14 de maio de 2016

Capítulo 32

Só o Village People
Para proteger a mente
“Y.M.C.A.” Sim

AH, ESSA PARTE É difícil de contar.
Sou um ótimo contador de histórias. Tenho um instinto infalível para o drama. Quero contar o que devia ter acontecido: que avancei gritando “Nãããão!” e saltei como um acrobata, jogando o fósforo aceso longe, depois segui com uma série de movimentos de kung fu supervelozes, quebrei a cabeça de Nero e acabei com os guarda-costas dele antes que pudessem reagir.
Ah, sim.
Isso teria sido perfeito.
Mas a verdade me compele.
Maldita verdade!
Na realidade, eu balbuciei alguma coisa como “Nã-hã, bobão!”. Talvez tenha sacudido meu lenço verde e amarelo com a esperança de que sua magia destruísse meus inimigos.
O verdadeiro herói foi Pêssego. O karpos deve ter sentido os sentimentos sinceros de Meg, ou talvez só não gostasse da ideia de botar fogo em florestas. Ele saltou sobre o braço de Nero, dando seu grito de guerra — adivinhe —, “Pêssego!”, comeu o fósforo aceso na mão do imperador e caiu a uns poucos metros, limpando a língua e gritando:
— Cante! Cante!
(Eu concluí que devia ser “quente” no dialeto das frutas decíduas.)
A cena teria sido engraçada, não fosse o fato de os germânicos estarem de pé agora, os cinco semideuses e um deus do gêiser continuarem amarrados a postes inflamáveis e Nero ainda estar com uma caixa de fósforos na mão.
O imperador olhou para a mão vazia.
— Meg...? — A voz dele estava gelada como um picolé. — Qual é o significado disso?
— P-pêssego, venha cá! — A voz de Meg estava tensa de medo.
karpos se aproximou dela. Sibilou para mim, para Nero e para os germânicos.
Meg inspirou com dificuldade, se enchendo de coragem.
— Nero... Pêssego está certo. Você... você não pode queimar essas pessoas vivas.
Nero suspirou. Olhou para os guarda-costas em busca de apoio moral, mas os germânicos ainda pareciam atordoados. Estavam batendo nas têmporas como se tentassem tirar água do ouvido.
— Meg — começou o imperador —, estou me esforçando para manter o Besta longe. Por que você não me ajuda? Sei que é uma boa garota. Eu não teria permitido que andasse sozinha por Manhattan, bancando a menina de rua, se não soubesse que você seria capaz de se cuidar. Mas ser branda com nossos inimigos não é uma virtude. Você é minha enteada. Qualquer um desses semideuses mataria você sem hesitar se tivesse a chance.
— Meg — falei. — Você conheceu o Acampamento Meio-Sangue. Sabe que isso não é verdade!
Ela me observou com inquietação.
— Mesmo... mesmo que fosse verdade... — Ela se virou para Nero. — Você disse para eu nunca me rebaixar ao nível dos meus inimigos.
— É mesmo. — O tom de Nero era áspero como uma corda gasta. — Nós somos melhores. Mais fortes. Construiremos um novo mundo glorioso. Mas essas árvores ininteligíveis estão no nosso caminho, Meg. Como qualquer erva daninha invasiva, elas precisam queimar. E o único jeito de fazer isso é com uma verdadeira conflagração: chamas atiçadas por sangue. Vamos fazer isso juntos sem envolver o Besta, certo?
Finalmente, na minha cabeça, algo estalou. Eu me lembrei de como meu pai me punia séculos atrás, quando eu era um jovem deus aprendendo as regras do Olimpo. Zeus dizia: “Não vá irritar meu raio, garoto.”
Como se o raio tomasse decisões próprias, como se Zeus não tivesse nada a ver com as punições que infligia a mim.
“Não me culpe”, sugeria o tom dele. “Foi o raio que queimou todas as moléculas do seu corpo.”
Muitos anos depois, quando matei os ciclopes que criaram os raios de Zeus, não foi uma decisão impensada. Eu sempre odiei aqueles raios. Era mais fácil do que odiar meu pai.
Nero usava o mesmo tom quando se referia a si mesmo como Besta. Ele falava da raiva e da crueldade como se fossem forças fora do seu controle. Se tivesse um ataque de fúria... Bem, ele ia culpar Meg.
A percepção me enojou. Meg foi criada para ver o padrasto gentil Nero e o apavorante Besta como duas pessoas diferentes. Eu entendia agora por que ela preferia passar o tempo nos becos de Nova York. Entendia por que seu humor mudava tão rápido, indo de dar estrelas por aí ao silêncio total em questão de segundos. Ela nunca sabia o que podia libertar o Besta.
Meg olhou para mim. Seus lábios tremeram. Queria uma saída, algum argumento eloquente que acalmasse o padrasto e permitisse que ela seguisse sua consciência. Mas eu não era mais um deus cheio de lábia. Não conseguiria superar um orador como Nero. E não faria o jogo de culpa do Besta.
