14 de maio de 2016

Capítulo 9

Ando na floresta
Vozes me deixam maluco
Odeio espaguete

EU SUSPIREI DE ALÍVIO.
— Vai ser fácil.
Ok, eu disse a mesma coisa antes de lutar com Poseidon, e isso não foi nem um pouco fácil. Ainda assim, nosso caminho até o Acampamento Meio-Sangue não parecia ter muitos percalços. Só de conseguir ver o acampamento eu já estava feliz, pois normalmente ele ficava invisível aos olhos humanos. Já era alguma coisa.
De onde estávamos, no topo da colina, víamos o vale todo se estendendo abaixo de nós: mais ou menos oito quilômetros quadrados de bosques, campinas e uma plantação de morangos margeados pelo estuário de Long Island ao norte e por colinas dos outros três lados. Abaixo de nós, uma floresta densa de sempre-vivas cobria o terço ocidental do vale.
Mais à frente, a vegetação dava lugar às construções do Acampamento Meio-Sangue, que brilhavam na luz de inverno: o anfiteatro, a arena onde aconteciam as lutas de espada, o refeitório a céu aberto com as colunas brancas de mármore. Uma trirreme flutuava no lago de canoagem. Vinte chalés ocupavam a área verde ao redor da lareira, que exibia uma chama alegre.
Na beirada da plantação de morangos ficava a Casa Grande: uma construção vitoriana de quatro andares pintada de azul-claro com acabamento branco. Meu amigo Quíron devia estar lá dentro, provavelmente tomando chá junto à lareira. Eu finalmente encontraria um abrigo.
Meu olhar correu para uma das extremidades do vale. Ali, na colina mais alta, a Atena Partenos brilhava em toda a sua glória de ouro e alabastro. No passado, a enorme estátua decorou o Partenon, na Grécia. Agora, comandava o Acampamento Meio-Sangue, protegendo o vale de invasores.
Mesmo de longe, eu conseguia sentir seu poder, como o zumbido subsônico de um motor vigoroso. Lá em cima, a nossa Olhos Cinzentos estava sempre atenta a qualquer ameaça, fazendo exatamente o que se esperaria dela: muito trabalho e zero diversão.
Eu teria escolhido uma estátua mais interessante. A minha, por exemplo. Mesmo assim, a visão do Acampamento Meio-Sangue era impressionante. Meu humor sempre melhorava quando eu deparava com aquele lugar, um pequeno lembrete dos bons e velhos tempos, quando os mortais sabiam construir templos e fazer sacrifícios adequados, com fogo e tal. Ah, tudo era melhor na Grécia Antiga! Quer dizer, exceto as pequenas melhorias que os humanos fizeram: a internet, o croissant de chocolate, a expectativa de vida maior.
O queixo de Meg caiu quando ela viu o acampamento.
— Como foi que eu nunca ouvi falar deste lugar? A gente precisa de ingresso para entrar?
Eu ri. Sempre apreciei a oportunidade de iluminar um mortal perdido.
— Sabe, Meg, o vale é camuflado por fronteiras mágicas. De fora, a maioria dos humanos não vê nada aqui além de campos sem graça. Se eles se aproximarem, vão dar meia-volta e começar a se afastar novamente. Acredite, eu tentei pedir uma pizza no acampamento uma vez. Foi bem irritante.
— Você pediu pizza?
— Deixa pra lá — falei. — Quanto aos ingressos... realmente, o acampamento não permite a entrada de qualquer um, mas hoje é seu dia de sorte. Eu conheço a gerência.
Pêssego grunhiu. Farejou o chão, mastigou um pouco de terra e cuspiu.
— Ele não gostou do sabor deste lugar — disse Meg.
— É, bem... — Eu franzi a testa ao observar o karpos. — Podemos tentar dar um pouco de adubo para ele quando chegarmos. Vou fazer com que os semideuses deixem o monstrinho entrar, mas ajudaria se ele não arrancasse a cabeça de ninguém com uma mordida, pelo menos não de cara.
Pêssego murmurou alguma coisa sobre pêssegos.
— Tem alguma coisa estranha — disse Meg, roendo a unha. — Esse bosque... Percy disse que era selvagem, encantado e tal.
Também tive a sensação de que algo estava errado, mas pensei que fosse devido ao pouco apreço que tenho por florestas. Por motivos que prefiro deixar de lado, eu as acho... lugares desconfortáveis.
Mesmo assim, com nosso objetivo em vista, meu otimismo de sempre estava voltando.
— Não se preocupe — falei. — Você está viajando com um deus!
— Ex-deus.
— Eu agradeceria se você não ficasse repetindo isso. De qualquer modo, o pessoal do acampamento é muito simpático. Eles vão nos receber com lágrimas de alegria. E espere até você ver o vídeo de orientação!
— Vídeo?
— Eu mesmo dirigi! Agora, venha. O bosque não pode ser tão ruim assim.

