14 de maio de 2016

Capítulo 14

Só pode ser brinca...
Opa, o que aconteceu?
Fiquei sem pala...

NINGUÉM CONSEGUIA DECIFRAR MEG.
Eu não podia culpá-los.
A garota fazia ainda menos sentido para mim, agora que eu sabia quem era sua mãe. Eu tinha minhas desconfianças, é verdade, mas torcia para estar errado. Estar certo na maioria das vezes, e por tanto tempo, era um peso terrível.
Por que eu temeria uma filha de Deméter?
Boa pergunta.
No dia anterior, eu me esforçara para reunir minhas lembranças da deusa. Houve uma época em que Deméter foi minha tia favorita. A primeira geração de deuses era meio irritadinha (estou falando de vocês, Hera, Hades, pai), mas Deméter sempre foi amorosa e gentil — exceto quando estava destruindo a humanidade por meio da pestilência e da fome, mas todo mundo tinha seus dias ruins, não é mesmo?
E então, cometi o erro de namorar uma de suas filhas. Acho que o nome dela era Crisótemis, mas você vai ter que me desculpar se eu estiver enganado. Mesmo quando eu era deus, tinha dificuldade de lembrar os nomes de todos os meus casos. A jovem cantou uma música de colheita em um dos meus festivais délficos. A voz dela era tão linda que me apaixonei. Ok, eu me apaixono pela vencedora e pelo segundo lugar todos os anos, mas o que posso fazer? Não resisto a uma voz melodiosa.
Deméter não aprovou nosso relacionamento. Desde que a filha Perséfone foi sequestrada por Hades, ela andava meio sensível quanto aos namoros dos primogênitos com deuses.
Resumindo: ela e eu discutimos. Reduzimos algumas montanhas a escombros. Destruímos algumas cidades-estados. Vocês sabem como são as brigas de família. Finalmente, chegamos a um acordo desagradável, mas desde então fiz questão de ficar longe dos filhos de Deméter.
Agora, aqui estava eu, servo de Meg McCaffrey, a filha mais esfarrapada de Deméter a portar uma foice.
Eu me perguntei quem era o pai de Meg, o homem que conseguiu atrair a atenção da deusa. Deméter raramente se apaixonava por mortais, e Meg era poderosa de um jeito incomum. A maioria dos filhos de Deméter conseguia pouco mais do que fazer colheitas crescerem e evitar que fossem atacadas por pragas. Lâminas douradas e convocar karpoi... era coisa de profissional.
Tudo isso passou pela minha mente enquanto Quíron dispersava a multidão, pedindo para todos guardarem as armas. Como a conselheira-chefe Miranda Gardiner estava desaparecida, Quíron pediu a Billie Ng, a única outra campista da casa de Deméter, que acompanhasse Meg até o chalé 4.
As duas garotas se afastaram rápido, com Pêssego quicando com empolgação atrás delas. Meg me lançou um olhar preocupado.
Sem saber o que fazer, fiz sinal de positivo e falei:
— Vejo você amanhã!
Ela não pareceu nem um pouco animada, e logo sumiu na escuridão.
Will Solace cuidou dos ferimentos na cabeça de Sherman Yang. Enquanto isso, Kayla e Austin debatiam com Connor se havia necessidade ou não de um enxerto de cabelo. Eu estava sozinho, afinal, e voltei para o chalé Eu.
Deitado na cama capenga no meio do quarto, fiquei olhando para as vigas do teto. Pensei de novo em como aquele era um lugar deprimente, modesto e totalmente mortal. Como meus filhos aguentavam? E por que não mantinham um altar aceso e não enchiam as paredes de pinturas venerando minhas glórias?
Quando ouvi Will e os outros voltarem, fechei os olhos e fingi estar dormindo. Eu não conseguiria encarar as perguntas nem as gentilezas deles, as tentativas de me fazerem sentir em casa quando eu claramente não pertencia ao local.
Eles ficaram em silêncio assim que entraram.
— Ele está bem? — sussurrou Kayla.
— Você estaria, se fosse ele? — retrucou Austin.
Um momento de silêncio.
— Tentem dormir um pouco, pessoal — aconselhou Will.
— Isso é muito doido — disse Kayla. — Ele parece tão... humano.
— Nós vamos cuidar dele — disse Austin. — Somos tudo que ele tem agora.
Segurei um soluço. A preocupação deles estava acabando comigo. Não poder tranquilizá-los, ou até discordar deles, fez com que eu me sentisse muito pequeno.
Um cobertor foi colocado sobre mim.
— Durma bem, Apolo — disse Will.
Talvez tenha sido a voz persuasiva dele ou o fato de que eu estava mais exausto do que em qualquer outra ocasião há séculos. Na mesma hora, eu resvalei para a inconsciência.

