14 de maio de 2016

Capítulo 22

Armado até os olhos:
Ukulele de combate
Lenço do Brasil

OS DEUSES DO SOL não são bons em dormir durante o dia, mas acabei conseguindo tirar um cochilo agitado.
Quando acordei, no fim da tarde, o acampamento estava movimentado.
O desaparecimento de Kayla e Austin tinha sido a gota d’água. Os outros campistas estavam tão abalados que ninguém conseguia manter uma rotina normal. Acho que um semideus desaparecendo de cada vez em intervalos de algumas semanas era uma taxa razoável. Mas o sumiço de dois semideuses no meio de uma atividade organizada pelo acampamento... só podia significar que ninguém estava seguro.
Algum boato sobre nossa conferência na caverna deve ter se espalhado. As irmãs Victor tinham enfiado chumaços de algodão nos ouvidos para evitar ouvir qualquer coisa do oráculo. Julia e Alice foram para o alto da parede de lava vigiar a floresta com seus binóculos, sem dúvida torcendo para ver o Bosque de Dodona, mas eu duvidava de que conseguissem sequer enxergar as árvores.
Aonde quer que eu fosse, as pessoas fechavam a cara quando me viam. Damien e Chiara estavam sentados juntos no píer das canoas, olhando emburrados na minha direção. Sherman Yang me dispensou com um aceno quando tentei falar com ele. Estava ocupado decorando o chalé de Ares com granadas e montantes coloridos. Se fosse Saturnália, ele teria ganhado o prêmio de decoração de festa mais violenta.
Até Atena Partenos me encarava com expressão acusadora do alto da colina, como se dissesse É tudo culpa sua.
Ela estava certa. Se eu não tivesse deixado Píton dominar Delfos, se tivesse prestado mais atenção aos outros oráculos antigos, se não tivesse perdido minha divindade...
Pare, Apolo, repreendi a mim mesmo. Você é lindo e todo mundo ama você.
Mas estava ficando cada vez mais difícil acreditar nisso. Meu pai, Zeus, não me amava. Os semideuses no Acampamento Meio-Sangue não me amavam. Píton, Besta e seus colegas da Triunvirato S.A. não me amavam. E isso era quase o suficiente para que eu questionasse meu valor.
Não, não. Que papo maluco.
Não encontrei Quíron e Rachel em lugar algum. Nyssa Barrera me contou que estavam tentando, sem muitas expectativas, usar a única conexão de internet, no escritório de Quíron, para conseguir mais informações sobre a Triunvirato S.A. Harley estava com eles dando apoio técnico. Enfrentavam uma eterna espera no serviço de atendimento ao cliente da operadora e talvez levassem horas para voltar, isso se sobrevivessem ao suplício.
Encontrei Meg no arsenal, procurando suprimentos de batalha. Ela havia prendido uma couraça por cima do vestido verde e grevas sobre a legging laranja. Parecia uma criança obrigada pelos pais a usar roupas de combate.
— Um escudo, talvez? — sugeri.
— Nã-nã. — Ela me mostrou os anéis. — Eu sempre uso duas espadas. Além do mais, preciso ter a mão livre para dar um tapa em você quando fizer alguma burrice.
Tive a sensação desagradável de que ela estava falando sério.
Na estante de armas, Meg pegou um arco longo e ofereceu para mim.
Eu me encolhi.
— Não.
— É sua melhor arma. Você é Apolo.
Engoli o amargor de bile mortal.
— Fiz um juramento. Não sou mais o deus da arqueria nem da música. Não vou usar um arco nem um instrumento musical enquanto não conseguir usá-los bem.
— Juramento burro. — Ela não me deu um tapa, mas pareceu ter sentido vontade. — O que você vai fazer? Ficar parado torcendo enquanto eu luto?
Esse era realmente meu plano, mas na hora pareceu idiota admitir. Olhei para as armas expostas e peguei uma espada. Mesmo sem desembainhar, percebi que era pesada demais e difícil de usar, mas a prendi na cintura.
— Pronto. Satisfeita?
Meg não pareceu satisfeita. Mesmo assim, colocou o arco no lugar.
