14 de maio de 2016

Capítulo 3

Eu era deusístico
Agora eu estou um lixo
Ih, haicai não rima

ENQUANTO ANDÁVAMOS PELA MADISON Avenue, minha mente rodopiava com perguntas: Por que Zeus não me deu um casaquinho? Por que Percy Jackson morava tão longe? Por que os pedestres ficavam me olhando?
Por um momento pensei que meu brilho divino tivesse voltado. Talvez os nova-iorquinos estivessem impressionados com meu poder e minha incrível aparência.
Meg McCaffrey fez o favor de esclarecer.
— Você está fedendo — disse ela. — E parece que acabou de ser assaltado.
— Mas eu acabei de ser assaltado. E escravizado por uma criancinha.
— Não é escravidão. — Ela roeu um pedaço da cutícula do polegar e cuspiu. — É mais uma cooperação mútua.
— Mútua no sentido de que você dá ordens e eu sou obrigado a cooperar?
— É. — Ela parou em frente à vitrine de uma loja. — Dá só uma olhada. Você está nojento.
Meu reflexo olhou para mim, só que não era o meu reflexo. Não podia ser. O rosto era o mesmo da identidade de Lester Papadopoulos.
Eu parecia ter uns dezesseis anos. Meu cabelo era escuro e encaracolado, um estilo com o qual arrasei na época de Atenas e de novo no começo dos anos 1970. Meus olhos eram azuis. Meu rosto era agradável de um jeito meio bobão, mas estava desfigurado por causa do nariz da cor de uma berinjela, abaixo do qual se formara um bigode nojento de sangue. E pior: minhas bochechas estavam cobertas com uma espécie de protuberância que parecia terrivelmente com... Meu coração chegou a parar por um momento.
— Que horror! — gritei. — Isso é... Isso é uma espinha?
Deuses imortais não têm espinhas. É um dos nossos direitos inalienáveis. Eu me aproximei do vidro e vi que minha pele era mesmo um terreno irregular de acnes e pústulas.
Fechei os punhos e gritei para o céu impiedoso:
— Zeus, o que eu fiz para merecer isso?
Meg puxou a manga da minha camisa.
— Assim você vai acabar sendo preso.
— Que importância tem? Fui transformado em um adolescente espinhento! Aposto que nem tenho...
Com um frio na espinha e tomado pelo medo, levantei a camisa. Meu abdome parecia coberto por desenhos de flores, formados pelos hematomas que conquistei com a queda na caçamba e com os chutes que recebi em seguida. Mas isso não era nada perto do que constatei logo depois: eu tinha barriga.
— Não, não, não. — Cambaleei pela calçada, torcendo para a barriga não ir comigo. — Onde está o meu tanquinho? Eu sempre tive tanquinho. Eu nunca tive gordurinha na cintura. Nunca em quatro mil anos!
Meg deu outra gargalhada debochada.
— Dá um tempo, bebezão, você está ótimo.
— Eu sou gordo!
— Você é comum. As pessoas comuns não têm tanquinho. Vamos.
Eu queria protestar e dizer que eu não era comum nem uma pessoa, mas, com desespero crescente, percebi que o termo agora se adequava perfeitamente a mim.
Do outro lado da vitrine, um segurança me olhava de cara feia. Permiti que Meg me puxasse pela rua. Ela saltitava e parava ocasionalmente para pegar uma moeda ou girar em um poste de luz. Parecia ignorar o frio, a jornada perigosa que encararia e o fato de que eu estava cheio de espinhas.
— Como você pode estar tão calma? — perguntei. — Você é uma semideusa andando com um deus até um acampamento para conhecer outros como você. Nada disso a preocupa?
— Ah. — Ela fez um aviãozinho de papel com uma das minhas notas de vinte dólares. — Já vi um monte de coisas esquisitas.
Fiquei tentado a perguntar o que poderia ser mais esquisito do que a manhã que acabamos de ter, mas achei que ficaria ainda mais estressado se soubesse a resposta.
— De onde você é?
— Já falei. Do beco.
— É, mas... onde estão seus pais? Família? Amigos?
Uma expressão de desconforto surgiu em seu rosto. Ela voltou a atenção para o aviãozinho de dinheiro.
— Não importa.
