14 de maio de 2016

Capítulo 37

Ei! Percy chegou!
Pode dar uma ajudinha?
Eu sou seu mentor

FIQUEI SURPRESO DEMAIS PARA falar. Senão, teria avisado Percy sobre o que estava prestes a acontecer.
Os cães infernais não gostam de grandes alturas. Quando assustados, reagem de forma previsível. Assim que a fiel escudeira de Percy pousou no topo do Colosso em movimento, ela grunhiu e fez xixi na cabeça do dito Colosso. A estátua congelou e olhou para cima, sem dúvida se perguntando o que diabo estava escorrendo por suas costeletas imperiais.
Percy saltou heroicamente da montaria e escorregou no xixi do cão infernal. Ele quase caiu pela testa da estátua.
— Mas que... sra. O’Leary, caramba!
O cão deu um latido de desculpas. Austin guiou nossa carruagem para perto deles.
— Percy!
O filho de Poseidon nos olhou com a testa franzida.
— Tudo bem, quem libertou o sujeito gigantesco de bronze? Foi você, Apolo?
— Estou ofendido! — gritei. — Sou apenas indiretamente responsável por isso! Além do mais, tenho um plano.
— Ah, tem? — Percy olhou para o pavilhão de refeições destruído. — Como ele está indo?
Com minha tranquilidade habitual, eu me mantive concentrado no bem maior.
— Se você puder fazer o favor de impedir esse Colosso de pisotear a lareira do acampamento, já ajudaria bastante. Preciso de mais alguns minutos para enfeitiçar esta flecha.
Levantei a flecha falante por engano, depois levantei a flecha torta.
Percy suspirou.
— Claro.
A sra. O’Leary latiu, alarmada. O Colosso estava levantando a mão para dar um tapa nos invasores.
Percy segurou um dos raios da coroa. Cortou-o na base e o enfiou na testa da estátua. Eu duvidava que o Colosso sentisse dor, mas ele cambaleou, aparentemente surpreso por ter ganhado um chifre de unicórnio na testa.
Percy cortou outro raio.
— Ei, feioso! — gritou ele. — Você não precisa de todas essas coisas pontudas, precisa? Vou levar uma para a praia. Sra. O’Leary, pegue!
Percy jogou o raio como um dardo.
O cão infernal latiu com empolgação. Ela pulou da cabeça do Colosso, se transformou em sombra e reapareceu no chão, correndo atrás do seu novo graveto de bronze.
Percy ergueu as sobrancelhas para mim.
— E aí? Comece o encantamento!
Ele pulou da cabeça para o ombro da estátua. Em seguida, saltou para a haste do leme e deslizou nele como se fosse um poste de bombeiro até o chão. Se eu estivesse no meu nível habitual de capacidade atlética, poderia ter feito algo assim de olhos fechados, claro, mas eu tinha que admitir: Percy Jackson era moderadamente impressionante.
— Ei, Bunda de Bronze! — gritou ele de novo. — Venha me pegar!
O Colosso obedeceu, virando-se lentamente e seguindo Percy até a praia.
Tentei invocar meus antigos poderes como deus das pragas. Dessa vez, as palavras vieram. Não sabia bem por quê. Talvez a chegada de Percy tivesse renovado minha fé. Talvez eu só não tivesse pensado demais no assunto. Já percebi que pensar demais nas coisas costuma interferir na execução.
É uma das primeiras lições que os deuses aprendem na carreira.
Meus dedos formigaram, e senti a doença indo até a flecha. Falei sobre como eu era incrível e sobre as várias doenças horríveis que despejei em populações más do passado, porque... bem, eu sou incrível. Conseguia sentir a magia se espalhando, apesar de a Flecha de Dodona ficar sussurrando para mim como um ajudante de palco elisabetano irritante.
— DIZE: “DOENÇA, DOENCINHA, DOENÇÃO!”
Abaixo, mais semideuses se juntaram ao grupo indo para a praia. Eles corriam à frente do Colosso, provocando, jogando coisas e chamando-o de Bunda de Bronze. Fizeram piadas sobre o novo chifre. Riram do xixi do cão infernal escorrendo pelo rosto dele. Normalmente, tenho tolerância zero para bullying, principalmente quando a vítima é a minha cara, mas, como o Colosso era do tamanho de um prédio de dez andares e estava destruindo o acampamento deles, acho que a grosseria dos campistas era compreensível.
Terminei o encantamento. Uma névoa verde abominável agora envolvia a flecha. Tinha um cheiro leve de fritura de lanchonete, um bom sinal de que carregava algum mal terrível.
— Estou pronto — falei para Austin. — Me leve para perto do ouvido!
— Pode deixar!
Austin se virou para dizer mais alguma coisa, e um filete de névoa verde passou debaixo do nariz dele. Seus olhos começaram a lacrimejar. O nariz ficou vermelho e começou a escorrer. Ele contraiu o rosto e deu um espirro tão forte que desabou. Ficou caído no chão da carruagem, gemendo e se contorcendo.
— Meu filho!
Queria segurá-lo e ver se ele estava bem, mas como levava uma flecha em cada mão, isso não era aconselhável.
— AH, DESGRAÇA! FORTE DEMAIS É ESSA DOENÇA. — A Flecha de Dodona zumbiu com irritação. — TEU ENCANTAMENTO FOI RIDÍCULO.
