14 de maio de 2016

Capítulo 26

Os imperadores?
É melhor eu me mandar
Que baixo astral, cara

O FERIMENTO NA MINHA cabeça devia ter gosto de carne Wagyu.
O leão ficava lambendo a lateral do meu rosto, deixando meu cabelo ainda mais grudento e molhado. Por mais estranho que pareça, tive a impressão de que aquilo clareou meus pensamentos.
Talvez saliva de leão tivesse propriedades curativas. Acho que eu devia saber disso, já que sou o deus da cura, mas você vai ter que me desculpar se não fiz o método da tentativa e erro com a baba de todos os animais do mundo.
Com certa dificuldade, eu me sentei e olhei para a rainha titã.
Reia estava encostada na lateral de um jipe pintada com estampas de torvelinhos de plantas, como as do vestido dela. Eu sabia que a samambaia preta era um dos símbolos de Reia, acho, mas não conseguia lembrar por quê. Dentre os deuses, Reia sempre foi uma das mais misteriosas. Nem Zeus, que a conhecia melhor, falava dela com frequência.
A coroa envolvia a testa como um trilho de trem cintilante. Quando ela olhou para baixo, para mim, os óculos de lentes coloridas mudaram de laranja para roxo. Estava com um cinto de macramé e trazia o símbolo da paz de metal pendurado em uma corrente no pescoço.
Ela sorriu.
— Que bom que você está acordado. Eu estava preocupada, cara.
Eu queria mesmo que as pessoas parassem de me chamar de cara.
— Por que você... Onde você esteve por todos esses séculos?
— No norte do estado. — Ela coçou as orelhas do leão. — Depois de Woodstock, fiquei por aí, abri um estúdio de artesanato.
— Você... o quê?
Ela inclinou a cabeça.
— Foi semana passada ou milênio passado? Perdi a noção do tempo.
— Eu... eu acho que você está descrevendo os anos 1960. Isso foi no século passado.
— Ah, droga. — Reia suspirou. — Eu me confundo depois de tantos anos.
— Compreendo.
— Depois que deixei Cronos... bem, aquele homem era quadradão, tá me entendendo? O típico homem dos anos 1950. Queria que nós fôssemos uma família de comercial de margarina, sei lá.
— Ele... ele engoliu os filhos vivos.
— É. — Reia tirou o cabelo do rosto. — Isso foi brabo. E eu o abandonei. Na época, não era legal se divorciar. Ninguém fazia isso. Mas eu queimei meu apodesmos e me liberei. Criei Zeus em uma comunidade com um grupo de náiades e curetes. Com muito gérmen de trigo e néctar. O garoto cresceu com uma energia aquariana forte.
Eu tinha quase certeza de que Reia estava confundindo os séculos, mas achei que seria indelicado ficar repetindo isso.
— Você me lembra Íris — falei. — Ela virou vegana orgânica várias décadas atrás.
Reia fez uma careta, só um leve sinal de desaprovação antes de recuperar o equilíbrio cármico.
— Íris é uma boa alma. Eu gosto dela. Mas, sabe, essas deusas jovens, elas não estavam aqui para lutar na revolução. Não sabem como é ver seu parceiro comer seus filhos e não conseguir arrumar um emprego, ainda tendo que aguentar os titãs chauvinistas que só querem que você fique em casa cozinhando e limpando e tendo mais bebês olimpianos. E por falar em Íris...
Reia tocou a testa.
— Espere, nós estávamos falando sobre a Íris? Ou eu tive um flashback?
— Realmente não sei.
— Ah, lembrei agora. Ela é uma mensageira dos deuses, certo? Junto com Hermes e aquela riponga liberal... Joana d’Arc?
— Humm, não tenho certeza quanto a essa última.
— Bom, de qualquer modo, as linhas de comunicação caíram, cara. Nada funciona. Mensagens de arco-íris, pergaminhos voadores, o Expresso Hermes... tudo está caótico.
— Nós sabemos disso. Mas não sabemos por quê.
— São eles. Eles estão fazendo isso.
— Quem?
Ela olhou para os dois lados.
