14 de maio de 2016

Capítulo 23

Desculpe o incômodo
O que achou de sua morte?
Muito obrigado

SE FUI PRECIPITADO AO correr na direção de deuses da natureza tão voláteis?
Ah, me poupe. Nunca fui de duvidar de mim mesmo. Não é um traço da minha personalidade, e nunca precisei dele.
É verdade, minhas lembranças dos Pálicos estavam meio enevoadas. Eu sabia, por exemplo, que os deuses dos gêiseres na antiga Sicília davam refúgio a escravos fugitivos, então deviam ser espíritos bondosos. Talvez eles fizessem o mesmo com semideuses perdidos, ou ao menos reparariam quando cinco deles passassem por aquele território, murmurando coisas incoerentes. Além do mais, eu era Apolo! Os Pálicos ficariam honrados de conhecer um olimpiano importante como eu! O fato de que gêiseres cuspiam jatos de água escaldante dezenas de metros acima não ia me impedir de conquistar novos fãs... quer dizer, fazer novos amigos.
A clareira se abriu à nossa frente como a porta de um forno. Um muro de calor subiu pelas árvores e bateu em meu rosto. Senti meus poros se abrindo para absorver a umidade, o que com sorte daria uma melhorada na minha pele horrenda.
Aquela cena não condizia com o inverno de Long Island. Trepadeiras reluzentes envolviam os galhos das árvores. Flores tropicais nasciam no chão da floresta. Uma arara vermelha estava pousada em uma bananeira carregada de cachos verdes.
No meio da clareira havia dois gêiseres, buracos idênticos no chão, envoltos em poças de lama cinza em formato de oito. As crateras borbulhavam e sibilavam, mas não estavam em atividade no momento. Decidi encarar isso como um bom presságio.
As botas de Meg chapinharam na lama.
— É seguro?
— Definitivamente, não — afirmei. — Vamos precisar de uma oferenda. Que tal seu pacote de sementes?
Meg deu um soco no meu braço.
— As sementes são mágicas. Para emergências de vida e morte. E seu ukulele? Você não vai tocar mesmo.
— Um homem de honra nunca entrega seu ukulele. — Eu me animei. — Mas espere. Você me deu uma ideia. Vou oferecer aos deuses dos gêiseres um poema! Ainda consigo fazer isso. E não conta como música.
Meg franziu a testa.
— Hã, não sei se...
— Não fique com inveja, Meg. Vou fazer um poema para você depois. É claro que isso vai agradar os deuses dos gêiseres!
Dei um passo à frente, abri os braços e comecei a improvisar:
— Ah, gêiser, meu gêiser,
Vamos cuspir então, você e eu,
Nesta noite lúgubre, enquanto ponderamos
De quem é essa floresta?
Pois não sucumbimos a esta boa noite,
Mas vagamos sozinhos como nuvens.
Procuramos saber por quem os sinos dobram,
Então espero, fontes eternas,
Que tenha chegado a hora de falar de muitas coisas!
Não quero me gabar nem nada, mas achei que ficou muito bom, ainda que eu tenha reciclado algumas partes de trabalhos anteriores. Diferentemente da música e da arqueria, minhas habilidades divinas com a poesia pareciam completamente intactas.
Olhei para Meg esperando ver admiração em seu rosto. Já estava na hora de a garota começar a me dar o valor que eu merecia. Mas ela estava boquiaberta, chocada.
— O que foi? — perguntei. — Você nunca estudou poesia na escola, não? Isso foi coisa de profissional!
Meg apontou para os gêiseres. Eu percebi que ela não estava nem aí para mim.
— Bem — disse uma voz rouca —, você conseguiu minha atenção.
Um dos Pálicos pairava acima do gêiser. A parte de baixo do corpo era feita de vapor. Da cintura para cima, ele tinha mais ou menos o dobro do tamanho de um humano, com braços musculosos cor de lama, olhos brancos como giz e cabelo que lembrava espuma de cappuccino, como se ele tivesse passado muito xampu e depois esfregado a cabeça com força. O peito enorme estava enfiado em uma camisa polo azul-bebê com um logotipo de árvores bordado no bolso do peito.
— Ah, grande Pálico! — falei. — Nós rogamos a você...
— O que foi aquilo? — interrompeu o espírito. — Aquilo que você estava falando?
— Poesia! — respondi. — Para você!
Ele esfregou o queixo cinza-lama.
— Não, aquilo não foi poesia.
Mas não era possível. Ninguém apreciava mais a beleza da linguagem?
— Meu bom espírito — falei. — Poesia não tem que rimar, entende?
