14 de maio de 2016

Capítulo 34

Nada de Uber
Algum táxi a caminho? Não.
Eu vou é com a Mama

AUSTIN HAVIA SOLTADO OS outros prisioneiros.
Eles pareciam ter sido mergulhados em uma tina de cola e pedaços de algodão, mas, fora isso, não estavam feridos. Ellis Wakefield andava de um lado para outro com os punhos fechados, procurando alguma coisa para socar. Cecil Markowitz, filho de Hermes, estava sentado no chão tentando limpar os tênis com um fêmur de cervo. Austin (que garoto versátil!) tinha conseguido um cantil de água e estava lavando o fluido de fogo grego do rosto de Kayla. Miranda Gardiner, a conselheira-chefe do chalé de Deméter, ajoelhara-se no local onde as dríades se sacrificaram. Ela chorava em silêncio.
O Pálico Paulie flutuou até mim. Como seu companheiro, Pete, a parte inferior de seu corpo era feita de vapor. Da cintura para cima, ele parecia uma versão mais magra e maltratada do companheiro de gêiser. A pele de lama estava rachada como a margem de um rio seco. O rosto murchou, como se toda a umidade tivesse sido sugada dele. Ao ver quanto Nero o afetou, eu acrescentei alguns itens à lista mental que estava preparando: Algumas formas de torturar um imperador nos Campos de Punição.
— Você me salvou — disse Paulie, impressionado. — Arrasou!
Ele me abraçou. O poder dele estava tão fraco que o calor do vapor não me matou, só abriu bem meus seios da face.
— Você devia ir para casa — falei. — Pete está preocupado, e você precisa recuperar suas forças.
— Ah, cara... — Paulie secou uma lágrima fumegante do rosto. — É, já estou indo. Mas, se você precisar de qualquer coisa, limpeza a vapor grátis, trabalho de relações públicas, massagem com lama, é só falar.
Quando ele já se dissolvia em névoa, gritei:
— Paulie? Eu daria nota dez por satisfação do cliente para a Floresta do Acampamento Meio-Sangue.
Paulie abriu um sorriso de gratidão. Tentou me abraçar de novo, mas seu corpo já tinha virado noventa por cento vapor. Só senti uma brisa úmida com cheiro de lama. E então, ele sumiu.
Os cinco semideuses se reuniram ao meu redor.
Miranda olhou para um ponto atrás de mim, para o Bosque de Dodona. Seus olhos ainda estavam inchados pelo choro, mas ela tinha íris lindas, da cor de folhagem.
— Então as vozes que ouvi vindas daquele bosque... O lugar é mesmo um oráculo? Essas árvores podem nos dar profecias?
Estremeci, pensando nos versos dos carvalhos.
— Talvez.
— Posso dar uma olhada...?
— Não — falei. — Não enquanto não entendermos melhor esse bosque.
Eu já havia perdido uma filha de Deméter hoje. Não pretendia perder outra.
— Não estou entendendo — resmungou Ellis. — Você é Apolo? Tipo, o Apolo?
— Infelizmente, sou. É uma longa história.
— Ah, deuses... — Kayla observou a clareira. — Pensei ter ouvido a voz de Meg mais cedo. Eu sonhei isso? Ela estava com você? Ela está bem?
Os outros olharam para mim, esperando uma explicação. As expressões eram tão frágeis e hesitantes que decidi que não podia fraquejar na frente deles.
— Ela está... viva — consegui dizer. — Mas teve que ir embora.
— O quê? — perguntou Kayla. — Por quê?
— Nero — respondi. — Ela... ela foi atrás de Nero.
— Espere aí — interrompeu Austin. — Quando você diz Nero...
Fiz o melhor que pude para explicar como o imperador louco os capturou. Eles mereciam saber. Enquanto recontava a história, as palavras de Nero ficavam se repetindo na minha mente: Minha equipe de demolição vai chegar aqui a qualquer minuto. Quando o Acampamento Meio-Sangue for destruído, vou transformá-lo no meu jardim!
Eu queria acreditar que aquilo era só conversa fiada. Nero sempre amou ameaças e declarações grandiosas. Diferente de mim, ele era um péssimo poeta. Usava linguagem floreada como... bem, como se todas as frases formassem um buquê pungente de metáforas. (Hum, essa também é boa. Vou anotar.)
Por que ele ficava olhando para o relógio? E de que equipe de demolição estava falando? Tive um flashback do sonho do ônibus do Sol caindo na direção de uma cabeça gigantesca feita de bronze.
