14 de maio de 2016

Capítulo 25

Estou a toda agora
Queimando, até vomitando
Leões? Por que não?

CAMBALEANDO PELO PÂNTANO, GRITEI o nome de Meg. Sabia que não adiantaria muita coisa, mas gritar era bom. Procurei sinais de galhos quebrados e chão pisoteado. Duas formigas daquele tamanho não perambulariam pela floresta sem deixar rastros. Mas eu não era Ártemis, não tinha a habilidade de rastreio dela, e por isso não fazia ideia da direção na qual as formigas levaram minha amiga.
Peguei as espadas de Meg na lama. Na mesma hora, elas viraram anéis de ouro, tão pequenos, tão fáceis de perder, como uma vida mortal. Talvez eu tenha chorado um pouco. Tentei quebrar meu ukulele de combate ridículo, mas o instrumento de bronze celestial resistiu às minhas tentativas.
Finalmente, arranquei a corda, enfiei os anéis de Meg nela e pendurei no pescoço.
— Meg, eu vou encontrar você — murmurei.
Eu era o culpado pela captura dela, tinha certeza. Ao tocar música e me salvar, quebrei meu juramento pelo Rio Estige. Em vez de me punir diretamente, Zeus ou as Parcas ou todos os deuses juntos transferiram sua fúria para Meg McCaffrey.
Como pude ser tão burro? Sempre que eu enfurecia os outros deuses, os mais próximos a mim eram atingidos. Perdi Dafne por causa de um comentário descuidado para Eros. Perdi o belo Jacinto por causa de uma briga com Zéfiro. Agora, meu juramento quebrado custaria a vida de Meg.
Não, eu disse a mim mesmo. Não vou deixar isso acontecer.
Estava tão enjoado que mal conseguia andar. Parecia que alguém havia inflado um balão dentro do meu cérebro. Com esforço, cheguei à beirada do gêiser de Pete.
— Pete! — gritei. — Apareça, seu telemarketeiro covarde!
Água subiu na direção do céu com um estrondo, como se o tubo mais grave de um órgão tivesse explodido. No vapor rodopiante, o Pálico apareceu, com o rosto cinza-lama endurecido de raiva.
— Você me chamou de TELEMARKETEIRO? — perguntou ele. — Nós gerenciamos uma empresa de Relações Públicas!
Eu me inclinei e vomitei na cratera, reação que considerei apropriada.
— Pare com isso! — reclamou Pete.
— Preciso encontrar Meg. — Eu limpei a boca com a mão trêmula. — O que os myrmekos vão fazer com ela?
— Não sei! — respondeu ele.
— Me diga, ou não vou completar sua pesquisa de satisfação do cliente.
Pete ofegou.
— Isso é terrível! Sua opinião é importante para nós! — Ele flutuou até mim. — Ah, querido... sua cabeça não está nada bem. Tem um corte enorme no couro cabeludo, e está sangrando. Deve ser por isso que você não está raciocinando direito.
— Eu não ligo! — gritei, o que só fez minha cabeça latejar ainda mais. — Onde fica o ninho dos myrmekos?
Pete retorceu as mãos vaporosas.
— Ah, era disso que estávamos falando antes. Paulie foi para lá. O ninho é a única entrada.
— De onde?
— Do Bosque de Dodona.
Meu estômago se transformou em um bloco de gelo, o que era injusto, porque eu precisava de um pouco para a cabeça.
— O ninho das formigas... é o caminho para o bosque?
— Olha, você precisa de cuidados médicos. Eu falei para Paulie que devíamos ter uma estação de primeiros socorros para visitantes. — Ele remexeu nos bolsos inexistentes. — Me deixe só marcar a localização do chalé de Apolo...
— Se você pegar um livreto — avisei —, vou fazer você engoli-lo inteiro. Agora explique como o ninho leva ao bosque.
O rosto de Pete ficou amarelo, ou talvez meu estado estivesse piorando.
— Paulie não me contou tudo. Uma área do bosque ficou tão densa que ninguém consegue entrar. Mesmo de cima, os galhos são...
Ele entrelaçou os dedos lamacentos, que se derreteram uns nos outros, o que foi bem explicativo.
— De qualquer modo — ele afastou as mãos —, o bosque fica lá. Talvez estivesse adormecido há séculos. Ninguém no comitê sabia da existência dele. E então, de repente, as árvores começaram a sussurrar. Paulie concluiu que as malditas formigas deviam ter entrado no bosque por baixo e que isso acabou despertando-o.
Tentei entender essa parte. Acho que com o cérebro inchado ficava mais difícil.
— Para que lado fica o ninho?
— Ao norte — disse Pete. — A uns oitocentos metros. Mas, cara, você não está em condições...
— Eu tenho que ir! Meg precisa de mim!
Pete segurou meus braços. O aperto dele era uma espécie de torniquete quente e molhado.
— Ela tem chance. Se eles levaram a menina inteira, significa que ainda não está morta.
— Mas vai estar em pouco tempo!