Minhas habilidades altamente avançadas de ler pessoas me disseram que ela estava escondendo alguma coisa, mas isso era bem comum entre os semideuses. Crianças abençoadas com um pai ou mãe imortal costumavam ser estranhamente sensíveis sobre seu passado.
— E você nunca ouviu falar do Acampamento Meio-Sangue? Nem sobre o Acampamento Júpiter?
— Não. — Ela encostou o dedo na ponta do aviãozinho para testá-lo. — Quanto falta para a casa do Perry?
— Percy. Não sei. Mais alguns quarteirões... acho.
Isso pareceu satisfazer Meg. Ela foi pulando na frente, jogando o aviãozinho de dinheiro e pegando-o de volta. Quando passamos pelo cruzamento da Rua 72, ela deu uma estrela, suas roupas uma confusão tão intensa de verde, amarelo e vermelho que fiquei com medo de os motoristas se confundirem e a atropelarem. Felizmente, as pessoas em Nova York estavam acostumadas a desviar de pedestres distraídos.
Concluí que Meg devia ser uma semideusa não domesticada. Casos assim eram raros, mas não desconhecidos. Mesmo sem nenhuma rede de apoio, sem ter encontrado outros semideuses ou recebido um treinamento adequado, ela conseguiu sobreviver. Mas sua sorte não duraria muito. Geralmente os monstros davam início à caça e destruição dos jovens heróis por volta da época em que eles faziam treze anos, quando seus verdadeiros poderes começavam a se manifestar. Meg não tinha muito tempo. Ela precisava ser levada para o Acampamento Meio-Sangue tanto quanto eu.
Ela tinha sorte de ter me conhecido.
(Sei que essa última frase parece óbvia. Qualquer pessoa que me conhece tem sorte, mas você entendeu o que eu quis dizer.)
Se eu estivesse em minha forma onisciente de sempre, poderia ter desvendado o destino de Meg. Poderia ter olhado sua alma e visto tudo que precisava saber sobre pais divinos, poderes, motivos e segredos.
Agora, eu não conseguia mais enxergar essas coisas, estava cego. Só acreditava que a menina era uma semideusa porque ela convocou meus serviços com sucesso. Zeus afirmou o direito dela com um trovão. Senti como se uma capa feita de cascas de banana bem amarradas me envolvesse. Fosse lá quem Meg McCaffrey fosse, fosse lá como tivesse me encontrado, nossos destinos estavam entrelaçados.
Era quase tão constrangedor quanto as espinhas.
Viramos na Rua 82, a leste.
Quando chegamos à Segunda Avenida, o lugar começou a me parecer familiar, com fileiras de prédios, lojas de material de construção, lojas de conveniência e restaurantes indianos. Eu sabia que Percy Jackson morava em algum lugar por ali, mas minhas viagens pelo céu na carruagem do Sol me deram um senso de localização pareado com o Google Earth. Eu não estava acostumado a me deslocar no nível da rua.
Além do mais, nessa forma mortal, minha memória perfeita tinha se tornado... imperfeita. Medos e necessidades mortais enevoavam meus pensamentos. Sentia fome. Queria ir ao banheiro. Meu corpo estava doendo. Minhas roupas estavam fedendo. Parecia que meu cérebro estava cheio de pedaços de algodão molhados. Sinceramente, como vocês, humanos, aguentam?
Depois de mais alguns quarteirões, uma mistura de granizo e chuva começou a cair. Meg tentou pegar as gotas na língua, o que achei uma forma muito ineficiente de beber alguma coisa, e logo água suja. Comecei a tremer por causa do frio e tentei me concentrar em pensamentos felizes: as Bahamas, as Nove Musas em perfeita harmonia, as muitas punições horríveis que eu daria a Cade e Mikey quando me tornasse deus de novo.
Eu ainda estava interessado em descobrir quem era o chefe deles e como ele soube em que lugar eu cairia na Terra. Nenhum mortal teria como saber isso. Na verdade, quanto mais eu pensava, mais improvável se tornava a ideia de que um deus (fora eu mesmo) pudesse ter previsto o futuro de forma tão certeira. Afinal, eu era o deus da profecia, o mestre do Oráculo de Delfos, distribuidor de amostras de alta qualidade do destino dos outros há milênios.