— Ah, não, não, não — falei. — Kayla, tome cuidado. Não respir...
— ATCHIM!
Kayla caiu ao lado do irmão.
— O que eu fiz? — choraminguei.
— ACHO QUE TU FIZESTE BESTEIRA — disse a Flecha de Dodona, minha fonte de sabedoria infinita. — ANDA LOGO! PEGA TU AS RÉDEAS.
— Por quê?
Era de se imaginar que um deus que guiava uma carruagem diariamente não precisaria fazer uma pergunta dessas. Em minha defesa, eu estava abalado porque meus filhos jaziam semiconscientes aos meus pés. Não considerei que ninguém estava guiando a carruagem. Sem ninguém nas rédeas, os pégasos entraram em pânico. Para evitar o choque contra o enorme Colosso de bronze, eles mergulharam em rota de colisão com o chão.
Não sei como, consegui reagir da forma apropriada. (Três vivas para uma reação apropriada!)
Joguei as duas flechas na aljava, segurei as rédeas e consegui controlar o pouso o suficiente para impedir uma tragédia. Nós quicamos em uma duna e paramos na frente de Quíron e um grupo de semideuses. Nossa entrada poderia ter sido mais pomposa se a força centrífuga não tivesse jogado nós três para fora da carruagem.
Já mencionei que fiquei agradecido pela areia macia?
Os pégasos saíram voando, arrastando a carruagem destruída para o céu e nos deixando presos no chão.
Quíron galopou até nós, seguido por um amontoado de semideuses. Percy Jackson também se aproximou, enquanto a sra. O’Leary mantinha o Colosso distraído com uma brincadeira de piquepega.
Duvido que isso fosse sustentar o interesse da estátua por muito tempo, principalmente quando o Colosso percebesse que havia um grupo de alvos logo às suas costas, prontos para serem pisoteados.
— A flecha com a doença está pronta! — anunciei. — Precisamos disparar no ouvido do Colosso!
Minha plateia não pareceu encarar isso como uma boa notícia. Então percebi que a carruagem não estava mais ali. Meu arco se fora com ela. E Kayla e Austin estavam contaminados com seja lá qual doença conjurei.
— Isso é contagioso? — perguntou Cecil.
— Não! — respondi. — Bom... acho que não. Foram os vapores da flecha...
Todo mundo se afastou de mim.
— Cecil — chamou Quíron — você e Harley vão levar Kayla e Austin para o chalé de Apolo, para tratamento.
— Mas eles são o chalé de Apolo — reclamou Harley. — Além do mais, meu lança-chamas...
— Você pode brincar com o lança-chamas depois — prometeu Quíron. — Vá logo. Bom menino. O restante vai fazer o que puder para manter o Colosso perto da água. Percy e eu vamos ajudar Apolo.
Quíron disse a palavra ajudar como se quisesse dizer dar um pescotapa com violência extrema.
Quando a multidão se dispersou, Quíron me ofereceu seu arco.
— Faça o disparo.
Olhei para a arma enorme e complexa, cuja corda devia ter uma tensão de mais de quarenta e cinco quilos.
— Isso foi feito para a força de um centauro, não de um adolescente mortal!
— Você criou a flecha — disse ele. — Só você pode disparar sem sucumbir à doença. Só você pode acertar um alvo desses.
— Daqui? É impossível! Onde está aquele garoto voador, Jason Grace?
Percy limpou o suor e a areia do pescoço.
— Estamos sem garotos voadores. E os pégasos fugiram.
— Talvez com umas harpias e linha de pipa... — comecei.
— Apolo — interrompeu Quíron —, você tem que fazer isso. Você é o senhor da arqueria e das doenças.
— Não sou senhor de nada! — choraminguei. — Sou um adolescente mortal burro e feio! Não sou ninguém!
A autopiedade bateu com tudo. Achei que o chão se abriria ao meio quando chamei a mim mesmo de ninguém. O cosmos pararia de girar. Percy e Quíron me tranquilizariam imediatamente.
Nada disso aconteceu. Percy e Quíron só fizeram uma careta.
Percy colocou a mão no meu ombro.
— Você é Apolo. Nós precisamos de você. Você consegue fazer isso. Além do mais, se não conseguir, vou jogar você pessoalmente do alto do Empire State Building.
Essa era exatamente a conversa de que eu precisava, o tipo de coisa que Zeus me dizia antes dos meus jogos de futebol.
Eu empertiguei os ombros.
— Certo.
— Vamos tentar atraí-lo para a água — disse Percy. — Tenho vantagem lá. Boa sorte.
Percy aceitou a mão estendida de Quíron e pulou nas costas do centauro. Juntos, eles galoparam até o mar, com Percy balançando a espada e gritando vários impropérios relacionados a bundas de bronze para o Colosso.
Eu corri para a praia até conseguir ver a orelha esquerda da estátua.
Ao olhar para aquele perfil majestoso, não vi Nero. Eu me vi, um monumento à minha própria vaidade. O orgulho de Nero não passava de um reflexo do meu. Eu era o pior tolo. Era exatamente o tipo de pessoa que colocaria uma estátua nua de trinta metros de mim mesmo no meu jardim.
Puxei a flecha enfeitiçada da aljava e ajustei o arco.