— Não estou falando de rima. Estou falando de passar a mensagem. Nós sempre fazemos pesquisas de mercado, e sua poesia não seria aprovada para nossas campanhas. Agora, a música do comercial do Big Mac, aquilo é poesia. A propaganda tem não sei quantos anos e as pessoas ainda cantam a música. Você acha que consegue nos dar uma poesia como aquela?
Olhei para Meg para ter certeza de que não estava imaginando essa conversa.
— Escute aqui — falei para o deus dos gêiseres —, eu sou o senhor da poesia há quatro mil anos. Sei reconhecer boa poesia...
O Pálico balançou a mão.
— Vamos começar de novo. Vou explicar tudo e talvez você possa me dar alguns conselhos. Oi, eu me chamo Pete. Bem-vindos à Floresta do Acampamento Meio-Sangue! Você estaria disposto a fazer uma breve pesquisa de satisfação do cliente depois desse encontro? Sua opinião é importante para nós.
— Hã...
— Ótimo. Obrigado.
Pete remexeu em seu corpo de fumaça, como se estivesse procurando algo nos bolsos. Tirou de lá um livreto com páginas brilhantes e começou a ler.
— A floresta é sua parada obrigatória no caminho para a... Humm, aqui diz diversão. Pensei que tivéssemos mudado para exultação. Sabe, a gente tem que escolher as palavras com cuidado. Se Paulie estivesse aqui... — Pete soltou um suspiro. — Bom, ele se sai melhor na apresentação. De qualquer modo, bem-vindos à Floresta do Acampamento Meio-Sangue!
— Você já disse isso — observei.
— Ah, é.
Pete fez surgir uma caneta vermelha e começou a editar o texto.
— Ei. — Meg passou por mim com um esbarrão. Ela ficou sem palavras, espantada por uns dez segundos, o que deve ter sido um novo recorde. — Sr. Lama Vaporosa, você viu algum semideus perdido?
— Sr. Lama Vaporosa! — Pete deu um tapa no livreto. — Isso sim é um nome que chama a atenção! E excelente questão essa dos semideuses. Não podemos deixar nossos convidados vagando por aí sem direção. Devíamos entregar mapas na entrada da floresta. Tantas coisas maravilhosas para se ver por aqui e ninguém faz a menor ideia. Vou falar com Paulie quando ele voltar.
Meg tirou os óculos embaçados.
— Quem é Paulie?
Pete indicou o segundo gêiser.
— Meu parceiro. Talvez a gente possa acrescentar um mapa a este livreto se...
— Então vocês viram algum semideus perdido? — perguntei.
— O quê? — Pete tentou escrever no livreto, mas o vapor o deixou tão encharcado que a caneta vermelha passou direto pelo papel. — Ah, não. Não recentemente. Mas nossa sinalização deveria ser melhor. Por exemplo, vocês sabiam que esses gêiseres estavam aqui?
— Não — admiti.
— Pois então! Gêiseres duplos, os únicos de Long Island, e o pessoal nem sabe que estamos aqui. Não temos propaganda. Não temos boca a boca. Foi por isso que convencemos o comitê a nos contratar!
Meg e eu nos entreolhamos. Pela primeira vez estávamos em sintonia: confusão total.
— Me desculpe — falei. — Você está me dizendo que a floresta tem um comitê?
— É claro que tem — disse Pete. — As dríades, os outros espíritos da natureza, os monstros conscientes... Alguém tem que pensar nos valores da propriedade, nos serviços e nas relações públicas. E também não foi fácil fazer o comitê nos contratar para o marketing. Se fizermos besteira aqui... ah, cara.
Meg enfiou os sapatos na lama.
— Podemos ir? Não estou entendendo nada do que esse cara está falando.
— E isso é um problema! — Pete gemeu. — Como bolar uma estratégia de divulgação que passe a imagem certa da floresta? Por exemplo, Pálicos como Paulie e eu éramos famosos! Grandes destinos turísticos! As pessoas vinham até nós para fazer juramentos. Escravos foragidos nos procuravam em busca de abrigo. Nós recebíamos sacrifícios, oferendas, orações... era ótimo. Agora, nada.
Eu dei um suspiro.
— Sei como é.
— Pessoal — disse Meg —, estamos procurando semideuses desaparecidos.
— Certo — concordei. — Ó, Grande... Pete, você tem alguma ideia de aonde nossos amigos perdidos podem ter ido? Por acaso conhece locais secretos na floresta?
Os olhos branco-giz de Pete brilharam.
— Você sabia que os filhos de Hefesto têm uma oficina escondida ao norte chamada Bunker 9?
— Aham, sabia, sim — falei.