Senti que estava afundando de novo. O plano de Nero ficou horrivelmente claro. Depois de dividir os poucos semideuses que defendiam o acampamento, ele pretendia queimar o Bosque. Mas isso era só parte do ataque...
— Ah, deuses — falei. — O Colosso.
Os cinco semideuses se remexeram, desconfortáveis.
— Que Colosso? — perguntou Kayla. — Você está falando do Colosso de Rodes?
— Não — respondi. — Do Colossus Neronis.
Cecil coçou a cabeça.
— Do Colosso Neurótico?
Ellis Wakefield riu com deboche.
— Você é um Colosso Neurótico, Markowitz. Apolo está falando da grande estátua de Nero que ficava em frente ao anfiteatro em Roma, não é?
— Infelizmente, sim — concordei. — Enquanto estamos aqui, Nero vai tentar destruir o Acampamento Meio-Sangue. E o Colosso é a equipe de demolição.
Miranda estremeceu.
— Você quer dizer que uma estátua gigantesca está prestes a pisotear o acampamento? Achei que o Colosso tivesse sido destruído séculos atrás.
Ellis franziu a testa.
— Em teoria, a Atena Partenos também. Mas agora ela está no alto da Colina Meio-Sangue.
As expressões dos outros ficaram sombrias. Quando um filho de Ares faz uma observação válida, você sabe que a situação está séria.
— Falando em Atena... — Austin tirou um pedaço de pano incendiário do ombro. — A estátua não vai nos proteger? É para isso que ela está lá, certo?
— Ela vai tentar — especulei. — Mas a Atena Partenos retira poder de seus seguidores. Quanto mais semideuses ela tiver sob seus cuidados, mais poderosa fica a magia dela. E agora...
— O acampamento está praticamente vazio — completou Miranda.
— Não só isso — falei —, mas a Atena Partenos tem doze metros de altura. Se minha memória não falha, o Colosso de Nero tinha mais do que o dobro disso.
Ellis resmungou.
— Então, as duas estátuas não estão na mesma categoria. É uma disputa desleal.
Cecil Markowitz se empertigou um pouco.
— Pessoal... vocês sentiram isso?
Achei que ele estivesse fazendo uma das pegadinhas de Hermes. Mas o chão tremeu de novo, bem de leve. De algum lugar ao longe ouvimos um som trovejante, como um navio de guerra roçando em um banco de areia.
— Por favor, me digam que isso foi um trovão — pediu Kayla.
Ellis inclinou a cabeça para prestar atenção.
— É uma máquina de guerra. Um autômato enorme está se aproximando pela margem, a meio quilômetro daqui. Temos que voltar para o acampamento agora.
Ninguém questionou a avaliação de Ellis. Acho que ele conseguia distinguir entre os sons de máquinas de guerra da mesma maneira que eu conseguia identificar um violino desafinado em uma sinfonia de Rachmaninoff.
Os semideuses aceitaram o desafio. Apesar de terem sido recentemente amarrados, encharcados de fluidos inflamáveis e presos a estacas como tochas humanas, eles se reuniram e me olharam com determinação.
— Como vamos conseguir sair daqui? — perguntou Austin. — Pelos túneis dos myrmekos?
Senti-me sufocado de repente, em parte porque tinha cinco pessoas olhando para mim como se eu soubesse o que fazer. Eu não sabia. Na verdade, se quer saber um segredo, nós deuses normalmente não sabemos. Quando nos pedem respostas, nós costumamos dizer alguma coisa no estilo de Reia: Você vai ter que descobrir sozinho! Ou: A verdadeira sabedoria precisa ser conquistada! Mas eu achava que isso não funcionaria nessa situação.
Além do mais, eu não estava com a mínima vontade de voltar para o formigueiro. Mesmo se conseguíssemos sair vivos de lá, perderíamos muito tempo. Depois, ainda teríamos que atravessar a floresta.
Fiquei olhando para o buraco no formato de Vince na copa das árvores.
— Acho que nenhum de vocês sabe voar, né?
Eles balançaram a cabeça.
— Eu sei cozinhar — ofereceu Cecil.
Ellis deu um tapa no ombro dele.
Olhei para o túnel dos myrmekos. A solução veio como uma voz sussurrando no meu ouvido: Você conhece alguém que sabe voar, idiota.
Era uma ideia arriscada. Por outro lado, lutar contra um autômato gigante também não era o plano de ação mais seguro.
— Acho que tive uma ideia — falei. — Mas vou precisar da ajuda de vocês.
Austin fechou os punhos.
— O que você precisar. Estamos prontos para lutar.
— Na verdade... não preciso que vocês lutem. Preciso que me ajudem a fazer um rap.