* * *

O bosque era bem ruim.
Assim que adentramos suas sombras, as árvores pareceram se juntar ao nosso redor. Troncos fecharam passagem, bloquearam caminhos antigos e abriram novos. Raízes deslizavam pelo chão, criando uma pista de obstáculos com protuberâncias, nós e anéis. Era como tentar andar por uma tigela cheia de espaguete.
Pensar em espaguete me deixou com fome. Fazia poucas horas que eu tinha devorado a pasta de sete camadas e o sanduíche de Sally Jackson, mas meu estômago mortal já estava se contraindo e pedindo comida. Os sons eram bem irritantes, principalmente quando se estava atravessando um bosque escuro e assustador. Até o karpos Pêssego começava a parecer apetitoso para mim, me fazendo sonhar com tortas e sorvetes.
Como já disse, eu não era muito fã de bosques. Tentei me convencer de que as árvores não estavam me olhando, fazendo cara feia e sussurrando entre si. Eram só árvores. Mesmo que tivessem dríades ali, não podiam me responsabilizar por algo que aconteceu milhares de anos atrás em outro continente.
Por que não?, eu me perguntei. Você ainda se responsabiliza.
Eu disse a mim mesmo para calar a boca.
Andamos durante horas... bem mais tempo do que levaríamos normalmente para chegar à Casa Grande. Eu sempre me orientei pelo Sol, o que não é nenhuma surpresa, considerando que passei milênios dirigindo pelo céu, mas, sob a copa das árvores, a luz era difusa e as sombras confundiam. Depois que passamos pela mesma rocha pela terceira vez, eu parei e admiti o óbvio.
— Não faço ideia de onde estamos.
Meg se sentou em um tronco caído. Sob a luz verde, ela mais do que nunca parecia uma dríade, apesar de os espíritos das árvores não costumarem usar tênis vermelhos e casacos de segunda mão.
— Você não tem habilidades de sobrevivência na selva? — perguntou ela. — Tipo leitura de musgo no tronco das árvores? Seguir trilhas?
— Minha irmã é quem gosta mais dessas coisas — falei.
— Talvez Pêssego possa ajudar. — Meg se virou para o karpos. — Ei, você consegue encontrar uma forma de sairmos da floresta?
Nos últimos quilômetros, o karpos ficara murmurando com nervosismo, olhando de um lado para outro. Ele farejou o ar, as narinas tremendo, e em seguida inclinou a cabeça.
Seu rosto ficou verde, e ele emitiu um latido perturbado e se dissolveu em um rodopio de folhas.
Meg se levantou.
— Para onde ele foi?
Observei o bosque. Pêssego foi inteligente; sentiu o perigo se aproximando e nos abandonou. Mas eu não queria dizer isso para Meg. Ela já estava gostando bastante do karpos. (Era ridículo se apegar a uma criatura pequena e perigosa. Se bem que nós, deuses, nos apegávamos a humanos, então quem era eu para julgar?)
— Talvez ele tenha ido dar uma investigada — cogitei. — Talvez a gente devesse...
APOLO.
A voz reverberou em minha cabeça, como se alguém tivesse instalado alto-falantes atrás dos meus olhos. Não era a voz da minha consciência. Minha consciência não era feminina nem falava tão alto, mas alguma coisa na voz daquela mulher era estranhamente familiar.
— O que foi? — perguntou Meg.
O ar ficou terrivelmente doce. As árvores me cercaram como uma planta carnívora diante de uma presa.
Uma gota de suor escorreu pelo meu rosto.
— A gente não pode ficar aqui. Obedeça-me, mortal.
— Oi? — disse Meg.
— Hã, eu quis dizer, venha!
Saímos em disparada, tropeçando em raízes, andando sem rumo por um labirinto de galhos e pedras. Chegamos a um riacho límpido em uma margem de cascalho. Eu continuei a toda, sem diminuir o ritmo. Entrei na água gelada e afundei até o tornozelo.
A voz falou de novo: ME ENCONTRE.
Dessa vez, foi tão alto que perfurou minha testa como se fosse uma estaca. Eu cambaleei e caí de joelhos.
— Ei! — Meg segurou meu braço. — Levante!
— Você não ouviu isso?
— Ouvi o quê?
A DESCIDA DO SOL, disse a voz. O VERSO FINAL.
Eu caí de cara na água.
— Apolo!
Meg me virou, a voz tensa e exasperada.
— Venha! Eu não consigo carregar você!
Mas ela tentou. Ela me arrastou pelo rio, xingando e me repreendendo, até que, com sua ajuda, consegui rastejar até a margem.
Eu me deitei de costas e fiquei olhando vidrado para a copa das árvores. Minhas roupas encharcadas estavam tão geladas que queimavam. Meu corpo reverberava como uma corda de guitarra.
Meg tirou meu casaco. O dela era pequeno demais para mim, mas ela cobriu meus ombros com o tecido quente e seco.
— Fique calmo — ordenou ela. — Não vá dar uma de maluco comigo.
Minha gargalhada soou áspera.
— Mas eu... eu vou...
O FOGO VAI ME CONSUMIR. VENHA LOGO!
A voz se estilhaçou em um coral de sussurros furiosos. Sombras foram ficando mais longas e escuras. Vapor subiu das minhas roupas, com cheiro do gás vulcânico de Delfos.
Parte de mim queria ficar em posição fetal e morrer. A outra parte queria se levantar e ir imediatamente atrás das vozes, encontrar sua fonte, mas eu desconfiava de que, se tentasse, minha sanidade se perderia para sempre.
Meg estava dizendo alguma coisa. Ela balançou meus ombros e ficou com o rosto bem perto do meu, de forma que meu reflexo desamparado me olhou de volta pelas lentes dos óculos estilo gatinho. Em seguida, ela me deu um tapa com força, e consegui decifrar a palavra:
— LEVANTA!
Não sei como, mas consegui. Então me inclinei para a frente e vomitei.
Eu não vomitava havia séculos. Tinha esquecido como era desagradável.
Momentos depois, estávamos correndo, com Meg carregando boa parte do meu peso. As vozes sussurravam e discutiam, rasgando pedacinhos da minha mente e os levando para a floresta. Em pouco tempo, não sobraria muita coisa.
Não havia sentido naquilo tudo. Daria na mesma se eu saísse andando sem rumo pela floresta, como um louco. A ideia me pareceu engraçada. Comecei a rir.
Meg me obrigou a continuar andando. Eu não conseguia entender o que ela dizia, mas seu tom era insistente e teimoso, tão raivoso que superava o medo que devia estar sentindo.
No estado mental alterado em que me encontrava, pensei ter visto as árvores se afastando, abrindo um caminho para fora da floresta. Vi uma fogueira ao longe e as campinas abertas do Acampamento Meio-Sangue.
Me ocorreu que Meg estava falando com as árvores, mandando que saíssem do caminho. A ideia era ridícula, e no momento pareceu hilária. A julgar pelo vapor subindo das minhas roupas, achei que estivesse com uma febre de mais de quarenta graus.
Eu estava rindo histericamente quando saímos cambaleando da floresta na direção da fogueira onde alguns adolescentes estavam sentados assando alguns marshmallows. Quando eles nos viram, se levantaram. De calças jeans e casacos pesados, com armas variadas junto ao corpo, eles eram o grupo mais sombrio de assadores de marshmallow que eu já tinha visto.
Eu sorri.
— Ah, oi! Sou eu, Apolo!
Meus olhos se reviraram e eu desmaiei.