* * *

Os semideuses estavam ficando ótimos na arte de se espalhar. Eles continuaram a atormentar o Colosso dos dois lados enquanto Percy e Quíron galopavam pela orla, com a sra. O’Leary pulando nos calcanhares da estátua com seu graveto de bronze.
— Ei, feioso! — gritou Percy. — Aqui!
O passo seguinte do Colosso deslocou várias toneladas de água salgada e criou uma cratera grande o bastante para engolir uma picape.
A Flecha de Dodona tremeu na aljava.
— SOLTA TEU AR — aconselhou ela. — RELAXA TEU OMBRO.
— Eu já usei um arco antes — resmunguei.
— PRESTA ATENÇÃO NO TEU COTOVELO DIREITO — disse a flecha.
— Cala a boca.
— E NÃO MANDES TUA FLECHA CALAR A BOCA.
Eu puxei a corda. Meus músculos arderam, como se água fervendo estivesse sendo derramada nos meus ombros. A flecha enfeitiçada não me fez desmaiar, mas os vapores desorientavam. A haste torta tornou qualquer cálculo impossível. O vento estava contra mim. A curva do disparo seria alta demais.
Mesmo assim eu mirei, expirei e soltei a corda.
A flecha girou enquanto disparava para cima, perdendo força e desviando para a direita. Meu coração despencou. Claro que a maldição do Rio Estige me negaria qualquer chance de sucesso.
No momento em que a flecha atingiu o ápice da subida e estava prestes a cair, um sopro de vento a pegou... talvez Zéfiro, olhando com gentileza minha tentativa pífia. A flecha entrou no canal auditivo do Colosso e ricocheteou dentro da cabeça dele com um clink, clink, clink, como uma máquina caça-níqueis.
O Colosso parou. Olhou para o horizonte como se estivesse confuso. Virou o rosto para o céu, arqueou as costas e caiu para a frente, como um tornado destruindo o telhado de um armazém.
Como sua cara não tinha nenhum outro orifício, a pressão do espirro gerou gêiseres de óleo de motor pelos ouvidos, respingando as dunas com sujeira nociva ao meio ambiente.
Sherman, Julia e Alice cambalearam até mim, cobertos da cabeça aos pés de areia e óleo.
— Agradeço por ter libertado Miranda e Ellis — rosnou Sherman —, mas vou matar você depois por ter roubado minha carruagem. O que você fez com o Colosso? Que tipo de doença faz você espirrar?
— Acho que não conjurei uma doença mortal... Acho que dei ao Colosso uma crise de febre do feno.
Sabe aquela pausa horrível quando você está esperando alguém espirrar? A estátua arqueou as costas de novo, e todo mundo na praia se encolheu na expectativa. O Colosso inspirou vários hectares cúbicos de ar pelos ouvidos, se preparando para o próximo espirro.
Eu imaginei os piores cenários: o Colosso espirraria e jogaria Percy Jackson em Connecticut, onde ele jamais seria encontrado. O Colosso balançaria a cabeça e depois pisotearia todos nós. A febre do feno deixava as pessoas mal-humoradas. Eu sabia disso porque inventei a febre do feno.
Mesmo assim, não foi minha intenção que fosse um mal que matasse. Certamente não previ que enfrentaria a fúria de um autômato gigante de metal com alergias sazonais. Maldita seja minha falta de visão! Maldita seja minha mortalidade!
O que não levei em consideração foi o dano que nossos semideuses já tinham provocado às juntas de metal do Colosso, em particular ao pescoço.
O Colosso se balançou para a frente com um ATCHIM! estrondoso. Eu me encolhi e quase perdi o momento decisivo, quando a cabeça da estátua sofreu uma separação em primeiro grau do corpo.
Ela disparou pelo Estreito de Long Island, girando sem parar. Bateu na água com um barulhão e boiou ali por um momento. Então, ar jorrou do buraco do pescoço, e a bela face majestosa deste que vos fala afundou sob as ondas.
O corpo decapitado da estátua oscilou. Se tivesse caído para trás, poderia ter destruído ainda mais o acampamento. Mas ele caiu para a frente. Percy soltou um palavrão que daria orgulho a qualquer marinheiro fenício. Quíron e ele correram para o lado para não serem esmagados enquanto a sra. O’Leary se dissolvia sabiamente nas sombras. O Colosso caiu na água e gerou ondas de doze metros para bombordo e estibordo. Eu nunca tinha visto um centauro pegar jacaré num tubo, mas Quíron se saiu muito bem.
O rugido da queda final da estátua finalmente parou de ecoar nas colinas.
Ao meu lado, Alice Miyazawa assobiou.
— Nossa, isso foi um tombo de respeito.
Sherman Yang perguntou, com surpresa na voz:
— Mas que Hades acabou de acontecer?
— Acho que o Colosso perdeu a cabeça — respondi.