— O Homem, cara. O Grande Irmão. Os ternos. Os imperadores.
Eu vinha esperando que ela dissesse outra coisa: gigantes, titãs, máquinas milenares de matar, alienígenas. Eu preferia me meter no Tártaro ou com Urano ou com o Caos Primordial em si. Esperava que o gêiser Pete tivesse entendido errado o que o irmão falou sobre o imperador no ninho das formigas.
Agora que tinha uma confirmação, eu queria roubar o jipe de Reia e ir dirigindo até alguma comunidade bem longe, ao norte do estado.
— Triunvirato S.A. — falei.
— É. Esse é o novo complexo militar-industrial deles. Está me chateando pra caramba.
O leão parou de lamber meu rosto, provavelmente porque meu sangue tinha ficado amargo.
— Como é possível? Como eles voltaram?
— Eles nunca foram embora — explicou Reia. — Fizeram com eles mesmos, entende? Queriam se transformar em deuses. Isso nunca dá muito certo. Desde antigamente, eles têm se escondido, influenciando a história por trás dos panos. Estão entalados em uma espécie de vida intermediária. Não podem morrer, mas também não podem viver de verdade.
— Mas como a gente podia não saber sobre isso? — perguntei. — Nós somos deuses!
A gargalhada de Reia me lembrou um porquinho com asma.
— Apolo, meu neto querido, bela criança... Ser um deus alguma vez impediu alguém de ser burro?
Ela tinha razão. Não sobre mim pessoalmente, claro, mas as histórias que eu sabia sobre os outros olimpianos...
— Os imperadores de Roma. — Tentei aceitar a ideia. — Eles não podem ser todos imortais.
— Não — disse Reia. — Só os piores deles, os mais notórios. Eles vivem na memória humana, cara. É o que os mantém vivos. Assim como nós, na verdade. Estão ligados ao rumo da civilização ocidental, apesar de esse conceito todo ser propaganda imperialista eurocentrista, cara. Como meu guru diria...
— Reia... — toquei minhas têmporas latejantes —, podemos cuidar de um problema de cada vez?
— Tá, tudo bem. Eu não queria fundir sua cuca.
— Mas como eles podem afetar nossas linhas de comunicação? Como podem ser tão poderosos?
— Eles tiveram séculos, Apolo. Séculos. Todo esse tempo planejando e incitando guerras, construindo o império capitalista, esperando este momento, quando você fosse mortal, quando os oráculos estivessem vulneráveis para uma investida hostil. É coisa do mal. Eles não são nem um pouco bacanas.
— Achei que esse termo fosse mais moderno.
— Mal?
— Não. Bacanas. Deixa pra lá. O Besta... ele é o líder?
— Pior que sim. Ele tem a mente tão ruim quanto os outros, mas é o mais inteligente e mais estável, de um jeito sociopata e homicida. Você sabe quem ele é... quem ele era, certo?
Infelizmente, sabia. Lembrei onde vi aquela cara feia e o sorrisinho debochado. Eu conseguia ouvir a voz anasalada ecoando pela arena, ordenando a execução de centenas enquanto a multidão comemorava. Eu queria perguntar a Reia quem eram os dois compatriotas no Triunvirato, mas concluí que não conseguiria suportar a informação no momento. Nenhuma das opções era boa, e saber os nomes deles poderia me deixar mais desesperado do que eu era capaz de aguentar.
— É verdade, então — falei. — Os outros oráculos ainda existem. Os imperadores controlam todos?
— Estão trabalhando nisso. Píton tem Delfos, esse é o maior problema. Mas você não vai ter forças para enfrentá-la de frente. Você tem que soltar os dedos deles dos oráculos menores primeiro, diminuir o poder deles. Para fazer isso, precisa de uma nova fonte de profecias para este acampamento, um oráculo mais velho e independente.
— Dodona — falei. — Sua floresta sussurrante.
— Isso mesmo — concordou Reia. — Achei que a floresta tivesse desaparecido para sempre. Mas aí, não sei como, os carvalhos cresceram novamente no coração da mata. Você tem que encontrar a floresta e protegê-la.
