14 de maio de 2016

Capítulo 24

Quebrando a promessa
Falhando espetacularmente
Eu culpo Neil Diamond

OS MYRMEKOS DEVEM ESTAR no topo da sua lista de monstros com os quais não se deve lutar.
Eles atacam em grupos. Cospem ácido. Suas presas são capazes de perfurar bronze celestial.
Além de tudo, são feios.
As três formigas-soldados avançaram, as antenas de três metros balançando e tremendo de uma forma hipnotizadora, tentando me distrair do verdadeiro perigo que eram as presas. As cabeças finas lembravam galinhas: galinhas com olhos escuros impassíveis e rostos pretos com armaduras. As patas dariam um ótimo guincho de obra. Os abdomes enormes latejavam e pulsavam como narizes farejando comida.
Amaldiçoei silenciosamente Zeus por inventar formigas. Pelo que eu sabia, ele se aborreceu com algum homem ganancioso que sempre roubava a colheita dos vizinhos, então o transformou na primeira formiga, uma espécie que não faz nada além de procurar comida, roubar e procriar. Ares gostava de brincar dizendo que se Zeus queria tanto uma espécie assim podia ter deixado os humanos como estavam mesmo. Eu achava graça. Agora que sou um de vocês, não acho mais.
As formigas vieram em nossa direção com as antenas vibrando. Imaginei que o fluxo de pensamento delas fosse algo assim: Brilhantes? Gostosos? Indefesos?
— Nada de movimentos repentinos — falei para Meg, que não parecia nem um pouco inclinada a se mexer. Na verdade, parecia petrificada.
— Ah, Pete? — chamei. — O que você faz quando myrmekos invadem seu território?
— Eu me escondo — disse ele, e desapareceu no gêiser.
— Isso não ajuda em nada — resmunguei.
— A gente pode mergulhar lá? — perguntou Meg.
— Só se você quiser morrer queimada em um poço de água escaldante.
Os insetos do tamanho de tanques bateram as presas e chegaram mais perto.
— Tive uma ideia. — Peguei o ukulele.
— Achei que você tivesse jurado que ia parar de tocar.
— Jurei. Mas, se eu jogar este objeto brilhante para o lado, as formigas podem...
Eu estava prestes a dizer as formigas podem ir atrás e nos deixar em paz.
Só não pensei que, segurando o ukulele, eu ficava mais brilhante e saboroso. Antes que eu jogasse o instrumento, as formigas-soldados partiram para cima de nós. Cambaleei para trás e só me lembrei do gêiser atrás de mim quando minhas costas começaram a ficar com bolhas, enchendo o ar de vapor com aroma de Apolo.
— Oi, insetos!
As espadas de Meg brilharam nas mãos dela, tornando-a a nova coisa mais brilhante da clareira.
Podemos parar um momento para apreciar o fato de que Meg fez isso de propósito? Ela morria de medo de insetos; poderia simplesmente ter fugido e me deixado para ser devorado. Mas preferiu arriscar a vida distraindo as três formigas enormes. Jogar lixo em um delinquente de rua era uma coisa. Mas isso... isso era um nível de burrice completamente novo para mim. Se eu sobrevivesse, talvez tivesse que indicar Meg McCaffrey a Melhor Sacrifício na próxima premiação dos Semideuses do Ano.
Duas formigas partiram para cima de Meg. A terceira ficou perto de mim, apesar de ter virado a cabeça o bastante para me permitir passar correndo para o outro lado.
Meg correu entre os oponentes, as espadas douradas cortando uma perna de cada inseto. As mandíbulas assassinas morderam o ar. As formigas oscilaram nas cinco patas que restavam, tentaram se virar e suas cabeças colidiram.
Enquanto isso, a terceira formiga me atacou. Em pânico, joguei meu ukulele de combate, que quicou na testa da formiga com um barulho dissonante.
Puxei a espada da bainha. Sempre odiei espadas. São armas tão deselegantes e exigem combate corporal. Isso não é nada sábio quando se pode disparar uma flecha em seus inimigos do outro lado do mundo!
A formiga cuspiu ácido, e tentei desviar a gosma.
Talvez não tenha sido uma ideia muito inteligente. Era comum que eu confundisse luta de espadas e jogo de tênis. Ao menos parte do ácido acertou os olhos da formiga, o que me fez ganhar alguns segundos. Recuei valorosamente, erguendo a espada para descobrir que a lâmina tinha sido corroída, me deixando só com o cabo fumegante.
— Hã... Meg? — gritei, indefeso.
Ela, por outro lado, estava bem ocupada. As espadas giravam em arcos dourados de destruição, cortando segmentos de pernas, partindo antenas. Nunca vi um dimaquero lutar com tanta habilidade, e olha que já tinha assistido aos melhores gladiadores em combate. Infelizmente, o máximo que suas lâminas conseguiam ao encontrar as carapaças grossas das formigas era soltar faíscas. Golpes rápidos e desmembramento não as dispersaram. Por melhor que Meg fosse, as formigas tinham mais pernas, mais peso, mais ferocidade e um pouco mais de capacidade de cuspir fogo.