* * *

Graças aos onze olimpianos que restavam, eu não tive sonhos.
Acordei me sentindo estranhamente descansado. Meu peito não doía mais. Meu nariz não parecia mais um balão de água grudado na minha cara. Com a ajuda dos meus filhos (colegas de chalé — vou chamá-los de colegas de chalé), consegui dominar os mistérios do chuveiro, da privada e da pia. A escova de dentes foi um choque. Na última vez que fui mortal, não existiam essas coisas, muito menos desodorantes. Que ideia pavorosa eu precisar de um bálsamo encantado para impedir que meus sovacos produzam fedor!
Quando terminei a higiene matinal e vesti roupas limpas da loja do acampamento (tênis, uma calça jeans, uma camiseta laranja do Acampamento Meio-Sangue e um casaco confortável de flanela), eu estava quase otimista. Talvez conseguisse sobreviver àquela experiência humana.
Eu me animei ainda mais quando descobri o bacon.
Ah, deuses... bacon! Prometi a mim mesmo que, quando alcançasse a imortalidade de novo, eu reuniria as Nove Musas e, juntos, nós criaríamos uma ode, um hino ao poder do bacon, que levaria os céus às lágrimas e provocaria arrebatamento por todo o universo.
Bacon é bom.
Isso! Este pode ser o título da música: “Bacon é bom”.
O café da manhã era menos formal do que o jantar. Ficávamos em uma fila para pegar o que quiséssemos de um bufê e podíamos sentar onde quiséssemos. Achei isso esplêndido. (Ah, que pensamento triste acometendo minha nova mente mortal. Eu, que já ditei o rumo de nações, ficando todo empolgado porque podia sentar em qualquer lugar.) Peguei minha bandeja e fui até Meg, que estava sentada sozinha perto do muro de contenção do pavilhão, balançando os pés e observando as ondas na praia.
— Como você está? — perguntei.
Meg mordiscou um waffle.
— Ah... bem.
— Você é uma semideusa poderosa, filha de Deméter.
— Aham.
Se eu podia confiar na minha compreensão das reações humanas, Meg não parecia muito animada.
— Sua companheira de chalé, Billie... Ela é legal?
— É, sim. Gente boa.
— E Pêssego?
Ela olhou para mim com o canto do olho.
— Desapareceu à noite. Acho que ele só aparece quando estou em perigo.
— Bom, agora é um momento apropriado para ele aparecer.
— A-pro-pri-a-do. — Meg tocou em um quadradinho de waffle a cada sílaba. — Sherman Yang teve que levar sete pontos.
Eu olhei para Sherman, que estava sentado a uma distância segura, do outro lado do pavilhão, lançando olhares afiados como facas na direção de Meg. Um zigue-zague feio descia pela lateral do rosto dele.
— Eu não me preocuparia — falei. — Os filhos de Ares gostam de cicatrizes. Além do mais, o visual Frankenstein cai bem em Sherman.
Os lábios de Meg se repuxaram, mas o olhar permaneceu distante.
— O piso do nosso chalé é feito de grama, tipo, grama verde. Tem um carvalho enorme no meio, sustentando o teto.
— Isso é ruim? — perguntei.
— Eu sou alérgica.
— Ah...
Tentei imaginar a árvore do chalé de Meg. Antigamente, Deméter tinha um bosque sagrado cheio de carvalhos. Eu lembro que ela ficou bem zangada quando um príncipe mortal tentou cortá-los.
Um bosque sagrado...
De repente, o bacon no meu estômago se expandiu e envolveu meus órgãos.
Meg segurou meu braço. A voz dela era um zumbido distante. Só ouvi a última e mais importante palavra:
— ... Apolo?
Eu me mexi.
— O quê?
— Você apagou. — Ela fez uma careta. — Eu falei seu nome seis vezes.
— Falou?
— Falei. O que aconteceu?
Eu não conseguia explicar. Parecia que eu estava no convés de um navio quando uma forma enorme, escura e perigosa passou embaixo do casco, uma forma quase discernível, que sumiu de repente.
— Eu... eu não sei. Alguma coisa a respeito das árvores...
— Árvores — disse Meg.
— Não deve ser nada.
Era alguma coisa. Eu não conseguia afastar do pensamento a imagem dos meus sonhos: a mulher de coroa me mandando encontrar os portões. Aquela mulher não era Deméter; bom, pelo menos eu achava que não era. Entretanto, a imagem de árvores sagradas despertou uma lembrança dentro de mim... uma lembrança muito antiga até para os meus padrões.
Eu não queria falar sobre isso com Meg, não antes de ter tempo para refletir. Ela já tinha muito com o que se preocupar. Além do mais, depois da noite anterior, minha nova jovem senhora me deixou mais apreensivo do que nunca.
Olhei para os anéis nos dedos do meio dela.
— Então, ontem... aquelas espadas. E não faça mais aquilo.
Meg franziu a testa.
— Aquilo o quê?
— Se fechar e se recusar a falar. Sua cara vira cimento.
Ela fez beicinho, irritada.
— Não vira, não. Eu tenho espadas. Eu luto com elas. E daí?
— Seria legal se você tivesse me contado isso antes, quando estávamos lutando com os espíritos das chagas, por exemplo.
— Você mesmo disse que aqueles espíritos não podiam ser mortos.
— Você está mudando de assunto. — Eu soube porque era uma tática que eu dominara séculos antes. — O estilo no qual você luta, com duas espadas curvas, é o estilo de um dimaquero, um gladiador do fim do Império Romano. Mesmo na época, era raro, possivelmente o estilo de luta mais difícil de dominar, e um dos mais mortais.
Meg deu de ombros. Foi um movimento eloquente, é verdade, mas não muito esclarecedor.
— Suas espadas são de ouro imperial — falei. — Isso indica treinamento romano e faz de você uma potencial candidata ao Acampamento Júpiter. Mas sua mãe é Deméter, a deusa na forma grega, não Ceres.
— Como você sabe?
— Fora o fato de eu ter sido um deus? Deméter reivindicou você aqui no Acampamento Meio-Sangue. Aquilo não foi acidente. Além do mais, a forma grega dela é mais antiga e bem mais poderosa. Você, Meg, é poderosa.
A expressão dela ficou tão na defensiva que pensei que Pêssego fosse cair do céu e começar a arrancar tufos do meu cabelo.
— Não conheço minha mãe — admitiu ela. — Não sabia quem ela era.
— Então onde conseguiu as espadas? Com seu pai?
Meg cortou o waffle em pedacinhos.
— Não... Meu padrasto me criou. Foi ele quem me deu esses anéis.
— Seu padrasto. Seu padrasto deu a você anéis que viram espadas de ouro imperial. Que tipo de homem...
— Um bom homem — cortou ela.
Notei a aspereza em sua voz e deixei o assunto de lado. Ao que tudo indica, ela deve ter vivido uma grande tragédia no passado. Além do mais, eu temia que, se continuasse insistindo nas perguntas, aquelas lâminas de ouro fossem parar no meu pescoço.
— Sinto muito — falei.
— Aham.
Meg jogou um pedaço de waffle no ar. Do nada, uma das harpias da limpeza do acampamento, uma espécie de galinha camicase de quase cem quilos, apareceu, pegou a comida e saiu em disparada.
Meg continuou como se nada tivesse acontecido.
— Vamos apenas sobreviver a este dia, ok? Temos a corrida depois do almoço — disse ela.
Um tremor percorreu meu corpo. A última coisa que eu queria era ficar amarrado a Meg McCaffrey no Labirinto, mas consegui não gritar.
— Não se preocupe com a corrida. Tenho um plano para ganharmos.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— É?
— Ou melhor, vou ter um plano até de tarde. Só preciso de um pouco de tempo...
Atrás de nós, a trombeta de concha soou.
— Bom dia, campistas! — gritou Sherman Yang. — Vamos lá, seus flocos de neve especiais! Quero todos vocês à beira das lágrimas até a hora do almoço!