— Que nada. Antes de Paulie... antes de desaparecer, ele foi àquele ninho algumas vezes procurar o túnel até o bosque. Ele me disse que esses myrmekos gostam de melecar as vítimas e deixar que, hã, amadureçam e fiquem macias o bastante para os filhotes comerem.
Dei um gritinho nada divino. Se ainda houvesse alguma coisa no meu estômago, eu teria botado para fora.
— Quanto tempo ela tem?
— Vinte e quatro horas, mais ou menos. E então, vai começar a... hã, amolecer.
Era difícil imaginar Meg McCaffrey amolecendo em qualquer circunstância, mas eu a vi sozinha e com medo, envolta em gosma de inseto, enfiada em uma dispensa de carcaças no ninho das formigas. Para uma garota que odiava insetos... Ah, Deméter estava certa ao me odiar e manter as filhas longe de mim. Eu era um deus terrível!
— Vá buscar ajuda — pediu Pete. — O chalé de Apolo pode curar o ferimento na sua cabeça. Você não vai ajudar sua amiga em nada se for atrás dela e acabar morrendo.
— E que preocupação toda é essa com a gente?
O deus do gêiser pareceu ofendido.
— A satisfação dos visitantes é sempre nossa prioridade! Além do mais, se você encontrar Paulie quando estiver lá dentro...
Tentei ficar com raiva do Pálico, mas a solidão e a aflição no rosto dele espelhavam meus sentimentos.
— Paulie explicou como chegar ao ninho das formigas?
Pete balançou a cabeça.
— Como eu falei, ele não queria que eu o procurasse. Os myrmekos são bem perigosos. E se aqueles outros caras ainda estiverem andando por aí...
— Outros caras?
— Eu não mencionei isso? Então. Paulie viu três humanos armados da cabeça aos pés. Eles também queriam saber onde ficava o bosque.
Minha perna esquerda começou a bater de nervosismo, como se sentisse falta da companheira da corrida de três pernas.
— Como Paulie soube o que eles estavam procurando?
— Ele os ouviu falando em latim.
— Em latim? Eles eram campistas?
Pete abriu as mãos.
— Eu... eu acho que não. Pela descrição de Paulie, eram adultos. Disse que um deles era o líder. Os outros dois o chamavam de imperador.
O planeta inteiro pareceu sair do eixo.
— Imperador.
— É, você sabe, como em Roma...
— Sim, eu sei.
De repente, coisas demais fizeram sentido. Pedaços do quebra-cabeça se juntaram e formaram uma imagem enorme que me acertou direto na cara. O Besta... a Triunvirato S.A... semideuses adultos desaparecidos.
Eu estava a um passo de cair no gêiser, mas me obriguei a me recompor. Meg precisava de mim mais do que nunca. Mas eu teria que fazer isso direito. Teria que ser cuidadoso, mais cuidadoso do que quando aplicava vacina nos cavalos selvagens da carruagem do Sol.
— Pete — falei —, você ainda supervisiona juramentos sagrados?
— Ah, sim, mas...
— Então ouça meu juramento sagrado!
— Hã... o problema é que você tem uma aura ao redor de você, como se já tivesse quebrado um juramento sagrado, talvez um que você tenha feito pelo Rio Estige? E, se você quebrar outro juramento comigo...
— Eu juro que vou salvar Meg McCaffrey. Vou usar todos os meios ao meu dispor para trazê-la de volta sã e salva da toca das formigas, e esse juramento anula qualquer juramento anterior que eu tenha feito. Juro pelas suas águas sagradas e extremamente quentes!
Pete fez uma careta.
— Bom, tudo bem. Está feito agora. Mas tenha em mente que, se você não cumprir esse juramento, se Meg morrer, mesmo que não seja culpa sua... você vai encarar as consequências.
— Já estou amaldiçoado por ter quebrado meu juramento anterior! Que importância tem?
— É, mas sabe, os juramentos pelo Rio Estige podem levar anos para destruir você. São como um câncer. Já os meus juramentos... — Pete deu de ombros. — Se você quebrá-los, não tem nada que eu possa fazer para impedir sua punição. Onde quer que você esteja, um gêiser vai surgir aos seus pés na mesma hora e ferver você vivo.
— Ah... — Tentei impedir meus joelhos de baterem um no outro. — Sim, é claro que eu sabia disso. Eu mantenho meu juramento.
— Você não tem escolha agora.
— Certo. Acho que vou... vou cuidar dos meus ferimentos.
Vacilante, parti.
— O acampamento fica na outra direção — indicou Pete.
Fui para o lado oposto.
— Lembre-se de preencher nossa pesquisa on-line! — gritou Pete atrás de mim. — Só por curiosidade: em uma escala de um a dez, como você avaliaria sua satisfação geral com a Floresta do Acampamento Meio-Sangue?
Eu não respondi. Estava muito ocupado vagando pela escuridão da floresta e avaliando, em uma escala de um a dez, o sofrimento que talvez precisasse encarar num futuro próximo.