— Tudo bem. Mas é melhor você me dar cobertura.
Nunca tinha entendido essa expressão. Ela me fazia pensar nos cartazes de ME CHUTE que Ártemis grudava na minha toga nos dias de festival. Mesmo assim, assenti.
— Sua cobertura será dada.
Chegamos ao limite da floresta e encontramos uma pequena festa de bota-fora nos esperando: Will e Nico, Paulo Montes, Malcolm Pace e Billie Ng, todos muito sérios.
— Tome cuidado — disse Will. — E leve isto.
Antes que eu pudesse protestar, ele colocou um ukulele na minha mão.
Tentei devolver.
— Não posso. Fiz um juramento...
— É, eu sei. Foi burrice sua. Mas é um ukulele de combate. Você pode lutar com ele, se precisar.
Olhei melhor para o instrumento. Era feito de bronze celestial, folhas finas de metal cobertas de ácido para parecer o granulado de carvalho claro. O instrumento não pesava quase nada, mas imaginei que fosse praticamente indestrutível.
— Trabalho de Hefesto? — perguntei.
Will balançou a cabeça, discordando.
— Trabalho de Harley. Ele queria que você ficasse com o ukelele. É só pendurar nas costas. Por mim e por Harley. Vai fazer a gente se sentir melhor.
Achei que deveria honrar o pedido, embora fosse raro alguém se sentir melhor por eu estar carregando um ukulele. Não me pergunte o motivo. Eu tocava uma versão arrepiante de “Satisfaction”.
Nico me entregou ambrosia enrolada em um guardanapo.
— Não posso comer isso — lembrei a ele.
— Não é para você.
Ele olhou para Meg, a expressão receosa.
Lembrei que o filho de Hades tinha as próprias formas de sentir o futuro (futuros que envolviam a possibilidade de morte). Por mais irritante que Meg fosse, às vezes, fiquei profundamente abalado pela ideia de que ela pudesse se ferir. Decidi que não permitiria que isso acontecesse.
Malcolm estava mostrando um mapa em um pergaminho para Meg, apontando vários lugares na floresta que devíamos evitar. Paulo, parecendo totalmente recuperado da cirurgia na perna, estava ao lado dele, fornecendo com cuidado e sinceridade comentários em português que ninguém conseguia entender.
Quando terminaram de analisar o mapa, Billie Ng se aproximou de Meg.
Billie era pequena e magrinha. Ela compensava a estatura diminuta com o estilo de um ídolo KPop. O casaco era da cor de papel-alumínio. O cabelo chanel era verde-água, e a maquiagem, dourada. Eu aprovava totalmente. Na verdade, achava que eu mesmo arrasaria com aquele look se conseguisse dar um jeito na acne.
Billie deu a Meg uma lanterna e um pacote pequeno de sementes de flores.
— Só por garantia — disse ela.
Meg, parecendo emocionada, deu um abraço forte nela.
Não entendi o motivo das sementes, mas foi reconfortante saber que, em uma emergência, eu poderia bater nas pessoas com meu ukulele enquanto Meg plantava gerânios.
Malcolm Pace me entregou o mapa de pergaminho.
— Quando estiver em dúvida, vá para a direita. Isso costuma funcionar na floresta, não sei por quê.
Paulo me ofereceu um lenço estampado com a bandeira do Brasil. Disse alguma coisa que, obviamente, não consegui entender.
Nico deu um sorrisinho.
— É o lenço da sorte de Paulo. Acho que ele quer que você use, pois acredita que vai torná-lo invencível.
Achei duvidoso, já que Paulo tinha tendência a sofrer ferimentos graves, mas, sendo um deus, aprendi a nunca recusar oferendas.
— Obrigado.
Paulo segurou meus ombros e beijou minhas bochechas. Talvez eu tenha ficado vermelho. Ele era bem bonito quando não estava com algum membro amputado jorrando sangue.
Apoiei a mão no ombro de Will.
— Não se preocupe. Vamos voltar até o amanhecer.
A boca de Will tremeu de leve.
— Como pode ter certeza?
— Sou o deus do Sol — falei, tentando demonstrar mais confiança do que sentia. — Sempre volto no amanhecer.

