14 de maio de 2016

Capítulo 30

Um puxão de orelha
Meg, seu padrasto é maluco
Por que ela não escuta?

EU JÁ FUI TRAÍDO ANTES.
As lembranças voltaram com tudo, como uma onda dolorosa. Certa vez, minha antiga namorada Cirene ficou com Ares só para se vingar de mim. Em outra ocasião, Ártemis disparou uma flecha na minha virilha porque eu estava flertando com suas Caçadoras. Em 1928, Alexander Fleming se recusou a reconhecer que fui eu quem o inspirou a descobrir a penicilina. Tipo, ai. Isso doeu.
Mas eu não conseguia me lembrar de ter estado tão errado sobre alguém como aconteceu com Meg. Bem... pelo menos não desde Irving Berlin. “Alexander’s Ragtime Band”?, eu me lembro de ter dito para ele. Você nunca vai fazer sucesso com uma música brega dessas!
— Meg, nós somos amigos. — Minha voz soou insolente até para mim mesmo. — Como você pôde fazer isso comigo?
Meg olhou para os tênis vermelhos, a cor primária dos traidores.
— Eu tentei contar para você, avisar.
— Ela tem um bom coração. — Nero sorriu. — Mas, Apolo, você e Meg são amigos há poucos dias, e só porque eu pedi a Meg para ser sua amiga. Eu sou o padrasto e protetor de Meg há muitos anos. Ela é integrante do Lar Imperial.
Eu olhei para minha amada moleca do lixão. Sim, de alguma forma ela se tornara importante para mim. Não conseguia imaginá-la como uma Imperial sei lá o quê, muito menos como parte do grupo de Nero.
— Eu arrisquei minha vida por você — falei, surpreso. — E isso significa muito, porque eu posso morrer!
Nero bateu palmas educadamente.
— Estamos todos impressionados, Apolo. Agora abra o portão. Ele me desafia há muito tempo.
Tentei lançar um olhar severo para Meg, mas eu não estava no clima. Estava magoado e vulnerável demais. Nós, deuses, não gostamos de nos sentir vulneráveis. Além do mais, Meg não estava nem olhando para mim.
Atordoado, eu me virei para o portão de carvalho. Via agora que os troncos fundidos traziam as marcas dos esforços anteriores de Nero: talhos de serra elétrica, marcas de fogo, cortes de lâminas de machado e até alguns buracos de bala. Tudo isso mal lascou o tronco externo. A área mais danificada era uma marca de dois centímetros de profundidade na forma de mão humana, onde a madeira descascou. Olhei para o rosto inconsciente de Paulie, o deus do gêiser, amarrado junto com os cinco semideuses.
— Nero, o que você fez?
— Ah, várias coisas! Encontramos um caminho para esta antecâmara semanas atrás. O Labirinto tem uma abertura conveniente no ninho dos myrmekos. Mas passar por esses portões...
— Você obrigou o Pálico a ajudar você? — Eu tive que me controlar para não jogar meu sino de vento no imperador. — Você usou um espírito da natureza para destruir a natureza? Meg, como pode tolerar isso?
Pêssego rosnou. Pela primeira vez, tive a sensação de que o espírito dos grãos concordava comigo.
A expressão de Meg estava tão fechada quanto o portão. Ela ficou olhando com atenção para os ossos que cobriam o chão.
— Não exagere — disse Nero. — Meg sabe que há espíritos da natureza bons e maus. O deus do gêiser era irritante. Ele ficava pedindo para respondermos pesquisas. Além do mais, não devia ter se aventurado até tão longe da fonte de poder dele. Foi bem fácil capturá-lo. O vapor dele, como você pode ver, não nos ajudou muito.
— E os cinco semideuses? — perguntei. — Você também os “usou”?
— Claro. Eu não planejava atraí-los até aqui, mas, cada vez que atacávamos o portão, o bosque começava a implorar por ajuda. Os semideuses não conseguiram resistir. O primeiro a chegar foi esse aqui. — Ele apontou para Cecil Markowitz. — Os últimos dois foram seus filhos, Austin e Kayla, não é? Eles apareceram depois que forçamos Paulie a vaporizar as árvores. Acho que o bosque ficou bem nervoso. Ganhamos dois semideuses pelo preço de um!
Eu perdi o controle. Soltei um uivo gutural e ataquei o imperador, pretendendo esganar aquele cara de pescoço cabeludo. Os germânicos teriam me matado antes de eu chegar a esse ponto, mas fui salvo pela indignidade. Tropecei em uma pélvis humana e caí de barriga nos ossos.
— Apolo!
Meg correu na minha direção.
Rolei de costas e chutei na direção dela como uma criança birrenta.
— Não preciso da sua ajuda! Não sabe o que seu protetor fez? Ele é um monstro! Ele é o imperador que...
— Não diga — avisou Nero. — Se você disser “que tocou violino enquanto Roma pegava fogo”, vou mandar Vince e Gary esfolarem você para eu fazer uma armadura de couro nova. Você sabe tão bem quanto eu que nós não tínhamos violinos naquela época. E eu não iniciei o Grande Incêndio de Roma.
Eu me esforcei para me levantar.
— Mas você lucrou com ele.
Ao olhar para Nero, eu me lembrei de todos os detalhes mesquinhos do governo dele, a extravagância e a crueldade que o tornaram tão constrangedor para mim, seu ancestral. Nero era aquele parente que você tinha vergonha de convidar para o festival de Lupercália.
— Meg — falei —, seu padrasto ficou olhando sem fazer nada enquanto setenta por cento de Roma virava cinzas. Dezenas de milhares morreram.