Então, decidi seguir o estilo de Meg, que sempre era breve e ia direto ao ponto.
— Ele é mau — concluí. — Você é boa. Meg, você tem que fazer sua própria escolha.
Percebi que não era isso que Meg queria ouvir. Ela comprimiu os lábios. Encolheu os ombros como se estivesse se preparando para tomar uma vacina de sarampo, uma coisa dolorosa, mas necessária. Então, colocou a mão na cabeça encaracolada do karpos.
— Pêssego — disse ela baixinho, mas firme —, pegue a caixa de fósforos.
karpos agiu na mesma hora. Nero mal teve tempo de piscar antes que Pêssego arrancasse a caixa da mão dele e voltasse para o lado de Meg.
Os germânicos prepararam as lanças. Nero ergueu a mão para impedi-los. Lançou um olhar para Meg que talvez fosse de coração partido... se ele tivesse coração.
— Estou vendo que você não estava pronta para essa tarefa, minha querida — disse ele. — É culpa minha. Vince, Gary, detenham Meg, mas não a machuquem. Isso pode esperar até chegarmos em casa. — Ele deu de ombros com expressão de lamento. — Quanto a Apolo e o demoniozinho das frutas, eles vão ter que ser queimados.
— Não — sussurrou Meg. E então, a plenos pulmões, ela gritou: — NÃO!
E o Bosque de Dodona gritou com ela.
A explosão foi tão poderosa que derrubou Nero e os guardas. Pêssego berrou e bateu a cabeça no chão.
Mas dessa vez eu estava preparado. Quando o coral das árvores de romper os tímpanos foi aumentando, ancorei minha mente na melodia mais chiclete que consegui imaginar. Cantarolei “Y.M.C.A.”; eu me apresentava com o Village People com minha fantasia de operário até que o cacique indígena e eu começamos a discutir por causa de... Deixa pra lá. Isso não é importante.
— Meg! — Tirei o sino de vento do bolso e o joguei para ela. — Coloque isso na árvore do meio! Y.M.C.A. Concentre a energia do bosque! Y.M.C.A.
Eu não sabia se ela conseguia me ouvir. Meg levantou o sino e o viu balançar e tocar, transformando o coral das árvores em um discurso coerente: A felicidade se aproxima. A descida do sol; o verso final. Quer saber quais são os pratos do dia?
O rosto de Meg foi tomado pela surpresa. Ela se virou para o bosque e passou correndo pelo portão. Pêssego engatinhou atrás dela, balançando a cabeça.
Eu queria segui-la, mas não podia deixar Nero e os guardas sozinhos com seis reféns. Ainda cantarolando “Y.M.C.A.”, andei na direção deles.
As árvores gritavam mais alto do que nunca, mas Nero conseguiu ficar de joelhos. Ele tirou algo do bolso do casaco, um frasco, e jogou o líquido no chão à sua frente. Eu duvidava que fosse boa coisa, mas tinha preocupações mais imediatas. Vince e Gary estavam se levantando. Vince me atacou com a lança.
Eu estava com muita raiva, ao ponto do descuido. Segurei a ponta da lança e a empurrei, acertando o queixo de Vince. Ele caiu, atordoado, e eu agarrei sua couraça.
Ele tinha facilmente o dobro do meu tamanho. Eu não liguei. Levantei-o no ar. Meus braços vibravam de força. Eu me sentia invencível e poderoso, como um deus devia se sentir. Não fazia ideia de por que meus poderes tinham voltado, mas decidi que não era o momento de questionar minha boa sorte. Girei Vince como um disco e o joguei para o alto com tanta força que ele fez um buraco de formato germânico na copa das árvores e disparou para longe.
Pontos para a Guarda Imperial por ter idiotas corajosos. Apesar da minha exibição de força, Gary me atacou. Com uma das mãos, eu quebrei a lança dele. Com a outra, dei um soco através do escudo e acertei seu peito com força suficiente para derrubar um rinoceronte.
Ele desabou no chão.
Eu encarei Nero. Já conseguia sentir minha força se esvaindo. Meus músculos estavam voltando à flacidez mortal patética. Eu só esperava ter tempo suficiente para arrancar a cabeça de Nero e enfiá-la dentro do terno roxo.
O imperador rosnou.
— Você é um tolo, Apolo. Sempre se concentra na coisa errada. — Ele olhou para o Rolex. — Minha equipe de demolição vai chegar a qualquer minuto. Quando o Acampamento Meio-Sangue for destruído, vou transformá-lo no meu jardim! Enquanto isso, você vai estar aqui... apagando o fogo. Do bolso do colete, ele tirou um isqueiro prateado. Era típico de Nero guardar várias formas de criar fogo ao alcance da mão. Olhei para as faixas brilhantes de óleo que ele derramou no chão...
Fogo grego, claro.
— Não! — exclamei.
Nero sorriu.
— Adeus, Apolo. Só faltam onze olimpianos agora.
E largou o isqueiro.