É claro que não me faltavam inimigos. Uma das consequências naturais de ser tão incrível é que eu atraía inveja por onde passava. Mas eu só conseguia pensar em um adversário capaz de prever o futuro. E se ele viesse atrás de mim em meu atual estado...
Afastei esse pensamento. Já tinha muito com que me preocupar. Não fazia sentido ficar aterrorizado por causa de situações hipotéticas.
Começamos a procurar nas ruas menores, verificando os nomes nas caixas de correspondência e nos painéis dos interfones. O Upper East Side tinha uma quantidade surpreendente de Jacksons.
Achei isso irritante.
Depois de várias tentativas fracassadas, dobramos uma esquina, e ali, parado debaixo de um resedá, havia um velho Prius azul. O capô tinha o amassado inconfundível dos cascos de um pégaso.
(Como eu tinha tanta certeza? Sou ótimo em identificar marcas de cascos. Além do mais, cavalos normais não sobem em carros. Pégasos, sim. O tempo todo.)
— Ahá — falei para Meg. — Estamos quase chegando.
Meio quarteirão depois, reconheci o prédio: um edifício de tijolos aparentes com cinco andares e aparelhos de ar-condicionado enferrujados pendurados nas janelas.
— Voilà! — gritei.
Meg parou de repente, como se houvesse uma barreira invisível que a impedisse de avançar. Ela olhava desconcertada para a Segunda Avenida.
— O que aconteceu? — perguntei.
— Achei que tivesse visto de novo.
— O quê? — Segui o olhar dela, mas não vi nada de estranho. — Os delinquentes do beco?
— Não. Duas... — Ela balançou os dedos. — Bolhas brilhantes. Eu as vi na Avenida Park.
Meu coração disparou.
— Bolhas brilhantes? Por que você não disse nada?
Ela bateu nas hastes dos óculos.
— Eu já falei que vi muitas coisas esquisitas. Geralmente não ligo, mas...
— Mas, se eles estiverem nos seguindo, não vai ser nada bom — retruquei.
Olhei para a rua de novo. Nada de diferente, mas eu não estranharia se Meg realmente tivesse visto bolhas brilhantes. Muitos espíritos aparecem dessa forma. Meu próprio pai, Zeus, já se transformou em uma bolha brilhante para atrair uma mulher mortal. (Por que a mulher mortal achou isso atraente, eu não faço ideia.)
— A gente devia entrar — falei. — Percy Jackson vai nos ajudar.
Meg continuou hesitante. Ela não demonstrou medo quando enfrentou ladrões com lixo em um beco sem saída, mas agora parecia estar em dúvida se devia tocar a campainha. Então me dei conta de que talvez ela já tivesse encontrado semideuses, e que esses encontros podiam não ter saído como o esperado.
— Meg, sei que alguns semideuses não são bons — falei. — Eu poderia contar histórias de todos que precisei matar ou transformar em ervas...
— Ervas?
— Mas Percy Jackson sempre foi de confiança. Não precisa ter medo. Além do mais, ele gosta de mim. Eu ensinei tudo que ele sabe.
Ela franziu a testa.
— É?
Achei a inocência dela meio encantadora. Havia tantas coisas óbvias que ela não sabia.
— Claro. Vamos subir agora.
Eu toquei o interfone. Alguns segundos depois, a voz falhada de uma mulher atendeu.
— Alô.
— Oi — falei. — Aqui é Apolo.
Estática.
— O deus Apolo — reforcei, achando que talvez devesse ser mais específico. — Percy está?
Mais estática, seguida de duas vozes em uma conversa abafada. A porta da frente se abriu. Antes de entrar, vi um breve movimento com o canto do olho. Dei uma conferida na calçada, mas novamente não vi nada.
Talvez tivesse sido um reflexo. Ou granizo sendo carregado pelo vento. Ou talvez tivesse sido uma bolha brilhante. Meu couro cabeludo formigou de apreensão.
— O que foi? — perguntou Meg.
— Nada de mais. — Forcei um tom alegre. Não queria que Meg saísse correndo logo no momento em que estávamos tão perto de um lugar seguro. Estávamos unidos agora. Eu teria que segui-la se ela ordenasse, e não queria ter que viver naquele beco para sempre. — Vamos subir. Não podemos deixar nossos anfitriões esperando.