20 comentários:

  1. gosto desse guri <3 Sherman Yang<3

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  2. florzinha do deserto17 de maio de 2016 20:21

    cocerteza esse Shermam aprendeu tudo com a Clarisse

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    1. Saudades da Street (dei esse apelido pra ela pq "La Rue" significa "A Rua" em frances)
      Oq sera q aconteceu com ela???

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    2. Queria ser filho de Ares, mas falaram que não sou agressivo o suficiente!!Sou fã do Sherman!!

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    3. Rue lembra outra garotinha que não é o travecão da clarisse

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  3. Pandora Filha De Atena20 de maio de 2016 15:29

    Pottercerteza sacou? desculpe, mas eu acabei de ler HP e resolvi soltar essa msm não tendo nada a ver
    kkkk

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    1. Ai deuses kkkkkkkk uma filha de Atena, meus deuses

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    2. Caçadora de sombras13 de setembro de 2016 17:12

      Tenha certeza, já pensei em comentar isso tbm kkkk

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  4. Minha irmanzinha kkkkkkk
    ~Filha de Démeter

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  5. sherman maninho gostei de vc mais kd a clarriseeee

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  6. Apolo se importando com alguém além dele mesmo? Ser humano pode ser uma experiência positiva.

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  7. O pai da Meg tbm é gay? A mãe dela é a deidade,não o pai; portanto o "normal" seria ela ter uma madrasta, e não padrasto. Assim, só posso concluir que o pai dela seja gay.

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    1. Nick ( ○ ° 3 ° ○ )9 de junho de 2016 21:31

      Pensando assim faz sentido... Caraca, se for isso mesmo, o tio Rick ta com uma mania de criar personagens gays! Primeiro solangelo é real, depois o pai da Meg é gay!

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    2. eu não tinha entendido o lance do padrasto, mas seu raciocínio é bem lógico.

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  8. que tipo de padrasto da espadas em miniatura para enteada

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  9. Clarisse cadê voce?!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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    1. deve tá se preparando pra entrar pra faculdade também!!!

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  10. Eu me animei ainda mais quando descobri o bacon.

    Ah, deuses... bacon! Prometi a mim mesmo que, quando alcançasse a imortalidade de novo, eu reuniria as Nove Musas e, juntos, nós criaríamos uma ode, um hino ao poder do bacon, que levaria os céus às lágrimas e provocaria arrebatamento por todo o universo.

    Bacon é bom.


    Eu concordo plenamente Sir.Apollo rsrsrsrsrs eu tb amo bacon 😃

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  11. 🌞filha de Apolo🌞9 de outubro de 2016 15:26

    Bacon <3

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