— Estou trabalhando nisso. — Toquei no machucado grudento no rosto. — Mas minha amiga Meg...
— É. Você teve alguns percalços. Mas sempre há percalços, Apolo. Quando Lizzy Stanton e eu organizamos a primeira convenção de direitos das mulheres em Woodstock...
— Não foi em Seneca Falls?
Reia franziu a testa.
— Isso não foi nos anos 1960? — perguntou ela, meio perdida.
— Nos 40. Nos anos 1940 do século XX, se não me falha a memória.
— Então... Jimi Hendrix não estava lá?
— Duvido.
Reia mexeu no símbolo da paz.
— Então quem botou fogo naquela guitarra? Ah, deixa pra lá. A questão é que você tem que perseverar. Às vezes, uma mudança leva séculos.
— Só que sou mortal agora. Não tenho mais séculos.
— Mas tem força de vontade — retrucou Reia. — Tem motivação e urgência mortais. São coisas que os deuses costumam não ter.
Ao lado dela, o leão rugiu.
— Tenho que pular fora — disse Reia. — Se os imperadores me encontrarem... vai ser feio, cara. Estou fora do mapa há tempo demais. Não vou ser sugada para essa opressão institucional patriarcal de novo. Encontre Dodona. Essa é sua primeira provação.
— E se o Besta encontrar a floresta primeiro?
— Ah, ele já encontrou o portão, mas nunca vai passar por ele sem você e a garota.
— Eu... não entendo.
— Tranquilo. Só respire. Encontre seu centro. A iluminação tem que vir de dentro.
Parecia algo que eu teria dito aos meus adoradores. Fiquei tentado a estrangular Reia com o cinto de macramé, mas duvidava de que tivesse forças. Além do mais, ela tinha dois leões.
— Mas o que eu faço? Como salvo Meg?
— Primeiro, se cure. Descanse. Depois... bem, como você vai fazer para salvar Meg é problema seu. A jornada é mais importante do que o destino, sabe?
Ela estendeu a mão. Pendurado em seus dedos estava um sino de vento: um conjunto de tubos e medalhões de metal entalhados com símbolos antigos gregos e cretenses.
— Pendure isto no maior carvalho. Vai ajudar você a direcionar as vozes do oráculo. Se conseguir uma profecia, bacana. Vai ser só o começo, mas, sem Dodona, nada mais vai ser possível. Os imperadores vão sufocar nosso futuro e dividir o mundo. Só quando você tiver derrotado Píton é que vai poder recuperar seu lugar de direito no Olimpo. Meu filho, Zeus... ele acredita nesse método de educar na marra, saca? Recuperar Delfos é a única forma de cair nas graças dele.
— Eu... estava com medo de você dizer isso.
— Tem mais uma coisa — alertou ela. — Besta está planejando algum tipo de ataque ao seu acampamento. Não sei o que é, mas vai ser grande. Tipo, pior do que napalm. Você tem que avisar seus amigos.
O leão mais próximo me cutucou. Me apoiei em seu pescoço e deixei que me levantasse. Consegui permanecer de pé, mas só porque minhas pernas estavam paralisadas de pavor. Pela primeira vez, entendi as provações que me esperavam. Eu conhecia os inimigos que tinha que enfrentar. Precisaria de mais do que sinos de vento e iluminação. Precisaria de um milagre. E, já tendo sido um ex-deus, posso dizer que esses nunca são distribuídos com generosidade.
— Boa sorte, Apolo. — A rainha titã colocou o sino de vento nas minhas mãos. — Tenho que dar uma olhada na minha fornalha antes que meus vasos quebrem. Siga em frente e salve as árvores!
A floresta se dissolveu. Eu me vi de pé no gramado central do Acampamento Meio-Sangue, cara a cara com Chiara Benvenuti, que deu um pulo para trás, assustada.
— Apolo!
Dei um sorriso.
— Oi, garota. — Meus olhos reviraram e, pela segunda vez naquela semana, desmaiei na frente dela de forma encantadora.