— Ah. — Uma nuvem de vapor escapou da narina esquerda de Pete. — E o Labirinto? Sabia que ele se reconstruiu? Tem uma entrada bem aqui na floresta...
— Nós sabemos — disse Meg.
Pete pareceu desanimado.
— Talvez sua campanha de marketing esteja mesmo funcionando, Pete — argumentei.
— Você acha? — O cabelo de espuma do gêiser começou a girar. — É verdade! Faz sentido! Você por acaso viu nossos refletores? Foram ideia minha.
— Refletores? — perguntou Meg.
Raios de luz vermelha idênticos saíram dos gêiseres e varreram o céu. Iluminado por baixo, Pete parecia o contador de histórias de terror mais assustador do mundo.
— Infelizmente, eles atraíram o tipo errado de atenção. — Pete suspirou. — Paulie não me deixa usar muito. Ele sugeriu anunciarmos em um dirigível, ou talvez em um King Kong inflável gigantesco...
— Legal — interrompeu Meg. — Mas você sabe alguma coisa sobre um bosque secreto com árvores que sussurram?
Eu tinha que admitir: Meg era boa em nos trazer de volta ao assunto. Minha parte poeta não me fez cultivar o hábito de ser direto, mas a parte arqueira sabia apreciar o valor de um disparo preciso.
— Ah. — Pete se abaixou um pouco, e, por causa do refletor, parecia que ele tinha mergulhado num copo de groselha. — Eu não posso falar sobre o bosque.
Minhas orelhas antes divinas formigaram. Resisti à vontade de gritar AHÁ!
— Por que você não pode falar sobre o bosque, Pete?
O espírito mexeu no livreto molhado.
— Paulie disse que assustaria os turistas. “Fale sobre os dragões”, ele me aconselhou. “Fale sobre lobos, serpentes e máquinas de matar antigas. Mas não mencione o bosque.”
— Máquinas de matar? — perguntou Meg.
— É — respondeu Pete, com desânimo. — Estamos anunciando como diversão familiar. Mas o bosque... Paulie disse que era nosso maior problema. A região não tem nem permissão para funcionar como oráculo. Paulie foi lá para ver se conseguia realocá-lo, mas...
— Não voltou — adivinhei.
Pete assentiu, desolado.
— Como vou cuidar da campanha de marketing sozinho? Posso usar ligações automáticas para as pesquisas de opinião por telefone, claro, mas boa parte do trabalho tem que ser feita cara a cara, e Paulie sempre foi melhor com essas coisas. — A voz de Pete virou um sussurro triste. — Estou com saudade dele.
— Talvez a gente consiga encontrá-lo — sugeriu Meg — e trazê-lo de volta.
Pete balançou a cabeça.
— Paulie me fez prometer que eu não iria atrás dele e não contaria a ninguém onde fica o bosque. Ele é bom em resistir àquelas vozes esquisitas, mas vocês não teriam a menor chance.
Fiquei tentado a concordar. Encontrar máquinas de matar antigas parecia bem mais razoável.
Mas então imaginei Kayla e Austin andando pelo bosque, enlouquecendo aos poucos. Eles precisavam de mim, e por isso eu tinha que saber onde eles estavam.
— Desculpe, Pete. — Lancei a ele meu olhar mais crítico, o mesmo que usava para arrasar aspirantes a cantores durante audições da Broadway. — Essa sua história está bem estranha.
Lama borbulhou ao redor da caldeira de Pete.
— Co-como assim?
— Acho que esse bosque não existe — respondi. — E, se existir, acho que você não sabe a localização.
O gêiser de Pete rugiu, o vapor subindo pelo raio do refletor.
— Eu... eu sei, sim! É claro que existe!
— Ah, é? Então por que não tem outdoors sobre ele espalhados por aí? E um site exclusivo? Por que nunca vi uma hashtag #BosquedeDodona nas mídias sociais?
Pete fez cara feia.
— Eu sugeri tudo isso! Paulie rejeitou tudo!
— Então aumente o alcance da marca! — pedi. — Venda seu produto! Nos mostre onde fica esse bosque!
— Não posso. A única entrada... — Ele olhou para um ponto atrás de mim, e seu rosto ficou sem expressão. — Ah, droga.
O refletor se apagou.
Eu me virei. Meg sufocou um gritinho.
Minha visão demorou um momento para se ajustar, mas, no fim da clareira, havia três formigas pretas do tamanho de tanques de guerra.
— Pete — falei, tentando ficar calmo —, quando você disse que seus refletores atraíam o tipo errado de atenção...
— Eu estava falando dos myrmekos — completou ele. — Espero que isso não influencie seu comentário na página da Floresta do Acampamento Meio-Sangue.