* * *

Depois de tudo que fiz por Percy Jackson, eu esperava alegria com a minha chegada. Boas-vindas lacrimosas, a queima de algumas oferendas e um pequeno festival em minha homenagem não teriam sido inadequados.
Mas o jovem só abriu a porta do apartamento e perguntou:
— Por quê?
Como sempre, fiquei impressionado com a semelhança dele com o pai, Poseidon. Ele herdara os mesmos olhos verde-mar, o mesmo cabelo preto desgrenhado, as mesmas belas feições que podiam mudar de bom humor para raiva com facilidade. No entanto, Percy Jackson não seguia a preferência do pai por shorts de praia e camisas havaianas. Ele estava usando uma calça jeans surrada e um casaco de moletom azul com as palavras EQUIPE DE NATAÇÃO AHS bordadas na frente.
Meg recuou no corredor e se escondeu atrás de mim.
Decidi dar um sorriso.
— Percy Jackson, minhas bênçãos para você! Estou precisando de assistência.
O olhar de Percy voou de mim para Meg.
— Quem é a sua amiga?
— Esta é Meg McCaffrey — expliquei —, uma semideusa que precisa ser levada para o Acampamento Meio-Sangue. Ela me salvou de delinquentes.
— Salvou... — Percy olhou meu rosto ferido. — Você quer dizer que o visual “adolescente surrado” não é só disfarce? Cara, o que aconteceu com você?
— Eu acho que mencionei delinquentes.
— Mas você é um deus.
— Quanto a isso... eu era um deus.
Percy piscou.
— Era?
— Além disso — falei —, tenho quase certeza de que estamos sendo seguidos por espíritos do mal.
Se eu não soubesse quanto Percy Jackson me idolatrava, teria jurado que ele estava prestes a me dar um soco no nariz já quebrado.
Ele suspirou.
— Acho que vocês dois deviam entrar.

34 comentários:

  1. Eu acho qua a meg e filha da demeter

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  2. Pandora Filha De Atena15 de maio de 2016 13:32

    Meu Zeus, Peeeeercyyyyy

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    1. Peeeercyyy cara tendo um ataque aqui

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  3. Peeeercyyy. Nosso herói favorito! Como será ele está?
    (Nossa, eu tô falando assim de uma pessoa que nem existe)

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  4. Amo o Apolo! eu estava imaginando se ele vai ver a Reyna do acampamento Jupiter.
    ~~Filha de Atena

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  5. gente esse apolo ja foi da mais trabalho

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  6. Percy OMG. Se não fosse apaixonada por o Leo eu me casaria com ele

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  7. Meg não é o apelido daquela garota do Hércules,a animaçãozinha da Disney?

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    1. É Sim. Mégara ou algo do tipo

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  8. peercyyyyyyyyyyyyyyy mdss e tu msssmm

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  9. Oh não!!!! Cadê meu tanquinho?!?
    Adeus mundo cruel, fui condenado a uma existência sem meu incrível tanquinho... Como Zeus pode ser insensível?

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  10. A Meg me lembra a Vannelope de Detona Ralph kkklkkk
    Será que é ela a filha de Poseidon? Acho que todo mundo já sabe que Percy vai ter uma irmãzinha né? Isso é spoiler?

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    1. Quando se elimina o impossível, o que resta mesmo que improvável é a verdade, método de dedução simples, pensem nas evidências até agora, ela controla frutas podres, Netuno, NÃO controla frutas podres, parem de chutar e comecem a pensar

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  11. Percy! <3 Quem será o parente olimpiano da Meg. Quando ela chamou o Percy de Perry, suspeitei de Dionísio. Agora os outros, apareçam. Percy fazer parte da equipe de natação não é trapaça? Foda-se, ele pode.

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  12. Marina Atlântida.28 de maio de 2016 19:04

    Meu Zeus!
    Eu tenho muita vergonha alheia com personagens, mas eu estou odiando Apolo!
    ~Caçadora de Ártemis/Filha de Poseidon.

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  13. Percy!! Estava com saudades dele, espero que a Annabeth apareça!!!

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  14. PERCY !!!!!!!!!!!!!
    Gente Apolo é um exibido

    Ass: Escritora

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  15. Gente o cara foi surrado, assaltado, banhado em lixo e está preocupado com espinhas e a perda do tanquinho dele..Fala serio só Apolo mesmo...

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  16. Ela precisava ser levada para o Acampamento Meio-Sangue tanto quanto eu.

    Ela tinha sorte de ter me conhecido.

    (Sei que essa última frase parece óbvia. Qualquer pessoa que me conhece tem sorte, mas você entendeu o que eu quis dizer.).
    Adorei essa parte kkkkkkkkkkk

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  17. sempre ti disse que haicai nao rimava

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  18. "Ela foi pulando na frente, jogando o aviãozinho de dinheiro e pegando-o de volta."

    Ela deve ser filha do Deus Silvio Santos. Certeza

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  19. Quem é esse pokemon?? Apolo!! Capturado com sucesso pela Meg!! kkk

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  20. Pele branca, cabelo escuro encaracolado e olhos azuis, amei esse visual. Espinhas e barriguinha todo mundo tem.

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  21. filha de Poseidon e afrodite2 de outubro de 2016 18:36

    PERCY SEMPAI TE AMO (como irmao obvo meu coraçao pretence a leo)

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  22. Não acredito que o Paul ainda não consertou o capô do carro cara kkkk

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  23. A meg podia ser filha de apolo
    😊😊😊

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