27 comentários:

  1. Apolo ta me lembrando o Jason agora... desmaiando toda hora ehaeheh

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    1. è de familia sabe... hehehe

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    2. Quem não desmaia vira árvore

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    3. Kkkkkkkkkkkkkkkkkk #morta

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  2. Será q ngm chegou a esse ponto ou só estão com preguiça de escrever, prevejo q só saberei no último capítulo...

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  3. Desmaiou?

    Apolo está querendo roubar o cargo do Jason .-.

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  4. Hahaha Reia doidona!

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    1. joao pedro dessendente de poseidon1 de junho de 2016 14:45

      Jason vai ser demitido desse jeito

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    2. E os campeões de desmaios na categoria mortal são:
      1- Jason
      2- Hearth
      3- Apolo
      ( Pode haver mudanças)

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  5. Gostei da Reia. Será que Apolo vai conseguir destronar o Jason? Ou seráo Heat...alguma coisa, o elfo amigo do Magnus?

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  6. Marina Atlântida.29 de maio de 2016 14:26

    Só imagino Apolo sofrendo por causa da promessa do rio Estige e do Gêiser, mas, com o poder dos clichês e protagonismo, ele ganha. É óbvio. Ou pode ser o 1° erro. Quem sabe?🙌🙌🙌
    ~Caçadora de Ártemis/Filha de Poseidon.

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  7. Apolo + Jason + Heart = um show de desmaios!
    gostei de Reia ela manda ver nas gírias! :3

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  8. Gente,esse imperador maluco que tocava harpa e cantava enquanto via o mundo pegar fogo...Só pode ser uma pessoa!
    E agora quase todas as deusas tão virando alternativona e paz e amor Íris e agora Reia. Kkkkkk

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  9. apolo vai ficar com o cargo de jason se não morrer

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  10. Imaginei Reia falando devagar e arrastado, bem estilo aqueles ripongas mesmo... hahaha

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  11. Acho que um desses 3 imperadores é o Caligula

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  12. Consigo imaginar a Janis Joplin no corpo de Reia

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  13. Eu ainda tenho a impressão que um desses imperadores é Nero... Gente deixem os prebrezinhos desmaiarem eles estão sobre forte pressão... hahahaha

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  14. Uma semideusa jovem19 de julho de 2016 18:41

    Nossa meu! Adorei essa Mãe Reia num estilo rip anos 40 só paz e amor ✌&😌✌ Na moral gostei dela! ( P.s: será que foi algum deus que criou a maconha? )

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  15. Acho que Nero deve ser um dos Imperadores, no caso acho que a Reyna ainda vai aparecer, o que faz sentido no meu comentário do cap 14.
    ( Eu comentei o que Afrodite falou para a Reyna à algum tempo atrás "Você não vai encontrar amor onde deseja ou espera. Nenhum semideus vai curar seu coração." que no caso eu pensei que Apolo poderia curar o coração da Reyna. )

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    1. Eu pensei a mesma coisa! Coração de shipper tá batendo forte aqui!
      -Sinead

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  16. Caçadora de Sombras19 de setembro de 2016 22:38

    Sabe um furacão que abala tudo e deixa as coisas bagunçadas e destruidas? Eu to tipo isso...

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  17. descobrindo que Reia é hippie, alternativa e feminista.
    Apaixonada

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