— Eu estava a cinquenta quilômetros de Roma, em Anzio! — rosnou Nero. — Voltei correndo para a cidade e liderei pessoalmente as brigadas de incêndio!
— Só quando o fogo ameaçou seu palácio.
Nero revirou os olhos.
— Não posso fazer nada se só cheguei a tempo de salvar a construção mais importante!
Meg tapou os ouvidos.
— Parem de discutir. Por favor.
Eu não parei. Falar parecia melhor do que minhas outras opções: ajudar Nero ou morrer.
— Depois do Grande Incêndio — falei para ela —, em vez de reconstruir as casas do monte Palatino, Nero aplainou o bairro e construiu um novo palácio, a Domus Aurea.
Nero ficou com uma expressão sonhadora no rosto.
— Ah, sim... a Casa Dourada. Era linda, Meg! Eu tinha meu próprio lago, trezentos quartos, afrescos de ouro, mosaicos feitos com pérolas e diamantes... finalmente pude viver como um ser humano!
— Você teve a coragem de colocar uma estátua de bronze de trinta metros de altura no gramado da frente! — continuei. — Uma estátua sua como Sol-Apolo, o deus-sol. Em outras palavras, você alegou ser eu.
— É verdade — concordou Nero. — Mesmo depois que eu morri, aquela estátua sobreviveu. Soube que ficou conhecida como o Colosso de Nero! Levaram-na para o anfiteatro de gladiadores e todo mundo começou a chamar o local em homenagem à estátua... Coliseu. — Nero estufou o peito. — Sim... a estátua foi a escolha perfeita.
O tom dele pareceu ainda mais sinistro do que o habitual.
— Do que você está falando? — perguntei.
— O quê? Ah, nada. — Ele olhou o relógio... um Rolex roxo e dourado. — A questão é que eu tinha estilo! O povo me amava!
Eu balancei a cabeça.
— As pessoas se voltaram contra você. O povo de Roma tinha certeza de que você foi o responsável pelo Grande Incêndio, então você usou os cristãos como bode expiatório.
Eu sabia que discutir não ia adiantar nada. Se Meg tinha escondido a verdadeira identidade esse tempo todo, eu duvidava de que pudesse fazê-la mudar de ideia agora. Mas talvez eu conseguisse enrolar o bastante até a ajuda chegar. Se chegasse.
Nero fez um gesto de indiferença.
— Mas os cristãos eram terroristas. Podem não ter iniciado o incêndio, mas estavam provocando vários outros problemas. Eu percebi isso antes de todo mundo!
— Ele os jogou aos leões — falei para Meg. — E os queimou em fogueiras, do jeito que vai queimar esses seis.
O rosto de Meg ficou verde. Ela olhou para os prisioneiros inconscientes presos nas estacas.
— Nero, você não faria...
— Eles vão ser libertados — prometeu Nero. — Desde que Apolo coopere comigo.
— Meg, você não pode confiar nele — insisti. — Na última vez que fez isso, pendurou cristãos por todo o quintal e os queimou para iluminar uma festa. Eu estava lá. Eu me lembro dos gritos.
Meg botou a mão na barriga.
— Minha querida, não acredite nas histórias dele! — pediu Nero. — São apenas mentiras criadas pelos meus inimigos.
Meg observou o rosto de Paulie, o deus do gêiser.
— Nero... você não falou nada sobre queimá-los.
— Eles não vão queimar — afirmou, se esforçando para suavizar a voz. — Não vai chegar a isso. Besta não vai ter que agir.
— Está vendo, Meg? — Eu balancei o dedo para o imperador. — Nunca é um bom sinal quando uma pessoa começa a se referir a si mesma na terceira pessoa. Zeus me repreendia sempre por isso!
Vince e Gary deram um passo à frente, com os nós dos dedos ficando brancos ao redor da lança.
— Eu tomaria cuidado se fosse você — avisou Nero. — Meus germânicos são sensíveis a insultos ao imperador. Agora, por mais que eu adore falar sobre mim mesmo, nosso tempo está se esgotando. — Ele olhou de novo para o relógio. — Você vai abrir o portão. Depois, Meg vai tentar usar as árvores para interpretar o futuro. Se conseguir, maravilha! Se não... bem, não vamos queimar a carroça na frente dos bois.
— Meg, ele é louco — falei.
Aos pés dela, Pêssego sibilou de forma protetora.
O queixo da menina tremeu.
— Nero cuidou de mim, Apolo. Me deu uma casa. Me ensinou a lutar.
— Você disse que ele matou seu pai!
— Não! — Ela balançou a cabeça com determinação, com pânico nos olhos. — Não, não foi isso que eu falei. Besta o matou.
— Mas...
Nero riu com deboche.
— Ah, Apolo... você entende tão pouco. O pai de Meg era fraco. Ela nem se lembra dele. Ele não era capaz de protegê-la. Eu a criei. Eu a mantive viva.
Meu coração se apertou ainda mais. Eu não entendia tudo pelo que Meg passara, nem o que estava sentindo agora, mas conhecia Nero. Via com que facilidade poderia distorcer a verdade para uma criança assustada, uma garotinha sozinha, desejando segurança e aceitação depois da morte do pai, mesmo que essa aceitação viesse de um assassino.
— Meg... lamento tanto.
Outra lágrima escorreu pela bochecha da menina.
— Ela não PRECISA da sua solidariedade. — A voz de Nero ficou dura como bronze. — Agora, minha querida, faça a gentileza de abrir o portão. Se Apolo protestar, lembre a ele que tem que seguir suas ordens.
Meg engoliu em seco.
— Apolo, não dificulte as coisas. Por favor... me ajude a abrir o portão.
Balancei a cabeça.
— Eu me recuso.
— Então eu... eu ordeno. Me ajude. Agora.