* * *

Não tive o prazer de arrancar a cabeça de Nero.
Se eu poderia tê-lo impedido de fugir? Talvez. Mas as chamas ardiam entre nós, queimando grama e ossos, raízes de árvore e a própria terra. O fogaréu era forte demais para ser apagado pisoteando, isso se o fogo grego pudesse ser pisoteado, e estava avançando com voracidade na direção dos seis reféns amarrados.
Deixei Nero ir. De algum modo, ele fez Gary se levantar e arrastou o germânico grogue na direção do formigueiro. Enquanto isso, eu corri até as estacas.
A mais próxima era a de Austin. Passei os braços ao redor da base e puxei, ignorando completamente as técnicas adequadas de levantamento de peso. Meus músculos se repuxaram. Meus olhos saltaram com o esforço. Consegui levantar a estaca o bastante para derrubá-la para trás.
Austin se mexeu e gemeu.
Eu o arrastei, com casulo e tudo, para o outro lado da clareira, o mais longe possível do fogo. Eu o teria levado para o Bosque de Dodona, mas tinha a sensação de que não estaria fazendo bem algum a ele se o carregasse para uma clareira sem saída cheia de vozes insanas, no caminho direto das chamas.
Voltei correndo para as estacas. Repeti o processo: soltei Kayla, depois Paulie, o deus do gêiser, depois os outros. Quando levei Miranda Gardiner até um local seguro, o fogo tinha se espalhado em uma onda vermelha furiosa, a centímetros do portão do bosque.
Minha força divina acabara. Meg e Pêssego não estavam por perto. Eu ganhei alguns minutos para os reféns, mas o fogo acabaria consumindo todos nós. Caí de joelhos e chorei.
— Socorro.
Olhei para as árvores sombrias, emaranhadas e agourentas. Eu não esperava ajuda. Não estava nem acostumado a pedir ajuda. Eu era Apolo. Os mortais pediam ajuda a mim! (Sim, algumas vezes mandei semideuses executarem tarefas triviais em meu nome, como iniciar guerras ou buscar itens mágicos em covis de monstros, mas esses pedidos não contavam.)
— Não consigo fazer isso sozinho. — Imaginei o rosto de Dafne flutuando embaixo do tronco de uma árvore e depois de outra. Em pouco tempo, o bosque pegaria fogo. Eu não podia salvar as árvores, assim como não podia salvar Meg, os semideuses perdidos ou a mim mesmo. — Eu lamento tanto. Por favor... me perdoem.
Minha cabeça devia estar girando pela inalação de fumaça. Comecei a ter alucinações. As formas cintilantes das dríades surgiram das árvores, uma legião de Dafnes usando vestidos verdes. As expressões delas eram de melancolia, como se soubessem que iam morrer, mas avançaram na direção do fogo mesmo assim. Elas levantaram os braços, e a terra entrou em erupção aos pés delas. Uma torrente de lama caiu nas chamas. As dríades absorveram o calor do fogo no próprio corpo. A pele delas ficou preta. Os rostos endureceram e racharam.
Assim que as últimas chamas morreram, as dríades viraram cinzas. Eu queria poder me juntar a elas. Queria chorar, mas o fogo evaporou toda a umidade dos meus dutos lacrimais. Eu não pedi tantos sacrifícios. Não esperava por eles! Eu me sentia vazio, culpado e envergonhado.
E então, me ocorreu quantas vezes eu pedi sacrifícios, quantos heróis mandei para a morte. Por acaso eles eram menos nobres e corajosos do que essas dríades? Mas não senti remorso quando os mandei em missões mortais. Eu os usei e descartei, destruí suas vidas para construir minha glória. Eu era tão monstruoso quanto Nero.
Uma brisa soprou pela clareira, um vento quente nada próprio da estação, que levantou as cinzas e as carregou pela copa das árvores até o céu. Só depois que a brisa acalmou eu percebi que devia ter sido o Vento Oeste, meu antigo rival, me oferecendo consolo. Ele soprou os restos e levou as dríades para sua próxima e bela encarnação. Depois de tantos séculos, Zéfiro aceitou meu pedido de desculpas.
Descobri que ainda possuía lágrimas, afinal.
Atrás de mim, alguém gemeu.
— Onde estou?
Austin havia acordado.
Engatinhei até ele, agora chorando de alívio, e beijei seu rosto.
— Meu filho lindo!
Ele olhou para mim, confuso. As trancinhas estavam salpicadas de cinzas como geada em um campo. Acho que ele demorou um tempo para entender por que estava sendo paparicado por um garoto sujo e meio doido cheio de acne.
— Ah, certo... Apolo. — Ele tentou se mexer. — Mas que diabo...? Por que estou enrolado em ataduras fedidas? Que tal você me soltar?
Comecei a rir histericamente, o que duvidava que ajudaria a tranquilizar Austin. Tentei arrancar as amarras, mas sem sucesso. Então, me lembrei da lança quebrada de Gary. Peguei a ponta e passei vários minutos soltando Austin.
Quando estava livre, ele cambaleou um pouco, tentando fazer o sangue voltar a circular nos membros. Ele observou a cena: a floresta fumegante e os outros prisioneiros. O Bosque de Dodona tinha cessado o coral insano de gritos. (Quando isso aconteceu?) Uma luz âmbar radiante agora brilhava no portão.
— O que está acontecendo? — perguntou Austin. — E onde é que está meu saxofone?
Perguntas sensatas exigiam respostas sensatas. Eu só sabia dizer que Meg McCaffrey ainda estava explorando o bosque, e não gostei do fato de as árvores terem ficado em silêncio.
Olhei para meus braços mortais fracos. Perguntei-me por que vivenciei uma onda repentina de força divina quando estava enfrentando os germânicos. Minhas emoções deflagraram isso? Seria o primeiro sinal dos meus poderes voltando de vez? Ou Zeus estava de brincadeira comigo de novo, me dando um gostinho do meu antigo poder antes de arrancá-lo novamente? Lembra como era, garoto? POIS ENTÃO, VOCÊ NÃO VAI TER MAIS!
Eu desejava poder convocar aquela força mais uma vez, mas teria que me virar.
Entreguei a lança quebrada a Austin.
— Liberte os outros. Já volto.
Ele ficou me olhando, incrédulo.
— Você vai entrar ali? É seguro?
— Duvido muito — respondi.
E corri na direção do oráculo.

