e caminhando de volta para fora.
Ele parou em um dos bancos e abriu o seu pacote. Havia uma pequena caixa e uma carta. Ele abriu a caixa primeiro. Era um alfinete de prata brilhante – dois golfinhos com uma corda envolta em torno deles. Golfinhos da Marinha – os que Ralph tinha trabalhado tão duro para conseguir. Ele abriu a carta em seguida. Dizia:

Caro Fiske,
Em primeiro lugar, tudo está bem no Nautilus. Os marujos conseguiram consertar o reator uma vez chegamos ao porto e já nos garantiram que agora nós seremos capazes de viajar ainda mais rápido. Ranker diz que sente como se tivessem espremido um pouco, então vamos ver. Nossa comissão oficial vai acontecer em setembro, segundo escutei. Espero, sinceramente, que você consiga comparecer nas docas de New London para a cerimônia.
Na caixa, você encontrará seus golfinhos. Bem-vindo ao grupo, oficialmente. Eu tenho o meu agora, também. Não vamos esquecer que tive que estudar muito mais pelo meu, mas eu e o comandante Wilkinson achamos que você os merece também. Eu contei ao comandante sobre George estar a bordo para levar as armas nucleares e outras coisas para uma organização sombria, e que você o impediu. Levou-o para fora do submarino com risco para si mesmo. Para alguém que começou como um puke, você com certeza se provou ao longo do caminho. Nós todos dizemos que fez muito bem para você.
Para finalizar, me desculpe se eu o assustei. Eu tinha que descobrir se você estava dizendo a verdade, e essa é a maneira que encontrei para ter certeza disso. Eu não sei se entendo exatamente o que aconteceu lá em baixo, mas estou apostando que é muito além de mim. Fosse o que fosse, espero que você esteja seguindo bem e que tudo esteja certo. Você é um garoto corajoso, Fiske. Se ninguém nunca te disse isso, agora eu digo.
Mantenha-se atento às baleias,
Ralph Kane,
Pequeno Oficial de Segunda Classe
P.S.: Eu fui promovido!

Fiske sorriu, dobrou a carta e prendeu seus golfinhos em seu blazer. Parecia impressionantemente bem ali, todo brilhante e importante.
— Fish! Ei, Bafo de Peixe! — Eric Landry estava sob de uma árvore com seus amigos. — Onde você esteve, hein? Ficou assustado e fugiu depois da última vez?
— Assuntos de família — Fiske respondeu.
Seu estômago ainda se contorcia e ele pensou que suas mãos ainda poderiam tremer. Ele não gostava de falar com Eric, e certamente não queria ter outro ataque, mas não parecia valer a pena ter medo dele. Não era como se ele fosse um Vesper. Não era como Fiske estivesse preso a bordo de um submarino com ele e ele quisesse matar Fiske e não houvesse como escapar.
— Assuntos de família, oooh — disse Eric. — Parece sério. Você foi visitar a sua avó baleia, Cara de Peixe?
— Deixe-me, Eric.
— Não — respondeu Eric. Levantou-se de perto da árvore e foi na direção de Fiske. — Eu estava com saudades de você, Fish. Temos um monte de coisas a fazer. — Ele deixou os livros caírem no chão e entregou seu blazer para um de seus amigos. — O que você tem aí no seu blazer, Fish? Um broche de sua avó? Um alfinete chique de senhora?
— Não. Não é da sua conta.
— Tudo o que se passa nesta escola é da minha conta, Bafo de Peixe. Diga-me antes de eu tirá-lo de você.
Fiske olhou para o seu pino, tão frio e calmo que poderia representa-lo muito bem.
— É uma insígnia de serviço submarino naval.
— O que, você roubou de seu pai? — perguntou Eric.
— Não. Eu ganhei.
— Dê-me — disse Eric. Ele estendeu a mão e agarrou a gola de Fiske. — Eu disse para me dar, Bafo de Peixe.
Fiske olhou para a mão de Eric e depois de volta para ele.
— Não.
Eric puxou o punho para trás e olhou com cara feia para Fiske.
Fiske respirou fundo e limpou a garganta. Não havia nada a temer em Eric Landry. Ele não era um Vesper. Havia coisas muito piores no mundo. Então ele abriu a boca, piscou algumas vezes, e organizou as palavras que queria dizer.
—Você vai me bater porque eu não vou te dar o meu broche? — perguntou Fiske. — Parece um motivo estúpido.
A expressão de Eric vacilou por um momento. E uma agitação suave atravessou a multidão de meninos atrás dele. No interior, Fiske tremia e temia levar um soco no rosto. Mas Eric era apenas um garoto da escola.
— É uma razão muito estúpida, Eric — disse Fiske.
— Sim — concordou um dos outros meninos. — É uma idiotice, Eric.
O punho de Eric pairava no ar, mas ele olhou por cima do ombro para seus amigos.
Fiske olhou também. Eles pareciam impacientes, talvez um pouco irritados.
— Você quer que eu bata nele ou não? — perguntou Eric.
— Eu meio que quero jogar futebol — disse Matthew.
— Oh, eu chamo o outro capitão!
A multidão começou a se afastar, enquanto os times se dividiram. Logo havia apenas Eric e Fiske.
— Então? — falou Eric, deixando cair seu punho e empurrando Fiske. — Você ainda é apenas um peixe.
Fiske deu um passo para trás e alisou seu blazer. Seu coração batia firmemente abaixo do normal, e seus nervos paravam de tremer. Ele queria explodir em risadas; ele queria pular e gritar, e talvez – talvez, se ninguém estivesse olhando – socar o ar em triunfo, porque ele levantou a voz para Eric Landry. E peixe? Peixe? Que tipo de insulto era Peixe?
Fiske olhou para seus golfinhos, que brilhavam contra a lã de seu blazer.

— Sim, Eric. Acho que eu sou.

5 comentários:

  1. Esses contos mataram minha saudade de The 39 Clues, mas deixaram um gostinho de quero mais. Quando vc vai postar mais, Karina?

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  2. Oi Karina,
    Eu encontrei uns errinhos no livro tem como você arrumar por favor?
    "mas ele vai arranjará alternativas." essa frase está meio estranha;
    "um sorriso tão falso apertado em seu que era como se alguém tivesse que ajeitar sua boca" aqui faltou uma palavra;
    "— Quem está aá?" não seria "aí?"?
    "treplicou o outro" não seria "triplicou"?
    "É a melhor pesca existe." aqui faltou uma palavra;
    "Fiske não tinha certeza do que vedia sentir mais medo." acho que escreveram "devia" errado;
    "— Eles se voltarem para os motores a diesel." não seria "voltaram"?
    "o que só quria dize" tem um errinho de digitação nessa frase;
    "— Eu o pegue primeiro." tem um errinho de digitação nessa frase também;
    "pensou no tenente Oppowitz, e Beth, Pedro e Lucy em Saint Louis." não era Peter o nome do filho do tenente?
    "para certificar se não havia qualquer outro Fiske Cahill redor." não seria "para certificar se não havia qualquer outro Fiske Cahill ao redor."?
    E também tem uma parte que está duplicada "Vida sob o mar estava bom para Fiske.
    Porque as pessoas sob a água foram muito mais agradável para ele do que seus colegas de classe já tinha sido.
    Com exceção de Ralph. Em parte porque, Fiske provavelmente foi o neto de um herói da Segunda Guerra Mundial.
    Mas ele estava disposto a olhar além, se isso significasse alguma paz."
    Muito Obrigado Karina!!

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  3. Karina tem um erro ali em cima
    tá escrito Fiscke
    rsrsrsrs

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