* * *

Eu não tinha forças para voltar ao acampamento. Quanto mais eu andava, mais claro isso ficava.
Minhas juntas estavam ficando moles. Eu me sentia uma marionete, e por mais que gostasse de controlar mortais lá de cima no passado, estar do outro lado das cordas não me agradava nem um pouco.
Minhas defesas estavam no nível zero. O menor cão infernal ou dragão poderia ter transformado o grande Apolo em comida. Se um texugo irritado tivesse atacado, eu estaria ferrado.
Eu me encostei em uma árvore para recuperar o fôlego, e ela pareceu me empurrar para longe, sussurrando em uma voz da qual eu me lembrava muito bem: Continue andando, Apolo. Você não pode descansar aqui.
— Eu amei você — murmurei.
Parte de mim sabia que eu estava delirando, imaginando coisas, resultado da concussão que arranjei na cabeça, mas juro que vi o rosto da minha amada Dafne surgindo em cada tronco de árvore pelo qual eu passava, com as feições brotando na casca como uma miragem de madeira, o nariz ligeiramente torto, os olhos verdes afastados, os lábios que nunca beijei, mas com os quais nunca parei de sonhar.
Você amou todas as garotas bonitas, repreendeu-me ela. E todos os garotos bonitos também.
— Não como você! — gritei. — Você foi meu primeiro amor verdadeiro. Ó, Dafne!
Use minha coroa, disse ela. E se arrependa.
Fui tomado por algumas lembranças: eu correndo atrás dela, o aroma de flor na brisa, o corpo leve correndo pela luz irregular da floresta. Eu a segui pelo que pareceram anos. Talvez tenham sido.
Durante séculos, culpei Eros.
Em um momento de descuido, eu havia ridicularizado a habilidade de Eros com o arco. Por vingança, ele me atingiu com uma flecha de ouro, direcionando todo o meu amor para a bela Dafne.
Mas isso não foi o pior: ele também acertou o coração de Dafne com uma flecha de chumbo, afastando toda e qualquer possibilidade de afeto que ela poderia nutrir por mim.
As pessoas precisam entender uma coisa: as flechas de Eros não fazem uma emoção surgir do nada. Elas só fazem florescer um potencial que já esteja lá. Dafne e eu poderíamos ter sido um par perfeito. Ela foi meu verdadeiro amor. Poderia ter me amado. Mas, graças a Eros, meu amorômetro estava batendo no cem por cento, enquanto o de Dafne só tinha lugar para o ódio (que, claro, é o lado oposto do amor). Nada é mais trágico do que amar uma pessoa até as profundezas da sua alma sabendo que ela não pode e não vai amar você, nunca.
As histórias dizem que só fui atrás dela por capricho, que ela era só mais uma garota bonitinha da minha lista de conquistas. Bom, as histórias estão erradas. Quando Dafne implorou para que Gaia a transformasse em um loureiro para fugir de mim, parte do meu coração, tal qual a casca de uma árvore, também endureceu. Eu inventei a coroa de louros para comemorar meu fracasso, para me punir pelo destino do meu maior amor. Cada vez que algum herói ganha louros, me lembro da garota que nunca vou poder conquistar.