21 comentários:

  1. Andei Pensando.. essa Lance de Apolo quebrar a Promessa pelo estige.. Poseidon e Zeus ja quebraram uma a alguns anos e nao aconteceu nada a eles.. afinal nao era Pro Percy nem pro Jason Ou a Thalia nascerem.. no entando eles estao ai.. Nao acho q ira acontecer algo com Apolo.. afinal deuses maiores q ele ja quebraram um juramento..

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  2. ka, ta escrito força centrífuga, confere se não é força centrípeta. bjos

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    1. Oi Lívia, neste caso é centrífuga mesmo, pois eles foram atirados para fora do percurso

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  3. Espadas falantes, flechas falantes, nada mais me surpreende nos livros. Vai acabar o livro e nem sombra do Sr. Valdez, só falta ele aparecer no último momento pra me fazer agonizar de curiosidade até o próximo livro, mais que o normal.

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    1. aff parem de reclamar!
      eu tou amando esse livro, e jah eh sort do Rick lançar vamos dizer uma continuaçao, pra saber o aconteceu com os outros, eh claro q o leo vai aparecer, ateh pq o irmao dele qer axar ele! poderia ser pior, nao podia ter continuaçao e a gent nunka mas podia saber do Leo

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  4. " Percy segurou um dos raios da coroa. Cortou-o na base e o enfiou na testa da estátua. Eu duvidava que o Colosso sentisse dor, mas ele cambaleou, aparentemente surpreso por ter ganhado um chifre de unicórnio na testa."

    Só mesmo meu maninho pra ter uma ideia dessas (eu teria feito igual)

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  5. Pqp essa flecha é mais chata doq o Jacques!!!

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  6. Chefe é chefe né pai

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  7. Luiza, filha de Hades1 de junho de 2016 17:37

    Não é como se o Apolo fosse morrer por quebrar a promessa, é que pequenos azares vão acontecer a ele em momentos que ele precisa de sorte.

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  8. Percy colocou a mão no meu ombro.
    — Você é Apolo. Nós precisamos de você. Você consegue fazer isso. Além do mais, se não conseguir, vou jogar você pessoalmente do alto do Empire State Building.


    Quíron disse a palavra ajudar como se quisesse dizer dar um pescotapa com violência extrema.



    Melhores frases♡♡♡

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  9. So eu que li o que a flecha falava com sotaque português? Kkkkk

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    1. Sério? kkkkkkk acho que sim :P

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    2. eu li como se ela falace como as pessoas de dois seculos atrás... mas sotaque português também serve!!!

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  10. Caçadora de sombras20 de setembro de 2016 15:28

    A flecha falando, e eu lembrando da Zoe....
    Mas enfim, o flechinha chata hein, pior q a Sumarbrander....

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  11. Percy sempre arrasando 😍😍😍
    Só falta o Leo aparecer... Mas eu tava esperando mais o Percy msm.... Juro, adoro a Annie, maaaas o Percy é d+ n tem como não se apaixonar💙❤😍😘

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  12. É claro q vem Leo por aí, meu povo
    Falou sobre ele na profecia(sobreFestus, mas é indiretamente sobre Leo)

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