19 comentários:

  1. Papai tá doidão kkkk

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    1. Agora vc entende como Ártemis e eu nos sentimos na presença do seu pai, sobrinho.

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    2. criança de Zeus3 de junho de 2016 10:29

      Filha de Apollo,seu pai É doidão sempre

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    3. Concordo plenamente com vc irmão kkkkkkkk

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  2. Senhor,hoje existi doido pra tudo kkkkk

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  3. Apollo, amor, para de passar vergonha!!!

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  4. Que droga foi essa?! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Fazia muito tempo que eu não ria assim. Mas quero que o meu Percy volte.

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  5. "Acredite, eu tentei pedir uma pizza no acampamento uma vez. Foi bem irritante."
    Lembro uma vez não lembro em que livro o Percy falou algo sobre "Entregadores de pizzas muito perdidos". Acho que agora eu entendi.

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    1. Ah. Agora entedi tudo kkkk essas referências são ótimas

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  6. Herrmes da orientações a um entregador de pizzas na praia em O mar de Monstros se não me engano, antes de entregar os Kits de Viagem para Anabeth, Percy e tyson, para eles embarcarem pela primeira vez no Princesa Andômeda, ou algo assim.

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  7. Corrigindo, na verdade, acho que o Percy confunde Hermes com "mais um" entregador de Pizza, segundo ele, eles apareciam perdidos, ou mortais fazendo caminhasdas.....

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  8. Esse sogro do meu irmão, melhor pessoa 😍😂😂😂
    Kkkkkkkkkkkkkkk

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  9. A descida do sol, o verso final
    A queda do sol, o último verso
    Ai meu Deus só eu reparei nisso?

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  10. Parte de mim queria ficar em posição fetal e morrer. Não se preocupe Apollo, a maior parte dos mortais já se sentiu assim. Risada Maligna. Beijinhos da sua neta amada.

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  11. Faria mais sentido se ele falasse:
    - Oi. Eu Jasou Grace.
    E aí ele desmaiva.

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  12. filha de Poseidon e afrodite3 de outubro de 2016 13:37

    aiaiai meu primo é maluco

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