Depois de Dafne, jurei que nunca me casaria. Às vezes, eu alegava que era porque não conseguia decidir entre as Nove Musas. Era uma história conveniente. As Nove Musas eram minhas companheiras constantes, todas lindas à sua maneira. Mas elas nunca fizeram meu coração bater mais forte, como Dafne havia feito. Só outra pessoa me afetou de forma tão profunda, o perfeito Jacinto, e ele também foi tirado de mim.
Todos esses pensamentos perambulavam por meu cérebro ferido. Eu cambaleei de árvore em árvore, me apoiando nelas e fazendo os galhos mais baixos de corrimão.
Você não pode morrer aqui, sussurrou Dafne. Tem um trabalho a fazer. Você fez um juramento.
Sim, meu juramento. Meg precisava de mim. Eu tinha que...
Caí de cara na lama gelada.
Não tenho certeza de quanto tempo fiquei lá.
Um focinho quente expirou no meu ouvido. Uma língua áspera lambeu minha cara. Achei que estivesse morto e que Cérbero tivesse me encontrado nos portões do Mundo Inferior.
De repente, o animal me empurrou, e eu fiquei deitado de costas. Galhos escuros cortavam o céu.
Eu ainda estava na floresta. A cara dourada de um leão apareceu acima de mim, com os olhos cor de âmbar belos e mortais. Ele lambeu meu rosto, talvez averiguando se eu daria um bom jantar.
— Ptf !
Cuspi um pouco da juba que tinha entrado na minha boca.
— Acorde — disse uma voz de mulher, em algum lugar à minha direita.
Não era Dafne, mas era vagamente familiar.
Consegui levantar a cabeça. Ali perto, um segundo leão estava sentado aos pés de uma mulher com óculos escuros e uma tiara prateada e dourada no cabelo trançado. O vestido de batik com estampas de folha de samambaia. Os braços e as mãos cobertos por tatuagens de hena. Ela estava diferente do meu sonho, mas eu a reconheci.
— Reia. — Gemi.
Ela inclinou a cabeça.
— Paz, Apolo. Não quero chatear você, mas nós precisamos conversar.

18 comentários:

  1. Vo comecar a fazer uma lista de tooodoos os deuses, Titãs, Gigantes e afins.. pra saber qual eo proximo q vai aparecer..

    ResponderExcluir
  2. florzinha indelicada18 de maio de 2016 17:31

    aiai uiui

    ResponderExcluir
  3. pelos deuses! Tio Rick sempre supera as minhas expectativas!

    ResponderExcluir
  4. Mas tinha que fazer outro juramento?

    ResponderExcluir
  5. Cansei desses juramentos. "Um juramento a manter com um alento final" me traumatizou.

    ResponderExcluir
  6. Ainda nao entendi qual é o estilo de Reia

    ResponderExcluir
  7. apolo e burro como pode fazer um juramento sabendo que ja quebrou um

    ResponderExcluir
  8. Apolo faz juramento e não mantém mas esse ele vai manter ( eu acho) mas a menos q Meg vire deusa ela vai morrer e ele vai cozinhar

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ele prometeu salvar ela, não deixala viva para sempre

      Excluir
  9. Santo poseidon!!!! :-O

    ResponderExcluir
  10. o negocio ficou tenso... ui

    ResponderExcluir
  11. Cuspi um pouco da juba que tinha entrado na minha boca.
    — Acorde — disse uma voz

    Jurei que era Aslam, até ler o resto
    “de mulher, em algum lugar à minha direita”. Ushausas

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu achei q tinha sido a única... Kkkk

      Excluir
  12. Pálico é doce e carismático demais para ser um deus.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!