* * *

É claro que choveu. Por que não choveria?
No Monte Olimpo, Zeus devia estar dando boas risadas da minha cara. O Acampamento Meio-Sangue em teoria estava protegido de fenômenos naturais extremos, mas sem dúvida meu pai tinha mandado Éolo liberar tudo que segurava os ventos. Minhas ex-namoradas ninfas do ar deviam estar apreciando o momento de vingança.
A chuva era quase uma geada: líquida o bastante para encharcar minhas roupas, sólida o bastante para atingir meu rosto como estilhaços de vidro.
Cambaleamos adiante e corremos de árvore em árvore, procurando qualquer proteção que aparecesse. Trechos de neve velha estalavam debaixo dos meus pés. Meu ukulele foi ficando pesado conforme o buraco se enchia de chuva. O raio da lanterna de Meg cortava a tempestade como um cone de estática amarela.
Fui na frente, não por ter algum destino em mente, mas porque estava com raiva. Estava cansado de sentir frio e ficar molhado. Cansado de implicarem comigo. Mortais reclamam muito que o mundo está contra eles, mas isso é ridículo. Mortais não são tão importantes. No meu caso, o mundo todo estava mesmo contra mim. Eu me recusava a me render a esse abuso. Faria alguma coisa! Só não sabia o quê.
De tempos em tempos, ouvíamos monstros ao longe, o rugido de um drakon, o uivo harmonizado de um lobo de duas cabeças, mas nada apareceu. Em uma noite como aquela, qualquer monstro com dignidade teria ficado no aconchego da própria toca.
Depois do que pareceram horas, Meg sufocou um grito. Eu heroicamente pulei para o lado dela com a mão na espada. (Eu a teria puxado, mas era muito pesada e ficou presa na bainha.) Aos pés de Meg, coberta de lama, havia uma casca preta brilhante do tamanho de uma rocha. Estava rachada no meio e com as beiradas sujas de uma gosma nojenta.
— Quase pisei nisso.
Meg cobriu a boca como se fosse vomitar.
Cheguei mais perto. A casca era a carapaça esmagada de um inseto gigante. Ali perto, camuflada entre as raízes de árvore, estava uma das pernas desmembradas do animal.
— É um myrmeko — falei. — Ou era.
Por trás dos óculos molhados de chuva, os olhos de Meg estavam impossíveis de decifrar.
— Um quê?
— Uma formiga gigante. Deve haver uma colônia aqui na floresta.
Meg engasgou.
— Odeio insetos.
Isso fazia sentido vindo da filha de uma deusa da agricultura, mas na minha opinião a formiga morta não era mais nojenta do que as pilhas de lixo onde sempre acabávamos.
— Ah, não se preocupe — falei. — Ela está morta. O que a matou deve ter maxilares poderosos para esmagar a carapaça.
— Não está ajudando. Essas... essas coisas são perigosas?
Dei uma risada.
— Ah, são. Elas variam de tamanho, as menores são tipo cachorros pequenos, e a maiores se parecem com ursos-pardos. Uma vez, vi uma colônia de myrmekos atacar um exército grego na Índia. Foi hilário. Elas cospem ácido que pode derreter a armadura de bronze e...
— Apolo.
Meu sorriso sumiu. Lembrei a mim mesmo que não era mais espectador. Essas formigas podiam nos matar. Facilmente. E Meg estava com medo.
— Certo — falei. — Bem, a chuva deve fazer com que os myrmekos fiquem nos túneis. Não se mostre um alvo fácil. Elas gostam de coisas brilhantes e cintilantes.
— Como lanternas?
— Hã...
Meg me entregou a lanterna.
— Vá na frente, Apolo.
Achei aquilo injusto, mas seguimos nosso caminho.
Depois de mais uma ou duas horas (com certeza a floresta não podia ser tão grande), a chuva parou e deixou o chão fumegando.
O ar ficou mais quente. A umidade era tanta que parecia que estávamos em casas de banho. Vapor denso e branco envolvia os galhos das árvores.
— O que está acontecendo? — Meg secou o rosto. — Parece uma floresta tropical agora.
Eu não sabia dizer. À frente, ouvi um estrondoso som de água, como se estivesse sendo empurrada por canos... ou fissuras.
Não consegui evitar um sorriso.
— Um gêiser.
— Um gêiser — repetiu Meg. — Como o Old Faithful?
— Isso é uma ótima notícia. Talvez a gente consiga obter direções. Nossos semideuses perdidos talvez até tenham conseguido abrigo lá!
— Com os gêiseres — disse Meg.
— Não, minha garota ridícula. Com os deuses dos gêiseres. Supondo que estejam de bom humor, isso pode ser ótimo.
— E se eles estiverem de mau humor?
— Então vamos alegrá-los antes que nos fervam. Me siga!