Meu oponente tentou me morder. Consegui evitar as mandíbulas, mas o rosto com a grossa carapaça bateu na lateral da minha cabeça. Cambaleei e caí. Um canal auditivo pareceu se encher de ferro derretido.
Minha visão ficou enevoada. Do outro lado da clareira, as outras formigas cercaram Meg, usando o ácido para conduzi-la na direção da floresta. Ela mergulhou atrás de uma árvore e saiu com apenas uma das espadas. Tentou acertar a formiga mais próxima, mas foi obrigada a recuar por causa do fogo cruzado de ácido. Sua legging estava soltando fumaça, toda esburacada. O rosto estava contorcido de dor.
— Pêssego — murmurei, baixinho. — Onde está aquele demônio de fraldas idiota quando precisamos dele?
karpos não apareceu. Talvez a presença do deus do gêiser ou de alguma outra força na floresta o tenha mantido longe. Talvez fossem as regras do comitê de diretores, que não permitia bichinhos de estimação.
A terceira formiga surgiu em cima de mim, as mandíbulas espumando saliva verde. O bafo era pior do que as camisas de trabalho de Hefesto.
Poderia atribuir a decisão que tomei em seguida ao ferimento na minha cabeça. Poderia dizer que não estava pensando direito, mas não era verdade. Eu estava desesperado. Apavorado. Queria ajudar Meg. E, principalmente, queria me salvar. Não tive escolha, peguei o ukulele.
Eu sei. Prometi pelo Rio Estige não tocar nenhum instrumento enquanto não voltasse a ser um deus. Mas até um juramento tão grave pode parecer bobagem quando uma formiga gigante está prestes a derreter sua cara.
Eu me deitei de costas e comecei a cantar bem alto “Sweet Caroline”.
Mesmo sem juramento, eu só teria feito uma coisa assim em caso de emergência extrema.
Quando canto essa música, as chances de destruição mútua são grandes demais. Mas não vi opção. Dediquei meus esforços a ela, canalizando todo o sentimentalismo barato dos anos 1970 que consegui incorporar.
A formiga gigantesca balançou a cabeça. As antenas tremeram. Eu me levantei enquanto o monstro ia andando feito um bêbado na minha direção. Virei as costas para o gêiser e comecei o refrão.
pá pá pá foi o golpe fatal. Cega de repulsa e fúria, a formiga atacou. Rolei para o lado quando o impulso do monstro o jogou diretamente no caldeirão lamacento.
Acredite, a única coisa que cheira pior do que uma camisa de trabalho de Hefesto é um myrmeko cozinhando na própria carapaça.
Em algum lugar atrás de mim, Meg gritou. Eu me virei a tempo de ver a segunda espada voar da mão dela, enquanto um dos myrmekos a capturava em suas mandíbulas.
— NÃO! — gritei.
A formiga não a partiu ao meio. Só ficou segurando, inerte e inconsciente.
— Meg! — berrei. Toquei as cordas do ukulele com desespero. — Sweet Caroline!
Mas estava sem voz. Derrotar uma formiga esgotou toda a minha energia. (Acho que nunca escrevi uma frase tão triste quanto essa.) Tentei correr para ajudar Meg, mas tropecei e caí. O mundo se tornou amarelo-claro. Fiquei de quatro e vomitei.
Estou com uma concussão, pensei, mas não fazia ideia de como cuidar disso. Parecia que havia séculos que eu não era mais o deus da cura.
Posso ter ficado deitado na lama por minutos ou horas, enquanto meu cérebro se revirava lentamente dentro do crânio. Quando consegui me levantar, as duas formigas tinham sumido.
Não havia sinal de Meg McCaffrey.

7 comentários:

  1. É impressão minha ou... o comentário do Ares foi inteligente?
    Tô chocada.

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  2. sim muito inteligente fiquei completamente chocada

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  3. Eita! Agora ta dando treta. A última pessoa capturada por esses monstrinhos não teve muita sorte no futuro...droga, tem um olho na minha lágrima. Não consigo lembrar da morte de um personagem sem lembrar de vários.

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  4. Ares sendo inteligente e sarcástivo :0
    To chocada

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  5. MDS GENTE COMO ASSIM
    ELE SE PREOCUPANDO COM A MEG É TÃO LEGAL, QUASE LATERNO

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  6. O pá pá pá foi o golpe fatal.

    Vou morrer aqui e já volto

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  7. não fiquei tão chocada com o comentário de Ares quanto com a preocupação de Apolo com a senhora dele... só fui eu???

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