17 comentários:

  1. Não entendi... Nero e o Besta não são a mesma pessoa? Buguei O_o

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    1. São sim... Besta seria o lado mau, com que ele amaça Meg... como se ele fosse uma outra pessoa, por isso ela trata assim

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  2. Ai mds que filha de hera

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  3. Sempre preferi Ártemis, mas Apolo tbm é lgl, ele precisa sair dessa, afinal eu preciso de mais livros.

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  4. Gente como vcs conseguem ficar com raiva dela ? Ela tem 12 anos, esse cara cuidou dela ela não tem culpa

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  5. Marina Atlântida.29 de maio de 2016 15:14

    Parece que o Nero tem Déficit de personalidade.
    Isso. É. Estranho.
    ASS:Caçadora de Ártemis/Filha de Poseidon

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  6. Eu to bastante assustada com essa dupla personalidade de Nero

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    1. odeio ele em ambas as personalidades

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    2. 🌸só quero declarar que eu oficialmente odeio a meg sorry not sorry🌸

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  7. Cara esse Nero é capas de psiquiatra... mania de grandeza, dupla personalidade... sem contar que as duas são do mal... peninha da Mag.

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    1. Eu nem diria que é dupla personalidade, viu. Pra mim é fingimento mesmo

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  8. Não sei porque, mas estou afim de queimar Nero vivo em uma fogueira pela eternidade...

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    1. Conversa sobre isso com Hades, provavelmente ele vai ser julgado para os campos de punição mesmo,então tal vez Hades aceite seu concelho.

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  9. Caçadora de Sombras20 de setembro de 2016 00:27

    Coitada da Meg!! Que grandessíssimo filho de um Valentim esse Nero!! Ficar confundindo uma garotinha desse jeito e ameaçando a vida de tantas outras pessoas. Depois quando nós queremos atear fogo nele e deixar ele morrendo lenta e dolorosamente ele não sabe porquê... mentira o filho da puta sabe e ainda se gaba, ai isso me dá uma raiva!!!! Aí meu Raziel, só continuar lendo mesmo pra passar essa angústia, ou não...

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  10. filha de Poseidon e afrodite5 de outubro de 2016 07:42

    essa meg pode ir apanhar no meio do meu cu fdp , traindo o apolo espero que ela morra criança inutil

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  11. Caled, filho de Himeneu22 de outubro de 2016 21:40

    Traidora! Morte à maldita traidora!!!
    Meu pai, Himeneu, deus do matrimônio, não tolera traição..
    Maldita traidora.. que morra!!
    .
    Caled, filho de Himeneu
    .

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