30 comentários:

  1. Alguem Mais percebeu o pronome possessivo na frase '' MINHA garota ridicula " ??..

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    1. Rata de Biblioteca12 de junho de 2016 18:53

      Tive q voltar pra perceber to super "como assim?" mas espero q a amizade deles cresça mt talvez até mais (aquela carinha)

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  2. florzinha indelicada18 de maio de 2016 17:04

    Apolo sempre com seus pensamentos egoistas

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  3. To adorando o Paulo. Espero que esse personagem cresça

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    1. Eu apoio \o/ a representação brasileira é tudo!!

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  4. To amando esse personagem brasileiro, Paulo amorzinho <3

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  5. Paulo representando os BR

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  6. O personagem brasileiro que não interage no livro e tem os membros arrancados, Cronos derrubando a bandeira do Brasil nas Nações Unidas, Set curtindo o Brasil na Copa do Mundo. Rick está homenageando ou zoando? Só a Cleo de CDK pra compensar.

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    1. Tio Rick está devolvendo o que os semideuses br mandam pra ele: Zoera e carinho

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    2. Acontece que a Cleo é medrosa. Tio Rick tá acabando com a gente

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  7. Marina Atlântida.29 de maio de 2016 01:31

    Paulo, parabéns.
    Você é d+, aturando Apolo e dando um lenço com a bandeira do Brasil pra ele, abraçando e tal.
    Melhor semi-deus Brasileiro.
    Representou.
    ASS: Caçadora de Ártemis/Filha de Poseidon.

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  8. Amando o Paulo. Melhor brasileiro. ♡♡♡

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  9. Luiza, filha de Hades31 de maio de 2016 20:53

    Apolo.... sempre tão humilde

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  10. Só não que o que o traidor seja o Paulo, a Meg, ou a Kayak, o Austin e o Will, o Nico eu sei que não é, e se for eu não vou aguentar, meu celular vai aprender a voar, eu não gosto do Harley, mais eu não acho que o Tio Rick colocaria um personagem mal com o nome da filho dele

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  11. "Billie era pequena e magrinha. Ela compensava a estatura diminuta com o estilo de um ídolo KPop." Tio Rick conhece KPOP !!! <3 <3 <3

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    1. nuss eu to tp meu Deus tio Rick notou kpop e eu tava aqui de boas ouvindo suga august D d pirei

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  12. Kpop é vida

    Ler livros enquanto vê anime

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    1. filha de Poseidon e afrodite4 de outubro de 2016 16:53

      KPOP❤

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  13. — Certo — falei. — Bem, a chuva deve fazer com que os myrmekos fiquem nos túneis. Não se mostre um alvo fácil. Elas gostam de coisas brilhantes e cintilantes.
    — Como lanternas?
    — Hã...
    Meg me entregou a lanterna.
    — Vá na frente, Apolo.


    então néh... Morrendo de rir com essa garotaa

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    1. quase que acordo meus pais depois de ler isso, hahahahahahaha

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  14. "Paulo segurou meus ombros e beijou minhas bochechas. Talvez eu tenha ficado vermelho. Ele era bem bonito quando não estava com algum membro amputado jorrando sangue"
    Huuum! Apollo safadenho! Já ta mirando no nosso Paulo! To sabendo hein! kkkkkkkk. Só saiba que sou totalmente a favor

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    1. Só queria que o tio rick tivesse colocado as falas dele!E dai que os gringo não iriam entender?

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  15. Como eu to amando Paulo, o personagem brasileiro ♥

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  16. e isso ai paulo voce e d+

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  17. "Paulo me ofereceu um lenço estampado com a bandeira do Brasil. Disse alguma coisa que, obviamente, não consegui entender."
    Ele deve ter dito "come to Brazil" heuheh

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  18. Alguém noto que Nico fala português, seria legal uma seninha de ciumes de Will...

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    1. O Nico fala italiano, então acho que por serem linguas parecidas ele entende um pouco, certo?

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  19. Paulo éum ótimo representante brasileiro; ele entende inglês mais ngm sabe o que ele diz,ele é bonito e entusiasmado, mais sempre se ferra nas atividades, ele tá sempre com um pedaço faltando huehuehuehuehuehuehue adorei huehue ótimo representante temos nós huehue

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  20. filha de Poseidon e afrodite4 de outubro de 2016 16:53

    ALGUEM DISSE KPOP SUMUNARAM MINHA IRA GENTE KPOP AMOOO AI MEUS DEUSES

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