10 comentários:

  1. O cara acorda em um lugar desconhecido, amarrado em uma estaca e pergunta pelo saxofone, deve ser parente distante de Amos Kane, não é possível. E tem as prioridades tão bem definidas quanto a Hermione: expulsão é pior que a morte (mas no caso de Hogwarts, deve ser pior msm).

    ResponderExcluir
  2. Eu tô é morta depois desse capítulo, Zéfiro perdoou ele gente, olha isso mds

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Meu coração tá um carroceu de emoções nesse momento.

      Excluir
  3. Marina Atlântida.29 de maio de 2016 15:36

    Apolo percebeu que é um monstro!
    Finalmente!
    ASS:Caçadora de Ártemis/Filha de Poseidon

    ResponderExcluir
  4. o que vai ser de Apolo agora que ele percebeu o que ele é... essas prioridades dos filhos de Apolo, não sei porque ainda mim surpreendo!!!

    ResponderExcluir
  5. Uma semideusa jovem19 de julho de 2016 22:51

    Zéfiro e Apollo fizeram as pazes, que cute!

    ResponderExcluir
  6. Nem chorei... Só fiquei um pouco emocionado.

    ResponderExcluir
  7. Nem to chorando. Foi a pedrinha do meu óculos que soltou.

    ResponderExcluir
  8. Óbvio que Apolo é egocêntrico. Ele é um Deus... todo Deus é monstruoso... tenta imaginar o que leva um "Ser" a querer ser adorado. Apolo é um deus até bem massa... pelo menos é Hilário

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!