* * *

Minha nova grande descoberta: os filhos de Hermes não sabem cantar. Nem de longe. Que o coraçãozinho cúmplice de Cecil Markowitz seja abençoado: ele se esforçou, mas ficava destruindo meu ritmo com as palmas fora de hora e terríveis sons de microfone. Depois de alguns testes, eu o rebaixei a dançarino. O trabalho dele se resumiu a balançar para a frente e para trás e chacoalhar as mãos, o que Cecil fez com o entusiasmo de um pastor.
Os outros conseguiram me acompanhar. Eles ainda pareciam galinhas meio depenadas e altamente inflamáveis, mas cantaram com um pouco mais de ritmo.
Comecei a cantar “Mama”, reforçado por um gole d’água e pastilha para a garganta do kit de Kayla. (Que garota engenhosa! Quem leva pastilha para a garganta para uma corrida de três pernas da morte?)
Cantei diretamente na abertura do túnel dos myrmekos, confiando na acústica para carregar minha mensagem. Nós não precisamos esperar muito. A terra começou a tremer sob nossos pés. Eu continuei cantando. Já tinha avisado aos meus companheiros para não pararem até a música terminar.
Mesmo assim, quase perdi o ritmo quando o chão explodiu. Eu estava de olho na saída do túnel, mas Mama não usava túneis. Ela surgia onde queria, nesse caso, direto do chão, a uns vinte metros de nós, borrifando terra, grama e pedrinhas em todas as direções. Ela se aproximou, com as mandíbulas estalando e as asas zumbindo, os olhos pretos grudados em mim. O abdome não estava mais inchado, então supus que ela já havia terminado de depositar a última ninhada de larvas de formigas assassinas. Eu esperava que isso quisesse dizer que estaria de bom humor, não faminta.
Atrás dela, dois soldados alados saíram da terra. Eu não estava esperando formigas extras. (Falando sério, formigas extras não é um termo que a maioria das pessoas gostaria de ouvir.) Elas ladearam a rainha, as antenas tremendo.
Terminei minha ode, então me apoiei em um joelho e abri os braços, como tinha feito na última vez.
— Mama — falei —, nós precisamos de carona.
A minha lógica era a seguinte: mães estavam acostumadas a dar carona. Com milhares e milhares de filhotes, eu supus que a formiga rainha fosse a mãe mais dedicada de todas. E, realmente, Mama me segurou com as mandíbulas e me jogou por cima da cabeça.
Ao contrário do que os semideuses possam alegar, eu não me debati, nem gritei, nem caí de um jeito que tenha machucado minhas partes íntimas. Eu caí heroicamente, montado no pescoço da rainha, que não era mais largo do que as costas de um cavalo.
Gritei para os meus camaradas:
— Juntem-se a mim! É perfeitamente seguro!
Por algum motivo, os semideuses hesitaram. As formigas, não. A rainha jogou Kayla atrás de mim. As formigas-soldados seguiram a deixa de Mama e cada uma pegou dois semideuses e os jogou a bordo.
Os três myrmekos bateram as asas com um barulho parecido com o das hélices de um radiador.
Kayla agarrou minha cintura.
— Isso é mesmo seguro? — gritou ela.
— Claro! — Eu esperava estar certo. — Talvez até mais do que a carruagem do Sol!
— A carruagem do Sol não quase destruiu o mundo uma vez?
— Bom, duas vezes — respondi. — Três, se você contar o dia que deixei Thalia Grace pilotar, mas...
— Deixa pra lá!
Mama subiu em direção ao céu. Galhos retorcidos bloqueavam nosso caminho, mas a rainha não prestou atenção a eles, ou à tonelada de terra que atravessou.
— Se abaixem! — gritei.
Nós nos encostamos na cabeça sólida de Mama enquanto ela passava pelas árvores, deixando mil farpas nas minhas costas. Era tão bom voar de novo que não me importei. Nós subimos acima do bosque e nos dirigimos para o leste.
Por dois ou três segundos, senti apenas alegria.
E então, ouvi os gritos vindos do Acampamento Meio-Sangue.

15 comentários:

  1. Talvez eu tenha lido errado Antes mas nao eram 8 meio sangues sumidos ??..

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    1. Nope, foram três mesmo. Os outros só foram, tipo, pra faculdade, pra casa e tudo mais, e perderam a comunicação com o Acampamento

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  2. — Isso é mesmo seguro? — gritou ela.
    — Claro! — Eu esperava estar certo. — Talvez até mais do que a carruagem do Sol!
    — A carruagem do Sol não quase destruiu o mundo uma vez?
    — Bom, duas vezes — respondi. — Três, se você contar o dia que deixei Thalia Grace pilotar, mas...

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
    ai vey serio to morrendo

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  3. Eu preciso ver esse acampamento lotado de novo! Muito mais emoção.

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  4. GAJDJJZJAJZKKA MDS EU TÔ RINDO DE NERVOSO

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  5. Nada melhor doq voar nas costas de uma formiga gigante

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  6. Quando um filho de Ares faz uma observação válida, você sabe que a situação está séria.

    Verdade absoluta kkkkk♡

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  7. Só lembrei da música Wings kkkk
    "Mama told no to waste my life
    She Said spread Your wings
    My little butterfly"

    - Filho de Apolo :v

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    1. Little mix ♥

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    2. Eu pensei no Apolo cantando "MAMA" do EXO mesmo SUAHSUAHSJAHA

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    3. filha de Poseidon e afrodite5 de outubro de 2016 08:15

      alguem disse EXO ?!?!!?!

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  8. — Isso é mesmo seguro? — gritou ela.
    — Claro! — Eu esperava estar certo. — Talvez até mais do que a carruagem do Sol!
    — A carruagem do Sol não quase destruiu o mundo uma vez?
    — Bom, duas vezes — respondi. — Três, se você contar o dia que deixei Thalia Grace pilotar, mas...

    BERRO KKKKKK MELHOR PARTE
    Papai Apolo super incoveniente talvez

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  9. Só eu que lembrei de Bianca DiAngelo agora? :'(

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    1. Fernanda: A Filha de Hades27 de julho de 2016 18:10

      É nóis!!

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