17 comentários:

  1. E impressao minha ou os olimpianos usam mt o marketi pra conseguir passar nas missoes.. Tipo fazer questao de mostrar q o lugar nao e famoso e tals.. Primeiro anabeht em a casa de Hades e agora Apolo.. estranho..

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    1. E também a Cimopoléia(tbm conhecida como Leia)

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    2. Acho q é mais pelo fato de que os deuses tem uma certa necessidade de atenção, de serem reconhecidos e lembrados

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  2. "minhas habilidades divinas com a poesia pareciam completamente intactas"
    Ou seja, continuavam a não existir

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    1. Pior q criança

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    2. Kkkkkk, assim já é avacalhação com Apollo

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    3. Kkkkkkkkkkkkkkkk

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  3. joao pedro dessendente de poseidon1 de junho de 2016 14:15

    tem muito puco comentario aqui

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  4. joao pedro dessendente de poseidon1 de junho de 2016 14:15

    tem muito puco comentario aqui

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  5. Vou pesquisar #BosquedeDodona no twitter pra ver o q eu acho kkk

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  6. https://pt.wikipedia.org/wiki/Dodona

    Margente não é que existe um sítio arqueológico?! hauha

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  7. Só eu que lembro que essas formigas gigantes apareceram em um daqueles livros "Guia de sobrevivência do semideus" (ou algo assim) onde tem histórias paralelas?

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    1. Sim, os myrmekos já apareceram antes... nos Arquivos do Semideus. Percy e Beckendorf enfrentando-os <3

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  8. só fui eu que comecei a cantar a musica do big Mac quando o cara fala dela ou eu sou a unica idiota aki???!!!

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    1. Caçadora de Sombras19 de setembro de 2016 21:24

      Pior q n, eu tbm kkkkkk

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